Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Meu filho faz terapia. Eu tenho o direito de saber tudo?

A resposta depende da idade do filho, do grau de autonomia dele e do tipo de informação envolvida.

O fato de seu filho fazer terapia não significa que você perde o direito de acompanhar a saúde e o desenvolvimento dele, mas também não significa que você tem direito a saber tudo o que é falado dentro da sessão. A terapia precisa ser um espaço de confiança para que ele consiga falar livremente. Se ele acreditar que tudo será contado aos pais, pode deixar de trazer assuntos importantes.

  • Crianças pequenas: os pais ou responsáveis geralmente precisam participar mais do processo, porque a criança ainda depende deles para compreender e organizar muitas questões da vida. O terapeuta pode compartilhar informações gerais sobre funcionamento, evolução, orientações e pontos necessários para ajudar a criança, preservando conteúdos íntimos que não precisam ser expostos.
  • Pré-adolescentes e adolescentes: conforme a criança cresce, aumenta a necessidade de privacidade. O adolescente começa a construir identidade, autonomia e capacidade de reflexão própria. Nessa fase, o sigilo é fundamental para que ele tenha um espaço seguro para falar sobre sentimentos, conflitos, amizades, sexualidade, inseguranças e outros temas. Os pais continuam tendo um papel importante, mas o terapeuta busca equilibrar o direito dos responsáveis ao acompanhamento com o direito do adolescente à privacidade.
  • Adolescentes mais velhos (próximos da maioridade): a preservação da autonomia tende a ser ainda maior. O jovem já possui maior capacidade de tomar decisões sobre si e precisa ser tratado como alguém em desenvolvimento de independência.

Os pais têm o direito de saber como o tratamento está acontecendo, se o filho está seguro, se há evolução e quais cuidados podem ajudar em casa. Mas não têm necessariamente direito ao conteúdo de cada conversa. O sigilo não é contra a família; ele é uma ferramenta para proteger o vínculo terapêutico.

Também é importante dizer que existem exceções ao sigilo, independentemente da idade: quando há risco de vida, risco de autoagressão, violência, abuso ou alguma situação em que a segurança do paciente esteja ameaçada, o terapeuta precisa envolver responsáveis ou outras redes de proteção.

No início da terapia com crianças e adolescentes, costuma-se combinar previamente com a família o que será compartilhado e de que forma, para evitar que os pais sintam que estão “no escuro” e para que o paciente saiba que sua privacidade será respeitada.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Arriscado

A gente passa boa parte da vida tentando diminuir os riscos. Confere duas vezes a mensagem antes de enviar. Repassa mentalmente uma conversa que nem aconteceu. Imagina todos os cenários possíveis, principalmente os ruins. Faz plano A, B, C... e, se der tempo, inventa até o Z.

É curioso porque quase nunca é o risco que machuca primeiro. O que desgasta é o tempo que gastamos tentando impedir que ele exista.

Tem gente que vive tão ocupada tentando não errar que acaba não vivendo muita coisa. Não porque falta coragem, mas porque a necessidade de ter certeza fica maior do que a vontade de experimentar.

No fundo, viver sempre teve uma cláusula que ninguém conseguiu negociar: não existe garantia. Amar é arriscado. Mudar é arriscado. Ficar também. Dizer o que pensa, pedir ajuda, começar de novo, confiar em alguém... tudo isso envolve algum risco.

Talvez o problema não seja correr riscos. Talvez seja acreditar que existe uma forma de viver sem eles. E, ironicamente, essa costuma ser a aposta mais arriscada de todas.



Por que algumas pessoas pensam tanto antes de sentir?

Existe um tipo de cansaço que não aparece no corpo.

Ele aparece na mente.

É o cansaço de quem passa horas analisando uma conversa, imaginando possibilidades, tentando prever reações, ensaiando respostas, revisando decisões e buscando uma certeza que nunca chega.

À primeira vista, parece apenas alguém que pensa muito.

Mas, muitas vezes, não é exatamente sobre pensar.

É sobre tentar encontrar, na razão, uma proteção contra aquilo que as emoções carregam de imprevisível.

Nem toda pessoa que analisa demais é excessivamente racional.

Em muitos casos, ela apenas aprendeu que sentir era perigoso.

Quando imaginamos alguém "emocional", normalmente pensamos em alguém impulsivo, que age antes de refletir.

Mas existe outro extremo, muito menos visível.

São pessoas que refletem tanto que acabam adiando a própria experiência.

Antes de dizer "eu gosto", elas querem ter certeza.

Antes de confiar, precisam reunir provas.

Antes de se aproximar, calculam todas as possibilidades de dar errado.

Antes de decidir, tentam prever cada consequência.

E, quando finalmente chegam a uma conclusão, já surgiu uma nova dúvida.

Não porque lhes falte inteligência.

Na verdade, frequentemente acontece o contrário.

Pessoas muito observadoras, sensíveis e capazes de perceber nuances costumam construir raciocínios extremamente sofisticados.

O problema é que nem tudo na vida pode ser resolvido por meio da lógica.

Especialmente aquilo que diz respeito aos vínculos.

Existe uma pergunta que aparece de maneiras muito diferentes ao longo da vida:

"E se eu sofrer?"

Algumas pessoas fazem essa pergunta de forma explícita.

Outras nunca a formulam.

Mas organizam suas escolhas tentando impedir que ela precise ser respondida.

Então procuram garantias.

Garantias de que serão amadas.

Garantias de que não serão rejeitadas.

Garantias de que fizeram a escolha certa.

Garantias de que não irão decepcionar ninguém.

Garantias de que não se arrependerão.

O problema é que nenhuma relação importante oferece esse tipo de segurança.

Nenhuma amizade.

Nenhum casamento.

Nenhuma profissão.

Nenhuma decisão.

Viver implica atravessar um território onde a certeza absoluta simplesmente não existe.

Ainda assim, algumas pessoas continuam procurando por ela.

Não porque sejam ingênuas.

Mas porque, em algum momento da história, a imprevisibilidade foi vivida como algo muito ameaçador.

Há pessoas que cresceram em ambientes onde suas emoções encontravam espaço.

Podiam chorar.

Podiam ficar com raiva.

Podiam errar.

Havia alguém disponível para ajudá-las a compreender aquilo que estavam vivendo.

Nem tudo era perfeito.

Mas existia uma experiência importante:

os sentimentos podiam existir sem colocar o vínculo em risco.

Em outras histórias, isso não aconteceu.

As emoções eram minimizadas.

Ridicularizadas.

Ignoradas.

Ou simplesmente não encontravam ninguém disponível para acolhê-las.

A criança aprende muito cedo algo que dificilmente consegue colocar em palavras.

Ela percebe que algumas partes de si parecem não caber naquele ambiente.

Então começa, pouco a pouco, a organizá-las sozinha.

Primeiro tenta controlar o choro.

Depois aprende a esconder a tristeza.

Mais tarde evita demonstrar medo.

Em seguida passa a vigiar até mesmo o entusiasmo.

Sem perceber, deixa de perguntar:

"O que estou sentindo?"

E passa a perguntar:

"O que seria mais seguro sentir?"

É curioso perceber como algumas pessoas transformam a inteligência em uma forma de cuidado consigo mesmas.

Pensam antes de falar.

Pensam antes de agir.

Pensam antes de desejar.

Pensam antes de amar.

Pensam antes de descansar.

Pensam antes de pedir ajuda.

Pensam até sobre o próprio pensamento.

Não porque gostem de viver dessa maneira.

Mas porque descobriram que compreender oferece uma sensação de controle.

Enquanto conseguem explicar tudo, parece que nada poderá surpreendê-las.

Só que existe um limite para aquilo que o pensamento pode fazer.

Ele consegue explicar uma emoção.

Mas não consegue substituí-la.

Pode descrever o medo.

Mas não elimina o medo.

Pode compreender o amor.

Mas não ama por nós.

Pode construir teorias sobre confiança.

Mas não produz confiança.

Há experiências que só acontecem quando aceitamos que não seremos capazes de antecipar todos os desfechos.

Uma das perguntas mais difíceis da vida adulta é surpreendentemente simples:

"O que você quer?"

Parece uma pergunta fácil.

Mas nem sempre é.

Principalmente para quem passou muito tempo organizando a própria vida a partir das expectativas dos outros.

Essas pessoas costumam saber exatamente o que precisam fazer.

Sabem o que esperam delas.

Sabem como evitar conflitos.

Sabem como agradar.

Sabem como serem reconhecidas.

Mas, quando o assunto é o próprio desejo, surge um silêncio.

Porque desejar implica correr um risco.

Quando escolhemos algo por vontade própria, também nos tornamos responsáveis pelas consequências dessa escolha.

Se der certo, ótimo.

Se der errado, não haverá ninguém para culpar.

Talvez seja por isso que tantas pessoas prefiram permanecer analisando possibilidades.

Enquanto tudo permanece no campo das hipóteses, ainda existe uma sensação de proteção.

É quando a escolha acontece que a realidade começa.

Às vezes acreditamos que estamos tentando entender um problema.

Na verdade, estamos tentando não entrar em contato com ele.

É uma diferença sutil.

Imagine alguém que passa semanas tentando descobrir se ama ou não outra pessoa.

Ela faz listas.

Compara relacionamentos.

Analisa conversas.

Relembra acontecimentos.

Procura sinais.

Pesquisa na internet.

Pergunta para amigos.

Busca respostas em livros.

Quanto mais pensa, mais distante parece ficar da resposta.

Talvez porque a pergunta verdadeira nunca tenha sido:

"Será que eu amo?"

