Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quando queremos parar de sentir antes de entender o que sentimos

Existe uma coisa que aparece com bastante frequência no consultório: o desejo de encontrar uma solução. 

E não há nada de estranho nisso. Quando estamos sofrendo, queremos sofrer menos. Quando alguma coisa dói, queremos que a dor passe. Quando estamos ansiosos, deprimidos, confusos ou exaustos, é compreensível desejar que alguém nos mostre o caminho para sair dali.

O problema começa quando transformamos esse desejo em uma exigência: a de que todo sofrimento precisa ser eliminado o mais rapidamente possível.

Vivemos em uma cultura bastante orientada para a solução. Há sempre alguma coisa para fazer, corrigir, otimizar, tratar ou eliminar. E isso também aparece na relação com a psicologia.

Às vezes, o paciente chega ao consultório já sabendo o que tem.

Eu tenho TDAH. Eu sou narcisista. Eu tenho trauma. Meu problema é apego. Minha personalidade é dependente. Eu preciso fazer TCC. Fiquei sabendo que a melhor abordagem é a comportamental, que direciona você e te ensina a sentir. Quero fazer determinada abordagem porque é a que funciona para isso.

É claro que essas hipóteses podem fazer sentido. Diagnósticos são importantes e diferentes abordagens psicológicas têm seus fundamentos, seus métodos e suas indicações. Mas existe algo interessante nessa necessidade de chegar com tudo definido. O que aconteceria se, antes de tentar explicar, classificar e solucionar, pudéssemos simplesmente olhar?

Sentir um pouco. Observar. Perceber o que acontece dentro de nós. Perguntar se aquela explicação realmente faz sentido.

E, na relação com o psicólogo, experimentar se existe espaço para falar, pensar e ser escutado. Perceber se há confiança, se existe possibilidade de construir um vínculo, se aquela pessoa consegue nos acompanhar naquilo que ainda nem sabemos nomear. Para mim, é uma das coisas mais difíceis em uma psicoterapia: tolerar não saber imediatamente. Porque a angústia de não saber pode ser quase tão desconfortável quanto o próprio sofrimento. E então surge a tentação de se anestesiar.

Não no sentido literal. Podemos nos anestesiar de muitas maneiras: procurando uma explicação definitiva, consumindo incessantemente conteúdos sobre saúde mental, mudando de terapeuta a cada desconforto, procurando a técnica perfeita, tentando controlar todos os pensamentos ou transformando cada sentimento em um diagnóstico.

Tudo isso pode produzir uma sensação momentânea de organização. Mas organizar não é necessariamente compreender. E aliviar não é necessariamente elaborar. Existe uma diferença importante entre cuidar do sofrimento e tentar não sentir sofrimento nenhum. Nem todo sofrimento é um sinal de que alguma coisa precisa ser imediatamente retirada.

O sofrimento é uma informação. Ele pode apontar para um conflito, uma perda, um limite ultrapassado, um desejo que não reconhecemos, uma relação que nos machuca ou uma vida que já não está fazendo sentido da maneira como vinha sendo vivida.

Isso não significa romantizar a dor. Não precisamos sofrer mais para que a terapia seja “profunda”. Não precisamos recusar alívio, diagnóstico, medicação ou técnicas que podem ajudar. E certamente não precisamos transformar sofrimento em uma espécie de prova de maturidade. A questão é outra.

É possível buscar alívio sem transformar o alívio no único objetivo. É bom querer que a dor diminua e, ao mesmo tempo, é bom também ter curiosidade sobre aquilo que ela está tentando dizer. A psicoterapia não é apenas o lugar onde vamos para encontrar uma resposta. É também o lugar onde aprendemos a fazer perguntas melhores.

Antes de tentar fazer a dor desaparecer, será que podemos entender um pouco melhor o que está acontecendo? Porque quando conseguimos finalmente sentir aquilo que estávamos desesperados para anestesiar, descobrimos que o sofrimento não era apenas algo a ser eliminado. Era algo que precisava ser escutado, entendido. Elaborado.

Sujeito Suposto Saber

Às vezes me pergunto o que significa, de fato, ocupar o lugar de analista.

Não apenas o lugar que a teoria descreve, o lugar de suposto saber, mas esse lugar concreto, encarnado, de quem chega à sessão com um corpo. Um corpo que sente sono. Que às vezes se agita. Que se cansa. Que se interessa. Que se surpreende. Que, de vez em quando, parece saber alguma coisa antes mesmo que eu consiga formular o que é.

Porque entramos na sessão com o nosso corpo.

E, quando penso nisso, penso também em tudo o que chega pela porta junto com cada paciente. Casos muito complicados, casos banais, problemas disfarçados de objetos, de discursos, de sintomas. Alguns tímidos ao extremo. Outros em que não se consegue interromper, dada a eloquência da fala e a ininterrupção. Mulheres, homens, adolescentes, crianças. Concretos como as crianças, abstratos como outros. Céticos e crédulos.

Cada um chega com uma maneira muito própria de estar no mundo. E você está ali.

Ali, no lugar de suposto saber.

Essa talvez seja uma das posições mais curiosas que já ocupei. Porque, ao mesmo tempo em que o outro supõe que você sabe alguma coisa, você precisa sustentar a possibilidade de não saber. E isso é muito diferente de simplesmente não saber.

Você chega atravessada pela sua própria história, pelo seu percurso, pela sua análise, por aquilo que aprendeu, pelo que estudou, pelo que ainda não compreendeu. Seu conhecimento precisa, de alguma maneira, entrar em suspensão para que você possa estar ali. Não porque ele deixe de existir, mas porque não pode ocupar todo o espaço.

Você está ali com o seu inconsciente.

Atenção flutuante e muita cobrança.

Você escuta, observa, espera. Tenta não escolher de antemão o que é importante. Tenta não correr para uma conclusão. E, ao mesmo tempo, existe uma parte sua que se pergunta se está fazendo certo, se percebeu alguma coisa, se deixou passar algo, se deveria ter dito outra coisa, se falou demais, se falou de menos.

Depois, vem a própria análise.

E a supervisão.

E aquela sensação de que, em determinados momentos, tudo fica embaralhado. O certo é errado, o errado é certo e, de repente, não existe exatamente certo e errado.

É o que é.

Lembro de ouvir minha supervisora dizer que quem sabe é quem está ali. O paciente é quem sabe. E, ainda assim, eu me vejo diante da curiosa condição de ser detentora de um saber que tenho e, ao mesmo tempo, não sei que tenho.

