Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Se eu pudesse conversar com todas as minhas versões

Se eu pudesse conversar com todas as minhas versões, acho que começaria pela criança que eu fui. Eu diria para ela não ter tanta pressa de crescer. Diria que algumas coisas que hoje parecem enormes vão perder o tamanho com o tempo, e que outras, que ela nem imagina, vão se tornar importantes. Diria para ela continuar sentindo tudo com essa intensidade, mesmo quando disserem que é demais. Porque, um dia, ela vai entender que sentir profundamente nunca foi uma fraqueza, foi uma das coisas que a tornou quem é.

Eu diria que ela não precisa ser perfeita para ser amada. Que não precisa aprender tão cedo a esconder o que sente. Que pode chorar, pode ter medo, pode não saber. Que não precisa carregar o mundo nas costas só porque aprendeu a parecer forte.

Depois, eu conversaria com quem eu era alguns anos atrás. Talvez eu olhasse para essa versão com uma mistura de carinho e tristeza. Eu diria: eu sei o quanto você tentou. Sei das escolhas que fez tentando acertar. Sei de quantas vezes você acreditou que precisava dar conta. Sei de quantas vezes você transformou responsabilidade em obrigação, cuidado em vigilância e força em silêncio.

Eu sei o quanto você trabalhou. Sei o quanto estudou, o quanto se dedicou, o quanto tentou fazer as coisas da melhor maneira possível. Sei também das vezes em que você acreditou que precisava saber o caminho antes de começar a percorrê-lo. Hoje eu consigo olhar para você com uma compreensão que naquela época eu não tinha. É muito fácil julgar as nossas decisões depois que conhecemos as consequências. O passado parece organizado quando já sabemos como a história terminou, mas, quando estamos vivendo, não temos esse privilégio. Naquele momento, existem apenas possibilidades, dúvidas, desejos, medos e as ferramentas que conseguimos reunir para fazer uma escolha.

Eu diria para essa mulher que ela não precisava ter tanta certeza. Que não precisava transformar cada decisão em uma definição sobre quem era. Que mudar de ideia não significava fracassar, que reconhecer um limite não significava fraqueza e que não saber o próximo passo não significava estar perdida. Algumas coisas só se tornam compreensíveis depois que passam. Algumas escolhas só revelam seu significado anos mais tarde. Há experiências que, quando acontecem, parecem apenas acontecimentos, mas que depois percebemos terem participado de uma transformação que ainda não conseguíamos enxergar.

Eu também diria que ela poderia ter sido mais gentil consigo mesma. Não para apagar sua exigência, sua disciplina ou sua vontade de fazer bem feito, porque essas características também construíram muito do que existe hoje, mas para que ela pudesse perceber que não precisava transformar todas as áreas da vida em lugares de desempenho. Nem tudo precisava ser resolvido. Nem tudo precisava ser perfeito. Nem toda dificuldade precisava ser vencida imediatamente. Algumas coisas precisavam apenas ser vividas.

Quando penso na mulher que fui, percebo o quanto existe uma diferença entre olhar para uma trajetória de dentro e olhar para ela depois de algum tempo. Enquanto estamos vivendo, não enxergamos uma trajetória. Enxergamos dias. Decisões. Problemas. Projetos. Relações. Responsabilidades. Contas. Prazos. Mudanças. O sentido aparece depois, quando conseguimos reunir acontecimentos que, na época, pareciam não ter nenhuma relação entre si.

Minha história profissional, por exemplo, durante muito tempo me pareceu pertencer a um universo muito diferente daquele em que estou hoje. Minha formação inicial foi em Ciência da Computação. Depois vieram o mestrado em Administração e a pós-graduação em Engenharia de Produção. Trabalhei durante anos em empresas de tecnologia, passando por diferentes setores e experiências, com implantação de sistemas, gerenciamento de projetos, operações de negócios, contratos, treinamento técnico e gestão de equipes. Ocupando posições de liderança, precisei aprender a tomar decisões, administrar conflitos, acompanhar resultados, desenvolver pessoas, estruturar processos e lidar com situações em que nem sempre existia uma resposta evidente.

Quando olho para essa história a partir de quem sou hoje, não vejo mais uma estrada que ficou para trás. Vejo uma parte importante de mim. A tecnologia me ensinou a pensar de determinada maneira. A gestão me ensinou a lidar com estruturas, processos e responsabilidades. A liderança me colocou diante da complexidade das relações humanas. E foi justamente nesse contato cotidiano com pessoas, expectativas, conflitos, inseguranças, ambições e histórias particulares que a dimensão subjetiva foi ganhando cada vez mais espaço dentro das minhas perguntas.

Eu trabalhava com sistemas, mas estava cercada de pessoas. E, com o tempo, comecei a me interessar cada vez mais pelo que acontecia com elas. Um sistema pode ser desenhado, testado, corrigido e implementado. Uma pessoa não funciona assim. Uma organização pode criar processos para lidar com determinadas situações, mas nenhuma estrutura consegue eliminar completamente o imprevisível que existe nas relações humanas. Uma empresa pode definir metas, indicadores e responsabilidades, mas não consegue determinar o que uma promoção significará para alguém, o que uma demissão despertará em outra pessoa ou por que um profissional permanece durante anos em uma situação que afirma desejar abandonar. Por trás de um cargo existe uma história. Por trás de uma decisão profissional existe uma subjetividade. Por trás de uma avaliação de desempenho existe alguém que pode experimentar reconhecimento, vergonha, orgulho, medo, alívio ou fracasso. Uma mesma situação pode produzir efeitos completamente diferentes em pessoas diferentes, porque ninguém chega ao trabalho apenas com suas competências técnicas. Cada pessoa leva consigo sua história, seus vínculos, suas expectativas, suas inseguranças, suas experiências anteriores e sua maneira singular de interpretar aquilo que vive.

Essa percepção foi se tornando cada vez mais importante para mim. Eu passei a perceber que não era possível compreender completamente o trabalho sem considerar o sujeito que trabalha. Não era possível falar apenas sobre produtividade sem pensar no significado que produzir tem para cada pessoa. Não era possível falar apenas sobre liderança sem pensar na relação de cada um com autoridade, reconhecimento, responsabilidade e poder. Não era possível falar apenas sobre carreira sem perguntar o que uma carreira representa para alguém, o que está sendo buscado quando se busca uma promoção e o que acontece quando aquilo que foi desejado durante tanto tempo finalmente é alcançado.

Foi nesse lugar que meu interesse pela Psicologia encontrou uma direção mais concreta.

A Psicologia sempre esteve presente como interesse, mesmo antes de se tornar minha profissão. A mente humana, o comportamento, as relações, os conflitos e os processos subjetivos sempre me despertaram curiosidade. Eu queria compreender. Essa palavra atravessa boa parte da minha história. Primeiro vieram os sistemas e a lógica das estruturas. Depois vieram as organizações e a complexidade dos processos. E, em algum momento, percebi que a pergunta que mais me mobilizava não estava apenas em como as coisas funcionavam, mas em como as pessoas viviam aquilo que acontecia com elas.

A formação em Psicologia não apagou minha trajetória anterior. Pelo contrário. Ela acrescentou uma nova possibilidade de leitura. A Psicanálise aprofundou ainda mais essa mudança de perspectiva porque me colocou diante de algo que contraria boa parte da lógica com a qual eu havia trabalhado durante anos: nem tudo pode ser organizado, previsto, explicado ou controlado. Eu vim de uma formação em que encontrar problemas e construir soluções fazia parte do cotidiano. Aprendi a procurar causas, identificar falhas, criar estruturas e implementar melhorias. Na clínica, precisei aprender outra coisa. Precisei aprender a sustentar a pergunta antes de correr para a resposta. Precisei aprender que o sofrimento de uma pessoa não é um problema técnico que precisa ser imediatamente corrigido. Precisei aprender que aquilo que não faz sentido de imediato também merece ser escutado.

A Psicanálise me ensinou a prestar atenção ao que retorna, ao que se repete, ao que escapa, ao que se cala e ao que aparece de maneira inesperada. Ensinou-me que o sujeito não é completamente transparente para si mesmo. Existe uma dimensão da experiência humana que não se apresenta de maneira direta e organizada. Existem desejos que desconhecemos, conflitos que não reconhecemos imediatamente, palavras que nos atravessam sem que saibamos por quê e repetições que continuam acontecendo mesmo quando conscientemente desejamos outra coisa.

Isso também mudou a maneira como passei a olhar para minhas próprias escolhas.

Porque estudar o outro sem olhar para si seria uma contradição. Minha própria análise pessoal tornou-se parte essencial desse percurso. Aprendi, na experiência e na formação, que a escuta clínica não se sustenta apenas no conhecimento teórico. É necessário um trabalho contínuo sobre si, uma disposição para reconhecer os próprios pontos cegos, os próprios limites, as próprias questões e aquilo que pode interferir na maneira como escutamos alguém. Essa experiência me fez compreender que autoconhecimento não é chegar a um ponto em que finalmente sabemos tudo sobre nós mesmos. É construir uma relação mais honesta com aquilo que sabemos e com aquilo que ainda não sabemos.

E essa descoberta é importante quando penso nas minhas diferentes versões.

Durante muito tempo, imaginei que amadurecer significava deixar determinadas versões de mim para trás. Como se crescer fosse substituir uma pessoa por outra. Como se a criança tivesse desaparecido quando me tornei adulta, como se a jovem que fez determinadas escolhas não tivesse mais relação com a profissional que me tornei, como se a profissional de tecnologia tivesse deixado de existir quando escolhi a Psicologia.

Hoje vejo de outra forma. Nós não somos uma sucessão de pessoas que se substituem. Somos uma história que se acumula, se transforma, se reorganiza. Algumas experiências deixam marcas que permanecem. Algumas crenças são revistas. Algumas características se fortalecem. Outras perdem espaço. Algumas partes de nós precisam ser elaboradas. Outras continuam fazendo sentido por toda a vida.

A criança que eu fui ainda existe na minha curiosidade. Na minha vontade de aprender. Na minha necessidade de compreender. Na capacidade de me impressionar com determinadas coisas. Na sensibilidade que permaneceu, apesar de todas as experiências que me ensinaram a ser racional, objetiva e eficiente.

A profissional que eu fui também permanece. Está na forma como organizo ideias, na importância que dou ao estudo, na responsabilidade que tenho diante do trabalho e na capacidade de olhar para problemas complexos sem me assustar imediatamente com eles. Está também na compreensão de que pessoas e sistemas precisam ser vistos dentro do contexto em que estão inseridos.

A líder que eu fui permanece na maneira como compreendo os efeitos que uma posição de autoridade pode produzir. Permanece na atenção que tenho às palavras, aos vínculos e às relações de poder. Permanece na certeza de que uma pessoa pode carregar uma história inteira por trás de uma atitude que, vista de fora, parece apenas profissional.

E a psicóloga que sou hoje não apagou nada disso. Ela escuta tudo isso de outro lugar.

Talvez por isso eu tenha tanto interesse nas pessoas que vivem o mundo do trabalho de maneira intensa. Eu conheço a linguagem desse universo. Conheço a pressão por resultados, a necessidade de corresponder, a responsabilidade de liderar, o peso de uma decisão, a ansiedade diante de uma mudança, a expectativa de reconhecimento e a sensação de que é preciso estar sempre preparado para o próximo desafio.

Também conheço a sedução desse mundo.

O trabalho pode oferecer reconhecimento, pertencimento, identidade, autonomia, desafios intelectuais e uma sensação genuína de realização. Não se trata de considerar o trabalho apenas como fonte de sofrimento. Ele também pode ser uma experiência profundamente significativa. O problema aparece quando o trabalho começa a ocupar todo o espaço disponível para a construção de uma identidade.

Quando uma pessoa passa a acreditar que é aquilo que faz, qualquer ameaça ao trabalho pode ser vivida como uma ameaça ao próprio eu. Uma promoção deixa de ser apenas uma mudança de posição e passa a carregar um significado sobre valor, competência e reconhecimento. Uma avaliação negativa pode ser sentida não apenas como um feedback sobre o desempenho, mas como uma confirmação de uma antiga sensação de não ser suficientemente boa. Uma demissão pode ultrapassar a ruptura profissional e atingir diretamente a maneira como alguém se enxerga. Até mesmo uma pausa, que deveria representar descanso, pode ser acompanhada pela sensação de estar ficando para trás, de perder relevância ou de deixar de ser necessária. O erro, que deveria fazer parte de qualquer processo de trabalho e de aprendizagem, pode ser vivido como uma ameaça à própria identidade. Quando isso acontece, a fronteira entre quem somos e aquilo que fazemos se torna tão estreita que já não conseguimos perceber com clareza onde termina o profissional e começa o sujeito. É nesse lugar que a escuta clínica ganha importância. Não para oferecer fórmulas sobre como equilibrar a vida, nem para transformar o sofrimento em uma questão de produtividade ou apresentar estratégias prontas para lidar com o estresse, mas para compreender o que está realmente em jogo para aquela pessoa. O que significa fracassar para ela? O que significa ser reconhecida? O que está sendo buscado naquela promoção que parece tão importante? Por que dizer não se tornou tão difícil? O que faz alguém permanecer em uma condição que afirma não suportar mais? O que existe por trás da culpa quando finalmente consegue descansar? O que está sendo protegido quando alguém diz que não pode parar? Essas perguntas não encontram respostas universais porque cada sujeito estabelece uma relação própria com aquilo que vive. A mesma situação que para uma pessoa representa uma oportunidade pode, para outra, representar uma ameaça. A mesma promoção que produz satisfação em alguém pode despertar ansiedade em outra pessoa. O mesmo reconhecimento que fortalece um sujeito pode criar, em outro, a obrigação de provar continuamente que merece estar naquele lugar. É justamente essa singularidade que me interessa na clínica. Ao longo da minha trajetória, aprendi que escutar alguém não significa apenas ouvir aquilo que foi dito, mas prestar atenção à maneira como essa pessoa constrói sua narrativa, às palavras que escolhe, às expressões que retornam, às contradições que aparecem, aos silêncios que interrompem uma história e às situações que parecem se repetir. Existe uma diferença importante entre ouvir uma história e acompanhar o modo como alguém se coloca dentro dela. Quando uma pessoa conta o que viveu, ela também revela, muitas vezes sem perceber, a maneira como interpreta a própria experiência, aquilo que considera importante, aquilo que minimiza, aquilo que justifica e aquilo que permanece difícil de nomear. A escuta clínica abre espaço para que essa narrativa possa ser interrogada pelo próprio sujeito, sem que seja necessário oferecer imediatamente uma explicação ou uma conclusão.