Talvez fosse:

"Será que consigo suportar tudo o que esse sentimento pode trazer?"

A dúvida, às vezes, protege.

Enquanto ainda estou tentando descobrir o que sinto, não preciso me comprometer com aquilo que descubro. 

Controlar tudo parece oferecer segurança.

Mas também cobra um preço alto.

Quem tenta prever todas as possibilidades costuma experimentar pouco.

Quem espera a decisão perfeita adia muitas escolhas importantes.

Quem busca garantias absolutas frequentemente perde oportunidades reais.

Não porque seja covarde.

Mas porque aprendeu que errar tinha consequências difíceis demais.

O curioso é que, ao tentar evitar qualquer sofrimento, a pessoa acaba criando outro.

Um sofrimento silencioso.

A sensação de estar sempre assistindo à própria vida em vez de vivê-la.

Como alguém que permanece na margem do rio tentando calcular a temperatura da água.

Enquanto isso, o tempo passa.

Talvez seja importante esclarecer uma coisa.

Pensar não é um problema.

Refletir é uma capacidade preciosa.

A inteligência ajuda a compreender o mundo, tomar decisões e construir relações mais conscientes.

O problema surge quando o pensamento deixa de ser um recurso e passa a ser um esconderijo.

Quando toda emoção precisa ser traduzida em teoria antes de poder existir.

Quando nenhuma experiência parece suficiente sem uma explicação.

Quando compreender passa a substituir viver.

Existe uma diferença entre pensar sobre o que sentimos e usar o pensamento para impedir que o sentimento aconteça.

Nem sempre essa diferença é fácil de perceber.

Mas ela transforma profundamente a maneira como nos relacionamos conosco e com os outros.

Talvez amadurecer emocionalmente tenha menos relação com encontrar respostas definitivas e mais relação com suportar algumas perguntas abertas.

Nem toda escolha virá acompanhada de certeza.

Nem todo amor começará com convicção absoluta.

Nem toda amizade permanecerá para sempre.

Nem toda decisão será perfeita.

Ainda assim, seguimos vivendo.

Porque viver nunca foi eliminar completamente o risco.

Foi aprender que algumas experiências importantes só acontecem quando aceitamos não controlar todos os seus desfechos.

Talvez a pergunta mais transformadora não seja:

"Como posso ter certeza do que sinto?"

Talvez seja outra.

"O que em mim precisa de tanta certeza antes de permitir que eu simplesmente sinta?"

Às vezes, essa pergunta abre um caminho mais honesto.

Não porque responda tudo.

Mas porque desloca o olhar.

Em vez de tentar controlar a experiência, começamos, aos poucos, a escutá-la.

E talvez seja justamente aí que algo novo possa nascer.

Não da ausência de medo.

Mas da possibilidade de continuar vivendo mesmo sem todas as garantias.

Quando você passa a vida tentando não incomodar ninguém, quem cuida de você?

Existe um tipo de sofrimento que quase nunca chama atenção.

Ele não faz grandes escândalos.
Não costuma aparecer em crises dramáticas.
Muitas vezes é visto como maturidade, responsabilidade ou até força.

É o sofrimento de quem aprendeu muito cedo que sentir demais podia ser um problema.

São pessoas que cresceram ouvindo frases como:

"Não exagera."

"Você é muito sensível."

"Isso não é motivo para chorar."

"Tem gente com problemas muito piores."

Ou, às vezes, nem era preciso ouvir essas frases.

Bastava perceber.

Perceber que a mãe já tinha preocupações demais.

Que o pai estava sempre cansado.

Que havia contas para pagar, conflitos em casa, dificuldades que pareciam maiores do que qualquer tristeza infantil.

Então, quase sem perceber, a criança aprende uma regra silenciosa:

"Não vou dar mais trabalho."

E essa decisão muda muita coisa.

Ela continua crescendo.

Vai bem na escola.

Ajuda quando pode.

Aprende a resolver os próprios problemas.

Se torna independente antes da hora.

Os outros costumam descrevê-la como madura.

Mas existe uma diferença enorme entre independência e solidão emocional.

Porque uma criança que aprende cedo a cuidar de si mesma também aprende que talvez ninguém vá cuidar dela.

E isso não desaparece quando a pessoa vira adulta.

Apenas muda de forma.

A pessoa passa a pedir muito pouco.

Ou então pede de maneiras tão indiretas que nem percebe que está pedindo.

Diz que está tudo bem quando não está.

Responde "relaxa" quando gostaria que alguém insistisse.

Aceita migalhas de atenção porque aprendeu que qualquer demonstração de cuidado já é um privilégio.

Ao mesmo tempo, desenvolve uma habilidade impressionante para perceber o outro.

Sabe quando alguém está triste antes mesmo dessa pessoa falar.

Percebe mudanças mínimas de humor.

Lembra do aniversário de todo mundo.

Pergunta se chegaram bem em casa.

Escuta.

Acolhe.

Resolve.

Cuida.

E faz tudo isso com sinceridade.

O problema é que, muitas vezes, ninguém percebe que quem está cuidando também gostaria de ser cuidado.

Existe uma exaustão silenciosa em viver sempre atento ao estado emocional dos outros.

É como se a pessoa estivesse constantemente monitorando o ambiente.

Quem está bravo?

Quem ficou magoado?

Será que falei algo errado?

Será que decepcionei alguém?

Será que vão se afastar?

Esse monitoramento constante não costuma nascer da insegurança simplesmente.

Ele frequentemente nasce da experiência.

Quando crescemos em ambientes onde o afeto era imprevisível, aprendemos que observar é uma forma de sobreviver.

Antecipar conflitos parece proteger.

Controlar as próprias emoções parece evitar rejeições.

Pensar antes de sentir parece mais seguro.

Só que existe um preço.

A pessoa passa tanto tempo tentando entender os outros que, pouco a pouco, perde contato consigo mesma.

Quando alguém pergunta:

"Mas o que você quer?"

A resposta demora.

Às vezes não vem.

Porque a pessoa sabe muito mais sobre o desejo das outras pessoas do que sobre o próprio.

Isso aparece em relacionamentos de maneiras curiosas.

A pessoa se adapta.

Muda hábitos.

Muda opiniões.

Muda planos.

Aprende rapidamente o que o outro gosta.

Mas, depois de algum tempo, surge uma sensação difícil de explicar.

Como se estivesse vivendo uma vida que não reconhece como sua.

Como se dissesse "sim" tantas vezes que esquecesse quais eram seus próprios "nãos".

Muitas pessoas confundem isso com falta de personalidade.

Não é.

Na maioria das vezes, é uma estratégia construída ao longo de muitos anos.

Uma estratégia que funcionou.

Porque, em algum momento da vida, adaptar-se significava manter os vínculos.

Significava evitar conflitos.

Significava preservar algum tipo de amor.

O problema é que aquilo que protege uma criança pode aprisionar um adulto.

Existe outro aspecto importante.

Quem aprendeu a cuidar muito dos outros frequentemente sente culpa quando começa a cuidar de si.

Descansar parece preguiça.

Colocar limites parece egoísmo.

Dizer "não" parece agressividade.

Pedir ajuda parece fraqueza.

Receber cuidado gera desconforto.

Como se existisse uma dívida invisível.

Como se amar fosse sempre algo que precisasse ser merecido.

Então surge um paradoxo.

A pessoa deseja intimidade.

Quer relações profundas.

Quer ser conhecida.

Mas, quando alguém realmente se aproxima, aparece um medo enorme.

Porque ser visto significa correr o risco de decepcionar.

Significa mostrar partes imperfeitas.

Significa descobrir que talvez o outro não permaneça.

Por isso, muitas vezes, controlar parece mais seguro do que confiar.

Entender tudo parece mais seguro do que sentir.

Pensar infinitamente parece mais seguro do que experimentar.

Só que nenhuma relação importante acontece completamente protegida.

Existe sempre alguma vulnerabilidade envolvida.

Alguma possibilidade de perda.

Alguma chance de frustração.

Não porque amar seja sofrer.

Mas porque amar implica deixar de controlar totalmente o que acontece.

Talvez uma das perguntas mais difíceis da vida adulta não seja:

"Quem vai cuidar de mim?"

Talvez seja outra.

"Eu consigo permitir que alguém cuide de mim?"

Porque aceitar cuidado também exige coragem.

Exige acreditar, aos poucos, que não é preciso merecer atenção através do desempenho.

Nem através da perfeição.

Nem através da utilidade.

Nem sendo sempre a pessoa forte da relação.

Existe uma frase do psicanalista Donald Winnicott que diz que é no ambiente suficientemente bom que uma pessoa pode, finalmente, existir de forma espontânea.

Talvez essa seja uma das experiências mais transformadoras que alguém pode viver.

Descobrir que pode ser acolhido mesmo quando não está resolvendo nada.

Mesmo quando não está produzindo.

Mesmo quando não está forte.

Mesmo quando simplesmente existe.

Porque, no fim das contas, talvez o cuidado mais difícil de aprender seja justamente este:

acreditar que você também pode ocupar um lugar onde não precisa conquistar afeto o tempo inteiro para continuar sendo amado.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O que significa viver em uma época que parece nunca permitir que o tempo pare.

Terminei de ler o livro O Tempo e o Cão - Maria Rita Kehl e resolvi escrever algumas poucas palavras, porque essa obra me impactou, ela coloca de maneira estruturada e embasada o que eu acredito em relação a depressão, que não temos fórmulas mágicas e cada depressão é única e que sempre há que se considerar o componente social.