Talvez seja essa uma das contradições mais interessantes desse trabalho.

Você estuda para saber, mas precisa aprender a não saber.

Nos intervalos entre uma sessão e outra, há relatórios, anotações, análises. E ainda mais leitura. Você vai se cercando de montanhas de livros. Lê autores, lê abordagens, volta para aquilo que já leu, descobre que não tinha entendido, lê de novo.

Lê para compreender o que aconteceu.

Lê para compreender o que não aconteceu.

Lê porque alguma coisa naquela sessão ficou atravessada e você ainda não conseguiu nomear.

E a vida vai mudando bruscamente.

Eu venho de uma carreira anterior, em uma área bastante diferente, e às vezes me pego devaneando em algumas comparações. Olho para o que fazia antes e para o que faço agora e penso no quanto é estar do outro lado.

Do outro lado do quê, exatamente, eu nem sempre sei.

Talvez do lado em que as respostas são menos importantes do que as perguntas. Do lado em que aquilo que não se sabe pode ser justamente o que precisa permanecer aberto.

E então acontece de um paciente voltar na sessão seguinte e dizer que lembrou de alguma coisa que eu falei.

Uma frase.

Uma pergunta.

Alguma coisa aparentemente pequena.

E ele volta para beber mais na fonte do próprio inconsciente.

E, nesse momento, aumenta a pressão.

Aumenta a autocobrança.

Porque agora aquilo que você disse teve um efeito. Ou talvez tenha tido. E você começa a se questionar.

O que eu disse?

Por que disse?

O que ele escutou?

O que ele fez com aquilo?

O que eu não escutei?

Na verdade, estamos juntos atravessando os fantasmas.

Entre o real, o simbólico e o imaginário.

A realidade do paciente vai surgindo e, ao mesmo tempo, alguma coisa da minha própria realidade também está ali. Porque eu não desapareço completamente para que o outro exista. Eu estou presente. Com meu corpo, minha história, minhas referências, minhas marcas, minhas perguntas.

E existe ainda uma outra coisa que me atravessa: a tentativa de não psicoeducar e, ao mesmo tempo, perceber que, às vezes, já estou psicoeducando.

Entre uma coisa e outra.

Entre aquilo que eu gostaria de sustentar e aquilo que escapa.

Depois, quando a sessão termina, eu me atenho ao meu olhar, ao meu sentido, ao que aconteceu ali. Às vezes sem palavras mesmo para nomear. Outras vezes, nítido como a luz.

E isso também é curioso.

Porque há momentos em que alguma coisa simplesmente acontece na sessão e você não sabe explicar exatamente o que foi. Você sabe que houve alguma coisa. Mas não sabe ainda dizer o quê.

E talvez seja preciso suportar isso também.

É uma profissão perigosa. Como diz sempre minha supervisora: "é profissão perigo".

É, ao mesmo tempo, uma profissão solitária e uma profissão lotada de gente. Lotada de pensadores, autores, teorias, abordagens. Você está sozinha diante de alguém e, de algum modo, está acompanhada por uma biblioteca inteira.

Lendo, lendo e lendo.

Se construindo e desconstruindo.

E quando termina o dia, depois de várias sessões, você chega em casa e já está em outros papéis. Você é outra coisa. Você é você mesma fora daquele lugar.

Mas ainda carrega um pouco do que aconteceu.

E quer se recolher.

Não cabe mais nada.

O silêncio é necessário.

Só que o silêncio nem sempre é possível. E talvez nem seja justo com os seus, que chegam falando muito, contando coisas, pedindo atenção, solicitando você.

E então você se olha e se pergunta:

Será que sou uma farsa?

Será que realmente é minha escolha?

É o meu desejo?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis.

Porque desejar alguma coisa não significa necessariamente encontrar prazer em todos os seus aspectos. E escolher alguma coisa não significa nunca se arrepender dela.

Comecei assim e estou aqui, nesse ponto, me havendo com ele, com o meu desejo.

Dia após dia.

Entre arrependimentos e comemorações.

Às vezes me sinto abençoada por ter “vencido na vida” e estar podendo estar aqui. Ter chegado até aqui. Poder escolher, em alguma medida, o que faço da minha vida.

Em outras, me lamento pela falta de raciocínio crítico que talvez tenha existido em algumas escolhas. Por uma idealização. Por ter sido tão idealista a ponto de acreditar que desejo é para ser vivido em intensidade.

Como se desejar fosse suficiente.

Como se dinheiro não comprasse quase nada importante.

E, ao mesmo tempo, me havendo com a falta dele.

Porque dinheiro não compra tudo. Mas a falta dele também atravessa tudo.

E talvez seja aí que eu esteja agora: tentando sustentar as duas coisas sem precisar resolver imediatamente nenhuma delas.

O desejo e a realidade.

A escolha e o arrependimento.

O saber e o não saber.

A teoria e o corpo.

O analista e a pessoa que existe antes, durante e depois da sessão.

Talvez ocupar esse lugar seja, em alguma medida, estar sempre entre essas coisas.

E continuar me havendo com meu desejo.

Dia após dia.

Complicado demais.

Eu sou narcisista

Ele chegou sabendo o que tinha. Ou, pelo menos, chegou sabendo dizer o que tinha. Havia algo de curioso nisso, e demorei algum tempo para perceber que essa diferença era justamente uma das coisas mais importantes daquela primeira sessão. 

Ele não chegou apenas com uma queixa, uma história ou um sofrimento que gostaria de compreender. Chegou com uma explicação. Tinha um diagnóstico para si mesmo, tinha uma teoria sobre o próprio funcionamento e tinha, sobretudo, uma linguagem bastante sofisticada para descrevê-lo. “Eu sou narcisista”, disse, com a segurança de quem não estava exatamente apresentando uma hipótese, mas uma espécie de conclusão a respeito de si. Não era apenas “acho que posso ter traços narcísicos”, nem “me disseram que talvez eu seja assim”. Era uma frase identitária: eu sou isso, e é disso que sofro. Atrás dela vinha todo um repertório que havia aprendido ao longo de aproximadamente um ano de terapia cognitivo-comportamental. Sabia falar de gatilhos, alterações do humor, pensamentos automáticos, crenças, pensamentos disfuncionais, pensamentos funcionais, registros de pensamentos, enfrentamento, estratégias, esquivas. Sabia observar a si mesmo. Sabia, inclusive, em muitos momentos, observar a própria observação. Era um homem que havia aprendido a se acompanhar.