Essa forma de escutar exige tempo, e o tempo se tornou um elemento cada vez mais raro atualmente. Estamos acostumados à velocidade das respostas, à disponibilidade permanente de informações e à promessa de que praticamente qualquer dificuldade pode ser solucionada por meio da ferramenta adequada. A tecnologia tornou muitas coisas mais rápidas e eficientes, mas a subjetividade não acompanha necessariamente essa velocidade. Uma experiência pode levar anos para adquirir um significado diferente. Uma perda pode precisar de tempo para ser elaborada. Uma escolha pode continuar sendo revisitada muito depois de ter sido feita. Uma palavra ouvida na infância pode permanecer silenciosamente presente até que uma experiência posterior lhe dê outro sentido. Existem questões que precisam retornar, ser contadas novamente, olhadas por outros ângulos, antes que o sujeito consiga reconhecer nelas alguma coisa de sua própria história. A clínica respeita esse tempo porque nem tudo aquilo que importa pode ser acelerado.

Essa é uma diferença que considero especialmente significativa quando penso na minha própria trajetória. Durante muitos anos, trabalhei em um universo no qual identificar um problema, compreender suas causas e encontrar uma solução fazia parte da rotina. Aprendi a estruturar processos, organizar projetos, estabelecer prioridades, administrar recursos e buscar respostas diante de situações complexas. Essa experiência foi extremamente importante para minha formação e continua presente na maneira como penso e trabalho. Ao mesmo tempo, a experiência clínica me ensinou que existe uma dimensão da vida que não pode ser tratada segundo a mesma lógica. Uma pessoa não é um sistema que apresenta uma falha e precisa ser corrigido. O sofrimento não é um problema técnico. Uma relação não pode ser redesenhada como um fluxo de processos. O desejo não responde a uma lógica de eficiência. E o sujeito não cabe inteiramente em nenhuma explicação.

Foi também nesse ponto que o estudo da Psicologia e da Psicanálise passou a dialogar de maneira tão profunda com a minha trajetória anterior. Sempre fui uma pessoa ligada ao estudo. Antes mesmo de ingressar na graduação em Psicologia, eu já buscava compreender diferentes perspectivas sobre a mente e o comportamento humano. A leitura da obra de Freud, o contato com autores de outras tradições e, posteriormente, a formação acadêmica e clínica consolidaram em mim a convicção de que o trabalho com o sujeito exige estudo permanente. Não considero o conhecimento algo que se adquire de uma vez e depois permanece estático. Quanto mais estudo, mais percebo a extensão daquilo que ainda não conheço. Quanto mais me aproximo de uma teoria, mais consigo enxergar seus alcances e seus limites. E quanto mais escuto pessoas, mais evidente se torna que nenhuma teoria pode substituir a singularidade de quem está diante de nós.

Essa percepção também está relacionada à minha própria análise pessoal. O trabalho sobre si não é, para mim, uma etapa burocrática da formação, mas uma experiência fundamental para quem pretende ocupar o lugar de escuta. É preciso reconhecer que também somos atravessados por nossa história, por nossos desejos, por nossas expectativas e por nossos pontos cegos. Não existe uma posição de absoluta neutralidade no sentido de uma ausência completa de subjetividade, mas existe uma responsabilidade ética de trabalhar continuamente aquilo que pode interferir na escuta do outro. A análise pessoal, o estudo teórico e a supervisão fazem parte desse percurso e sustentam uma formação que não se encerra quando termina uma etapa acadêmica. Ser psicóloga e psicanalista significa continuar estudando, continuar se interrogando e continuar reconhecendo que o sujeito que chega à clínica nunca é apenas aquilo que conseguimos compreender sobre ele.

Essa posição de escuta também está relacionada à maneira como compreendo a diferença. Minha trajetória profissional me colocou em contato com pessoas de diferentes formações, culturas, experiências e maneiras de pensar. Os projetos internacionais de que participei, nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália, ampliaram minha percepção sobre a diversidade dos contextos em que as pessoas vivem e trabalham. Quanto mais entramos em contato com outras realidades, mais difícil se torna sustentar a ideia de que existe uma única maneira correta de construir uma vida. O que em determinado contexto é considerado sucesso pode representar outra coisa em um contexto diferente. O que uma pessoa entende como segurança pode ser vivido por outra como aprisionamento. O que para alguém significa liberdade pode despertar medo em outra pessoa. A singularidade não é um detalhe da experiência humana. Ela é parte constitutiva dela.

Por isso, na clínica, não me interessa oferecer ao outro uma forma ideal de viver. Interessa-me compreender o que está sendo vivido e como aquela pessoa se relaciona com a própria história. Essa posição exige uma ética de não julgamento, não no sentido de deixar de pensar ou de considerar as consequências das escolhas, mas de não partir de uma ideia prévia sobre aquilo que alguém deveria desejar, sentir ou ser. Cada sujeito precisa encontrar uma maneira própria de se posicionar diante daquilo que vive, e o trabalho clínico pode oferecer um espaço para que essa posição seja interrogada.

Quando penso nisso, volto novamente à criança que fui. Hoje eu consigo perceber que não precisava existir uma divisão tão rígida entre a menina curiosa, a profissional de tecnologia, a mulher que ocupou posições de liderança, a estudante de Psicologia e a psicanalista que sou. Durante muito tempo, poderia ter olhado para essas fases como caminhos diferentes, quase como se uma tivesse precisado terminar para que outra pudesse começar. Hoje reconheço uma continuidade mais profunda. Em todas elas existia uma mesma disposição para observar, compreender, organizar perguntas e tentar encontrar sentido naquilo que estava diante de mim. O objeto dessa curiosidade foi mudando, assim como eu mudei, mas a curiosidade permaneceu.

A tecnologia me ensinou a pensar em sistemas e estruturas. A gestão me ensinou sobre organizações e processos. A liderança me colocou diante da complexidade das relações humanas. A Psicologia ampliou minha compreensão sobre a subjetividade. A Psicanálise me ensinou a escutar aquilo que não aparece imediatamente. Nenhuma dessas experiências precisa ser apagada para que outra tenha valor. Elas se sobrepõem e fazem parte de uma mesma história. A minha trajetória não precisa ser linear para ser coerente. Na verdade, olhando para trás, percebo que a linearidade é uma construção que fazemos depois que as coisas aconteceram. Enquanto vivemos, não sabemos necessariamente onde cada experiência vai nos levar.

Foi preciso viver o trabalho em tecnologia para compreender determinadas dimensões das organizações. Foi preciso liderar pessoas para perceber que uma equipe nunca é apenas uma estrutura funcional. Foi preciso conviver com as exigências do mundo corporativo para compreender melhor o impacto que o trabalho pode ter sobre a vida subjetiva. Foi preciso estudar Psicologia para aprofundar perguntas que já me acompanhavam. Foi preciso estudar Psicanálise para compreender que escutar exige outra relação com o tempo, com o conhecimento e com aquilo que não sabemos. Foi preciso passar pela própria análise para experimentar, em primeira pessoa, o que significa colocar a própria história em trabalho.

Quando olho para trás, não quero transformar essa trajetória em uma sequência perfeitamente planejada. Não foi. Muitas escolhas foram feitas sem que eu soubesse exatamente aonde me levariam. Algumas decisões nasceram de desejos claros; outras foram tomadas diante das circunstâncias disponíveis naquele momento. Algumas experiências foram profundamente importantes, outras foram difíceis, e algumas só ganharam significado muito tempo depois. Não preciso organizar tudo isso como se cada acontecimento tivesse sido necessário para que eu chegasse exatamente onde estou. A vida não precisa ter obedecido a um plano para que possamos reconhecer sentido nela.

Também não quero olhar para as minhas versões anteriores como se elas tivessem cometido erros que a mulher de hoje seria capaz de evitar. Seria injusto. A pessoa que fui não tinha o conhecimento que tenho agora. Não conhecia as consequências das escolhas que ainda faria. Não sabia quais caminhos se abririam, quais relações permaneceriam, quais mudanças aconteceriam. Ela estava vivendo com as informações, os desejos, os medos e as possibilidades que tinha naquele momento. Olhar para ela com os olhos de hoje seria esquecer que eu também precisei passar por tudo isso para me tornar quem sou.

Por isso, quando penso nas minhas diferentes versões, não quero colocá-las em julgamento. Quero compreendê-las. Quero reconhecer a menina que sentia intensamente, a jovem que buscava seu caminho, a profissional que aprendeu a assumir responsabilidades, a líder que precisou lidar com pessoas e decisões, a estudante que continuou buscando conhecimento e a mulher que encontrou na Psicologia e na Psicanálise uma maneira de aprofundar uma pergunta que sempre esteve presente: o que faz de nós quem somos?

Essa pergunta atravessa o trabalho, as relações, a família, a carreira, a maneira como nos apresentamos ao mundo e até a maneira como contamos nossas próprias histórias. Quando dizemos quem somos, selecionamos determinadas informações. Falamos da nossa profissão, da nossa formação, das nossas experiências, das nossas conquistas. Tudo isso é verdadeiro, mas nenhuma dessas coisas esgota uma pessoa. Um currículo registra uma parte da trajetória. Uma biografia registra outra. Uma conversa revela outra. Uma análise pode colocar em movimento aspectos que nunca apareceriam em uma apresentação formal. Existe sempre algo que permanece além da narrativa que conseguimos construir sobre nós mesmos.

É justamente por isso que continuo interessada na escuta. Escutar significa abrir espaço para que uma pessoa possa encontrar palavras para aquilo que ainda não conseguiu organizar. Significa permitir que uma história seja contada sem a obrigação de chegar rapidamente a uma conclusão. Significa reconhecer que, muitas vezes, o sujeito já sabe racionalmente o que deveria fazer, mas ainda precisa compreender por que não consegue fazê-lo. Significa considerar que uma dificuldade aparentemente objetiva pode estar relacionada a questões muito mais profundas. E significa aceitar que a resposta não pertence ao profissional que escuta, mas precisa ser construída pelo próprio sujeito.

Essa compreensão também modificou a maneira como penso o conhecimento. Sempre fui muito ligada ao estudo e continuo acreditando profundamente em sua importância. Ao mesmo tempo, aprendi que conhecer uma teoria não significa conhecer uma pessoa. Uma teoria pode oferecer instrumentos para pensar, mas não pode substituir o encontro com a singularidade. O conhecimento não nos dá autorização para acreditar que sabemos mais sobre o outro do que ele próprio sabe. Ele nos dá melhores condições para formular perguntas, reconhecer nuances e sustentar uma escuta mais responsável.

Essa é uma posição que considero essencial na clínica. Existe responsabilidade no lugar que ocupamos, mas também existe humildade. Não estamos diante de pessoas para dizer como elas devem viver. Estamos diante de sujeitos que possuem uma história que merece ser escutada e interrogada. O sofrimento pode ser compreendido, elaborado e transformado, mas não existe uma fórmula universal para isso. Cada pessoa precisa encontrar sua própria maneira de lidar com aquilo que a constitui.

Quando penso novamente naquela criança, percebo que muitas das coisas que hoje fazem parte de mim já estavam presentes de alguma forma. A curiosidade, a intensidade, a vontade de compreender, a atenção às pessoas, a busca por conhecimento. O que mudou foi a maneira de olhar para tudo isso. Durante uma parte da vida, procurei respostas. Hoje me interesso também pela qualidade das perguntas. Durante anos, aprendi a resolver problemas. Hoje reconheço o valor de permanecer diante de uma questão antes de transformá-la em problema. Durante muito tempo, o conhecimento esteve associado à capacidade de saber. Hoje ele também está associado à capacidade de reconhecer o que ainda não sabemos.

Essa mudança não representa uma rejeição daquilo que fui. Representa uma ampliação. A mulher que sou hoje não precisou abandonar a profissional que fui. A psicóloga não precisou apagar a pessoa formada em exatas. A psicanalista não precisou deixar de valorizar estrutura, conhecimento e pensamento. Todas essas dimensões convivem em mim e participam da maneira como vejo o mundo.

Quando penso nas minhas versões anteriores, sinto mais vontade de conversar com elas do que de corrigi-las. Eu gostaria de contar à criança que ela não precisava ter tanta pressa de crescer, mas não gostaria de tirar dela a experiência de descobrir. Gostaria de dizer à jovem que algumas escolhas só seriam compreendidas mais tarde, mas não gostaria de retirar dela o direito de experimentar. Gostaria de dizer à profissional que nem tudo precisava ser resolvido imediatamente, mas não gostaria de diminuir a capacidade que ela desenvolveu de enfrentar situações complexas. Gostaria de dizer à mulher que ocupou posições de liderança que cuidar de pessoas não significava controlar seus caminhos, mas reconheço que foi justamente a experiência de liderar que me ensinou muito sobre os limites do controle.

Cada versão tinha seu tempo e suas necessidades. Cada uma estava tentando construir alguma coisa. E eu não quero mais exigir que nenhuma delas soubesse antecipadamente aquilo que só consegui compreender depois.

Não posso voltar ao passado levando comigo o conhecimento que tenho hoje. E não sei se gostaria de fazer isso. Retirar todas as dúvidas também retiraria uma parte importante da experiência de descobrir. Algumas das coisas mais significativas da minha trajetória aconteceram porque eu não sabia exatamente onde estava indo. Algumas perguntas só apareceram porque uma resposta anterior deixou de ser suficiente. Algumas mudanças só foram possíveis porque uma forma antiga de viver já não dava conta daquilo que eu estava me tornando.

É por isso que hoje consigo olhar para a minha trajetória com mais tranquilidade. Não porque tudo tenha sido fácil ou porque eu considere todas as escolhas acertadas, mas porque não sinto mais a necessidade de transformar o passado em um tribunal. Posso reconhecer erros sem transformar esses erros em identidade. Posso reconhecer dores sem precisar fazer delas o centro da minha história. Posso reconhecer mudanças sem considerar que aquilo que veio antes perdeu seu valor.

A história de uma pessoa não é feita apenas das decisões que deram certo. Ela também é feita das hesitações, das mudanças de direção, das experiências que não saíram como esperado e das coisas que só foram compreendidas depois. Existe uma parte da maturidade que consiste em conseguir olhar para tudo isso sem precisar reduzir a própria história a uma narrativa de sucesso ou fracasso.

Hoje, quando penso em quem sou, não encontro uma única resposta. Sou psicóloga e psicanalista, mas também sou resultado de uma longa trajetória na tecnologia, na gestão e na liderança. Sou alguém que passou muitos anos trabalhando com sistemas e organizações e que hoje se dedica a compreender sujeitos. Sou alguém que valoriza profundamente o conhecimento, mas que aprendeu a respeitar os limites de qualquer teoria. Sou alguém que acredita na importância da escuta porque experimentou, ao longo da própria vida, o quanto uma pessoa pode mudar quando encontra um espaço em que sua história pode ser dita sem precisar ser imediatamente corrigida.