A ideia principal de O tempo e o cão pode ser resumida assim: a depressão não é apenas uma doença do cérebro ou um problema individual; ela também revela algo sobre a forma como a sociedade contemporânea nos faz viver o tempo, trabalhar e desejar.

O tempo acelerado: Kehl observa que vivemos em uma cultura que exige velocidade o tempo todo. É preciso produzir, responder mensagens, aprender coisas novas, manter uma vida social ativa e ainda parecer feliz. 

Nessa lógica, parar parece um defeito.

Ela argumenta que a pessoa deprimida, de certa forma, "sai desse ritmo". Enquanto o mundo corre, ela sente que não consegue acompanhar. O tempo dela parece mais lento.

Não significa que a depressão seja uma forma de resistência consciente. Mas esse descompasso faz aparecer uma pergunta importante: será que o ritmo que a sociedade considera "normal" é realmente saudável?

 A obrigação de ser feliz: Segundo Kehl, hoje não basta viver. Existe uma expectativa constante de demonstrar felicidade, sucesso e realização.

É como se a mensagem fosse: seja produtivo; cuide do corpo; viaje; tenha uma carreira de sucesso; seja interessante; nunca reclame.

Quando alguém não consegue corresponder a esse ideal, pode sentir que fracassou.

A autora critica essa lógica porque ela transforma emoções difíceis, tristeza, luto, cansaço, dúvida, em algo que deve ser eliminado rapidamente.

O deprimido não é simplesmente "preguiçoso". Uma das críticas de Kehl é à forma como a sociedade interpreta quem está deprimido. Muitas vezes ouvimos frases como: "Falta força de vontade." "É só reagir." "Você precisa pensar positivo."

Para ela, isso ignora o sofrimento real da pessoa. O deprimido não escolhe perder o interesse pela vida. Existe uma alteração profunda na relação com o desejo, com o tempo e consigo mesmo.

Para Kehl, quem está deprimido vive um tempo diferente do tempo acelerado da sociedade.

O desejo na psicanálise: na psicanálise, desejo não significa apenas querer alguma coisa.

É a força que nos move para viver, criar, amar e fazer projetos. Na depressão, essa força parece enfraquecida.

Por isso tarefas simples, como levantar da cama, tomar banho, conversar, podem exigir enorme esforço.

Não porque a pessoa seja fraca, mas porque aquilo que normalmente impulsiona a ação perdeu intensidade.

A crítica à sociedade contemporânea: Kehl não afirma que a sociedade "causa" toda depressão.

Ela diz que certas características do mundo atual podem favorecer o sofrimento psíquico: excesso de competição; culto permanente ao desempenho; pressão para produzir sempre mais; consumo como promessa de felicidade; pouco espaço para elaborar perdas e frustrações.

Em vez de perguntar apenas: "O que há de errado com essa pessoa?"

ela propõe também perguntar: "O que há na nossa forma de viver que produz esse tipo de sofrimento?"

A tristeza tem uma função: um aspecto interessante do livro é a defesa de que nem toda tristeza precisa ser tratada como um erro. Perder alguém, fracassar em um projeto ou atravessar mudanças importantes costuma exigir tempo para elaboração.

Kehl distingue essa experiência da depressão clínica. A tristeza pode ser uma resposta saudável a acontecimentos difíceis, enquanto a depressão envolve um sofrimento mais profundo e persistente. Confundir uma com a outra pode levar à medicalização de experiências humanas comuns.

Imagine uma esteira rolante andando cada vez mais rápido. A maioria das pessoas tenta correr para não cair. Uma pessoa deprimida simplesmente não consegue acompanhar.

A sociedade olha para ela e diz: "Corra mais."

Kehl pergunta: "E se o problema também for a velocidade da esteira?"

Essa imagem resume bem a proposta do livro. Em vez de olhar apenas para o indivíduo, ela amplia a análise para incluir as condições sociais, culturais e históricas em que esse sofrimento acontece.

Por isso, busca-se compreender a depressão tanto como experiência subjetiva quanto como um fenômeno que dialoga com o modo como vivemos hoje.

Uma ideia que considero especialmente rica é que Kehl desloca a pergunta. Em vez de perguntar apenas: 

"Por que essa pessoa está deprimida?"

ela também pergunta:

"Que tipo de sociedade transforma a lentidão em doença?"

Esse deslocamento muda bastante a perspectiva. Ela não nega a realidade clínica da depressão nem o papel dos tratamentos. O que ela questiona é a tendência de interpretar todo sofrimento apenas como um problema individual, desconectado do contexto em que a pessoa vive.

Outro ponto que me chama atenção é a forma como ela trata o tempo subjetivo. O tempo do relógio é o mesmo para todos, mas a experiência do tempo não é. Quando estamos apaixonados, uma hora passa voando; quando esperamos uma notícia importante, cinco minutos parecem intermináveis. A depressão altera profundamente essa experiência: o futuro perde força, o presente pesa e o tempo parece não se mover. Kehl sugere que essa vivência entra em choque com uma cultura que valoriza velocidade, inovação e produtividade contínuas.

Também acho interessante a crítica que ela faz ao ideal contemporâneo de autonomia. Hoje, espera-se que cada indivíduo seja o gestor da própria vida: saudável, eficiente, feliz, empreendedor de si mesmo. Quando algo não vai bem, a explicação tende a recair sobre a pessoa, ela não se organizou, não teve disciplina, não desenvolveu a "mentalidade certa". Kehl mostra que essa forma de pensar pode invisibilizar fatores sociais e históricos que também moldam o sofrimento.

Há ainda um aspecto ético na obra que considero muito forte. Na clínica psicanalítica, o objetivo não é devolver rapidamente a pessoa ao ritmo esperado pela sociedade. É escutar o que aquele sofrimento significa para aquele sujeito. Isso contrasta com uma lógica em que o sucesso do tratamento seria apenas fazer alguém voltar a produzir o quanto antes.

O que Freud e Lacan nos ensinam sobre a homossexualidade?

Poucos temas geram tantos equívocos quanto a relação entre psicanálise e homossexualidade. Ainda hoje, muitas pessoas acreditam que Freud considerava a homossexualidade uma doença ou que a psicanálise a classificaria como uma perversão. Na realidade, essa é uma interpretação que não corresponde ao pensamento freudiano nem ao desenvolvimento posterior da teoria psicanalítica.

Freud foi um dos primeiros autores de sua época a romper com a ideia de que a homossexualidade seria uma degeneração ou uma enfermidade. Em uma carta escrita em 1935 a uma mãe preocupada com a orientação sexual do filho, afirmou que a homossexualidade "não é um vício, nem uma degradação, nem pode ser classificada como doença". Para ele, a sexualidade humana é muito mais complexa do que uma simples divisão entre heterossexualidade e homossexualidade. Freud propôs o conceito de bissexualidade psíquica, segundo o qual todos os indivíduos carregam, em sua constituição inconsciente, possibilidades de investimento afetivo e libidinal que não são determinadas exclusivamente pelo sexo biológico.

Outro ponto fundamental do pensamento freudiano é que não existe uma única causa para a homossexualidade. Cada sujeito constrói sua história de maneira singular, a partir de suas identificações, dos vínculos estabelecidos na infância, das relações familiares e do modo como atravessou o complexo de Édipo. Isso significa que não há uma explicação universal nem um caminho único para compreender a orientação sexual de uma pessoa.

Lacan, por sua vez, desloca ainda mais essa discussão. Em vez de perguntar por que alguém é homossexual, ele propõe uma questão diferente: como esse sujeito se posiciona diante do desejo? Essa mudança de perspectiva é uma das maiores contribuições da psicanálise contemporânea. Para Lacan, a escolha do objeto amoroso, um homem, uma mulher ou ambos, não define a estrutura psíquica de ninguém. O que interessa à clínica é compreender como cada sujeito ama, deseja, sofre, estabelece vínculos e lida com a falta, com os limites e com o desejo do outro.

É justamente nesse ponto que surge uma das maiores confusões. Na psicanálise, os termos neurose, psicose e perversão não se referem à orientação sexual, mas à forma como o psiquismo se organiza. Um sujeito homossexual pode apresentar uma estrutura neurótica, psicótica ou perversa, assim como um sujeito heterossexual também pode. A orientação sexual, por si só, não permite qualquer conclusão sobre a estrutura clínica.

Essa compreensão representa uma mudança importante na forma de olhar o ser humano. A psicanálise deixa de perguntar quem a pessoa deseja e passa a investigar como ela deseja. Em vez de reduzir alguém à sua orientação sexual, busca compreender sua história, seus conflitos, seus vínculos e a maneira singular como construiu sua relação consigo mesma e com o mundo.

Talvez essa seja uma das maiores contribuições de Freud e Lacan para o debate contemporâneo: lembrar que o desejo humano não cabe em categorias simples. Antes de qualquer diagnóstico ou rótulo, existe sempre um sujeito com uma história única, cuja singularidade merece ser escutada e compreendida.

O silêncio também escolhe um lado.

Há algum tempo venho aprendendo que a injustiça nem sempre se apresenta de forma escancarada. Às vezes ela chega silenciosa, vestida de omissão. E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil combatê-la.

Existe uma frase que não sai da minha cabeça: quem vê uma injustiça e escolhe não fazer nada já fez uma escolha. A neutralidade, diante do que fere o outro, quase nunca é neutra. O silêncio protege quem causa o dano e abandona quem o sofre. Não agir também é uma forma de agir.

Talvez eu pense tanto nisso porque minha história foi construída acreditando exatamente no contrário: que pequenas ações transformam destinos.