E preciso necessariamente dizer isso antes de qualquer coisa: havia muito valor naquele conhecimento. Não me interessava, e ainda não me interessa, desqualificar o trabalho que havia sido feito antes de mim. Ele próprio não o desqualificava. Ao contrário, falava daquele tratamento com reconhecimento. Contava que fazia terapia quinzenalmente e que seu terapeuta, dizia que estavam próximos de uma alta clínica. A ideia da alta parecia fazer sentido dentro da narrativa que ele construía: havia aprendido ferramentas e agora seria capaz de utilizá-las sozinho. Sabia identificar os gatilhos, perceber alterações do humor, registrar pensamentos, reconhecer pensamentos automáticos, investigar crenças e procurar novas leituras para aquilo que lhe acontecia. Havia, portanto, uma certa promessa de autonomia nessa história. A terapia lhe ensinara a observar o próprio funcionamento e, em alguma medida, a manejá-lo. 

O que me chamou a atenção não foi o fato de ele saber tanto, mas o modo como esse saber parecia organizar a relação que ele mantinha consigo mesmo. Quando alguma coisa acontecia, ele parecia imediatamente procurar o instrumento adequado para compreendê-la. Se uma emoção surgia, havia uma pergunta disponível: qual foi o pensamento que gerou esse sentimento? Se uma situação o mobilizava, ele respondia me explicando qual tinha sido o gatilho. Se uma reação parecia desproporcional, ele me falava de um pensamento automático por trás dela. Percebi que, se o pensamento não fosse adequado, seria possível examiná-lo e construir uma nova leitura, uma leitura mais funcional. Havia sempre um caminho.

E eu fiquei pensando no quanto isso é sedutor. Porque nós, diante do sofrimento, temos uma necessidade quase irresistível de transformar aquilo que nos acontece em alguma coisa que possamos dominar. O sofrimento, quando permanece sem nome, assusta. O que não compreendemos nos deixa numa posição desconfortável. Então nomeamos. Classificamos. Procuramos uma explicação. Damos um diagnóstico àquilo que sentimos e, muitas vezes, junto com o diagnóstico, encontramos também uma promessa silenciosa: agora que sei o que tenho, talvez finalmente consiga deixar de sentir o que sinto.

É compreensível. É natural procurar algum controle diante daquilo que nos desorganiza. O problema começa quando a explicação passa a ocupar o lugar da experiência. Quando saber o nome de alguma coisa produz a sensação de que já sabemos o que ela é. Quando dizer “sou narcisista” parece encerrar uma investigação que talvez estivesse apenas começando. 

Ele dizia: “Eu sou narcisista. É disso que eu sofro.” E havia algo de paradoxal nessa frase. Porque, ao mesmo tempo em que ela parecia oferecer uma explicação, também parecia aprisioná-lo dentro dela. Se eu sou isso, então aquilo que faço pode ser compreendido a partir disso; aquilo que sinto pode ser explicado por isso; minhas relações podem ser lidas através disso; meus conflitos podem ser organizados por isso. O diagnóstico deixa de ser uma hipótese sobre o funcionamento e começa a funcionar como uma identidade. E quando isso acontece, há o risco de que a pessoa passe a se encontrar consigo mesma já sabendo de antemão o que deveria encontrar. 

É uma coisa curiosa da nossa época: chegamos à psicoterapia cada vez mais informados sobre nós mesmos. E isso, que em muitos aspectos é uma conquista, também produz uma situação nova para o encontro clínico. O paciente já pesquisou. Já leu. Já ouviu podcasts. Já assistiu a vídeos. Já fez testes. Já conversou com amigos. Já encontrou um nome para aquilo que sente. Às vezes chega dizendo que tem TDAH, trauma, apego evitativo, transtorno de personalidade, ansiedade, burnout, narcisismo. Outras vezes chega sabendo também qual abordagem deseja: quer TCC, quer DBT, quer psicanálise, quer uma terapia breve, quer determinada técnica. Há uma espécie de pré-consulta em que o sujeito chega não apenas para falar do que lhe acontece, mas para apresentar uma formulação previamente construída sobre si e, em alguns casos, para solicitar ao profissional que a confirme e execute o tratamento correspondente. 

Não há nada de necessariamente errado nisso. O sujeito pode estar correto. Pode ter pesquisado cuidadosamente. Pode ter recebido um diagnóstico adequado. Pode saber bastante sobre psicologia. Pode ter uma preferência legítima por determinada abordagem. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas certezas: o que acontece quando, antes mesmo de encontrar o psicólogo, já decidimos quem somos, do que sofremos e o que deve ser feito conosco? Alguma coisa se perde.

Porque uma análise, uma psicoterapia, qualquer experiência verdadeiramente investigativa de si, deveria conter algum espaço para a surpresa. Para aquilo que ainda não sabemos. Para aquilo que aparece e contradiz a explicação que tínhamos preparado. Para a possibilidade de descobrir que a história que contamos sobre nós mesmos, embora verdadeira em alguns aspectos, não é a história inteira. 

Foi isso que comecei a perceber naquele paciente. Ele havia aprendido a se observar muito bem. Mas observar não é a mesma coisa que sentir. E compreender não é a mesma coisa que elaborar. Em um determinado momento, ele falou sobre a mãe. Contou uma história que, racionalmente, ele parecia ter muito bem compreendida. Sabia que ela não o havia abandonado deliberadamente. Sabia das circunstâncias. Sabia que ela fez o que conseguiu fazer. Sabia, inclusive, reconhecer aspectos positivos que aquela separação havia produzido em sua vida. Sabia que ela continuou presente, que ligava, que mandava presentes, que o visitava. Sabia até que a decisão que havia sido tomada naquele momento acabou tendo consequências importantes para o homem que ele se tornou.

Ele sabia de tudo isso. E, ainda assim, chorava. Foi justamente aí que algo me interessou. Porque ele próprio se perguntou, como estava acostumado a fazer: qual foi o pensamento que produziu esse sentimento? Procurava o pensamento automático. Procurava a crença. Mas não conseguiu, havia um enigma. Ele não encontrava exatamente o pensamento disfuncional. 