E ainda existe muito que não sei sobre mim. Isso não me incomoda como antes.

Não sinto mais que preciso chegar a uma definição final para poder dizer quem sou. Uma pessoa não é um conceito acabado. Somos atravessados pelo tempo, pelas experiências, pelos encontros e pelas perdas. Mudamos de posição diante das coisas. Reinterpretamos acontecimentos. Descobrimos desejos. Abandonamos outros. Aprendemos a dizer não. Aprendemos a dizer sim. Descobrimos limites que antes não reconhecíamos e possibilidades que antes não conseguíamos imaginar.

A vida não termina de nos apresentar a nós mesmos.

Por isso, quando penso em todas as minhas versões, não quero escolher qual delas é a verdadeira. Todas foram verdadeiras dentro do tempo em que existiram. A criança que eu fui é parte de mim. A jovem que fez escolhas que hoje compreendo de outra maneira também é. A profissional de tecnologia continua presente na forma como penso. A líder continua presente na maneira como compreendo relações e responsabilidades. A estudante continua presente na necessidade de continuar aprendendo. A psicóloga está presente na escuta. A psicanalista está presente na disposição de permanecer diante das perguntas.

E eu continuo me tornando.

Essa talvez seja a única certeza que consigo sustentar sem precisar transformá-la em uma resposta definitiva: ainda estou em processo. Ainda posso mudar. Ainda posso aprender. Ainda posso descobrir coisas sobre mim que hoje não conheço. Ainda posso encontrar novas formas de trabalhar, de pensar, de escrever, de escutar e de estar com as pessoas. Ainda posso ser surpreendida pela minha própria história.

Quando penso nisso, volto à criança do início.

Eu gostaria de dizer a ela que ela pode diminuir o passo. Que não precisa correr para chegar a uma versão pronta de si mesma. Que não existe uma versão final esperando no futuro, como se a vida fosse uma sequência de etapas até finalmente alcançarmos quem deveríamos ser. Existe o caminho, e existe a pessoa que vai se transformando enquanto caminha.

Eu gostaria de dizer a ela que sentir profundamente não é algo de que precise se envergonhar. Que sua curiosidade vai acompanhá-la por muito tempo. Que sua vontade de compreender vai levá-la por caminhos que ela ainda não consegue imaginar. Que ela vai conhecer o mundo da tecnologia, da gestão, da liderança, da Psicologia e da Psicanálise. Que vai descobrir que todas essas coisas podem conversar entre si. Que vai perceber que sua história nunca foi tão fragmentada quanto parecia.

E diria também que ela não precisa ter medo de mudar. Porque algumas mudanças não são abandono. São continuidade.

Há caminhos que parecem novos quando, na verdade, estão nos aproximando de perguntas que carregamos há muito tempo. Há escolhas que parecem rupturas quando, olhando de perto, revelam uma busca que já estava presente. Há momentos em que pensamos estar começando uma nova história e descobrimos, anos depois, que estávamos apenas dando outro nome a uma pergunta antiga.

O ChatGPT disse:

A minha pergunta continua sendo o humano: o que nos move, o que nos faz sofrer, o que desejamos, o que repetimos sem compreender inteiramente, o que tentamos esconder de nós mesmos e dos outros, o que buscamos nas relações que estabelecemos e o que fazemos com aquilo que recebemos da nossa história. Interessa-me compreender não apenas aquilo que uma pessoa faz, mas também aquilo que existe por trás de suas escolhas, das suas dúvidas, das suas contradições e das formas que encontra para seguir vivendo. Interessa-me aquilo que não aparece imediatamente, aquilo que não pode ser reduzido a um comportamento observável ou a uma explicação pronta, porque é justamente nessa dimensão mais complexa e singular que encontro uma das maiores riquezas da experiência humana.

Não tenho a pretensão de responder definitivamente a essas perguntas, porque quanto mais estudo, escuto e observo, mais compreendo que algumas questões não se encerram em uma resposta. Elas se transformam à medida que nós também nos transformamos. Uma pergunta que fazemos aos vinte anos pode continuar conosco aos quarenta, mas já não significa exatamente a mesma coisa. A experiência modifica aquilo que perguntamos, assim como modifica aquilo que conseguimos escutar. Por isso, hoje prefiro permanecer em uma posição de curiosidade, continuar estudando, escrevendo, pensando e escutando, sem a necessidade de transformar tudo aquilo que encontro em uma conclusão. Existe, para mim, um valor muito grande em poder permanecer diante de uma questão, reconhecendo que nem sempre compreender significa chegar imediatamente a uma resposta.

Quando olho para a minha trajetória, percebo que essa disposição para continuar aprendendo atravessa diferentes momentos da minha vida. Ela estava presente quando escolhi a Ciência da Computação, quando me aprofundei em Administração e Engenharia de Produção, quando construí minha carreira na tecnologia, quando assumi posições de liderança e passei a lidar mais diretamente com pessoas, quando decidi estudar Psicologia e, posteriormente, quando encontrei na Psicanálise uma forma de aprofundar questões que já me acompanhavam há muito tempo. Em cada uma dessas etapas, eu estava diante de um universo diferente, mas existia uma continuidade que só consigo enxergar agora. Havia sempre o desejo de compreender melhor, de ir além da superfície, de entender como as coisas funcionam e, principalmente, de entender o que acontece com as pessoas dentro das estruturas que construímos.

Talvez seja por isso que hoje eu não veja minha trajetória como uma sequência de mudanças, mas como um percurso que foi ganhando novas camadas. A tecnologia não ficou para trás quando entrei na Psicologia. A experiência em gestão não deixou de existir quando comecei a atuar na clínica. A liderança não desapareceu quando passei a ocupar outro lugar diante das pessoas. Tudo isso continua fazendo parte da minha maneira de pensar e de escutar. A diferença é que hoje consigo olhar para essas experiências com outra perspectiva e perceber que cada uma delas me ensinou alguma coisa que continua presente. A formação em exatas me ensinou a buscar estrutura e coerência; a experiência profissional me ensinou sobre organizações, responsabilidades e relações de trabalho; a liderança me ensinou sobre pessoas e sobre os efeitos que nossas posições produzem nos outros; a Psicologia ampliou minha compreensão sobre a subjetividade; e a Psicanálise me ensinou a respeitar aquilo que não se apresenta de maneira imediata e que não pode ser inteiramente capturado por nenhuma explicação.

É também por isso que, quando olho para as mulheres que fui, não sinto vontade de escolher qual delas representa a minha verdadeira identidade. Todas elas fazem parte de mim, inclusive aquelas que tomaram decisões que hoje eu faria de outra maneira. A criança que eu fui não precisava conhecer a mulher que eu me tornaria. A jovem que fez determinadas escolhas não tinha como antecipar tudo o que viria depois. A profissional que construiu uma carreira na tecnologia não tinha obrigação de saber que, anos mais tarde, encontraria na Psicologia um caminho tão significativo. Cada uma dessas versões viveu a partir das possibilidades que tinha naquele momento, e é injusto olhar para qualquer uma delas usando exclusivamente o conhecimento que só adquiri depois.

Por isso, quando penso no passado, prefiro trocar a cobrança pela compreensão. Não significa romantizar aquilo que foi difícil ou fingir que todas as escolhas foram acertadas. Significa reconhecer que uma pessoa pode ter feito o melhor que conseguia fazer em determinado momento e, ainda assim, descobrir depois que gostaria de ter escolhido de outra maneira. Significa aceitar que amadurecer também envolve olhar para algumas decisões antigas e perceber que já não somos a mesma pessoa que as tomou. Existe algo de profundamente humano nesse movimento, porque mudar também significa poder reinterpretar a própria história sem precisar negá-la.

Quero conseguir olhar para a criança que fui e reconhecer a importância de ela ter sentido tanto, de ter sido curiosa e de ter buscado compreender o mundo ao seu redor. Quero olhar para a jovem e lembrar que ela estava tentando encontrar seu caminho com os recursos que possuía naquele momento, mesmo quando não tinha clareza sobre onde aquele caminho terminaria. Quero olhar para a profissional e reconhecer a dedicação, a competência e tudo aquilo que construiu ao longo dos anos. Quero olhar para a líder e lembrar das responsabilidades que assumiu, das pessoas que acompanhou, dos conflitos que precisou enfrentar e de tudo o que aprendeu sobre relações humanas dentro das organizações. Quero olhar para a estudante e agradecer por ela ter mantido viva a curiosidade que sempre esteve presente. Quero olhar para a psicóloga e reconhecer a coragem de começar uma nova formação, aprofundar conhecimentos e se colocar diante de uma profissão que exige uma relação tão particular com o outro. E quero olhar para a psicanalista sem imaginar que chegou a algum ponto final, porque a própria formação me ensinou que ocupar esse lugar significa permanecer em trabalho, sustentando a análise pessoal, o estudo, a supervisão e a disposição permanente para reconhecer aquilo que ainda não sei.

Quando penso em tudo isso, percebo que não quero chegar a uma versão definitiva de mim mesma. Durante muito tempo, a ideia de realização esteve associada à sensação de finalmente ter encontrado o lugar certo, como se em algum momento da vida fosse possível chegar a uma espécie de conclusão sobre quem somos. Hoje, essa ideia me parece menos interessante. Não acredito mais que precisemos encontrar uma definição final para nós mesmos. Somos atravessados pelo tempo, pelas experiências, pelas relações, pelas escolhas e pelas mudanças, e cada uma dessas coisas participa daquilo que nos tornamos. A identidade não me parece uma resposta pronta, mas uma construção que continua acontecendo enquanto vivemos.

Isso também mudou a maneira como compreendo a própria ideia de sucesso. Durante muitos anos, estive em ambientes nos quais resultados, desempenho, crescimento e reconhecimento tinham um peso importante. Aprendi a trabalhar com metas, responsabilidades e expectativas, e reconheço o valor que existe nessas dimensões. Mas hoje consigo perceber que nenhuma delas, sozinha, responde à pergunta sobre uma vida que faça sentido. É possível alcançar aquilo que se desejou durante muito tempo e ainda assim sentir um vazio que não se explica pela falta de conquistas. É possível ter uma carreira bem-sucedida e não se reconhecer mais naquilo que se faz. É possível ocupar uma posição de destaque e experimentar solidão. É possível ter medo de perder aquilo que se conquistou justamente porque aquela conquista passou a representar uma parte excessivamente grande de quem se acredita ser.

Talvez uma das coisas que mais me interessam na clínica seja justamente poder acompanhar esse momento em que alguém começa a perceber que existe uma diferença entre aquilo que construiu e aquilo que deseja continuar construindo. Muitas vezes, a crise aparece quando uma identidade que funcionou durante muito tempo já não consegue dar conta da pessoa que está se tornando. Isso pode acontecer no trabalho, em uma relação, em uma mudança de carreira, diante de uma perda ou simplesmente quando alguém percebe que passou tantos anos tentando corresponder às expectativas que já não sabe exatamente quais são as próprias. Nessas situações, não se trata necessariamente de abandonar tudo e começar novamente. Antes disso, existe um trabalho de escuta que permite compreender o que aquela insatisfação está dizendo e o que, dentro daquela história, pede para ser revisto.

Essa é uma das razões pelas quais acredito que a clínica não deve oferecer respostas prontas sobre como uma pessoa deveria viver. O que faz sentido para um sujeito pode não fazer sentido para outro, e mesmo aquilo que fez sentido para nós em determinado momento pode deixar de fazer sentido posteriormente. A escuta permite que essas mudanças possam ser reconhecidas sem que imediatamente sejam transformadas em fracasso. Permite que uma pessoa perceba que mudar de desejo não significa necessariamente ter errado no passado. Às vezes, significa apenas que a pessoa mudou.

Eu também mudei. E ainda vou mudar.

Essa constatação, que em outro momento poderia produzir ansiedade, hoje me parece uma das formas mais bonitas de liberdade. Não saber exatamente quem serei daqui a alguns anos significa que ainda existe espaço para descoberta. Significa que não preciso viver sob a obrigação de permanecer fiel a uma definição antiga de mim mesma. Posso continuar aprendendo, posso mudar de opinião, posso descobrir novos interesses, posso reconhecer limites, posso estabelecer novas prioridades e posso permitir que experiências futuras produzam em mim transformações que hoje ainda não consigo imaginar.

Quando olho para trás, percebo que a vida foi fazendo isso comigo muitas vezes. Algumas mudanças foram planejadas, outras aconteceram sem que eu tivesse controle sobre elas. Algumas foram desejadas, outras exigiram adaptação. Algumas me levaram a lugares que eu buscava conscientemente, enquanto outras só ganharam significado depois. Em todas elas, alguma versão anterior de mim precisou abrir espaço para que outra pudesse existir.

E talvez seja isso que eu diria hoje para todas as minhas versões: nenhuma de vocês precisava saber exatamente quem eu seria. Nenhuma precisava antecipar as perguntas que viriam, as escolhas que ainda seriam feitas ou os caminhos que apareceriam. Vocês só precisavam viver o momento que lhes cabia. A criança precisava crescer no seu próprio tempo. A jovem precisava experimentar. A profissional precisava construir. A líder precisava aprender. A estudante precisava perguntar. A psicóloga precisava começar. A psicanalista precisava continuar se formando. E eu, agora, preciso apenas continuar.

Continuar não significa caminhar sem direção ou abandonar aquilo que já construí. Significa reconhecer que uma história pode permanecer aberta. Significa aceitar que ainda existem perguntas importantes, que ainda existem coisas que não compreendo e que ainda existem versões minhas que sequer conheço. Significa não transformar a necessidade de mudança em uma obrigação de recomeçar o tempo inteiro, mas permitir que aquilo que já sou possa continuar se transformando.

Quando penso na criança que iniciou esta conversa, percebo que a frase que eu gostaria de dizer a ela mudou um pouco. No começo, eu queria apenas pedir que ela não tivesse tanta pressa de crescer. Hoje eu acrescentaria que ela também não precisaria ter tanta pressa de se definir. Ela poderia experimentar diferentes possibilidades sem imaginar que cada escolha precisaria determinar para sempre quem seria. Poderia gostar de coisas diferentes, mudar de ideia, descobrir novos caminhos e perceber que uma pessoa pode carregar dentro de si interesses aparentemente distantes e ainda assim existir uma profunda coerência entre eles.

Eu diria a ela que um dia compreenderia que sua história não seria linear, mas que isso não seria um problema. Que ela poderia passar pela tecnologia, pela gestão, pela liderança, pela Psicologia e pela Psicanálise e, ao olhar para trás, perceber que não havia perdido tempo em nenhum desses lugares. Cada experiência teria deixado uma marca, uma pergunta, uma habilidade, uma memória ou uma forma diferente de olhar para o mundo. Algumas coisas seriam esquecidas, outras permaneceriam, e outras ainda voltariam muitos anos depois com um significado completamente diferente.