Minha primeira escolha profissional foi a tecnologia. Um universo lógico, estruturado, onde eu acreditava que quase tudo poderia ser resolvido com conhecimento, esforço e organização. Aprendi muito ali. Aprendi disciplina, método, persistência. Mas, em algum momento, percebi que o que mais me movia não eram os sistemas. Eram as pessoas.

Foi então que decidi recomeçar.

Escolhi a Psicologia quando muita gente já acreditava que eu tinha encontrado meu caminho definitivo. Recomeçar nunca é simples. Exige abrir mão da segurança, do reconhecimento já conquistado e da falsa tranquilidade de permanecer onde já sabemos caminhar.

Eu escolhi começar de novo.

E, como tantos recomeços, ele veio acompanhado de dúvidas, medo, noites mal dormidas e da pergunta que quase todo mundo faz em silêncio: "Será que vai dar certo?"

Depois veio a clínica.

Ela não nasceu pronta. Não apareceu por acaso. Não foi fruto de sorte.

Ela foi construída tijolo por tijolo. Atendimento por atendimento. Curso por curso. Estudo por estudo. Horas de trabalho invisível. Finais de semana dedicados. Investimentos que muitas vezes significaram abrir mão de viagens, conforto, descanso e tantas outras coisas que pareciam importantes naquele momento.

Quem vê o resultado dificilmente imagina o caminho.

Não vê as renúncias.

Não vê os dias em que o medo quase venceu.

Não vê as contas feitas inúmeras vezes para saber se seria possível continuar.

Não vê as lágrimas escondidas para conseguir sorrir no atendimento seguinte.

E, quando eu acreditava que finalmente poderia apenas viver aquilo que havia construído, a vida decidiu me ensinar que ela nem sempre respeita os nossos planos.

Meu corpo passou a travar batalhas que eu jamais imaginei enfrentar.

Vieram exames, procedimentos, incertezas, limitações e uma rotina que me obrigou a descobrir uma força que eu sequer sabia que existia.

Passei a conviver diariamente com a possibilidade de perder aquilo que eu ainda estava aprendendo a conquistar.

Ao mesmo tempo, precisei assistir ao desmoronamento de muitas expectativas que eu alimentava havia anos.

Planos precisaram ser refeitos.

Sonhos tiveram que mudar de forma.

Projetos foram adiados.

Alguns simplesmente deixaram de existir.

E existe um luto muito silencioso em perder futuros que ainda nem aconteceram.

Ninguém ensina como atravessar isso.

Mas existe algo que essa caminhada me ensinou de forma definitiva: a dor pode endurecer ou pode ampliar nossa capacidade de enxergar o outro.

Eu escolho a segunda opção.

Talvez seja por isso que a injustiça hoje me incomode tanto.

Porque sei o peso que uma palavra pode aliviar.

Porque sei o estrago que uma omissão pode causar.

Porque conheço, na pele, o que significa enfrentar batalhas que quase ninguém vê.

Porque aprendi que existem pessoas sorrindo enquanto sustentam tempestades inteiras por dentro.

Por isso, quando vejo alguém sendo diminuído, atacado, desacreditado ou tratado com indiferença, não consigo fingir que não é comigo.

É.

Sempre é.

Vivemos em sociedade justamente porque as dores nunca pertencem apenas a quem as sente.

Quando aceitamos o desrespeito contra alguém, abrimos espaço para que ele alcance todos nós.

Quando escolhemos permanecer em silêncio para preservar o nosso conforto, muitas vezes entregamos o outro à própria sorte.

E isso também é uma escolha.

Minha história nunca foi sobre facilidade.

Foi sobre reconstrução.

Sobre coragem.

Sobre recomeços.

Sobre aprender que força não é ausência de medo, mas a decisão de continuar apesar dele.

Foi sobre entender que dignidade não pode depender da conveniência das pessoas ao redor.

Hoje continuo caminhando.

Ainda enfrentando desafios que não escolhi.

Ainda reconstruindo expectativas.

Ainda aprendendo a lidar com limites que a vida me apresentou sem pedir licença.

Mas, se existe algo de que não pretendo abrir mão, é da minha consciência.

Prefiro correr o risco de me posicionar do que carregar o peso da omissão.

Porque tudo o que vivi me ensinou que o mundo não muda apenas pelas grandes atitudes.

Ele muda quando pessoas comuns decidem não normalizar o que é injusto.

No fim, talvez seja isso que realmente defina quem somos.

Não a quantidade de dificuldades que enfrentamos.

Mas aquilo que escolhemos fazer quando testemunhamos a dor do outro.

Porque quem presencia uma injustiça e escolhe não fazer nada não permaneceu neutro.

Apenas escolheu de que lado da história queria estar.

E eu espero continuar escolhendo, todos os dias, o lado da humanidade.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Quem cuida da saúde mental de quem trabalha com tecnologia?

A área de tecnologia é frequentemente associada à inovação, criatividade e resolução de problemas. É um ambiente que exige aprendizado constante, adaptação rápida e alto desempenho. Para quem está de fora, pode parecer uma carreira repleta de oportunidades e desafios estimulantes. Mas quem vive essa realidade sabe que existe um outro lado, muitas vezes invisível.

Prazos apertados, mudanças de escopo, reuniões intermináveis, plantões, sobrecarga, pressão por resultados, necessidade de atualização contínua e a sensação de que nunca é possível "desligar" fazem parte da rotina de muitos profissionais de tecnologia.

Com o tempo, esse ritmo pode gerar consequências importantes para a saúde mental.

Ansiedade, exaustão, dificuldade para descansar, alterações no sono, irritabilidade, sensação de estar sempre atrasado, culpa por não produzir o suficiente e até o burnout têm se tornado cada vez mais frequentes entre pessoas que atuam nesse setor.

Muitos profissionais de tecnologia gostam do que fazem. O problema não está, necessariamente, na profissão, mas na forma como o trabalho passa a ocupar praticamente todos os espaços da vida.

É comum responder mensagens fora do expediente, pensar em soluções técnicas durante a noite, revisar mentalmente tarefas enquanto tenta descansar ou sentir que sempre existe mais uma entrega importante.

Mesmo nos momentos de lazer, a mente continua conectada ao trabalho.

Esse funcionamento constante pode fazer com que o descanso deixe de ser realmente reparador. Aos poucos, o corpo e a mente começam a dar sinais de desgaste. 

Nem sempre o sofrimento emocional se manifesta de maneira intensa ou evidente.

Às vezes ele aparece em pequenas mudanças que vão se acumulando ao longo do tempo:

  • dificuldade para se concentrar;
  • sensação de cansaço mesmo após dormir;
  • perda de motivação;
  • irritabilidade frequente;
  • ansiedade constante;
  • dificuldade para estabelecer limites;
  • medo de não corresponder às expectativas;
  • sensação de nunca ser bom o suficiente;
  • dificuldade para aproveitar momentos de descanso.

Como esses sinais costumam surgir de forma gradual, muitas pessoas acabam acreditando que tudo faz parte da profissão.

Nem sempre faz. 

Minha história com a tecnologia: Antes de me tornar psicóloga, trabalhei por mais de vinte anos como analista de sistemas. Participei de projetos, vivi prazos, mudanças de prioridade, momentos de alta pressão e acompanhei as transformações constantes que caracterizam o universo da tecnologia.

Conheço esse ambiente não apenas pelos relatos que escuto no consultório, mas pela experiência de ter feito parte dele durante muitos anos.

Essa trajetória me permite compreender aspectos que, muitas vezes, são difíceis de explicar para quem nunca viveu essa realidade.

Expressões como sprint, deploy, produção, incidente crítico, backlog, mudanças de escopo ou a pressão por entregas não são conceitos abstratos para mim. Elas fazem parte de uma vivência profissional que marcou uma etapa importante da minha vida.

Hoje, como psicóloga e com formação em psicanálise, levo essa experiência para o consultório como um recurso que amplia minha compreensão sobre o sofrimento emocional vivido por profissionais da área de tecnologia. 

Gosto de dizer sempre que a  psicoterapia não serve apenas para momentos de crise

Existe a ideia de que procurar um psicólogo significa que algo está "muito errado".

Na prática, muitas pessoas iniciam a psicoterapia justamente para evitar que o sofrimento se intensifique.

A terapia oferece um espaço de escuta onde é possível compreender melhor o que está acontecendo, reconhecer padrões de funcionamento, elaborar conflitos e construir formas mais saudáveis de lidar com as exigências do cotidiano.

Não se trata apenas de reduzir sintomas, mas de desenvolver uma relação diferente consigo mesmo, com o trabalho e com a própria vida. 

Gosto de lembrar os profissionais de TI que cuidar da saúde mental também faz parte da carreira

Na tecnologia, investe-se constantemente em conhecimento técnico.

Cursos, certificações, novas linguagens, ferramentas e metodologias fazem parte da rotina.

Mas existe um investimento igualmente importante: cuidar da própria saúde mental.

Nenhuma carreira se sustenta por muito tempo quando a pessoa vive em estado permanente de exaustão.

Buscar ajuda não é um sinal de fraqueza. É uma forma de reconhecer que, por trás de cada profissional, existe uma pessoa que também precisa de espaço para ser ouvida, compreender suas dificuldades e cuidar de si. 

Um espaço de escuta para profissionais de tecnologia: Meu trabalho é voltado especialmente para profissionais da área de tecnologia que desejam compreender melhor seu sofrimento emocional, enfrentar situações de ansiedade, burnout, sobrecarga, dificuldades nos relacionamentos, conflitos profissionais ou qualquer questão que esteja impactando sua qualidade de vida.