Sua compreensão consciente da história da mãe me pareceu bastante razoável. Não havia uma distorção evidente. Ele não acreditava, de modo consciente, que a mãe o tivesse abandonado porque não o amava. Não sustentava uma narrativa infantil de culpa ou rejeição; não narrava raiva ou ódio. Ele dizia entender os motivos e a perdoava. Ele sabia que as coisas eram mais complexas. Sabia que a mãe o amava. Sabia que havia feito o que podia por ele. Sabia de tudo isso e, ainda assim, aquela lembrança continuava tocando alguma coisa nele. Ao chorar na minha frente, se desculpou, ficou constrangido e imediatamente me explicou que tinha aprendido a controlar suas emoções. Disse que, por exemplo, depois desse ano na terapia nunca mais tinha chorado em frente à sua mãe. Disse que ali na sessão não entendia por que não funcionou, porque não detectou a emoção que viria a seguir. Ficou surpreso com sua falha.

Tive esperança nesse momento. Não porque o sofrimento seja desejável. Não porque devamos romantizar a dor, como se sofrer fosse uma virtude ou como se uma pessoa só pudesse crescer se permanecesse mergulhada em sua angústia. Não acredito nisso. Há sofrimentos que precisam de cuidado, há dores que precisam ser aliviadas, há situações em que interromper uma experiência dolorosa é necessário e profundamente humano. O problema não está em querer aliviar o sofrimento. O problema está em imaginar que todo sofrimento é um erro que precisa ser imediatamente corrigido. 

Há uma diferença entre cuidar da dor e silenciá-la. E essa diferença pode ser pequena por fora. Às vezes fazemos exatamente as mesmas coisas: conversamos, interpretamos, nomeamos, encontramos estratégias. Mas internamente a posição é outra. Em uma delas, existe curiosidade. Na outra, existe urgência. Em uma delas, queremos compreender o que está acontecendo. Na outra, queremos que pare. 

Meu paciente parecia ter aprendido muito bem a segunda parte: o que fazer quando alguma coisa acontece. Identificar, registrar, reconhecer, compreender, reestruturar, enfrentar. Mas há uma pergunta anterior: será que ele conseguia simplesmente sentir alguma coisa sem imediatamente precisar transformá-la em objeto de investigação? 

É uma pergunta difícil para todos nós. Porque sentir sem explicar pode ser angustiante. Sentir sem saber de onde vem pode parecer descontrole. Se eu consigo nomear, tenho a impressão de que domino. Se consigo explicar, tenho a impressão de que compreendo. Se consigo compreender, consigo controlar. E, se consigo controlar, talvez finalmente consiga não sofrer. 

É sedutor pensar assim. Mas a experiência humana nem sempre se organiza dessa maneira. Às vezes sentimos antes de saber. Às vezes sabemos e continuamos sentindo. Às vezes uma emoção permanece viva mesmo depois que a nossa consciência já encontrou todas as explicações possíveis para ela. Às vezes o corpo sabe alguma coisa que a narrativa consciente ainda não sabe dizer. Às vezes choramos por algo que não conseguimos justificar. Às vezes uma determinada pessoa nos irrita de uma maneira que parece maior do que a situação presente. Às vezes uma despedida nos destrói sem que consigamos explicar por que aquela despedida específica carrega tanto peso. 

E não acredito que precisamos correr imediatamente para descobrir a resposta. Acredito sim que podemos permanecer um pouco diante da pergunta. Isso me parece importante quando pensamos na relação contemporânea com os diagnósticos. Há algo reconfortante em poder dizer “eu sou isso”. A frase organiza. Ela oferece pertencimento, uma explicação, às vezes até uma espécie de absolvição: agora sei por que faço isso. Mas existe também um risco quando o diagnóstico deixa de ser uma maneira de compreender determinados aspectos do funcionamento e passa a ser a maneira pela qual o sujeito se define por inteiro. 

Quando alguém diz “eu sou narcisista”, por exemplo, talvez valha a pena perguntar não apenas se essa formulação é correta, mas o que significa, para aquela pessoa, precisar dizer isso sobre si. O que ela ganha quando se reconhece nesse nome? O que ela perde? Que comportamentos passam a parecer inevitáveis depois que recebem essa explicação? Que possibilidades deixam de ser imaginadas? 

Não se trata de retirar do paciente o direito de nomear sua experiência. Trata-se de não deixar que o nome encerre a experiência. E a tarefa delicada do psicólogo é justamente essa: escutar aquilo que o paciente já sabe sem se deixar limitar por aquilo que ele já sabe. Não para contradizê-lo gratuitamente, não para demonstrar que sua compreensão anterior estava errada, mas para perceber onde a explicação começa a falhar. Porque é aí que aparece alguma coisa.

Foi ai que o sofrimento se tornou interessante. Eu disse a ele: "sim, sua mãe não fez por querer, mas ela fez". No caso desse paciente, a falha aparecia diante das lágrimas. Ele dizia saber o que havia acontecido. Sabia que não tinha sido abandonado. Sabia que a mãe o amava. Sabia que aquela experiência havia produzido também coisas boas. Não encontrava um pensamento disfuncional evidente que justificasse a intensidade da sua reação. E, mesmo assim, sentia. 

Então, eu repeti a pergunta que ele mesmo se fez “qual foi o pensamento que gerou esse sentimento?”. E perguntei se não podíamos inverter a direção um pouquinho e se perguntar: o que acontece se você não precisar encontrar imediatamente o pensamento? O que acontece se você não precisar corrigir a emoção? O que acontece se, diante dessa emoção, você puder simplesmente descobrir que sente?

Ele ficou mudo, me olhando, um silêncio se fez. Para mim, não parecia ter sido uma pergunta tão grandiosa. Mas logo entendi, fomos treinados a fazer tanto com aquilo que sentimos que simplesmente sentir pode se tornar uma tarefa estranha. Ele mesmo havia me descrito uma estratégia de escrita que utilizava quando estava muito estressado. Colocava no papel aquilo que o preocupava, organizava as questões, listava os pontos que ocupavam sua cabeça. Era uma ferramenta de cuidado, e, segundo ele, era uma ferramenta muito útil. 

Concordei, podia ser mesmo. Mas novamente me interessava menos a ferramenta em si do que a posição subjetiva que começava a aparecer por trás dela. Quando alguma coisa surgia dentro dele, havia uma tendência a colocá-la diante de si, observá-la, nomeá-la, organizá-la. Como se pudesse, dessa maneira, criar uma distância segura entre ele e aquilo que sentia. 

Era uma forma de inteligência emocional, dizia ele. E me arrisquei, complementado a fala dele, dizendo que talvez também era uma forma de defesa. O que o surpreendeu bastante, vi o desconforto e como ele se ajeitou novamente na cadeira e olhou para o relógio que tinha no pulso. 