Eu diria também que ela aprenderia que ser forte não significa não precisar de ninguém, que conhecer muito não significa saber tudo, que cuidar dos outros não significa conseguir resolver a vida de ninguém e que escutar não significa ter respostas. Aprenderia que existe força em reconhecer limites, maturidade em mudar de posição e coragem em admitir que uma escolha já não faz sentido. Aprenderia que não existe contradição em ser racional e sensível, em gostar de sistemas e de pessoas, em trabalhar com tecnologia e se interessar pela subjetividade, porque a complexidade de uma pessoa não precisa caber em uma única definição.

E, se depois de tudo isso ela me perguntasse se eu finalmente descobri quem sou, eu não responderia com uma definição. Diria que descobri algumas coisas, que compreendi outras e que ainda existem muitas que permanecem em aberto. Diria que hoje me reconheço naquilo que construí, mas também naquilo que ainda desejo compreender. Diria que não preciso mais chegar a uma versão final de mim mesma para sentir que a minha história tem sentido.

A minha história tem sentido simplesmente porque continua.

Continuo sendo aquela pessoa que quer compreender o humano, que se interessa pelo que existe por trás das aparências, que acredita no valor do estudo e que encontrou na escuta uma maneira de estar com o outro. Continuo carregando comigo a experiência de tantos anos na tecnologia e na gestão, as relações que construí, os lugares por onde passei, os desafios que enfrentei e tudo aquilo que aprendi sobre trabalho, liderança e organizações. Continuo carregando também as perguntas que a Psicologia e a Psicanálise trouxeram para a minha vida e a compreensão de que algumas perguntas são mais importantes do que a necessidade de encontrar respostas rápidas.

Quando olho para todas as mulheres que fui, não quero mais perguntar qual delas estava certa. Quero reconhecer que cada uma fez parte da construção da mulher que sou hoje. Algumas precisaram aprender pela experiência aquilo que outras só compreenderiam depois. Algumas tiveram medo. Algumas foram exigentes demais consigo mesmas. Algumas quiseram controlar o que não podia ser controlado. Algumas tiveram pressa. Algumas simplesmente seguiram em frente sem saber exatamente para onde estavam indo. Todas, de alguma maneira, estavam tentando viver.

E é isso que eu aprendi a fazer com mais delicadeza: olhar para uma vida sem exigir que ela tenha sido perfeita para que possa ser reconhecida como uma boa vida.

Não preciso apagar as contradições para encontrar coerência. Não preciso transformar todas as escolhas em acertos. Não preciso fingir que determinadas experiências não doeram. Não preciso negar o que gostaria de ter feito diferente. Posso olhar para tudo isso e reconhecer que uma trajetória é feita também dessas imperfeições, dessas mudanças e dessas partes que permanecem sem uma explicação completa.

Hoje, quando penso no futuro, não sinto a mesma necessidade de saber exatamente o que virá. Quero continuar aberta ao que a vida ainda pode apresentar, sabendo que novas experiências podem modificar perguntas antigas e trazer perguntas que ainda não existem. Quero continuar estudando porque sei que o conhecimento não se esgota. Quero continuar escrevendo porque algumas experiências só encontram forma quando passam pela linguagem. Quero continuar escutando porque ainda acredito que existe algo profundamente transformador em oferecer a alguém um espaço em que sua história possa ser dita, pensada e ouvida com respeito.

E quero continuar olhando para mim mesma com essa mesma disposição. Não com a exigência de me compreender, mas com o compromisso de não deixar de me perguntar quem estou me tornando.

Porque, no fim, é essa a pergunta que atravessa todas as minhas versões: não apenas quem eu fui, mas quem estou me tornando enquanto vivo. E essa pergunta continua aberta.

Não como uma falta. Não como uma insuficiência. Mas como possibilidade.

A criança que eu fui queria crescer. A mulher que sou hoje aprendeu que crescer não significa finalmente chegar a algum lugar onde todas as perguntas terminam. Significa poder olhar para o caminho percorrido, reconhecer as pessoas que fomos, compreender um pouco melhor as escolhas que fizemos e continuar caminhando sem precisar saber exatamente qual será a próxima versão de nós mesmos.

Eu não sei quem serei daqui a alguns anos. E, pela primeira vez, isso não me parece algo que precise ser resolvido. Parece apenas que ainda há vida pela frente.  

domingo, 23 de agosto de 2026

Escrevo sem pressa e sem querer chegar a lugar nenhum!

Comecei esse blog respondendo cartas (e-mails) de amigos, e virou uma profissão: responder cartas. E por que escrever cartas e não telefonar e falar ao vivo? Porque escrever me faz parar, pensar, escrever, corrigir, ir, voltar, gerar algo de muito genuíno, muito cuidadoso, escolher as palavras certas, me fechar um tempo, sem distrações, e me imaginar no lugar da pessoa, sentir o que sente, tentar entender e tentar encontrar uma forma de dizer aquilo que, muitas vezes, é difícil dizer de outra maneira. E foi assim que meu blog foi surgindo, faz anos, antes do celular, antes da internet, antes da IA, antes do imediatismo.

Como me mudei de cidade, os amigos me escreviam e-mails e eu os respondia, não na correria do dia a dia, mas no momento único, reservado, escolhido, intenso. E assim fui respondendo, sanitizando e postando. Primeiramente em um site de “escritores”, com regras e etc., depois decidi sair do site, para ter algo mais autoral. Um blog. Só que entendi que, nesse site, o direito autoral era deles e perdi meus muitos textos. Engraçado como somos sempre “abusados”, invadidos e, quando nos damos conta, parece tarde demais. Perdi muitos textos, muitas cartas respondidas, mas eu tinha ainda alguns rascunhos, algumas outras tantas. E comecei meu blog. Arquivando para uso próprio, para mim mesma. Sem perceber (porque nem controlava exibições e quem entrou ou deixou de entrar), mas cada vez tinha mais gente lendo os textos ou navegando por eles. E fui escrevendo.

Hoje já não recebo tantos e-mails como nos velhos tempos. Hoje escrevo, sanitizando, sobre aquilo que escuto no meu consultório, dos meus pacientes, sobre suas dores, suas histórias, suas dúvidas, seus medos, suas repetições, suas descobertas. Não são mais exatamente cartas que chegam até mim, mas continuam sendo histórias que alguém me confia e que ficam comigo por um tempo. Muitas delas me fazem pensar, me fazem lembrar de outras histórias, de coisas que já vivi, de coisas que já ouvi, de perguntas que também são minhas. Escrevo sobre temas que aparecem com frequência no consultório, tentando falar de saúde mental de um jeito menos engessado, menos cheio de palavras difíceis e, principalmente, sem transformar sofrimento em diagnóstico para tudo. Escrevo para pensar junto, para colocar algumas coisas em palavras, para desmistificar outras e, quem sabe, fazer alguém se reconhecer em alguma coisa que leu aqui.

No fundo, escrevo sobre saúde mental, relações, escolhas, sofrimento, comportamento e tantas outras coisas que vão aparecendo por aqui. Algumas para informar, outras para provocar, outras simplesmente porque eu quero convocar uma reflexão e preciso escrever. Sempre achei estranho guardar só para mim aquilo que aprendo todos os dias ouvindo pessoas. O consultório é um lugar muito particular, protegido, onde histórias são contadas e muitas coisas são pensadas pela primeira vez. Mas a Psicologia não pode ficar restrita à sala de atendimento. Existe, para mim, uma responsabilidade de transmissão e também uma responsabilidade social em falar sobre aquilo que ainda é cercado de preconceito, confusão ou silêncio. Não para ensinar ninguém a viver, nem para oferecer respostas prontas, mas para colocar algumas questões em circulação, provocar pensamento, ampliar conversas e, quem sabe, fazer alguém olhar para si de um jeito diferente.

Joana, a menina falsa.

Eu fui atrás da expressão “Casa da Mãe Joana” e achei interessante pensar menos na origem da expressão e mais naquilo que ela acabou representando para nós: um lugar onde os limites ficam meio frouxos, onde as regras não são muito claras e cada um vai encontrando uma maneira de fazer as coisas do seu jeito. Foi a partir disso que pensei na minha Joana. Não me interessa tanto a Joana como uma pessoa específica, até porque ela pode ser muitas pessoas diferentes e aparecer em muitos lugares. Me interessa esse tipo de comportamento e, principalmente, o ambiente que permite que ele aconteça. Porque uma coisa é encontrar uma pessoa falsa e perceber que ela é falsa. Outra, bem diferente, é estar em um lugar em que a falsidade, a bajulação, a fofoca e os pequenos jogos de poder acabam funcionando e sendo até recompensados.

Você conhece uma pessoa assim? Aquela que parece muito agradável, que pergunta como você está, que elogia seu trabalho, que demonstra preocupação, que parece disponível e interessada, mas que, em algum momento, você descobre que fala uma coisa na sua frente e outra quando você não está? Acho que o que mais incomoda não é exatamente a falsidade. É ter confiado. Quando a pessoa é evidentemente falsa, a gente se protege. O que nos pega é aquela pessoa que constrói uma relação de confiança antes de mostrar que aquela relação estava, desde o início, apoiada em algum interesse. É o colega que se aproxima, conhece as pessoas, percebe rapidamente quem tem poder, quem pode ajudá-lo, quem pode atrapalhá-lo e vai mudando a maneira de se relacionar de acordo com quem está diante dele. Com algumas pessoas é extremamente simpático, com outras é distante. Com determinados gestores demonstra uma lealdade impressionante e, com os colegas, se apresenta como alguém muito preocupado com o grupo, embora seja capaz de questionar, em conversas reservadas, a competência das mesmas pessoas que acabou de elogiar.

Joana sabe observar. Percebe quem precisa de reconhecimento, quem gosta de ser elogiado, quem precisa se sentir importante, quem pode abrir uma porta, quem pode ser uma ameaça. E vai se aproximando de acordo com essas informações. Para uma pessoa oferece admiração, para outra oferece companhia, para outra oferece informação, para outra oferece concordância. Quando aquela pessoa deixa de ser interessante, a proximidade também muda. É uma relação em que o outro não é exatamente encontrado como outro, mas como alguém que ocupa determinada função. E acho que é aí que a coisa começa a ficar mais séria, porque não estamos falando apenas de alguém que mente ou que fala pelas costas. Estamos falando de uma maneira de se relacionar em que o valor do outro passa a depender muito do que ele pode oferecer.

Ao mesmo tempo, é fácil olhar para Joana e simplesmente dizer que ela é falsa, manipuladora, interesseira, desleal. Pode ser tudo isso. Mas existe uma pergunta que me interessa mais: em que tipo de ambiente esse comportamento funciona? Porque Joana não inventou sozinha a lógica em que está inserida. Se uma pessoa percebe que concordar com o chefe é mais seguro do que discordar, ela aprende a concordar. Se percebe que diminuir a reputação de um colega aumenta suas próprias chances de reconhecimento, existe um incentivo para fazer isso. Se entende que as promoções dependem mais da imagem que constrói do que da qualidade do trabalho, vai investir na imagem. Isso não justifica o comportamento, mas mostra que as pessoas também respondem aos ambientes em que vivem. E existem ambientes que produzem muito espaço para esse tipo de jogo.

É nesse sentido que gosto da ideia da “Casa da Mãe Joana”. Não como um lugar simplesmente desorganizado, mas como um lugar em que os limites vão ficando confusos. O que é uma crítica legítima e o que já é uma tentativa de destruir a reputação de alguém? O que é diplomacia e o que é bajulação? O que é networking e o que é interesse? O que é uma preocupação genuína e o que é uma fofoca disfarçada de preocupação? Nem sempre é tão simples distinguir uma coisa da outra, principalmente quando as pessoas aprendem a circular justamente nessas zonas cinzentas. Joana não precisa chegar dizendo que quer prejudicar alguém. Ela pode apenas “levantar uma preocupação”, comentar uma coisa que ouviu, dizer que não queria falar de ninguém, mas achou importante avisar. E então uma informação começa a circular, cada pessoa acrescenta uma interpretação e, quando chega ao outro lado, ninguém sabe mais muito bem onde aquilo começou. A pessoa que iniciou tudo ainda pode dizer que só estava tentando ajudar.

O interessante é que Joana pode ser extremamente agradável. Isso também precisa ser dito porque existe uma imagem muito simples da pessoa falsa como alguém frio, desagradável ou agressivo. Nem sempre é assim. Algumas pessoas sabem ouvir, fazem perguntas, lembram de detalhes, elogiam, fazem você se sentir importante. Não há nada de errado em ser simpático. O que muda é o que existe por trás daquela simpatia e o que acontece quando ela deixa de ser necessária. Em uma relação genuína, o outro continua tendo algum valor mesmo quando não pode nos oferecer nada. Nessa relação interesseira, a pessoa vai perdendo a importância na mesma medida em que deixa de ser útil. É uma diferença que nem sempre aparece no começo, mas que o tempo costuma revelar.

Também não acho que seja possível colocar autenticidade de um lado e falsidade do outro como se fossem coisas tão simples. Todos nós administramos um pouco a nossa imagem. Todos nós já deixamos de dizer alguma coisa porque não era o momento, já fomos mais gentis do que estávamos com vontade de ser, já evitamos uma conversa difícil, já escolhemos o silêncio. Isso faz parte da vida em sociedade. Ser autêntico não significa dizer tudo o que se pensa, nem tratar todas as pessoas exatamente da mesma maneira. Existe contexto, existe privacidade, existe diplomacia. O problema começa quando a adaptação deixa de ser uma forma de convivência e passa a ser uma maneira de manipular o outro. Existe uma diferença entre não dizer tudo e dizer uma coisa apenas porque sabemos que ela vai produzir determinado efeito. Existe uma diferença entre querer crescer e precisar diminuir alguém para conseguir crescer. Existe uma diferença entre preservar-se e construir uma narrativa sobre outra pessoa para se proteger ou obter vantagem.

E é nesse ponto que eu acho interessante fazer a pergunta sobre quanto de Joana existe em cada um de nós. Não porque sejamos todos iguais a ela, mas porque é muito fácil colocar a falsidade sempre no outro. O outro é político, o outro é interesseiro, o outro fala pelas costas, o outro quer aparecer. Nós, quando fazemos alguma dessas coisas, temos sempre uma explicação melhor. Estávamos nos protegendo, estávamos sendo estratégicos, estávamos tentando evitar um problema. De vez em quando, vale olhar para essas pequenas justificativas e perceber o que estamos fazendo com as pessoas ao nosso redor. Como tratamos alguém que não pode nos oferecer nada? O que fazemos quando alguém compete conosco? Conseguimos reconhecer o mérito de alguém que gostaríamos de superar? O que fazemos quando recebemos uma informação que poderia nos colocar em vantagem? Conseguimos falar diretamente com quem nos incomoda ou precisamos de uma terceira pessoa para fazer circular aquilo que não tivemos coragem de dizer?

