A psicanálise on-line ainda provoca resistência, sobretudo entre aqueles que a associam rigidamente ao setting clássico: o divã, o consultório, a presença física. A crítica mais comum é a de que, ao sair desse enquadre tradicional, a prática perderia sua eficácia ou mesmo “trairia” os fundamentos da psicanálise. No entanto, essa leitura tende a confundir forma com estrutura. A psicanálise nunca se sustentou apenas pelo espaço físico, mas, sobretudo, por uma ética, por uma posição do analista e por uma lógica de escuta que opera a partir da linguagem e da transferência.
Do ponto de vista clínico, o que está em jogo não é a presença corporal em si, mas a possibilidade de instauração da transferência, da associação livre e da escuta do inconsciente. E isso se dá, fundamentalmente, pela via da խոսa. A palavra, mesmo mediada por uma tela, continua sendo o material privilegiado da análise. O inconsciente não depende da proximidade física para se manifestar; ele se estrutura como linguagem e, portanto, pode emergir em qualquer dispositivo que sustente essa lógica.
É claro que o atendimento on-line introduz modificações no setting e exige do analista um manejo específico. A tela, o tempo, as possíveis interferências do ambiente do paciente, tudo isso faz parte da cena e precisa ser incluído na escuta, não eliminado. Em vez de serem vistos como obstáculos, esses elementos podem, inclusive, revelar aspectos importantes da posição subjetiva do analisando: como ele se coloca, de onde fala, o que mostra ou esconde do seu espaço, como lida com a presença/ausência do outro.
A ideia de que a psicanálise on-line “foge às regras” parte, muitas vezes, de uma compreensão normativa e pouco viva da própria psicanálise. Freud nunca trabalhou com uma técnica rígida e imutável; ao contrário, foi inventando o dispositivo a partir da clínica. Lacan, por sua vez, radicaliza essa posição ao afirmar que a psicanálise é uma prática que se orienta pelo real, e não por protocolos fixos. O setting não é um ritual a ser preservado a qualquer custo, mas uma construção que deve servir ao trabalho analítico.
Isso não significa que tudo seja possível ou que não haja critérios. A psicanálise on-line exige rigor, ética e responsabilidade. Nem todo caso se adapta da mesma forma, e o analista precisa avaliar, caso a caso, as condições de trabalho. Mas descartá-la de antemão, em nome de uma suposta pureza técnica, pode ser mais uma forma de resistência do que uma defesa consistente da prática.
Em muitos casos, inclusive, o on-line ampliou o acesso à análise, permitindo que pessoas que antes não teriam condições de sustentar um processo analítico pudessem iniciar ou continuar seu tratamento. A questão, portanto, talvez não seja se a psicanálise on-line é “válida” ou “legítima”, mas se ela consegue sustentar o essencial da experiência analítica: um espaço onde o sujeito possa falar, se escutar e produzir deslocamentos em sua relação com o próprio desejo.
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