E as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Há pessoas que se protegem não deixando de pensar, mas pensando demais. Não porque sejam incapazes de sentir, mas porque pensar lhes permite não permanecer por muito tempo diante do que sentem. A inteligência pode se transformar em uma espécie de abrigo. A pessoa compreende, explica, relaciona, contextualiza, encontra conceitos. E, enquanto está fazendo tudo isso, não precisa permanecer inteiramente diante da experiência. 

Isso me fez pensar que existe uma diferença entre observar a si mesmo e estar consigo mesmo. Podemos observar uma emoção como quem observa alguma coisa do lado de fora. Podemos dizer: estou sentindo raiva, isso é ansiedade, isso é uma resposta ao abandono, isso ativou minha crença de desvalor. Tudo pode estar correto. Mas ainda assim existe uma distância entre saber que estamos sentindo alguma coisa e, de fato, nos deixarmos encontrar por aquilo que estamos sentindo.

Eu acredito, independentemente da abordagem, que a psicoterapia precisa desse segundo movimento. Não apenas compreender o funcionamento, mas experimentar a própria existência dentro dele. Não apenas identificar o gatilho, mas descobrir o que aquele gatilho significa para aquela pessoa. Não apenas reconhecer um padrão, mas perceber como é estar dentro dele. Não apenas perguntar “por que faço isso?”, mas, conseguir perguntar “como é para mim fazer isso?”.

E foi ai que percebi que o nosso encontro começou, de fato, a movimentar.

Não é possível escolher completamente uma relação terapêutica antes de vivê-la. Podemos pesquisar a formação do profissional, sua abordagem, suas especializações. Podemos chegar com uma indicação, uma recomendação, uma hipótese diagnóstica e até uma ideia bastante clara do que queremos trabalhar. 

Eu acredito que há alguma coisa que só aparece quando estamos diante de alguém. Como me sinto falando com essa pessoa? Consigo me escutar enquanto falo? Sinto que preciso dar respostas certas? Tenho medo de decepcioná-la? Consigo dizer que não concordo? Consigo ficar em silêncio? Consigo falar de algo que não compreendo? Consigo aparecer ali sem precisar chegar com uma versão organizada de mim?

Essas experiências dizem tanto sobre o processo terapêutico quanto a abordagem que está escrita no currículo do profissional. E isso não significa que a técnica seja irrelevante. Muito pelo contrário. Conhecimento, formação e método importam. Mas eles não devem ocupar todo o espaço da sessão. Porque existe uma tentação, inclusive entre nós, psicólogos, de também querer saber rapidamente o que está acontecendo. Afinal, fomos formados para escutar, formular hipóteses, reconhecer padrões, compreender mecanismos.

Mas é necessário suportar, o fato de ainda não saber. Há uma espécie de humildade clínica nisso. Dizer, ainda que silenciosamente: eu não preciso entender você imediatamente. Podemos permanecer um pouco mais. Podemos observar. Podemos deixar que uma contradição exista. Podemos permitir que uma história não se feche na primeira explicação disponível.

Foi o que escolhi fazer naquela sessão. O sujeito é sempre maior do que a explicação que conseguimos produzir sobre ele. 

Nesse momento, voltei naquela frase do início: “Eu sou narcisista”. Não perguntei se ele era ou não era. Mas perguntei o que acontecia com ele quando ele dizia que era. Porque uma coisa é utilizar um conceito para compreender determinado aspecto do próprio funcionamento. Outra, muito diferente, é transformar o conceito em destino. 

Quando uma pessoa diz “eu sou isso”, existe o risco de que outras possibilidades desapareçam. Se sou narcisista, talvez eu seja inevitavelmente assim. Se sou ansioso, talvez eu seja alguém que sempre será dominado pela ansiedade. Se tenho trauma, talvez tudo o que faço é explicado pelo trauma. Se tenho TDAH, talvez toda dificuldade de organização tem essa mesma explicação. 

O diagnóstico pode iluminar, não tenho dúvida disso. Mas, quando utilizado como identidade total, também pode lançar sombras sobre aquilo que não cabe nele. E, pra mim, uma boa psicoterapia não é aquela que oferece ao paciente uma explicação cada vez mais sofisticada sobre quem ele é. Acho que o meu papel era permitir que ele se tornasse menos prisioneiro das explicações que já possuía.

Mas, por favor, me entendam. Isso não significa abandonar o conhecimento. Significa recolocá-lo no seu devido lugar. O diagnóstico pode ser uma ferramenta, não uma sentença. A técnica pode ser um recurso, não um roteiro que precisa ser seguido independentemente de quem está diante de nós. A teoria pode ajudar a enxergar, mas não deveria impedir que enxergássemos aquilo que não está previsto por ela. E o sofrimento pode ser cuidado sem que precisemos tratá-lo imediatamente como um problema a ser eliminado.

Sempre me questiono sobre isso, a cada paciente, a cada sessão. Em uma época tão interessada em soluções: algumas experiências precisam primeiro ser vividas antes de serem resolvidas. Nem tudo o que dói precisa ser consertado. Nem tudo o que incomoda precisa ser eliminado. Nem toda lágrima precisa de uma explicação.

Acredito que o paciente precisa apenas de um lugar suficientemente seguro para descobrir que pode chorar por aquilo que já compreendeu racionalmente há muito tempo. É isso também é uma forma de conhecimento. Um conhecimento que não vem da explicação, mas da experiência. Um conhecimento que não pergunta “como faço isso parar?”, mas consegue permanecer tempo suficiente para perguntar: “O que existe aqui?”

A sessão terminou. Ele saiu reflexivo e, provavelmente, confuso. Se vai voltar, não sei. Se aquilo o tocou de algum modo, também não tenho como saber. Nem sempre sabemos o que acontece com aquilo que oferecemos depois que a pessoa atravessa a porta. O que eu sei é que, naquele momento, pude apenas oferecer o que estava ao meu alcance.

Porque, no fim, não sei se o objetivo da psicoterapia é ensinar alguém a nunca mais sofrer. Isso me parece uma promessa impossível. Meu trabalho é um pouco mais modesto. Eu o resumiria dizendo que é ajudar alguém a não precisar fugir tão rapidamente daquilo que sente. Ajudá-lo a reconhecer que pode haver sofrimento sem que ele precise imediatamente se transformar em um diagnóstico, uma estratégia ou uma explicação.