Acho que é nessas situações que a ética aparece de verdade. Não quando não temos nada a perder, mas quando fazer a coisa certa nos custa alguma coisa. É fácil falar em transparência, integridade e colaboração quando essas palavras não interferem em nenhum interesse nosso. Difícil é sustentar alguma coerência quando uma mentira pode nos beneficiar, quando uma fofoca pode abrir uma vantagem, quando assumir um erro pode prejudicar nossa imagem ou quando defender alguém pode nos colocar em uma posição desconfortável. É aí que os valores deixam de ser discurso e passam a aparecer nas pequenas escolhas.

E as organizações têm uma responsabilidade enorme nisso. Não adianta falar de ética e colaboração se, na prática, quem cresce é quem bajula, quem recebe informação privilegiada é quem está mais próximo da liderança e quem discorda passa a ser visto como uma pessoa difícil. As pessoas observam muito mais o que acontece do que aquilo que está escrito nos valores da empresa. Se o chefe recompensa quem concorda com ele, todo mundo aprende rapidamente que discordar tem um preço. Se a fofoca é uma maneira eficiente de conseguir espaço junto à liderança, a fofoca passa a fazer parte do funcionamento daquele lugar. Se assumir um erro traz mais consequências do que escondê-lo, as pessoas aprendem a esconder. Cultura não é aquilo que a organização diz que valoriza. É aquilo que ela repete e recompensa.

Por isso, quando pensamos em Joana, acho importante não pensar apenas na pessoa. Existe uma cultura que pode favorecer ou dificultar determinados comportamentos. Um ambiente muito competitivo, pouco transparente, em que as regras de reconhecimento não são claras e as relações de poder são mal administradas, cria um terreno muito fértil para esse tipo de comportamento. As pessoas começam a guardar informação, a desconfiar umas das outras, a criar pequenos grupos, a pensar duas vezes antes de compartilhar uma ideia. Parte da energia que deveria estar voltada para o trabalho passa a ser gasta tentando entender o que está acontecendo nos bastidores e se proteger dos outros. Aos poucos, a própria organização passa a funcionar como uma espécie de Casa da Mãe Joana, em que ninguém sabe muito bem quais são as regras, mas todos aprendem a jogar.

E existe uma dimensão da Joana que também me interessa. Não para justificá-la, mas para lembrar que comportamentos assim têm uma história. Joana pode ter aprendido, muito cedo, que precisava agradar para ser aceita, que era importante perceber o que o outro queria antes de mostrar o que ela própria queria, que dizer exatamente o que pensava poderia lhe trazer problemas. Pode ter se tornado muito boa em perceber as pessoas e adaptar-se a elas. Essa habilidade pode ter sido útil em algum momento e, com o tempo, ter se transformado na forma como ela se relaciona. A pessoa passa a ser aquilo que o outro precisa que ela seja e, depois de muito tempo fazendo isso, pode nem saber mais muito bem quem é quando não precisa agradar ninguém. Compreender de onde um comportamento vem não significa dizer que ele está certo. Só significa olhar para ele com um pouco mais de complexidade.

No trabalho, isso não significa que precisamos compreender Joana para suportá-la ou aceitar tudo o que ela faz. É possível compreender e colocar limite. Não precisamos responder à fofoca com fofoca, nem entrar numa disputa para provar quem é mais esperto. Podemos ser cuidadosos com aquilo que compartilhamos, registrar decisões importantes, falar diretamente quando for necessário e não permitir que uma relação seja conduzida pelo jogo que o outro propõe. Existe uma espécie de proteção em continuar sendo coerente. Tratar com respeito quem pode nos promover e quem não pode nos oferecer nada. Reconhecer o trabalho de quem compete conosco. Assumir um erro sem precisar encontrar um culpado. Não usar uma informação recebida em confiança como instrumento de poder. Não precisar diminuir alguém para parecer maior.

Joana vai continuar existindo. Em algum trabalho, em algum grupo, em alguma família, em algum lugar onde pessoas estejam disputando espaço, reconhecimento, pertencimento ou poder. O ponto não é eliminar todas as Joanas, porque isso não vai acontecer. O que me parece mais interessante é pensar em que tipo de ambiente nós estamos ajudando a construir e o que estamos dispostos a fazer para que determinados comportamentos não sejam a maneira mais eficiente de sobreviver e crescer. Porque, quando a falsidade deixa de ser apenas uma característica de uma pessoa e passa a ser uma forma de funcionamento de todo o lugar, já não estamos mais falando de Joana. Estamos falando da casa inteira.

No mundo corporativo, conheci uma menina exatamente assim, chamada Joana, e foi ela quem me inspirou a escrever esse texto. Depois dela, comecei a perceber que existem muitas Joanas por aí, quase sempre disfarçadas de outros nomes. E não estou falando de mulheres. Isso não tem nada a ver com gênero. Aliás, pensando no mundo corporativo e na misoginia que ainda atravessa tantos ambientes de trabalho, arrisco dizer que existem muito mais Joãos do que Joanas ocupando esses lugares de poder, circulando por essas relações e jogando esse jogo. Joana é só o nome que eu dei a um comportamento que, no fundo, não tem gênero.

E, de certa forma, escrever sobre ela também é uma maneira de sublimar e homenagear a minha Joana, a menina mais falsa que já conheci. Dar algum destino melhor. Hoje, como psicóloga, posso dizer que essas e tantas outras experiências vão formando a nossa escuta. A gente passa a reconhecer movimentos, desconfiar de atitudes e entender pessoas e lugares, que só quem já passou por determinadas situações consegue entender. Acho curioso pensar que uma pessoa que me fez tão mal acabou, de algum jeito, fazendo tão bem para minha formação e hoje também está, sem saber, na minha maneira de olhar para as pessoas. Sofrer é ruim, principalmente enquanto está acontecendo. Ter sofrido é outra coisa. Com o tempo, algumas experiências vão ganhando outro lugar dentro da gente. Elas ensinam, dão repertório, deixam a gente mais atento e, de algum modo, nos tornam mais preparados psiquicamente.

A infância que continua em nós

Quando eu falo com vocês sobre a importância de se analisar, penso muito na infância. Não exatamente em voltar para ela, mas em perceber o quanto ela ainda está presente, às vezes em lugares que a gente nem imagina. A gente passou os primeiros anos da vida acreditando no que nos diziam. Não tinha muito como fazer diferente. Se alguém dizia que éramos difíceis, acreditávamos. Se diziam que éramos sensíveis demais, que não podíamos sentir raiva, que precisávamos agradar, que era melhor ficar quieto, aquilo ia entrando. E não entrava como uma opinião. Entrava como uma verdade sobre quem a gente era. Uma criança não consegue pensar que o adulto também tem uma história, seus próprios limites, suas frustrações, suas dificuldades. Ela não pensa: “isso tem mais a ver com essa pessoa do que comigo”. Ela simplesmente tenta entender o que está acontecendo e, muitas vezes, conclui que o problema está nela.

E depois a gente cresce.

Só que algumas dessas coisas continuam funcionando por dentro. A gente sabe, racionalmente, que não precisa agradar todo mundo, mas sente uma culpa enorme quando desagrada alguém. Sabe que pode dizer não, mas trava. Percebe que está repetindo uma relação que não faz bem, mas continua ali. Às vezes, se torna exatamente aquilo que sofreu. Fica rígido porque cresceu num ambiente rígido. Controla porque aprendeu que perder o controle era perigoso. Se cala porque aprendeu cedo demais que falar tinha consequências. E tem uma coisa curiosa nisso: a gente costuma perceber com mais facilidade o que fizeram com a gente do que aquilo que passou a fazer parte de nós.

A análise, para mim, passa muito por aí. Não apenas descobrir quem fez o quê, nem construir uma explicação para tudo que somos. É poder olhar um pouco mais demoradamente para a própria história e perceber o que foi ficando.

O que eu acreditei sobre mim? O que eu aprendi que precisava fazer para ser amado? Do que eu ainda tenho medo? O que eu repito sem perceber que estou repetindo? E por que algumas coisas são tão difíceis de dizer não?

Porque dizer não, muitas vezes, não é só dizer não para alguém. É dizer não para um lugar que ocupamos durante muito tempo. É contrariar uma expectativa que parecia fazer parte do amor. É deixar de ser aquela pessoa que sempre entende, sempre cede, sempre está disponível, sempre tenta não incomodar. E isso pode ser muito difícil. Até porque mudar uma repetição não traz imediatamente uma sensação de liberdade. Às vezes traz culpa. Estranheza. Uma sensação de que estamos fazendo alguma coisa errada, mesmo quando sabemos que não estamos.

Acho que crescer tem alguma relação com poder olhar para isso sem tanta pressa de resolver. Entender que muita coisa que fazemos hoje começou muito antes de termos condições de escolher. E que, depois de um tempo, aquilo que foi uma forma de adaptação vira simplesmente o nosso jeito de viver, de amar, de trabalhar, de se relacionar.

Só que não precisa ser assim para sempre. Não se trata de apagar a infância, nem de transformar os pais em vilões, nem de encontrar uma causa para cada coisa. É mais simples e mais difícil do que isso. É poder se aproximar da própria história e começar a enxergar algumas coisas que, durante muito tempo, pareciam naturais.

É o trabalho da análise: perceber que algumas certezas que temos sobre nós foram aprendidas. E, quando uma coisa foi aprendida, ela também pode ser interrogada. Não para virar outra pessoa. Mas para descobrir, aos poucos, o que de fato é nosso e o que a gente só continuou carregando porque um dia acreditou que precisava carregar.

sábado, 22 de agosto de 2026

Quando estar perdida deixa de ser só uma fase

Ela me disse que não era sobre sua profissão. Também não era sobre estar trilhando outro caminho, recomeçando ou tentando descobrir o que fazer da vida.

Era sobre estar perdida.

Por fora, tudo parecia seguir seu rumo. A vida continuava acontecendo, as responsabilidades estavam sendo cumpridas, as pessoas ao redor seguiam seus planos e, aparentemente, nada estava fora do lugar. Mas, por dentro, ela não sabia mais para onde estava indo.

Os dias pareciam muito iguais.

Ela acordava, fazia o que precisava ser feito, trabalhava, respondia às mensagens, conversava com as pessoas, sorria quando era necessário e seguia. Só que havia uma sensação persistente de estar apenas atravessando os dias, sem realmente viver nenhum deles.

O mais difícil era explicar. Ela me dizia várias vezes na sessão "não como te explicar".

Como dizer que estava mal quando, aparentemente, estava tudo bem? Como falar sobre o vazio quando não existia uma grande tragédia acontecendo? Como admitir que estava cansada de uma vida que, para quem olhava de fora, parecia perfeitamente normal?

Ela se sentia sozinha. Muito sozinha. Apesar de externamente tudo dizer o contrário.

E essa solidão não significava necessariamente estar sem pessoas por perto. Era uma solidão interna, aquela sensação de estar vivendo alguma coisa que ninguém conseguia enxergar. Ela continuava presente, conversando, trabalhando, cumprindo suas obrigações, mas carregava por dentro uma espécie de desconexão com a própria vida.

Foi nesse ponto que comecei a pensar que precisamos falar sobre depressão de uma maneira menos estereotipada.

Nem sempre a depressão aparece como alguém que não consegue sair da cama ou que deixa de fazer absolutamente tudo. Algumas pessoas continuam trabalhando, cuidando da casa, encontrando amigos e mantendo uma rotina aparentemente normal enquanto enfrentam, silenciosamente, um sofrimento profundo.

Sentir-se constantemente vazia, perder o interesse pelas coisas que antes faziam sentido, viver uma rotina marcada pela falta de prazer, pelo cansaço, pela desesperança, pelo isolamento ou pela sensação de que os dias perderam o significado são sinais que merecem atenção. Isso não significa que toda tristeza ou sensação de estar perdida seja depressão.  

Mas sofrimento não precisa chegar ao limite para ser levado a sério.

Se você se reconhece nesse relato, procurar ajuda pode ser um primeiro passo. Conversar com um psicólogo ou psicóloga pode oferecer um espaço seguro para entender o que está acontecendo, nomear sentimentos e perceber se existe algo além de uma fase difícil. Em algumas situações, uma avaliação com um médico psiquiatra também pode ser importante.

A terapia não precisa começar quando você já sabe explicar o que sente. Você pode chegar dizendo justamente isso: “Eu não sei o que está acontecendo comigo. Só sei que não estou bem.”

E isso já é suficiente para começar uma conversa.

Estar perdida não significa que você fracassou. Não significa que todo mundo descobriu o caminho e você ficou para trás. Significa que existe alguma coisa dentro de você pedindo atenção.

E cuidar disso também é uma forma de seguir em frente.

Se esses sentimentos têm sido frequentes, intensos ou estão interferindo na sua vida, procure um profissional de saúde mental. Você não precisa esperar piorar para pedir ajuda.

Às vezes, o primeiro caminho para se encontrar é simplesmente admitir que você não está conseguindo fazer isso sozinha.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Minha Odisseia até Ítaca

⚠️ Aviso de spoiler: este texto contém spoilers importantes da Odisseia. Se você ainda pretende conhecê-la sem antecipações, talvez seja melhor ler depois.

Quero escrever. Mas hoje não me encontro nas palavras.

Quando vejo que não estou conseguindo me expressar aqui, entendo que o momento não está dos melhores. Porque escrever é minha paixão, as palavras fluem, sem roteiro, sem planejamento. Nunca tive que pensar para escrever. Parece que a alma vai guiando, vou colocando o que sinto e tudo vai fazendo sentido e ganhando forma.

Hoje, não. Está tudo desconectado. Sem rumo, sem encontrar o que dizer. Não vai dando liga, o sentido vai escorrendo entre as frases e parece mais um desabafo do que uma reflexão. Parece mais uma tristeza do que uma experiência existencial. A sensação é de desaparecimento. E, nesse momento, tudo vai se confundindo. Vêm lembranças antigas, vêm decepções recentes também. Vem uma sensação de injustiça, de que foi muito esforço, foi tudo muito batalhado e para quê? A sensação dos resultados, ou, melhor, da ausência deles, fica mais nítida. As escolhas se enfraquecem, parecem más escolhas, decisões ruins ao longo do caminho. Eu acabo virando alvo das minhas próprias palavras, como se eu tivesse que me explicar para mim mesma.