Uno minha experiência de mais de duas décadas na área de TI à minha atuação como psicóloga e psicanalista, oferecendo um atendimento que considera tanto a singularidade de cada pessoa quanto as particularidades do universo da tecnologia.

Os atendimentos podem ser realizados online para todo o Brasil e presencialmente em São Paulo.

Se você sente que o trabalho tem consumido mais do que deveria, talvez este seja um bom momento para reservar um espaço para cuidar de quem está por trás da tela.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Continuar quando tudo parece difícil: por que isso também é coragem?

Há dias em que a memória aflora. Ela chega sem pedir licença, trazendo rostos, vozes, lugares, cheiros e tempos que já não existem mais. É como se, por alguns instantes, o passado voltasse a habitar o presente. A vida, com o tempo, vai nos ensinando que crescer também é perder. Perdemos pessoas que amávamos, relações que imaginávamos durar para sempre, projetos que não se concretizaram, lugares que deixaram de ser nossos. Perdemos versões de quem éramos, certezas que nos sustentavam e até partes de nós que acreditávamos inseparáveis. Nem toda perda é anunciada. Algumas acontecem de forma silenciosa. Um dia percebemos que já não somos os mesmos. Que a casa mudou. Que a família mudou. Que os amigos seguiram caminhos diferentes. Que o corpo envelheceu. Que a ingenuidade ficou para trás. E, de alguma forma, sentimos falta de quem fomos. Vivemos em uma época que nos convida a seguir em frente rapidamente. Como se elaborar uma perda fosse sinal de fraqueza. Como se sentir saudade fosse permanecer preso ao passado. Como se fosse possível simplesmente substituir aquilo que um dia teve importância. Mas não é assim que a alma funciona.

Há perdas que nunca serão preenchidas. Há ausências que aprendemos a carregar, não porque deixam de doer, mas porque a vida continua nos convocando a caminhar mesmo com elas. Cada perda mobiliza algo singular. Não sofremos apenas pelo que se foi, mas também por tudo aquilo que aquele vínculo representava: os sonhos compartilhados, as expectativas, os lugares ocupados em nossa história, os sentidos que dávamos à existência. Por isso, duas pessoas podem viver uma mesma situação e experimentá-la de formas completamente diferentes. O sofrimento sempre fala de uma história única. Talvez o desafio não seja esquecer, mas encontrar uma nova forma de viver sem o que se perdeu. O que não significa abandonar a memória. Significa permitir que ela encontre um novo lugar, onde a lembrança possa existir sem impedir que a vida continue acontecendo. 

Confesso que escrevo este texto a partir das minhas próprias travessias. Como tantas pessoas, perdi muito ao longo do caminho. Pessoas que amava profundamente. Sonhos que pareciam certos. Planos que não aconteceram. Fases da vida que jamais voltarão. Houve momentos em que pensei que algumas dores nunca diminuiriam. E elas realmente não desapareceram por completo. Mas descobri que a dor não precisa ser a protagonista. Ainda consigo me emocionar com coisas simples. Ainda encontro beleza em uma conversa sincera, em um abraço demorado, em uma música. Ainda acredito na capacidade de construir novos vínculos, aprender novos caminhos e reencontrar sentido, mesmo depois de tantas rupturas. A esperança, para mim, deixou de ser a expectativa de que nada mais dará errado. Hoje ela se parece muito mais com uma decisão de continuar acreditando na vida, apesar de tudo. Continuar não significa fingir ou apagar o passado. Continuar é olhar para aquilo que nos atravessou e, ainda assim, permitir que novos capítulos sejam escritos. Há uma delicadeza em quem permanece sensível depois de tantas perdas. Porque seria mais fácil endurecer. Não acreditar em mais ninguém. Não criar expectativas. Não se permitir amar novamente. Mas existe uma coragem em escolher permanecer disponível para a vida. Talvez seja isso que eu esteja tentando aprender todos os dias. Seguir adiante sem apagar quem ficou. Honrar o que vivi sem morar apenas nas lembranças. Aceitar que algumas perguntas nunca terão resposta. E continuar acreditando que, mesmo depois de tantas perdas, a vida encontra alguma forma de florescer.

Se você também perdeu muito pelo caminho, sabe exatamente do que estou falando. Espero que, mesmo entre as saudades, você consiga perceber que ainda existe beleza ao redor. Talvez ela não esteja onde você imaginava. Talvez tenha mudado de forma. Mas ela continua existindo. E, acreditar nisso, já basta.

Continuar é uma forma de coragem!

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O que estou aprendendo com cada paciente

Há algo curioso na clínica que raramente aparece nos livros. Costuma-se dizer que o paciente procura um profissional em busca de respostas, de alívio ou de transformação. Isso é verdade. Mas existe uma dimensão menos visível desse encontro: toda análise também produz efeitos naquela que escuta.

Não porque as histórias se confundam, nem porque os lugares se invertam. A ética da clínica exige justamente que cada um permaneça em sua posição. Ainda assim, há um saber que nasce no encontro e que nenhum manual é capaz de antecipar.

Com o tempo, fui percebendo que cada paciente me apresenta uma nova maneira de existir no mundo. Não apenas uma nova história, mas uma nova lógica. Uma nova forma de desejar, de sofrer, de amar, de evitar, de repetir, de esquecer e, sobretudo, de tentar responder à pergunta que talvez atravesse todos nós: como viver com aquilo que nos falta?

É curioso como, na vida cotidiana, acreditamos conhecer as pessoas rapidamente. Bastam algumas conversas, algumas escolhas, algumas opiniões. Na clínica acontece exatamente o contrário. Quanto mais alguém fala, menos parece caber em definições.

Aquilo que inicialmente parecia ser ansiedade revela uma antiga forma de sobreviver.

O perfeccionismo se apresenta como medo de desaparecer.

A procrastinação deixa de ser preguiça e passa a funcionar como uma resistência diante do desejo.

A raiva protege uma tristeza que nunca encontrou palavras.

E, pouco a pouco, aprendemos que aquilo que chamamos de sintoma é apenas a linguagem possível de algo que nunca pôde ser dito.

Essa é a  primeira lição que recebo diariamente: ninguém sofre exatamente pelo motivo que acredita sofrer.

Existe sempre uma outra cena acontecendo.

Uma cena que escapa.

Uma história que insiste.

Um sentido que não se entrega facilmente.

A psicanálise nos convida a desconfiar das evidências. O que parece simples costuma esconder uma enorme complexidade. O sujeito raramente sabe tudo aquilo que diz. E, mais surpreendente ainda, frequentemente diz muito mais do que imagina.

As palavras têm esse estranho costume de revelar aquilo que tentamos esconder.

Às vezes é um silêncio.

Às vezes é um riso fora de hora.

Às vezes é um lapso.

Um sonho aparentemente sem importância.

Uma frase interrompida.

Uma lembrança contada dezenas de vezes exatamente da mesma maneira.

Nada disso parece casual. E acompanhar esses pequenos deslocamentos me faz lembrar que o inconsciente é uma presença constante, discreta e persistente. Ele fala. Mesmo quando acreditamos estar em silêncio.

Outra coisa que aprendo é que o sofrimento humano dificilmente nasce apenas do presente. A dor de hoje quase sempre conversa com outras dores. Nem sempre é um trauma evidente ou uma grande tragédia. Às vezes, o que marca um sujeito são justamente os acontecimentos pequenos, repetidos, imperceptíveis. Um olhar que nunca veio. Uma palavra que faltou. Um reconhecimento esperado durante anos. Um afeto interrompido cedo demais.

O que nos constitui nem sempre é aquilo que aconteceu. Muitas vezes é justamente aquilo que nunca aconteceu. Existe uma ausência que organiza vidas inteiras. E talvez essa seja uma das descobertas mais delicadas da clínica: as pessoas também são feitas de vazios. Vivemos tentando preenchê-los.

Com trabalho.

Com relacionamentos.

Com comida.

Com desempenho.

Com controle.

Com consumo.

Com produtividade.

Com reconhecimento.

Mas alguns vazios não foram feitos para serem preenchidos. Foram feitos para serem escutados. Uma ideia difícil de aceitar em uma época que promete soluções para tudo.

A clínica, ao contrário, ensina outra coisa.

Nem todo sofrimento precisa desaparecer imediatamente.

Alguns precisam primeiro encontrar linguagem.

Porque aquilo que não encontra palavras costuma encontrar o corpo.

Encontra a repetição.

Encontra a angústia.

Encontra o sintoma.

E é impossível não aprender sobre o tempo quando se acompanha esse processo.

Vivemos cercados pela expectativa de mudança rápida. Queremos resultados, metas, evolução constante. Existe quase uma obrigação social de estar sempre melhor do que ontem. Mas o inconsciente não obedece ao relógio. Ele trabalha em outro ritmo.

Há pacientes que permanecem meses falando sobre o mesmo assunto até que, em uma única frase aparentemente banal, algo finalmente se desloca. Não porque tenham descoberto uma resposta definitiva. Mas porque passaram a ocupar outro lugar diante da própria história.

É curioso perceber que grandes transformações raramente chegam fazendo barulho. Elas costumam acontecer em detalhes.

Uma palavra escolhida de maneira diferente.

Uma culpa que deixa de organizar todas as decisões.

Um silêncio que já não precisa ser preenchido.

Uma lembrança que finalmente pode existir sem produzir o mesmo sofrimento.

Quem observa de fora talvez não perceba nada. Mas quem acompanha o processo sabe que, naquele instante, uma estrutura inteira começou a se reorganizar.