O que estava ao meu alcance era ajudá-lo a descobrir que nem toda dor precisa ser retirada. Algumas precisam ser atravessadas, elaboradas, choradas. Precisam ser escutadas até que,  pouco a pouco, possamos compreender, o que aquele sofrimento está tentando nos mostrar.

Tenho para mim que a dor nos conduz, com o tempo, a lugares de nós mesmos que ainda não havíamos conseguido alcançar.

  

domingo, 13 de setembro de 2026

A solidão que a gente constrói!

Atendi uma senhora na clínica. Bonita, elegante, muito inteligente, dessas pessoas que entram numa sala trazendo consigo uma vida inteira de realizações. Havia nela uma espécie de segurança que não era exatamente tranquilidade, eram muitos anos aprendendo a não depender de ninguém. Falava de si com lucidez, tinha uma capacidade rara de olhar para a própria história sem fazer dela uma coleção de desculpas, mas também sem pedir absolvição. Era a última sessão do dia, e isso me permitiu permanecer um pouco mais depois que ela foi embora, sentada diante daquela sala já silenciosa, pensando no que havia escutado. Fiquei com a sensação de que, naquela hora, não tinha ouvido apenas uma mulher falar da própria solidão. Tinha ouvido uma vida inteira falar através dela.

Há uma espécie de solidão que não começa quando as pessoas vão embora. Ela começa muito antes, quando aprendemos que é mais seguro não precisar delas. Essa mulher me fez pensar nisso porque falava da própria solidão sem exatamente se queixar dela. Havia quase um reconhecimento. A vida que tinha naquele momento era, em alguma medida, a vida que havia construído. Durante muitos anos, o trabalho ocupou quase tudo, não apenas o tempo, mas também o lugar das relações, dos encontros, da circulação pelo mundo, da sensação de pertencimento. Enquanto havia trabalho, havia gente. Havia compromissos, conversas, viagens, projetos, convites, telefonemas. Havia uma vida social permanentemente ativa. Só quando o trabalho deixou de ocupar aquele lugar foi possível perceber que uma parte importante daquela sociabilidade estava sustentada menos pelos vínculos do que pela função que ela exercia no mundo. Quando a função desapareceu, alguma coisa desapareceu junto. E existe uma experiência particularmente desconcertante na maturidade: descobrir que aquilo que imaginávamos ser nossa vida era, em parte, a estrutura que ocupávamos.

Pensei em Freud e naquilo que retorna quando uma solução deixa de funcionar. O sujeito não repete simplesmente porque não aprendeu. Repete porque há alguma coisa que insiste, alguma coisa que não se deixa resolver apenas pela consciência. Há formas de vida que se organizam em torno de uma defesa tão eficiente que deixam de parecer defesa. Tornam-se identidade. A pessoa já não diz “eu faço isso para me proteger”. Ela diz “eu sou assim”. Sou independente. Sou workaholic. Não gosto de depender. Gosto de ficar sozinha. Não tenho tempo para relações superficiais. Gosto de gente, mas não preciso de ninguém. E uma defesa que ganha o nome de personalidade se torna muito mais difícil de interrogar.

Havia, naquela mulher, uma independência que parecia ter começado muito cedo. Falava de uma mãe complicada, de uma infância em que amor e exigência pareciam ter se misturado. Não é preciso transformar uma mãe difícil na origem de todos os destinos. A psicanálise não serve para produzir culpados retroativos. Mas sabemos que é nas primeiras relações que o sujeito começa a aprender algo sobre seu próprio valor, sobre o que precisa fazer para ser amado, sobre o que pode esperar do outro e, sobretudo, sobre o lugar que imagina ocupar no desejo de quem cuida dele. Melanie Klein nos ensinou a levar a sério a intensidade dessas primeiras relações, a ambivalência inevitável entre amor e ódio, gratidão e ressentimento, dependência e desejo de independência. A criança não possui ainda recursos para pensar “minha mãe está frustrada com a própria vida” ou “minha mãe carrega uma história que nada tem a ver comigo”. A criança pensa a partir de si. Se o amor não chega como gostaria, conclui que há algo nela que precisa ser corrigido.

É aí que uma criança pode começar uma história silenciosa. Preciso ser melhor. Preciso ser brilhante. Preciso não dar trabalho. Preciso não precisar. Preciso ser tão boa que ninguém queira me abandonar. Essas frases não são formuladas conscientemente. O inconsciente não trabalha assim. Elas aparecem como modos de existir, escolhas que se repetem, ambições que parecem espontâneas, uma necessidade quase física de competência, reconhecimento, controle. E quando essa criança cresce, pode se tornar uma mulher admiravelmente capaz. O que um dia foi defesa passa a ser talento. O que nasceu de uma falta pode se transformar em realização. E isso torna tudo mais complexo, porque não se trata de dizer que o sucesso foi falso. Ele foi real. As conquistas foram reais. O sofrimento também.

Winnicott ajuda a pensar nesse ponto a partir daquilo que chamou de falso self. Não no sentido vulgar de uma pessoa fingida, mas de uma organização psíquica construída para responder adequadamente ao ambiente, muitas vezes tão bem adaptada que o próprio sujeito já não sabe onde termina a adaptação e começa o desejo. Há pessoas que se tornam extremamente boas em ser aquilo que o mundo espera delas. Funcionam. Produzem. Entregam. Correspondem. São admiradas. E, justamente por isso, podem passar muito tempo sem se perguntar o que acontece quando não precisam mais funcionar. Existe uma diferença entre estar vivo e estar funcionando, embora por muitos anos essa diferença é quase imperceptível.

O trabalho oferece uma solução sofisticada para esse problema. Ele oferece identidade, reconhecimento e, em muitos casos, uma forma socialmente legítima de não olhar para determinadas faltas. Não fui porque estava trabalhando. Não liguei porque estava trabalhando. Não encontrei porque estava cansado. Não tenho tempo porque tenho um projeto. Não preciso de ninguém porque tenho minha vida. Enquanto estamos ocupados, a questão não aparece com tanta força. O trabalho pode funcionar como objeto de investimento, como fonte de narcisismo, como lugar onde o sujeito encontra uma confirmação cotidiana de seu valor. Somos procurados, necessários, admirados. Recebemos alguma coisa do olhar dos outros que nos devolve uma imagem suportável de nós mesmos.