O entorno fica menor. As conquistas também diminuem na mesma intensidade. O fundo do poço começa a ficar cada vez mais alcançável, e a leitura é de ter dado milhares de passos para trás em tempo recorde. Fico estranha a mim mesma, como se eu não fosse eu. Como se o Outro que me dizia quem eu era tivesse errado, dito outra coisa. Como se eu tivesse entendido outra coisa.

Uma metáfora absurda, mas é a que me ocorre: como se, ao acordar do coma, eu não mais reconhecesse o mundo e o meu lugar nele. Tudo mudou demais. Não tenho mais as conexões antes estabelecidas e agora parece um caminhar novo, mas estranho, muito assustador, porque já não se é criança, já não se pode inventar um mundo para caber nele e já não se tem mais os mesmos recursos para enfrentar o mundo que existe. Então vira uma odisseia mesmo. (Legal me vir essa palavra, justo agora, porque é o filme em cartaz atualmente.)

Odisseia, humm… Odisseia. E agora, reencontrando a força que a escrita tem para mim, não consigo deixar de reler e estabelecer uma conexão com a Odisseia, de Homero.

Com Odisseu, para os gregos e Ulisses, para os romanos. Na prática, Odisseu e Ulisses são a mesma personagem. Eu prefiro Odisseu. Para mim, Odisseu me mantém mais próxima de Homero. Odisseu é o homem da Odisseia.  A Odisseia de Odisseu.

Odisseu precisou ir para a guerra. A Guerra de Troia começa, em grande parte, por causa de Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta. Helena vai para Troia com Páris, príncipe troiano. Há diferentes versões sobre o que aconteceu entre os dois, se Helena foi raptada, se foi seduzida ou se partiu por vontade própria, mas o que permanece é que sua partida desencadeia uma guerra que duraria dez anos.

Helena é desejada, disputada, considerada a mulher mais bela, e se torna objeto de projeções e narrativas. Sua identidade é constantemente construída pelo olhar dos outros. Helena me lembra que existe uma diferença entre aquilo que somos e aquilo que projetam sobre nós. Eu me reconheço nisso. Nem sempre escolhi a história que projetaram sobre mim, nem o lugar que esperavam que eu ocupasse. Mas, uma vez dentro dela, precisei descobrir como atravessá-la sem me perder de mim.

Menelau reúne os gregos para recuperar Helena, e Odisseu, rei de Ítaca, é convocado. É nessa guerra que acontece o famoso episódio do cavalo de Troia, estratégia que permite aos gregos entrar na cidade e finalmente derrotá-la. É então que entra em cena Sinon, o grego que se oferece aos troianos como prisioneiro e os convence de que o cavalo é uma oferenda deixada pelos gregos. É uma demonstração de que, em Troia, vencer não dependia apenas da força, mas também da capacidade de construir uma narrativa na qual o outro estivesse disposto a acreditar.

Odisseu foi convocado para guerra. A vida é assim, nos convoca antes que estejamos prontos. Somos colocados em cenas que não escolhemos conscientemente, mas nas quais já estamos implicados. O sujeito não é senhor de suas escolhas: há um desejo que nos atravessa antes de sabermos dizer o que é. Foi assim comigo. A cena estava posta, e eu, implicada nela. Houve coisas que desejei, coisas que escolhi e coisas que simplesmente aconteceram.  

E é assim que a Odisseia começa...

Odisseu não estava voltando de uma viagem qualquer. Estava voltando de dez anos de guerra. Dez anos depois de ter deixado sua casa, sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco. Dez anos depois de ter colocado sua vida em suspensão para participar de uma guerra que começou pelo desejo do outro e terminou deixando uma cidade destruída e muitos mortos. A guerra foi vencida, mas Odisseu ainda precisaria enfrentar a sua própria travessia, a volta para casa.

Eu me vejo aí, da mesma forma que Odisseu, tentando voltar para casa. Depois de dez anos de guerra, ele ainda levará outros dez anos para conseguir chegar a Ítaca, a Penélope, àquilo que deixou para trás. Mas, pensando bem, ele não tentava apenas chegar a um lugar. Tentava reencontrar uma posição no mundo. Voltar a ser alguém capaz de reconhecer onde está e, principalmente, quem é.

E é aí que a Odisseia faz muito sentido para mim. Porque Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou. E é justamente aí que a palavra “casa” ganha outro sentido para mim. A casa não é exatamente um lugar.

São dez anos tentando voltar para casa. O mais interessante é perceber que, embora a guerra tenha terminado, sua história não termina quando deixa Troia. É justamente aí que começa outra guerra: a do retorno, a Odisseia. Ele não está apenas tentando chegar a Ítaca. Está tentando reencontrar o caminho de volta para si mesmo.

Primeiro vieram os Cícones, um povo da Trácia, região ao norte do mar Egeu. Depois de vencerem a batalha, os homens de Odisseu permanecem ali para saquear e aproveitar a vitória, quando deveriam seguir viagem. Essa demora lhes custa caro: os Cícones contra-atacam, e Odisseu perde muitos homens. A viagem começa, assim, ensinando uma lição difícil: há momentos em que permanecer, mesmo depois da vitória, pode nos afastar do lugar para onde queremos voltar, nem toda vitória significa avanço.

Depois, vieram os Lotófagos, onde o perigo já não é a violência, mas o esquecimento. Comer a flor de lótus significa perder a memória da pátria e, com ela, o desejo de voltar para casa. É o risco de esquecer aquilo que nos move, nossos sonhos, e se acomodar a uma existência sem direção.  Eles esquecem a missão, esquecem Ítaca e querem permanecer ali. Odisseu precisa então ir buscá-los à força e levá-los de volta aos navios. Ele os amarra para impedir que retornem aos Lotófagos e ordena aos outros homens que partam imediatamente.

Em seguida vem o Ciclope, Polifemo. Aqui, Odisseu encontra um perigo do qual não pode escapar apenas pela força. Para sobreviver, precisa recorrer à inteligência, à astúcia e à capacidade de encontrar uma saída onde, aparentemente, não existe nenhuma. Eles chegam a uma ilha rochosa, cheia de cavernas. Odisseu e seus homens encontram uma delas repleta de alimentos: queijos, leite, animais. Há abundância. Eles entram e esperam pelo dono, sem imaginar que estão no território de um gigante. Polifemo é um Ciclope, um gigante de um único olho no meio da testa e filho de Poseidon.

Quando retorna à caverna, Polifemo fecha a entrada com uma enorme pedra. Odisseu logo percebe que não há força humana capaz de movê-la. Para sair dali, será preciso pensar. Enquanto o gigante começa a devorar seus homens, Odisseu oferece vinho a Polifemo. Depois, ele e seus homens o cegam com uma estaca. Quando o Ciclope pergunta seu nome, Odisseu responde: “Outis, Ninguém”. Para sobreviver, Odisseu precisa abrir mão do próprio nome e, por um instante, deixar de ser quem é. É uma estratégia brilhante, mas também revela algo importante: há momentos em que sobreviver exige esconder a própria identidade.

Quando Polifemo, depois de ser cegado, grita por socorro, os outros Ciclopes perguntam quem o está atacando. “Ninguém”, responde ele. Acreditando que não há perigo, vão embora. Odisseu então consegue escapar com seus homens, escondidos sob os carneiros do rebanho. Ali, a inteligência vence a força.

Já a salvo, quando estão no mar, Odisseu não consegue permanecer em silêncio. Precisa que Polifemo saiba quem o venceu. Grita para o Ciclope que foi Odisseu, rei de Ítaca, quem o cegou. Polifemo então invoca seu pai, Poseidon, e pede que Odisseu nunca consiga voltar para casa, ou que, se voltar, seja depois de muitas perdas.

Há uma ironia nesse momento da Odisseia: Odisseu consegue escapar do perigo, mas não consegue escapar da necessidade de ser reconhecido por aquilo que fez. Toda a inteligência que o havia mantido vivo dá lugar, por alguns instantes, ao orgulho. Ele precisava apenas partir em silêncio. Mas diz: fui eu. E é justamente aí que sua vitória começa a se transformar em outra coisa. O ego destrói em segundos aquilo que a inteligência levou tanto tempo para construir.

Odisseu havia criado uma identidade falsa para sobreviver. No momento em que está seguro, porém, precisa recuperar seu nome, seu lugar, sua autoria. Vencer em silêncio não lhe parece suficiente; ele precisa que o outro saiba quem venceu.

Não basta ter feito; é preciso que o outro testemunhe. E, quando esse olhar não retorna, o feito parece perder um pouco da sua realidade. Eu me vejo assim: tentando existir no meu próprio feito sem precisar ser reconhecida por ele.

A travessia continua. Por um instante, parece que o retorno finalmente se tornou possível. Éolo lhe entrega os ventos, e Odisseu parte novamente. Dessa vez, Ítaca já pode ser avistada. Mas, enquanto ele dorme, seus companheiros, acreditando que o saco entregue por Éolo guarda riquezas, decidem abri-lo. Os ventos escapam de uma só vez, a embarcação é arrastada para longe e todo o caminho percorrido se desfaz. Uma das maiores angústias da Odisseia está aí: estar tão perto de casa e, ainda assim, voltar a se perder. Eu também conheço esse lugar: o que parecia caminho se desfaz, e é preciso descobrir como seguir.

Então surgem os Lestrigões, gigantes antropófagos que devoram seres humanos. Vivem na região de Telepilo, governada pelo rei Antífates. Odisseu chega com doze navios. Os homens desembarcam em busca de informações. Uma mulher aparece e chama pelo pai, Antífates, que percebe que os estrangeiros são humanos e inicia o ataque. Eles destroem quase toda a frota. Apenas a embarcação de Odisseu consegue escapar. Mais homens ficam pelo caminho. A cada perda, a viagem vai se tornando mais solitária, e Odisseu começa a perceber que voltar para casa também significará chegar sem aqueles com quem partiu.

E aqui não consigo deixar de pensar nos que ficaram para trás. E na minha própria travessia: muitos ficaram pelo caminho, há uma solidão que faz parte do caminho, um ponto que ninguém pode percorrer comigo e nem por mim. Na minha nova profissão, também existe esse lugar. Posso encontrar companhia, orientação, pessoas que me ajudem a seguir, mas há um trecho que inevitavelmente é meu.   

Depois veio Circe, uma feiticeira divina, filha do deus-sol Hélio e da oceânide Perse. Ela vive sozinha na ilha de Eia, em um palácio cercado por uma natureza quase encantada. Quando Odisseu chega à ilha, envia alguns de seus homens para explorar o lugar. Eles encontram o palácio de Circe e são recebidos como hóspedes. Mas ela coloca uma droga mágica na comida deles e os transforma em porcos. Eles não deixam de ser humanos por dentro. O corpo é transformado, mas a consciência permanece. É perturbador. O castigo não é simplesmente morrer; é continuar consciente enquanto sua aparência, sua dignidade e sua identidade humana são retiradas. Os homens de Odisseu aparecem como criaturas dominadas pelo apetite e pelo instinto, enquanto Circe parece revelar aquilo que existe por baixo da aparência civilizada, a fronteira entre humano e animal. Dessa vez, o perigo não está apenas em perder a vida, mas em perder a própria forma de existir, a própria humanidade.

Odisseu parte para enfrentá-la e, no caminho, encontra Hermes. Hermes é um deus, filho de Zeus e Maia. É o mensageiro dos deuses, protetor dos viajantes, dos caminhos e das passagens, inclusive entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Ele entrega a Odisseu uma planta chamada moly. Quando Circe tenta enfeitiçá-lo, a magia não funciona. Odisseu então a ameaça com sua espada e consegue fazê-la desfazer o encantamento. Protegido por moly, ele resiste a Circe e a obriga a devolver aos seus homens a forma humana. Depois de tantas perdas, Odisseu encontra uma ameaça diferente: não aquilo que pode matá-lo, mas aquilo que pode fazê-lo deixar de ser quem é.

Mas Circe não continua sendo sua inimiga. Depois de enfrentá-la, Odisseu permanece com ela durante um ano. Come, descansa, desfruta da vida. Pela primeira vez em muito tempo, não está lutando para sobreviver nem tentando escapar de algum perigo. Está simplesmente vivendo. Circe passa a representar a possibilidade de permanecer. Odisseu pode ficar: há alimento, descanso, prazer, uma vida possível. Mas, depois de um ano, ele escolhe partir. E aqui já não se trata apenas de seguir viagem, mas de sustentar uma escolha. Escolher significa deixar para trás uma vida possível para seguir em direção àquela que se deseja.

Eu também reconheço minha Circe: a possibilidade de permanecer em uma vida profissional estabelecida, em um lugar que eu já conhecia no mundo. Mas escolhi partir. Voltar a estudar e começar outra profissão significou abrir mão de uma vida que funcionava para escolher outra, ainda sem garantias.

Até aqui, muitas vezes Odisseu é levado pelos acontecimentos; com Circe, precisa escolher. Pode permanecer, mas decide partir. E é Circe quem lhe indica o próximo passo. Ela, que parecia uma ameaça, torna-se aquela que indica o caminho. Odisseu precisará descer ao mundo dos mortos e consultar Tirésias, o profeta cego, e ouvir aquilo que precisa saber. Não basta agir; Odisseu precisa saber. A viagem agora exige dele algo diferente da astúcia ou da força: exige conhecimento. Nem tudo o que nos ameaça precisa ser evitado. Há ameaças que só conseguimos atravessar quando aceitamos olhar para elas e dar-lhes um nome.  

No mundo dos mortos, Tirésias lhe revela aquilo que ainda está por vir, o que ele precisará enfrentar para chegar a Ítaca. É ali também que Odisseu encontra algo que não estava procurando: sua mãe, Anticleia, e descobre que ela morreu durante sua longa ausência. Anticleia me toca muito. Ao encontrar a mãe, Odisseu descobre que, enquanto estava longe, a vida continuou. Sua escolha teve um custo: sua mãe morreu. Há perdas que não acontecem porque escolhemos mal, mas porque toda escolha nos afasta de alguma coisa. Não podemos levar tudo conosco. Escolher um caminho significa deixar outros para trás, e algumas perdas só conseguimos enxergar quando já estamos longe demais para voltar.

Ao descer ao mundo dos mortos, Odisseu encontra ainda Agamêmnon, Aquiles e outros mortos da guerra. Sei bem que há verdades que não desaparecem. Elas apenas esperam o momento em que já não podemos fugir delas. Insistem em permanecer, mesmo quando tentamos deixá-las para trás. A resposta pode estar justamente onde evitamos olhar. Para descobrir o que precisa saber e continuar sua jornada, Odisseu precisou descer ao lugar que representa a própria morte. Para seguir adiante, precisou olhar de frente para aquilo que havia deixado para trás.