Também aprendo diariamente sobre repetição. Talvez uma das características mais intrigantes do ser humano seja insistir justamente naquilo que produz sofrimento.

Escolhemos parceiros semelhantes.

Revivemos conflitos parecidos.

Criamos cenários conhecidos.

Repetimos modos de amar, de fugir, de trabalhar, de adoecer.

Como se existisse algo em nós tentando retornar sempre ao mesmo ponto. À primeira vista isso parece ilógico. Mas a clínica mostra que a repetição raramente é falta de inteligência. Ela costuma ser uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de finalmente resolver aquilo que permaneceu aberto. Como se a vida perguntasse várias vezes a mesma coisa, esperando uma resposta diferente.

E cada paciente me faz lembrar que ninguém escolhe conscientemente carregar seus impasses. Eles simplesmente acontecem. Até que possam ser simbolizados.

Outra lição importante é que escutar nunca significa apenas ouvir palavras. Existe algo que acontece entre uma frase e outra.

Nos intervalos.

Nas pausas.

Nos esquecimentos.

Naquilo que parece não ter importância.

A clínica me ensinou que o sentido raramente aparece de forma direta.

Ele contorna. Desvia. Insiste. Retorna.

E talvez seja justamente por isso que uma boa interpretação nunca impõe um significado. Ela apenas abre espaço para que outro sentido possa surgir. 

Nenhuma pessoa chega ao consultório apenas com uma demanda. Ela chega acompanhada por muitas vozes.

A família.

As expectativas.

As heranças emocionais.

Os mandatos silenciosos.

Os desejos dos outros.

As identificações construídas desde muito cedo.

Muitas vezes alguém passa anos tentando corresponder a uma pergunta que nunca foi sua. E um dos momentos mais bonitos da clínica acontece quando, pela primeira vez, surge outra pergunta.

Não mais: "O que esperam de mim?" mas: "O que, afinal, eu desejo?"

É uma pergunta simples. E profundamente inquietante. Porque desejar implica perder algumas certezas. Implica abandonar personagens. Implica aceitar que não existe uma vida completamente garantida. Talvez por isso tantas pessoas permaneçam presas ao conhecido. Mesmo quando o conhecido machuca.

A liberdade também produz angústia.

E essa talvez seja outra grande lição que os pacientes me oferecem.

Nem sempre buscamos felicidade.

Frequentemente buscamos familiaridade.

Mesmo que ela venha acompanhada de sofrimento.

A clínica também me ensinou que cuidar não é ocupar o lugar daquele que sabe tudo. Quanto mais estudo, mais compreendo que existe um ponto impossível de ser totalmente conhecido. Existe sempre um resto. Algo que escapa. Algo que resiste às explicações.

Talvez seja esse mistério que mantém o desejo de continuar escutando.

Porque cada paciente confirma algo que considero cada vez mais verdadeiro: o ser humano nunca cabe completamente naquilo que diz sobre si mesmo. Existe sempre uma parte que permanece estrangeira. Talvez seja essa parte que continua sonhando. Que continua repetindo. Que continua desejando. Que continua buscando.

E é justamente essa dimensão enigmática que torna cada encontro clínico único.

Ao final de cada atendimento, percebo que não saio carregando respostas. Saio carregando perguntas melhores. Perguntas que continuam trabalhando em silêncio muito depois do fim da sessão. 

Talvez seja esse o maior aprendizado: compreender que a clínica não é um lugar onde os mistérios da existência são resolvidos. É um lugar onde eles podem, finalmente, ser habitados sem tanta pressa de desaparecer. Porque, no fundo, aquilo que nos transforma nem sempre é encontrar uma resposta. Às vezes, é aprender a sustentar uma pergunta. E descobrir que, ao fazê-lo, já não somos exatamente os mesmos que éramos quando ela surgiu.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Por que o psicólogo não pode escutar apenas a partir da teoria?

Quando o que eu sei precisa ficar em silêncio!

Existe uma distância grande e, às vezes desconfortável, entre aquilo que eu estudo e aquilo que acontece dentro de uma sessão clínica.

Eu estudo com frequência e de forma contínua. Retorno a autores, revisito conceitos, me debruço sobre casos clínicos, psicopatologia, psicanálise, além de áreas como arte e ciência. Também mantenho um contato constante com Freud e Lacan, não como referências fixas ou monumentais, mas como ferramentas de pensamento que seguem em movimento, úteis na medida em que ajudam a pensar o que aparece na clínica. Esse estudo faz parte do meu trabalho. Não é um adorno intelectual nem um acúmulo de erudição. É uma forma de preparação, um modo de sustentar a escuta e de me manter disponível para o encontro clínico.

Mas existe um ponto de virada que nenhum livro prepara completamente: o momento em que o paciente entra na sala. Nesse instante, algo precisa mudar de lugar.

Não é que o que eu sei desaparece. Ele continua ali, como uma espécie de base interna, uma rede de referências que sustenta minha escuta. Mas ele deixa de ocupar o primeiro plano. Se isso não acontece, o risco é grande: o risco de eu começar a ver o paciente antes de ouvi-lo, de encaixar sua fala em categorias antes de deixá-la se desenvolver, de interpretar antes de sustentar o silêncio necessário para que algo realmente apareça.

Na clínica, o saber não pode ser um filtro rígido. Porque cada paciente que chega não é a repetição de um caso anterior. Não é um exemplo de teoria. Não é um recorte de um livro. É uma configuração única de história, linguagem, sofrimento, defesa e desejo. E isso não se revela de imediato.

Às vezes, o que chega é confuso, contraditório, aparentemente banal. Outras vezes, chega muito organizado, muito coerente, quase convincente demais. E nenhuma dessas formas pode ser tomada como definitiva no início.

É preciso tempo. E presença.

Há uma diferença fundamental entre reconhecer padrões e reduzir uma pessoa a eles. A formação clínica nos ensina a identificar estruturas, defesas, repetição de certos modos de funcionamento. Isso é essencial. Mas o trabalho clínico exige outra operação, mais difícil: suspender a pressa de concluir.

Suspender não é negar o que se sabe. É não deixar que isso feche o campo antes da hora.

Na prática, isso significa suportar não saber imediatamente o que algo “é”. Significa tolerar a ambiguidade. Significa deixar que o paciente construa, aos poucos, o próprio modo de dizer o que vive e não encaixar isso rapidamente em uma explicação já pronta.

É aqui que a teoria encontra seu limite e, ao mesmo tempo, sua função mais importante.

Freud e Lacan, por exemplo, não entram na sessão como respostas. Eles entram como modos de escutar melhor o que ainda não está formulado. Não como tradução automática, mas como abertura de pensamento. O mesmo vale para qualquer leitura recente ou antiga: ela não substitui o encontro, mas pode evitar que eu o reduza.

O ponto central é este: na clínica, o conhecimento não pode ser mais importante do que o paciente. Isso parece óbvio quando escrito assim. Mas, na prática, é uma tensão constante.

Porque o saber dá segurança. Ele organiza. Ele reduz a angústia de não entender. E o encontro clínico, muitas vezes, produz exatamente o contrário: desorganização, dúvida, deslocamento. O paciente não chega para confirmar o que eu sei. Ele chega para desestabilizar o que eu suponho saber.

E isso exige um tipo específico de posição clínica: uma posição em que eu sustento o que não se sabe ainda, sem apressar a resposta.

É também por isso que cada sessão é diferente. Mesmo com pacientes que acompanho há meses, não existe repetição no sentido estrito. Existe continuidade, sim, mas atravessada por variações constantes de posição subjetiva. Um mesmo tema reaparece, mas nunca exatamente igual. Uma mesma defesa retorna, mas em outro arranjo. Um mesmo conflito se reorganiza em novas formas de dizer.

A clínica é menos sobre reconhecer o já conhecido e mais sobre suportar o que ainda não se organizou.

E isso muda também a relação com a leitura. Ler muito não me torna alguém que “sabe mais” no sentido de ter respostas prontas. Pelo contrário, deveria me tornar alguém mais capaz de não se precipitar em respostas. A leitura ampla deveria aumentar a tolerância ao não-saber em ato, não diminuí-la. Se a teoria começa a fechar demais a escuta, ela perde sua função clínica.

Por isso, há algo quase paradoxal no trabalho clínico: quanto mais preparado alguém está, mais precisa ser capaz de suspender essa preparação no momento do encontro.

Não no sentido de esquecê-la, mas no sentido de não deixá-la ocupar o lugar da escuta. Porque o que acontece na sessão não é uma aplicação de teoria. É um encontro. E encontros não obedecem completamente a sistemas. Eles exigem presença, atenção, e uma certa disposição para ser surpreendido.

Talvez seja isso o mais difícil de sustentar: a disciplina de não antecipar demais. De não fechar cedo demais. De deixar que o paciente diga, no seu tempo e no seu modo, aquilo que ainda não tem forma clara.

No fim, a clínica não é o lugar onde o que eu sei se confirma. É o lugar onde o que eu sei não pode atrapalhar.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Travessia: sobre continuar sem garantias!

Estava pensando que há um vazio que não vem da falta de esforço, pelo contrário, vem do excesso dele. Você faz tudo o que deveria ser feito: estuda, se organiza, tenta de novo, ajusta o caminho, revisa escolhas, engole o medo e continua. Ainda assim, zero resultado. A frustração se instala, um silêncio estranho, como se o mundo não respondesse na mesma língua que você está falando. "Se estou fazendo tudo certo, por que nada acontece?” 