Lacan faz uma pergunta mais incômoda: de quem é esse desejo? O que exatamente estamos tentando obter quando buscamos incessantemente reconhecimento? O sujeito deseja ser desejado pelo Outro, mas nunca consegue fechar completamente essa conta. Há sempre um resto, alguma coisa que não se completa. Podemos conquistar mais uma posição, mais um prêmio, mais uma entrevista, mais um projeto, mais uma prova de que somos bons, e ainda assim permanecer a pergunta infantil escondida em algum lugar: agora você me ama? Agora sou suficiente? Agora você não pode me deixar?

Talvez seja isso que exista de mais humano por trás de algumas trajetórias. A pessoa se torna excepcional não apenas porque deseja realizar, mas porque existe algo que precisa ser constantemente confirmado. Ela passa a vida respondendo a uma pergunta que nunca foi formulada. E o problema do reconhecimento é que ele é insaciável. Nenhuma quantidade de aplauso responde definitivamente àquilo que o sujeito pergunta ao Outro. O desejo desliza. Quando uma conquista é alcançada, outra precisa ocupar seu lugar. Quando um público se vai, outro precisa aparecer. Quando uma função termina, o vazio que ela encobria pode se tornar evidente.

Foi isso que pensei ao ouvi-la falar do fim do trabalho. Não que o trabalho tivesse sido uma mentira ou uma fuga. Ele tinha sido também amor, vocação, prazer, realização. Era uma solução. E quando uma solução desaparece, aquilo que ela mantinha em silêncio pode retornar.

A aposentadoria, uma mudança de carreira, os filhos que saem de casa, o corpo que já não acompanha o ritmo, qualquer ruptura que retire do sujeito o lugar que ocupava no mundo pode produzir uma espécie de revelação. Não porque o passado se torne falso, mas porque o presente deixa de oferecer as mesmas distrações. O telefone toca menos. Os convites diminuem. As pessoas seguem suas próprias vidas. A agenda esvazia. E então aparece uma pergunta que não tem mais como ser adiada: quem sou eu quando ninguém precisa daquilo que sei fazer?

É uma pergunta dura. Para algumas pessoas, o trabalho não ocupava apenas oito, dez ou doze horas do dia. Ocupava um lugar no campo do Outro. Era através dele que eram vistas, nomeadas, reconhecidas. Era ali que sabiam quem eram. Quando esse lugar desaparece, não se perde apenas uma atividade. Perde-se uma identificação. E o sujeito se vê obrigado a encontrar alguma coisa de si para além dos significantes que durante décadas o representaram.

Lacan dizia que um significante representa o sujeito para outro significante. Gosto de pensar nisso quando observo alguém que passou a vida sendo representado por aquilo que faz. Jornalista. Médica. Empresária. Artista. Professora. Mãe. A profissão, o cargo, o lugar social funcionam como nomes que organizam a existência. São importantes, evidentemente. Mas nenhum deles esgota o sujeito. Quando o nome que sustentava a identidade deixa de operar, pode surgir a sensação de que não sabemos mais quem somos. E o que aparece nesse intervalo não é uma nova identidade pronta para ocupar o lugar da antiga. Aparece a falta.

A falta é difícil de suportar. Por isso inventamos tantas maneiras de preenchê-la. Uma delas é trabalhar. Outra é ser necessário. Outra é ser admirado. Outra é não precisar de ninguém. E por aí vai.

A independência pode esconder uma dificuldade profunda de depender. E depender, em psicanálise, não é fraqueza. O bebê depende absolutamente do outro. O sujeito humano continua dependendo, embora a vida adulta construa inúmeras formas de negar essa condição. Precisamos de amor, de reconhecimento, de cuidado, de presença. Precisamos de alguém que nos escute quando não temos nada interessante para dizer. Precisamos de relações nas quais nossa utilidade não seja o fundamento do vínculo.

Para alguém que passou a vida inteira construindo valor através daquilo que faz, isso pode ser assustador. Ser útil é relativamente seguro. Ser amado é outra coisa. Ser útil estabelece uma troca. Ser amado introduz uma vulnerabilidade.

E a intimidade é o lugar onde essa diferença se torna insuportavelmente clara. Há uma diferença entre ter pessoas ao redor e ter alguém diante de quem podemos deixar de desempenhar. Intimidade é o espaço em que a performance pode descansar. Onde não precisamos ser inteligentes, interessantes, fortes, produtivos, generosos, sensatos. Onde podemos aparecer nas partes menos apresentáveis, inclusive naquelas que preferimos esconder. Para quem aprendeu cedo que o amor precisava ser conquistado, simplesmente existir diante de alguém pode ser mais difícil do que realizar qualquer coisa.

Foi aí que a solidão daquela mulher deixou de me parecer apenas uma circunstância e passou a me parecer uma questão psíquica. Existem pessoas que estão sozinhas porque a vida as colocou nessa condição. Existem pessoas que estão sozinhas porque não encontraram quem desejassem. E existem pessoas que, sem saber exatamente como, construíram uma vida em que ninguém consegue chegar muito perto. Não porque não desejem intimidade, mas porque a intimidade exige aquilo que aprenderam a evitar: espera, frustração, dependência, perda de controle, possibilidade de rejeição.

É possível passar a vida desejando profundamente uma relação e, ao mesmo tempo, fazendo tudo para não ficar à mercê dela. A solidão pode ser uma forma de controle. Quando estou sozinho, ninguém me abandona. Quando não preciso, ninguém pode me decepcionar. Quando não espero, ninguém pode frustrar minha expectativa. Quando minha vida está ocupada pelo trabalho, não preciso descobrir o que existe quando o trabalho termina.

É uma defesa brilhante. E como toda boa defesa, funciona. Até o momento em que deixa de funcionar.

Foi então que pensei naquilo que plantamos. Não como uma moral simplista, como se cada pessoa recebesse exatamente aquilo que merece, mas como uma constatação: nossas escolhas repetidas vão criando um ambiente psíquico e relacional no qual passamos a viver. Se durante quarenta anos escolhemos o trabalho em detrimento dos encontros, não é surpreendente que, aos setenta, o trabalho seja uma coisa que já não existe e os encontros também não. Se durante décadas recusamos convites porque havia sempre algo mais urgente, chega uma hora em que as pessoas param de convidar. Não por crueldade. Por adaptação. Os outros também aprendem.

Existe uma dor particular em perceber que ninguém nos abandonou de uma vez. Fomos, aos poucos, ficando menos presentes na vida dos outros até que nossa ausência deixou de ser percebida como ausência. Isso é diferente de culpa. Culpa é uma coisa mais pobre. Responsabilidade é mais difícil, porque pressupõe que, mesmo quando não escolhemos as circunstâncias que nos formaram, participamos das formas que nossa vida assume depois delas. Não escolhemos a família que tivemos, o amor que recebemos, as faltas da infância, as humilhações, os abandonos, as condições históricas, as perdas. Mas chega um momento em que podemos perguntar o que fizemos com aquilo que fizeram conosco.