Lá, ele encontra também Agamêmnon, que é irmão de Menelau. Os dois são filhos de Atreu e Aérope e pertencem à família dos Atridas. Agamêmnon conta que, quando voltou da guerra, foi recebido em casa pela própria esposa, Clitemnestra, e pelo amante dela, Egisto, e acabou assassinado pelos dois. Ele conseguiu voltar da guerra, mas não encontrou em casa o que imaginava. Seu encontro com Odisseu acrescenta uma dimensão sombria: a desconfiança, a traição e a impossibilidade de acreditar que aqueles que ficaram permaneceram exatamente como eram. Voltar para casa não significa reencontrar as pessoas como as deixamos. O tempo transforma também aqueles que ficaram.

É isso que sinto quando olho ao redor e percebo que já não reconheço muitos dos que compartilharam comigo uma parte da minha vida. Algumas pessoas continuam ocupando os mesmos lugares, mas parecem outras. Outras mudaram, algumas muito, sem que eu percebesse quando isso aconteceu. E então vem a pergunta: como eu não me dei conta antes? Quando estamos dentro de uma história, não percebemos suas transformações no momento em que acontecem. Só reconhecemos a distância quando olhamos para trás. As pessoas que reencontro hoje carregam uma história que aconteceu sem mim, assim como eu carrego tudo o que aconteceu enquanto estive longe. Não fomos apenas separados pelo tempo; fomos transformados por ele.

Depois vieram as Sereias, cujo canto representa uma tentação tão poderosa que Odisseu precisa criar uma estratégia para poder escutá-las sem se entregar a elas. Ele manda os homens colocarem cera nos seus ouvidos. Mas ele não, ele quer ouvir o canto, então pede que o amarrem ao mastro do navio. Não quer fingir que a tentação não existe, nem abrir mão do desejo de conhecê-la. Mas sabe que, se estiver livre, não conseguirá resistir.

Reconhecer os próprios limites também é uma forma de liberdade. Odisseu não confia apenas na própria força de vontade. Antes de encontrar a tentação, cria as condições para não ser levado por ela. Resistir à tentação não é fingir que ela não existe, mas reconhecer a nossa vulnerabilidade e construir estratégias para atravessá-la.

Eu também ouvi muitos cantos pelo caminho. Propostas para ficar. Convites para retornar. Promessas de uma vida que eu já conhecia bem. Havia conforto, segurança, reconhecimento. Por alguns momentos, continuar em direção ao desconhecido pareceu muito mais difícil do que eu imaginava.

Vieram Cila e Caríbdis. Cila é um monstro de seis cabeças, e cada uma delas pode arrancar e devorar um homem. Caríbdis é um enorme redemoinho capaz de engolir o mar e destruir toda a embarcação. Circe já havia avisado Odisseu: ele teria que passar entre os dois perigos e não havia uma saída sem perda. Odisseu precisa escolher não entre o perigo e a segurança, mas entre dois perigos diferentes. Não existe uma decisão capaz de preservar tudo. E é justamente aí que a escolha ganha um forte significado. Não existe uma decisão sem custo. Não se trata de escolher entre o bem e o mal, mas entre duas dores possíveis. Qual dor carregar? Qual perda suportar para continuar o caminho?

Odisseu escolhe passar mais próximo de Cila, porque enfrentar Caríbdis poderia significar perder toda a embarcação e todos os homens de uma só vez. Ainda assim, seis homens são levados por Cila. Algumas escolhas não permitem evitar a dor. Permitem apenas decidir qual dor é possível carregar.

Foi assim também comigo. Havia um caminho conhecido, que eu já sabia percorrer, não sem dor, mas abrindo mão do meu desejo. E havia outro, ainda sem nome, sem garantias e cheio de perguntas, em que eu precisaria abrir mão da segurança. Escolher significava perder. Escolhi as perguntas, mesmo sem saber onde elas me levariam.

Depois veio a ilha do rebanho sagrado, a ilha do Sol. Ali estão os bois de Hélio, que não podem ser tocados. Odisseu sabe disso. Tirésias havia avisado. Circe também havia avisado. Desta vez, portanto, não se trata de escolher, não foi por falta de aviso, o limite está dado, e eles sabem qual é. Mas seus homens estão famintos. Enquanto Odisseu dorme, seus companheiros matam e comem alguns dos bois sagrados. Quando Hélio descobre, exige punição, senão ameaça apagar o sol da terra. Zeus então envia um raio que destrói a embarcação. Todos os homens morrem. Só Odisseu sobrevive.

Nem tudo está sob nosso controle. Odisseu havia planejado, orientado seus homens. Ainda assim, não conseguiu controlar as escolhas dos outros. Há momentos em que fazemos tudo o que está ao nosso alcance e, mesmo assim, o resultado escapa das nossas mãos.

Essa foi uma lição difícil da minha própria travessia. Eu queria acreditar que, se tomasse cuidado, planejasse cada passo e fizesse tudo certo, conseguiria prever onde aquela decisão iria me levar. Mas a vida não funciona assim. Quando decidi mudar, não havia garantias, nem mapa, nem caminho. A partir dali, a travessia seria só minha. Eu precisaria seguir sozinha, assumindo o risco e a responsabilidade pela minha escolha. Não controlamos o mar, nem o que ele levará de nós. Só podemos escolher continuar e sustentar a escolha que fizemos.

E então resta Calipso.

É muito significativo que, depois de tantas batalhas, monstros, tempestades, perdas e mortes, Odisseu fique preso não em um lugar de horror, mas em um lugar aparentemente perfeito. Calipso oferece a ele a juventude eterna e a possibilidade de tornar-se imortal caso escolha permanecer e casar-se com ela. Ele poderia viver longe das dores do mundo, sem envelhecer, sem morrer. Odisseu permanece ali durante sete anos, tem tudo, mas, ainda assim, quer partir. É justamente o que torna Calipso tão marcante na Odisseia: Odisseu precisa escolher entre uma vida boa e a vida que deseja. Ele poderia permanecer naquele lugar perfeito, mas não seria Ítaca. Estar confortável é diferente de estar em casa. 

Odisseu quer voltar para Ítaca, mas o desejo, sozinho, não era suficiente.

Então Zeus decide que Odisseu deve ser libertado e, novamente, envia Hermes para levar a ordem. Hermes chega à ilha, transmite a mensagem e deixa claro que Odisseu precisa partir. Calipso não o liberta por vontade própria; apenas cumpre a determinação dos deuses.

O significativo é que Hermes não tira Odisseu da ilha. Não constrói o barco, não atravessa o mar com ele, não o conduz até Ítaca. Apenas traz a mensagem, oferece proteção e abre uma possibilidade. O resto cabe a Odisseu. Algumas pessoas são assim na nossa vida: não caminham conosco até o fim, mas aparecem exatamente quando uma passagem se faz possível. Quando o que precisamos não é de alguém que nos carregue, mas de alguém que abra uma porta.

Calipso me faz pensar na minha própria história. Não foi apenas deixar para trás uma profissão, mas abrir mão de uma vida que funcionava. Eu tinha muito do que poderia desejar: conforto, segurança, reconhecimento. E, ainda assim, havia em mim a sensação de que aquele não era mais o meu lugar. Calipso representa, para mim, esse lugar onde permaneci por mais de vinte anos: confortável, conhecido e seguro, mas que, em algum momento, deixou de ser casa.

Após a mensagem de Hermes, é Calipso quem fornece a Odisseu os recursos para construir a jangada. Ele quer Ítaca. E é aí que a palavra “casa” começa realmente a ganhar outro significado. Casa deixa de ser apenas um lugar para onde se volta e passa a ser aquilo que dá sentido ao desejo de voltar. Odisseu não quer simplesmente retornar a um território. Quer reencontrar aquilo que o constitui: Penélope, Telêmaco, sua história, seus vínculos e a possibilidade de reconhecer a si mesmo.

O retorno não significa voltar a ser quem se era antes. Odisseu já não é o mesmo homem que partiu. Ítaca pode até ser, ele ainda não sabe. O desafio do retorno não está em chegar a um lugar, mas em descobrir se, depois de tudo, ainda somos capazes de pertencer a ele.

Depois de deixar a ilha de Calipso, Odisseu enfrenta uma tempestade provocada por Poseidon, que destrói sua embarcação. Quase morto, chega à terra dos Feácios, na ilha de Esquéria. Está nu, exausto, sem pertences e sem saber exatamente onde está.

É nesse momento que surge Nausícaa, filha do rei Alcínoo e da rainha Arete. Atena aparece em seu sonho e a incentiva a ir até o rio lavar roupas com suas servas, lembrando-lhe que ela está em idade de se casar. Nausícaa vai até lá com as jovens e, enquanto elas brincam, o barulho desperta Odisseu, que estava escondido entre os arbustos.

Odisseu está irreconhecível. É um homem que perdeu tudo, um náufrago. Nausícaa poderia ter medo e fugir, mas não foge. Odisseu pede ajuda, e ela lhe oferece roupas e orientação. Indica o caminho até o palácio de seus pais e explica como chegar à cidade sem acompanhá-lo, evitando comentários sobre um possível casamento com um estrangeiro. Ela não resolve o problema de Odisseu. Não o leva até Ítaca. No palácio, o rei Alcínoo acolhe o estrangeiro, os Feácios o hospedam e, finalmente, providenciam um navio para levá-lo a Ítaca. Nausícaa lhe dá exatamente aquilo de que ele precisa naquele momento: condições para seguir.

Também encontrei minha Nausícaa pelo caminho. Ela apareceu quando eu já não sabia como continuar. Não fez a travessia por mim, mas me devolveu as condições para seguir.  Em um momento em que eu já não sabia o que fazer, sua presença foi o suficiente para que eu conseguisse dar o próximo passo.

Quando finalmente chega a Ítaca, Odisseu tem a aparência de um mendigo. Ninguém o reconhece imediatamente. E, curiosamente, nem ele próprio consegue reconhecer a ilha para a qual passou tantos anos tentando voltar.

Odisseu encontra Eumeu. O porqueiro fiel de Odisseu não sabe que é ele e, ainda assim, oferece comida, abrigo e hospitalidade. Mais tarde, participa da recuperação da casa. Há uma diferença entre ser reconhecido e ser acolhido sem precisar ser reconhecido. Eumeu não reconhece o rei, o herói ou o homem que partiu vinte anos antes. Reconhece apenas um homem que precisa de abrigo e isso é suficiente para acolhê-lo.

Há uma forma de amor que permanece quando já não temos posição ou conquistas que provem quem fomos. Um amor que não precisa saber quem fomos para acolher quem somos. Sei bem do que estou falando.

Inicialmente, Odisseu não é reconhecido e não reconhece Ítaca. Atena havia lançado uma névoa sobre a ilha, protegendo-a até que ele pudesse, enfim, retornar. Atena me faz pensar que há sempre ajuda no caminho. Há quem nos proteja o suficiente, para que possamos encontrar nosso próprio caminho. Ao longo da minha própria jornada, encontrei pessoas assim: não fizeram a travessia por mim, mas me ajudaram a não perder a direção.

Enfim, há ainda quem consiga reconhecê-lo.

Primeiro, Argos, seu velho cachorro. Já debilitado, depois de tantos anos esperando pelo dono, ele reconhece Odisseu pelo cheiro. Odisseu, porém, não pode demonstrar que o reconheceu, precisa manter seu disfarce. Argos então morre. Argos não reconhece o rei, mas o homem. E é justamente isso que torna essa cena tão poderosa: quem nos reconhece quando já não temos status, posição, aparência ou poder? Quem nos conhece quando não temos nada para oferecer? Quem consegue enxergar aquilo que permanece em nós quando tudo aquilo que costumava nos definir já não está mais lá?

Depois, Euricleia, sua antiga ama, ao lavar os pés do suposto mendigo, reconhece a cicatriz na perna de Odisseu. É uma marca que atravessou os anos e sobreviveu a tudo o que aconteceu depois. Ela reconhece o homem que está diante dela não pelo rosto ou pelas roupas, mas por uma marca que o tempo não conseguiu apagar. Odisseu, porém, a impede de revelar sua identidade. Ainda não é o momento de ser reconhecido por todos.

Essa parte me toca. Quando deixei para trás o lugar que ocupei por tantos anos, muitas pessoas ficaram pelo caminho. Muitas escolheram acreditar em versões que não eram minhas. No meio de tantos, sobraram poucos. Não permaneceram porque precisavam de quem eu fui, mas porque foram capazes de enxergar quem eu me tornei.

Durante muito tempo, acreditei saber quem era. Afinal, existem pessoas, lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que funcionam como espelhos: é também através do olhar do outro que construímos uma imagem de nós mesmos. Mas o que acontece quando esses espelhos desaparecem? Quando as pessoas mudam, os lugares deixam de ser nossos, os trabalhos terminam e as escolhas que nos definiam já não fazem sentido? O que sobra?

Sobraram Filoécio, Demódoco e alguns poucos outros. Talvez não por acaso sejam justamente essas figuras secundárias que, no retorno de Odisseu, ganham uma importância tão grande.

Filoécio é o vaqueiro fiel de Odisseu. Não é da família, não é um herói, não é um deus. É alguém que permaneceu ligado à casa e ao rei durante todos aqueles anos de ausência. Quando Odisseu retorna disfarçado, Filoécio demonstra sua lealdade e participa da recuperação da casa.

Para mim, fidelidade é isso: permanecer ligado a alguém mesmo quando já não há presença, reconhecimento ou qualquer garantia. Há pessoas que não precisam de provas para permanecer. Simplesmente permanecem.

Demódoco faz diferente. É o aedo cego dos feácios. Não enxerga Odisseu, mas conta a sua história. Ao ouvi-la, Odisseu se emociona e se reconhece naquilo que outro consegue narrar sobre ele. Há momentos em que não precisamos que alguém nos veja; precisamos que alguém consiga nos contar de volta.

Eu me identifico aqui. É o que me faz falta agora: não uma nova identidade, mas uma narrativa capaz de reunir o que, dentro de mim, parece ter se dispersado. Talvez eu não tenha deixado de saber quem sou; talvez tenha apenas perdido, por algum tempo, a capacidade de enxergar a história que ainda conecta minhas partes.

É isso que algumas pessoas fazem por nós: guardam uma parte da nossa história quando nós mesmos já não conseguimos enxergá-la inteira. Não nos devolvem quem éramos. Ajudam-nos a reconhecer aquilo que, apesar de tudo, continua sendo nosso.

Mas chega o momento em que esse reconhecimento precisa partir de nós.

Em Ítaca, há 108 pretendentes ocupando a casa de Odisseu, disputando Penélope e, com ela, o lugar de rei de Ítaca. O homem que retorna precisa permanecer disfarçado, observando tudo sem ser reconhecido.

Penélope então propõe uma prova: aquele que conseguir manejar o arco de Odisseu e lançar uma flecha através dos orifícios de doze machados será seu marido. Nenhum dos pretendentes consegue. Odisseu, ainda disfarçado de mendigo, pede para tentar. Toma o arco, encorda-o com facilidade e realiza o desafio.