Existe uma crueldade nesse processo. Aos poucos, você começa a transformar dedicação em cobrança, esforço em dívida, e espera em punição. O que era projeto vira prova. O que era sonho vira tarefa. E o corpo sente. O sono fica pesado, a mente acelerada, e a sensação de estar “quase lá” perde sua forma. Você não desiste, mas também não chega. E nesse meio-termo, se cansa: perde energia, perde a fé no próprio movimento.

Um fracasso silencioso, que não tem nome, nem evento, nem explicação. Você olha para trás e até vê uma sequência de tentativas consistentes, responsáveis, honestas. E mesmo assim, nada muda. É uma espécie de desencaixe: por fora, você continua sendo alguém que “faz tudo certo”; por dentro, surge a sensação de estar falhando.  

A mente tenta encontrar explicações, é incansável. Talvez não seja o momento certo. Talvez falte algo mesmo. Talvez você não tenha feito o suficiente ... e o ciclo recomeça, ainda mais exigente. Nesse ponto, o “fazer mais” deixa de ser solução e vira uma forma de se machucar.  

Ainda assim, existe algo importante aí: o fato de que você continuou. Continuou mesmo sem garantia. Continuou mesmo quando seria mais fácil desistir. O que não elimina a dor, mas muda a natureza dela. Nem todo silêncio é ausência, às vezes é apenas um tempo que ainda não respondeu.

É um intervalo difícil de nomear, onde o esforço não encontra resultado.  

É um lugar de travessia.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Entre a receita e a escuta: o que ainda separa psiquiatria e psicologia

A parceria entre psiquiatria e psicologia costuma ser citada como ideal no cuidado em saúde mental, mas na prática ela ainda acontece de forma irregular e, muitas vezes, atravessada por ruídos. Entre o que seria um trabalho realmente integrado e o que de fato se observa nos serviços e nos consultórios, existe um intervalo importante: um “gap” que não é só técnico, mas também relacional e institucional.

Em tese, psiquiatras e psicólogos trabalham sobre o mesmo sujeito, mas a partir de vértices diferentes. A psiquiatria tende a se organizar em torno de diagnóstico, risco, sintomas e farmacologia; a psicologia clínica, especialmente em abordagens mais profundas, se debruça sobre a história, o sentido do sofrimento, os padrões relacionais e as repetições psíquicas. Quando essas duas leituras não se comunicam, o paciente pode acabar recebendo intervenções paralelas que não se articulam ou até se contradizem.

Um dos pontos que frequentemente dificulta essa parceria é a distância imposta por alguns profissionais médicos. Em parte, isso pode estar ligado a fatores institucionais: a rotina de atendimento psiquiátrico muitas vezes é acelerada, com pouco espaço para trocas mais longas com outros profissionais. Em parte, há também um componente de proteção profissional, a insegurança de se expor a um campo clínico que não é o seu, especialmente quando a condução do caso pode ser questionada fora do domínio biomédico.

Do outro lado, também existe um problema real: nem todos os psicólogos têm formação consistente para sustentar um diálogo clínico qualificado com a psiquiatria. Isso pode gerar comunicações frágeis, interpretações pouco precisas sobre medicação, ou mesmo uma tendência a deslegitimar o tratamento medicamentoso sem uma base técnica adequada. Esse cenário contribui para que alguns psiquiatras se fechem ainda mais à interlocução.

O resultado disso tudo é um modelo de cuidado fragmentado. O paciente, que deveria ser o centro da rede, acaba circulando entre profissionais que nem sempre compartilham uma compreensão comum do caso. Às vezes, ele se torna o único ponto de continuidade entre discursos diferentes e isso aumenta a sensação de confusão, ambivalência e até de solidão no tratamento.

Quando a parceria funciona, no entanto, o efeito clínico pode ser muito potente. A medicação pode reduzir a intensidade de sintomas que inviabilizam o trabalho psíquico, como ansiedade grave, insônia ou desorganização afetiva, enquanto a psicoterapia ajuda a sustentar o que muda com a medicação, dando sentido, história e elaboração ao sofrimento. Não se trata de uma hierarquia entre os saberes, mas de uma complementaridade real.

Talvez o ponto central não seja apenas “aproximar” psiquiatria e psicologia, mas construir uma ética de colaboração que suporte diferenças sem transformar essas diferenças em competição. Isso exige formação, sim, mas também exige tempo, abertura e uma disposição de sustentar zonas de incerteza clínica sem recorrer imediatamente ao fechamento diagnóstico ou interpretativo.

No fim, o que está em jogo não é a integração como um ideal abstrato, mas a possibilidade de o paciente não precisar carregar sozinho a tarefa de fazer esses dois mundos conversarem.

domingo, 14 de junho de 2026

O que se passa entre a fala e a escuta

Os pacientes chegam trazendo aquilo que, muitas vezes, não conseguiu encontrar lugar em outro espaço. Chegam com histórias que já foram contadas de muitas formas, com tentativas de explicação, com versões que mudaram ao longo do tempo, e também com aquilo que nunca chegou a ser dito. O que aparece na clínica não é apenas o que aconteceu, mas a forma como cada um conseguiu, ou não conseguiu, se relacionar com o que aconteceu.

Eles trazem sofrimento, mas não apenas sofrimento. Trazem também formas de se proteger dele, de contorná-lo, de torná-lo suportável. Trazem repetições que parecem sem sentido à primeira vista, mas que carregam uma lógica própria, mesmo que ainda não conhecida por quem fala. Trazem perguntas que às vezes não são formuladas como perguntas, mas como impasses de vida: por que sempre isso? por que de novo? por que comigo?

Ao mesmo tempo, os pacientes levam algo da clínica. Não necessariamente respostas prontas, nem soluções fechadas, mas deslocamentos. Levam consigo uma outra possibilidade de escuta de si mesmos, uma pausa entre o impulso e a ação, uma fissura na certeza do próprio modo de funcionar. Muitas vezes levam também uma nova forma de se relacionar com a própria história, menos como destino, mais como algo que pode ser lido de outras maneiras.

Mas talvez o mais importante não seja o que eles “levam” em termos de conteúdo. É o que se transforma na posição subjetiva: uma pequena mudança na forma de se colocar diante do próprio desejo, do outro, do sofrimento. Algo que não se impõe de fora, mas que se insinua aos poucos, nas brechas da fala.

E, nesse processo, o analista também não permanece o mesmo.

A cada encontro, algo do que o paciente traz toca, desloca, interroga. Não no sentido de uma identificação direta, mas no sentido de um trabalho silencioso que acontece na escuta. O analista aprende a sustentar o não saber, a não se apressar em concluir, a reconhecer a complexidade do que se repete. Aprende também a lidar com o próprio limite, aquilo que não se interpreta completamente, aquilo que escapa.

Talvez seja isso que a clínica ensina de forma mais insistente: que não há posição neutra de quem escuta. Há sempre um efeito de transformação, mesmo quando nada parece acontecer de imediato.

Os pacientes ensinam, sobretudo, que a fala nunca é só comunicação. Ela é também elaboração, tentativa, repetição, corte, criação. E que escutar alguém é aceitar entrar nesse território instável onde a vida ainda está se escrevendo enquanto é dita.

O modo de vida do analista em início de clínica

Tenho pensado bastante sobre o que muda na vida de alguém quando começa a atender como analista.

Não é só uma mudança de trabalho. É uma mudança na forma de estar no mundo.

Ao aprender a escutar melhor o outro, a gente também muda a forma como escuta fora do consultório. Na terapia, aprendemos a não interromper, a não responder rápido demais, a dar espaço para o que a pessoa está dizendo, inclusive o que não está sendo dito claramente.

Com o tempo, isso pode começar a aparecer na vida comum.

Percebo em mim uma tendência a ficar mais quieta, mais observadora, e até menos espontânea em algumas conversas. Não porque eu queira me afastar das pessoas, mas porque minha atenção foi sendo reorganizada.

A forma de escutar dentro da clínica tem uma função muito específica. Mas quando isso começa a se espalhar para fora, pode surgir uma dúvida: isso me aproxima das pessoas ou me afasta?

Às vezes, esse movimento pode ser bom, mais calma, mais reflexão, menos impulsividade. Mas também pode trazer o risco de a gente ficar mais distante, mais “de fora” das relações, como se estivesse sempre apenas ouvindo, e menos participando.

O ponto importante não é julgar isso como certo ou errado. É perceber o efeito que isso está tendo na vida.

Porque uma coisa é aprender a escutar melhor. Outra coisa é acabar vivendo quase só nesse lugar de escuta, e perder um pouco da troca, da espontaneidade e da vida compartilhada.

No começo da prática clínica, isso pode ficar mais forte, porque tudo ainda está muito novo. A gente está se ajustando a esse novo modo de trabalhar e de pensar.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “isso está certo?”, mas sim: “o que isso está fazendo com a minha forma de viver e de me relacionar?”

Porque, no fim, o trabalho na clínica não é só sobre entender o outro. É também sobre como isso nos transforma e como a gente vai encontrando um jeito de continuar vivendo bem com essas mudanças.

Psicanálise: ensinar ou transmitir?

Tenho pensado com frequência no desejo de ensinar Psicanálise.

Não como um plano de carreira, nem como uma ambição acadêmica. Como desejo mesmo. E, justamente por isso, algo que merece ser interrogado.

A Psicanálise nos ensina que o desejo não se confunde com a vontade. A vontade pode ser explicada, organizada e justificada. O desejo, não. O desejo insiste. Retorna. Faz-se presente mesmo quando não é convocado.

Talvez seja por isso que a ideia de dar aulas continue reaparecendo para mim.