Essa pergunta não absolve os pais nem condena os filhos. Ela apenas desloca o sujeito de uma posição passiva diante da própria história. Freud nos ensinou que também somos feitos daquilo que não sabemos sobre nós mesmos. A repetição é uma maneira de continuar vivendo o que não conseguimos elaborar. A análise começa, em alguma medida, quando aquilo que parecia destino começa a adquirir a possibilidade de ser lido.

Para mim, envelhecer é chegar a esse lugar, a um balanço sem contabilidade em que começamos a enxergar não apenas o que conquistamos, mas também aquilo que sacrificamos para conquistar. Para quem construiu a própria identidade em torno do trabalho, as perguntas são muito duras: quem sou eu quando não estou trabalhando? Quem sou eu quando ninguém precisa daquilo que sei fazer? Quem sou eu quando não tenho mais uma função que organize meu tempo, minha autoestima e meus encontros? E, quem consegue ficar comigo quando não tenho nada para oferecer?

Essa última pergunta toca num lugar bem primitivo. Ser amado não é a mesma coisa que ser útil. Ser procurado não é a mesma coisa que ser querido. Ser admirado não é a mesma coisa que ser conhecido. E a maior dificuldade está em suportar ser conhecido sem poder controlar completamente a imagem que o outro faz de nós.

Há uma fantasia narcísica de que, se formos suficientemente bons, poderemos finalmente garantir o amor do outro. Mas o desejo do outro não se deixa controlar. O Outro nunca nos devolve exatamente a resposta que esperamos. Podemos passar a vida tentando preencher essa falta e, ainda assim, permanecer faltantes. Lacan torna isso claro: não há objeto capaz de completar definitivamente o sujeito. A busca por reconhecimento pode ser interminável, porque o que está sendo buscado não é um prêmio, nem um cargo, nem um elogio. É uma garantia impossível de que somos, finalmente, suficientes.

E então a vida pode ficar cheia de conquistas e muito pobre de descanso.

A mesma mulher que se tornou absolutamente independente pode ter passado a vida inteira desejando ser cuidada. A mesma pessoa que diz gostar de estar sozinha pode sentir falta de companhia. A mesma que fez do trabalho uma escolha pode descobrir, quando ele termina, que também havia ali uma fuga. Nada disso torna falsa a independência, nem invalida as conquistas. Apenas mostra que somos feitos de motivos que não conhecemos inteiramente.

Foi pensando nela que reafirmo que a solidão da maturidade é uma revelação. Ela retira os ruídos. Tira o trabalho, os compromissos, a urgência, as pessoas que circulavam porque havia uma função a cumprir. E deixa uma pergunta, que não está ligada a quantidade de amigos ou frequência de encontros, mas sobre nossa capacidade de vínculo: conseguimos deixar alguém entrar? Conseguimos precisar? Conseguimos sustentar uma relação quando ela deixa de ser conveniente? Conseguimos oferecer presença quando não há nada a ganhar com ela?

Não há necessidade de patologizar quem escolhe uma vida mais solitária. Existem pessoas que encontram no silêncio uma liberdade legítima, uma forma de recolhimento, uma intimidade consigo mesmas que não precisa ser corrigida. O problema começa quando a solidão deixa de ser escolha e passa a ser apenas o resultado natural de uma vida que nunca encontrou tempo para cultivar aquilo que não era urgente.

Relações precisam de tempo improdutivo. É difícil de aceitar isso numa cultura que transformou até o descanso em produtividade. Relações exigem repetição, disponibilidade, inconveniências, presença sem finalidade. Não se constrói intimidade apenas nas brechas da agenda. Não se ama alguém somente quando sobra tempo. E passamos décadas acreditando que, quando tivéssemos finalmente tempo, viveríamos. Só que o tempo chegou e algumas pessoas já não estavam mais lá.

Existe nisso uma dimensão trágica, mas também uma possibilidade de elaboração. Enquanto houver desejo de encontro, alguma coisa permanece aberta. A psicanálise não promete uma vida sem falta. Promete, quando muito, a possibilidade de não ser inteiramente governado pela falta. Podemos reconhecer nossas repetições. Podemos descobrir as defesas que um dia nos salvaram e que hoje organizam nosso sofrimento. Podemos perceber que aquilo que chamávamos de força continha medo; que aquilo que chamávamos de independência escondia dificuldade de depender; que aquilo que chamávamos de dedicação era uma maneira de não ficar diante de nós mesmos.

E ainda é possível plantar.

Não para recuperar o tempo perdido, porque o tempo perdido não se recupera. Nem para fabricar, na velhice, uma vida social que pareça uma reparação daquilo que não foi vivido. Mas para fazer uma coisa mais simples: aprender a estar com alguém sem precisar ser alguma coisa para essa pessoa. Aprender a ficar. A telefonar. A aceitar um convite. A deixar que alguém cuide. A dizer que sentiu falta. A assumir que precisa. É um movimento mais radical de uma vida construída sobre a independência: descobrir que precisar do outro não nos torna menos inteiros.

Quando a paciente saiu da sala, fiquei alguns minutos olhando para a poltrona vazia. Pensei que a análise tem algo de curioso. Uma pessoa entra, fala durante cinquenta minutos e vai embora, e o que permanece não é exatamente aquilo que ela disse. Permanece o que se produziu entre o que ela disse e aquilo que foi possível escutar. Um intervalo. Uma falta. Uma pergunta que não se fecha.

Naquela noite, fiquei pensando que a maturidade não é apenas o momento em que colhemos aquilo que plantamos. É também a época da vida em que conseguimos olhar para o terreno e reconhecer nossas escolhas sem precisar transformá-las em culpa. O que foi plantado está ali. Algumas coisas floresceram. Outras secaram. Algumas deram frutos que não esperávamos. Outras ocuparam espaço demais. Ainda resta algum terreno.

Concluo que a ideia não é perguntar: por que estamos sozinhos? Mas perceber como fomos construindo essa solidão ao longo da vida. E, quando conseguimos olhar para isso com honestidade, surge uma nova pergunta: o que ainda podemos construir? O que podemos fazer de diferente? A porta continua ali. 

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

Postagens Mais Vistas