Não por acaso, antes de disparar a primeira flecha, Odisseu pede a Apolo que lhe conceda glória. Depois de tantos anos tentando sobreviver: finalmente, ele está pronto para mostrar aquilo que ainda sabe fazer. E, seu gesto revela aquilo que as aparências escondiam: aquele mendigo é Odisseu.

Existe algo disso na minha própria travessia. Depois de tanto tempo tentando me adaptar ao que a vida pedia, começo a descobrir não apenas o que deixei para trás, mas aquilo que ainda sei fazer. Aquilo que continua sendo meu, mesmo quando todo o resto mudou.

Nesse momento, fico pensando em Telêmaco: ele cresce enquanto espera por alguém que não está lá. Passa boa parte da Odisseia vivendo numa casa em que o pai está ausente, enquanto homens mais velhos disputam um lugar que não lhes pertence. Atena o ajuda, mas não pode viver por ele. Telêmaco precisa sair, perguntar, procurar respostas e, aos poucos, descobrir o próprio lugar.

Quando Telêmaco sai de Ítaca procurando notícias do pai, visita Nestor, em Pilos. Nestor conta o que conhece sobre o retorno dos gregos, mas não consegue dizer exatamente onde Odisseu está. Não pode devolver Odisseu a Telêmaco, mas pode oferecer a ele uma parte da história que procura. Às vezes, é o que precisamos: alguém, não para nos dizer quem somos, mas para nos devolver referências a partir das quais possamos voltar a nos reconhecer.

Então Telêmaco vai a Esparta, procurar Menelau e Helena.

Menelau conta que, em seu próprio retorno da guerra, ficou preso no Egito e precisou consultar Proteu, o “Velho do Mar”. Proteu era capaz de assumir diferentes formas para escapar de quem tentasse capturá-lo: podia transformar-se em animais, água, árvore.

Proteu me faz pensar em quantas formas podemos assumir sem, necessariamente, deixar de ser quem somos. Odisseu mudou de lugar, de aparência, de posição e até de nome. E, ainda assim, continuou sendo Odisseu. Mudar não é necessariamente perder quem somos. É justamente a mudança que nos obriga a descobrir o que, em nós, não muda.

Menelau e seus homens conseguem prendê-lo e, depois que Proteu volta à sua forma original, ele revela o que sabe. E é Proteu quem informa a Menelau que Odisseu está na ilha de Calipso. Proteu não pode levar Telêmaco até o pai, mas lhe devolve uma certeza a partir da qual ele pode continuar: Odisseu está vivo.

Eu preciso olhar para Telêmaco, assim como também preciso olhar para Penêlope. Durante vinte anos, Odisseu atravessou mares tentando voltar. Penélope atravessou vinte anos permanecendo. E permanecer é também uma forma de travessia. Ela não ficou exatamente no mesmo lugar enquanto ele partia; precisou inventar maneiras de sustentar a casa, adiar escolhas, proteger aquilo que ainda acreditava existir e esperar sem garantias.

Nem toda a Odisseia é sobre quem retorna. É também sobre quem fica. Sobre aqueles que esperam, acompanham e, de alguma maneira, também são transformados pela partida de quem amam. Não estive sozinha nessa travessia. Enquanto eu mudava de direção, minha família acompanhou meu movimento. Esperou, sustentou minhas dúvidas, conviveu com minhas incertezas e acreditou em mim mesmo quando eu ainda não sabia exatamente para onde estava indo. Eles não fizeram a travessia por mim, porque não poderiam. Mas permaneceram.

É uma forma de amar: não impedir a transformação de quem amamos. Telêmaco  e Penêlope me fazem pensar nisso: há quem precise partir para se transformar e há quem permaneça para sustentar essa partida.

Com a ajuda de Telêmaco, Eumeu, Filoécio e alguns poucos aliados fiéis, Odisseu enfrenta os pretendentes e os mata. O primeiro a cair é Antínoo, aquele que havia se colocado como líder entre os que ocupavam sua casa, aquele que simboliza a arrogância de quem se sente dono de um lugar que não lhe pertence.

Existe Antínoo na minha jornada: essa pessoa que ocupa o lugar que um dia foi meu, mas nunca poderá ocupar aquilo que eu fui naquele lugar. É difícil aceitar a passagem do tempo, perceber que aquilo que um dia nos pertenceu pode continuar existindo sem nós. Mas há uma diferença: o espaço pode ser preenchido. A história, não. Essa pessoa pode viver outras experiências, construir outras relações, deixar suas próprias marcas. Lugares mudam de dono, funções são substituídas, pessoas chegam e partem. Mas aquilo que eu vivi não pode ser reencenado por outra pessoa. Ninguém pode ser quem fui, amar quem amei, cometer os mesmos erros que cometi, deixar as mesmas marcas que deixei. Pode ocupar o espaço que um dia foi meu, mas nunca poderá ocupar aquilo que eu fui ali.

Há ainda Pêmio, o aedo, aquele que continua cantando no palácio durante a ausência de Odisseu. Ele está dentro da casa, mas não está exatamente ao lado daqueles que a ocupam. Canta porque é sua função, porque é o lugar que lhe coube e, naquele momento, porque também precisa sobreviver. Quando chega a hora do confronto, pede para ser poupado, e Telêmaco intervém em seu favor. Há também Medon, o arauto. Ele também é poupado. Não era um dos pretendentes, mas havia permanecido dentro daquela casa durante a ausência de Odisseu. Sua posição o obrigava a servir àqueles que agora ocupavam o palácio.

Pêmio e Medon me fazem pensar em algumas pessoas que ficaram. Fizeram escolhas que me feriram, mas nem todas tiveram liberdade para escolher. Há quem nos decepcione não porque tenha deixado de nos reconhecer, mas porque também está tentando preservar seu lugar. Nem toda permanência é uma escolha. Nem todo silêncio é cumplicidade. O outro também está tentando sobreviver dentro da casa que mudou de dono. Nem toda traição é uma escolha. Às vezes, é o modo imperfeito que alguém encontra para permanecer de pé.

Odisseu reencontra o pai, Laertes, que ainda reconhece o filho. Laertes está velho, afastado, sofrendo pela ausência de Odisseu. Quando finalmente se revela, há um reconhecimento entre pai e filho. Na luta final contra os pretendentes, Laertes recupera a força e mata Eupeites, pai de Antínoo.

Há algo muito forte nesse encontro: antes de ser rei, herói, marido ou aquele que retorna, Odisseu é filho. Existe uma parte de nós que antecede tudo aquilo que conquistamos e todos os lugares que ocupamos no mundo. Uma parte que não depende do cargo, da profissão, do reconhecimento ou da posição que os outros nos dão.

É isso que Laertes representa para mim. Uma raiz. Aquilo que permanece quando todas as outras referências desaparecem. Posso perder um lugar, uma profissão, uma posição, pessoas que me reconheciam, e até a imagem que construí de mim mesma. Mas existe alguma coisa anterior a tudo isso, alguma coisa que não começou com essas conquistas e que não termina quando elas deixam de existir. Antes de ser tudo aquilo que o mundo reconheceu em mim, eu já era alguém. Aquilo que é verdadeiramente nosso cria raízes. Algumas são tão profundas que continuam nos sustentando mesmo quando nós próprios já não sabemos exatamente quem somos.

Enfim, Odisseu recupera sua casa, sua autoridade e seu lugar em Ítaca.

Mas ainda falta o reconhecimento mais importante: Penélope.

Penélope não o reconhece imediatamente. Ou talvez não queira simplesmente acreditar. Afinal, vinte anos se passaram. O homem diante dela envelheceu, mudou e carrega uma história que ela não viveu. Ela não pode tomar como verdade apenas o que lhe dizem. Penélope afirma que, se ele realmente é Odisseu, os dois têm sinais que somente eles conhecem. Então ela pede que levem a cama do quarto para outro lugar. Odisseu se enfurece. Como poderiam mover nossa cama? Ela tinha sido construída por ele próprio em cima de uma oliveira viva.

É nesse momento que Penélope o reconhece. Não pela aparência ou pela posição. Não porque alguém lhe disse que aquele homem era Odisseu. Ela o reconhece por algo que pertence apenas à história dos dois. Aquilo que é verdadeiramente nosso tem raízes. Há coisas que podem mudar de forma, de aparência, de lugar, mas não perdem necessariamente sua origem.

A cama, construída a partir de uma oliveira viva e ainda presa às suas raízes, diz isso: podemos mudar, nos afastar, nos perder e até deixar de nos reconhecer por algum tempo. Mas há algo que permanece ligado à nossa história e que nos ajuda a encontrar o caminho de volta.

Depois, Odisseu sai para percorrer Ítaca. Não reconhece a ilha. A névoa ainda está sobre ela. Atena então dissipa a névoa e revela a Odisseu: sua própria terra.

Atena é justamente a presença que não faz a travessia por Odisseu, mas o orienta, protege, cria condições e aparece quando ele precisa enxergar o próximo passo. Ela o ajuda ao longo de toda travessia, auxilia Telêmaco, intervém para que Odisseu deixe Calipso, conduz encontros importantes e, em Ítaca, cria e desfaz a névoa e o ajuda a recuperar sua casa.

E é justamente aqui que essa história ganha, para mim, mais sentido ainda.

Ítaca nunca foi apenas um lugar. Ítaca é quem você é.  É algo interno onde conseguimos nos reconhecer. Odisseu perdeu certezas. Odisseu mudou. Ítaca também mudou, mas alguma coisa sobreviveu ao tempo e às transformações.  Ele é rei, guerreiro, náufrago, amante, estrangeiro, mendigo. E, ainda assim, existe algo que permanece reconhecível.

Quem você é tem raízes.

Essa é a parte que mais me convoca. Eu também estou tentando voltar para casa e, às vezes, sem saber exatamente onde está minha Ítaca. Como Odisseu, atravesso uma espécie de névoa: o lugar está ali, mas já não consigo reconhecê-lo. O mais difícil é admitir que a casa para a qual tento voltar já não me parece a mesma, e eu também não sou mais a mesma que partiu. O que procuro, então, não é simplesmente reencontrar esse lugar, mas descobrir o que, em mim, apesar de tudo o que mudou, continua fincado nas minhas próprias raízes.

Ítaca, para mim, não é um endereço. Não é sequer uma vida que existiu antes. É uma posição interna, a partir da qual eu possa novamente olhar para o mundo e me reconhecer.

Durante muito tempo, a gente acredita que sabe quem é. Não porque eu tenha encontrado sozinha essa resposta, mas porque existem pessoas, lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que funcionam como espelhos. O Outro nos devolve uma imagem de nós mesmos. E, de algum modo, vamos aprendendo a nos reconhecer nesta imagem. Até que um dia o espelho muda. Ou nós mudamos. E aquilo que antes parecia tão evidente deixa de ser.

A imagem que nos sustentava já não coincide com o que vemos. E então começa uma tarefa bem difícil: descobrir quem somos. Acho que eu estou nesse intervalo: entre a pessoa que eu era e aquela que ainda não consigo ser. É estranho, assusta, já não há segurança.

É como acordar de um coma, sim. Não porque tudo tenha acabado, mas porque tudo parece ter continuado sem mim. As conexões mudaram, as referências mudaram, algumas pessoas já não estão, e algumas certezas perderam o sentido. Há escolhas que, durante muito tempo, pareceram certas e que agora revisito com o desconforto de quem olha para o passado sabendo o que só foi possível saber depois.

É difícil acordar: perceber que a vida continuou enquanto você esteve fora. E, quando finalmente volta a olhar para si, já não é exatamente a mesma pessoa que partiu.

E então surge uma pergunta: e se eu estiver errada?
E se todo aquele esforço não tiver me levado aonde eu imaginava?
E se aquilo que eu acreditava ser caminho, olhando agora, parece passos para trás?

É aí que a minha história começa a se voltar contra mim. As palavras que normalmente me ajudam a organizar o mundo passam a me interrogar.  Cada conquista parece menor, cada escolha parece suspeita, e cada caminho percorrido parece carregar a possibilidade de que poderia ter sido outro.

Mas é aí que Odisseu me ajuda. A Odisseia não é a história de um homem que sabe exatamente para onde está indo. É a história de um homem que, muitas vezes, não consegue chegar. Ele se perde, é enganado, erra, perde companheiros e é afastado de casa inúmeras vezes justamente quando acredita estar perto.

Há momentos em que o retorno parece impossível. E, ainda assim, Odisseu continua, existe uma direção: Ítaca. 

Ele não tem certeza de que está no caminho certo, mas existe alguma coisa que o faz continuar desejando chegar. Ítaca não tem garantia. É um norte.

É isso: não necessariamente uma resposta, mas um norte. Tenho exigido de mim uma definição quando, na verdade, estou vivendo uma travessia. E travessias são assim: sem mapas, confusas. A gente avança sem saber exatamente onde e se vai chegar, tentando apenas não se perder tanto pelo caminho.

Às vezes parece que estamos avançando e, de repente, uma tempestade nos devolve quilômetros. Às vezes precisamos escolher entre dois perigos. Às vezes precisamos deixar alguma coisa para trás. Às vezes somos tentados pelo esquecimento, pelo conforto de não querer mais voltar. E há momentos em que ouvimos vozes que podem nos destruir se acreditarmos demais nelas. Mais do que isso, precisamos descer ao mundo dos mortos para reencontrar aquilo que está enterrado vivo dentro nós.

É isso que está acontecendo comigo. Não estou desaparecendo, e sim perdendo as referências antigas que me diziam quem eu era. E existe uma diferença enorme entre desaparecer e deixar de caber na imagem que eu tinha de mim mesma.

Sei que estou na minha própria Odisseia. Não no começo, porque já existe uma história inteira atrás de mim. Não no fim, porque ainda não cheguei a Ítaca. Preciso continuar caminhando.

Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou.

Eu não sei exatamente quem vou encontrar quando chegar. Nem sei ainda, ao certo, o que é, para mim, Ítaca, mas eu não preciso saber agora.

Não quero recuperar a vida que existia antes. Não quero voltar ao que fui, mas construir um lugar a partir de quem me tornei. E, por enquanto, é só isso que eu preciso saber: ainda existe alguma coisa em mim que me faz desejar, mesmo quando tudo parece desconectado. Mesmo quando as palavras, que sempre foram meu abrigo, hoje parecem não querer me obedecer.

Minha Odisseia particular: descobrir o que ainda me pertence, o que, em meio a tantas mudanças, continua sendo meu. O mais difícil é me dar conta do que eu ainda não sei fazer: me haver com meu desejo.

Mas sei que, no final, nos tornamos quem somos.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

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Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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