Não porque eu tenha respostas. Talvez justamente pelo contrário.

O que sempre me fascinou na Psicanálise foi sua capacidade de sustentar perguntas. Freud inaugura um campo em que a verdade deixa de ser algo totalmente acessível à consciência. Lacan radicaliza esse movimento ao mostrar que somos habitados por uma falta estrutural, por algo que escapa ao saber sobre nós mesmos.

Ensinar Psicanálise, para mim, não parece estar relacionado à transmissão de certezas. Parece estar relacionado à transmissão de uma experiência de pensamento.

Uma experiência que transforma a maneira como escutamos, como lemos, como falamos e até como nos relacionamos com aquilo que desconhecemos em nós mesmos.

Quando penso em uma sala de aula, não imagino um lugar de respostas prontas. Imagino um espaço onde conceitos possam produzir deslocamentos. Onde um texto de Freud ou um seminário de Lacan deixem de ser apenas conteúdo e passem a operar como questões.

Talvez seja isso que me atraia tanto.

A transmissão em Psicanálise ocupa um lugar singular. Não se transmite apenas conhecimento. Transmite-se uma posição diante do saber.

E essa diferença me parece fundamental.

A Psicanálise nos ensina que o saber nunca é completo, que existe sempre um resto, uma falta, um ponto impossível de ser totalmente capturado. Ainda assim, seguimos falando, estudando, escrevendo e ensinando.

Existe algo de profundamente humano nisso.

Talvez meu desejo de ensinar esteja ligado a essa aposta.

A aposta de que uma ideia, uma leitura ou uma interpretação possam produzir efeitos em alguém.

Não efeitos de convencimento, mas de elaboração.

Não a produção de discípulos, mas a abertura de perguntas.

Penso que ensinar Psicanálise seria, de alguma forma, ocupar um lugar de passagem. Fazer circular autores, conceitos e questões que foram fundamentais na minha própria formação e que continuam produzindo trabalho psíquico em mim.

Talvez seja também uma forma de retribuição.

Afinal, fui atravessada por professores, textos, supervisores e experiências que transformaram minha maneira de compreender o sujeito e a clínica.

Existe algo que desejo transmitir, embora eu ainda não consiga nomear exatamente o quê.

E talvez isso seja um bom sinal.

Porque os reais desejos costumam surgir antes das explicações.

Eles aparecem primeiro como insistência.

Depois como direção.

E somente mais tarde encontram palavras.

Talvez eu esteja justamente nesse momento: tentando colocar em palavras um desejo que já existe há algum tempo e que continua retornando.

Se a Psicanálise me ensinou alguma coisa, foi a não ignorar aquilo que insiste.

E esse desejo insiste.

sábado, 13 de junho de 2026

O umbigo e o abismo: por que olhar para si mesmo nem sempre significa se conhecer?

Nunca falamos tanto de nós mesmos, nunca exibimos tanto nossas opiniões, sentimentos e rotinas, e ainda assim parecemos cada vez mais distantes de quem realmente somos.

Há uma crítica recorrente aos nossos tempos: a de que as pessoas só olham para o próprio umbigo. E talvez seja verdade. Basta abrir qualquer rede social, ouvir qualquer discussão pública ou observar as conversas cotidianas. Todos parecem ocupados demais falando de si mesmos, defendendo suas opiniões, expondo suas dores, suas conquistas, suas certezas.

Mas o que me intriga não é o excesso de atenção voltada para si. O que me intriga é que, apesar disso, parece que ninguém se conhece.

Vivemos uma época curiosa. O indivíduo se tornou o centro de tudo. Nossa felicidade é assunto diário. Nossos desejos são tratados como prioridades absolutas. Nossos sentimentos ganharam status de bússola moral. Somos incentivados a olhar para dentro, a expressar quem somos, a construir uma identidade própria. No entanto, quanto mais nos observamos, mais parecemos perdidos.

Talvez porque olhar para o próprio umbigo não seja a mesma coisa que olhar para dentro.

O umbigo é a superfície. É a imagem que construímos de nós mesmos. São os rótulos que adotamos, as narrativas que contamos, as versões que apresentamos ao mundo. É aquilo que conseguimos enxergar sem esforço. O autoconhecimento, porém, habita em outra região. Ele mora nas perguntas que evitamos fazer. Nos medos que escondemos até de nós mesmos. Nas contradições que tentamos justificar. Nas sombras que preferimos manter apagadas.

Conhecer a si mesmo nunca foi um exercício confortável.

É muito mais fácil colecionar opiniões do que investigar suas origens. É mais simples defender uma identidade do que questioná-la. É mais agradável construir uma imagem coerente do que admitir que somos feitos de ambiguidades.

Talvez por isso tantas pessoas passem a vida inteira sem realmente se encontrar. Não porque nunca tenham olhado para si, mas porque olharam apenas para aquilo que era suportável enxergar.

Existe uma diferença enorme entre atenção e profundidade.

Uma pessoa pode pensar em si mesma o dia inteiro e ainda assim desconhecer suas motivações mais íntimas. Pode falar incessantemente sobre seus sentimentos sem compreender a origem deles. Pode repetir discursos sobre autenticidade enquanto vive obedecendo expectativas que jamais escolheu conscientemente.

Às vezes, aquilo que chamamos de identidade é apenas um acúmulo de influências mal examinadas.

Somos filhos das histórias que ouvimos, dos medos que herdamos, das recompensas que recebemos, das rejeições que sofremos. Muito do que acreditamos ser escolha talvez tenha sido apenas condicionamento. Muito do que defendemos como personalidade talvez seja apenas hábito.

Mas parar para investigar isso exige coragem.

Porque existe um momento, no caminho do autoconhecimento, em que deixamos de encontrar respostas e começamos a encontrar perguntas. E perguntas verdadeiras são desconfortáveis. Elas desmontam certezas. Elas enfraquecem personagens. Elas revelam que talvez não sejamos exatamente quem imaginávamos.

Pouca gente deseja esse encontro.

Queremos explicações rápidas. Definições prontas. Queremos caber em alguma descrição simples que nos permita seguir em frente sem grandes conflitos. O problema é que seres humanos não foram feitos para caber em definições simples.

Somos contraditórios.

Amamos e rejeitamos as mesmas coisas. Desejamos liberdade enquanto buscamos aprovação. Queremos ser vistos e, ao mesmo tempo, temos medo de sermos conhecidos. Carregamos virtudes que admiramos e defeitos que tentamos esconder. Somos uma mistura permanente de luz e sombra.

Conhecer-se exige aceitar isso.

Talvez seja por isso que tantas pessoas prefiram permanecer na superfície. Porque o fundo assusta. O fundo exige silêncio. Exige honestidade. Exige abandonar algumas ilusões cuidadosamente construídas ao longo dos anos.

E o mundo moderno não favorece esse mergulho.

Tudo nos empurra para fora. Para a próxima notificação. Para a próxima opinião. Para a próxima distração. Estamos constantemente ocupados administrando a aparência da nossa vida, enquanto a própria vida passa despercebida dentro de nós.

O resultado é estranho.

Passamos décadas falando sobre quem somos sem jamais descobrir quem realmente somos.

Talvez o grande problema não seja o egoísmo. Talvez seja a superficialidade. Talvez não estejamos excessivamente voltados para nós mesmos. Talvez estejamos voltados apenas para a versão mais rasa de nós mesmos.

Porque existe uma diferença entre contemplar o próprio reflexo e explorar a própria alma.

O primeiro exercício alimenta a imagem.

O segundo transforma a pessoa.

E transformação sempre cobra um preço.

Ela exige abandonar certezas confortáveis. Exige reconhecer fragilidades. Exige admitir que somos mais complexos, mais confusos e mais misteriosos do que gostaríamos.

Mas talvez seja justamente aí que começa a liberdade.

No momento em que deixamos de defender uma ideia de quem somos e começamos, finalmente, a nos conhecer.

Olhar para o próprio umbigo é fácil.

Difícil é encarar o abismo que existe logo atrás dele.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Transtorno de Personalidade Borderline

O transtorno de personalidade borderline é, antes de tudo, uma experiência marcada por uma profunda dificuldade em lidar com emoções intensas, vínculos e a própria percepção de si. Pela perspectiva psicanalítica, não se trata apenas de “exageros” ou de mudanças repentinas de humor, mas de uma forma de funcionamento psíquico construída a partir de conflitos internos, inseguranças profundas e, muitas vezes, experiências precoces em que a pessoa teve dificuldade de se sentir segura, reconhecida ou emocionalmente amparada.

Uma das características centrais desse funcionamento é a instabilidade na maneira como a pessoa percebe a si mesma e aos outros. Alguém pode ser visto como extremamente importante e amado em um momento e, diante de uma frustração ou sensação de abandono, passar a ser percebido como distante ou ameaçador. Na linguagem psicanalítica, isso pode ser compreendido como uma dificuldade de integrar sentimentos contraditórios: perceber que alguém pode amar e também decepcionar, que uma relação pode ter momentos bons e difíceis sem deixar de existir.

Mais do que um rótulo, o borderline revela uma história de sofrimento e uma tentativa de proteção diante de dores emocionais muito intensas. O caminho de cuidado envolve construir maior compreensão sobre os próprios sentimentos, desenvolver uma identidade mais estável e aprender novas formas de se relacionar consigo e com os outros. Por trás dos comportamentos que muitas vezes parecem difíceis de compreender, existe uma pessoa tentando encontrar segurança, pertencimento e uma maneira mais tranquila de existir.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

Postagens Mais Vistas