Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

E ainda assim, me chama

Quero escrever sobre a minha posição de analista (uso a abordagem psicanalítica), quero dizer sobre como entramos com o nosso corpo na sessão. Às vezes ele pesa, às vezes se agita, às vezes parece querer escapar. Há sono, inquietação, cansaço, atenção, presença. E há aquilo que ainda não sabemos nomear.

Casos muito complicados, casos triviais, problemas disfarçados de objetos, discursos, alguns tímidos ao extremo, outros em que não se consegue interromper, dada a eloquência da fala e a ininterrupção. Mulheres, homens, adolescentes, crianças. Concretos como as crianças, abstratos como outros. Céticos e crédulos.

E você ali, no lugar de suposto saber. Um lugar que o outro lhe oferece. Você tem conhecimento, estudo, experiência, está muito preparada, mas, naquela sessão, precisa suspender a tentação de saber de antemão. O saber, se vier, não é exatamente seu. É algo que se constrói ali, na fala do outro, entre aquilo que ele diz e aquilo que ainda não sabe que está dizendo. 

E, ainda assim, você está ali, no lugar de suposto saber. Totalmente atravessada pelo outro, desconectada da sua própria história, colocando seu conhecimento em suspensão, para estar ali. Com o seu inconsciente. Atenção flutuante e muita cobrança. Lembrando da sua própria análise e do que vai encontrar na supervisão.

Onde há um embaralhamento, o certo é errado, o errado é certo e não tem certo e errado. É o que é. Ouvi a supervisora dizer que quem sabe é quem ali estava e, portanto, sou detentora de um saber que tenho e não sei que tenho.

Nos intervalos, vários relatórios e análises. E ainda mais leitura. Você vai se cercando de montanhas de livros, artigos, anotações, palavras sublinhadas, páginas marcadas para voltar depois. E, quanto mais lê, maior parece ser o território que falta conhecer. Uma palavra leva a outra, um autor a outro, uma pergunta abre uma passagem e, quando você percebe, já está longe de onde começou. Lê para compreender o que ouviu e, às vezes, para suportar o que não compreendeu. Lê e encontra alguma coisa que ilumina, outra que confunde, outra que desmente aquilo que você acreditava ter entendido. E então volta. À análise, à supervisão, ao livro, à sessão. Como se houvesse sempre alguma coisa prestes a se revelar e, ao mesmo tempo, alguma coisa que precisasse permanecer sem nome. Você vai se construindo nesse movimento, entre o que sabe e o que não sabe, entre o que pensa ter entendido e aquilo que insiste em escapar. E continua lendo.

A vida vai mudando bruscamente. E eu, que venho de uma carreira anterior, em exatas, justamente na área de que hoje me afasto, devaneio em algumas comparações. É curioso olhar para trás e perceber o quanto atravessei. Como se tivesse caminhado até o outro lado, para um lugar quase oposto. Antes, tão perto de certezas, de resultados, de respostas. Hoje, tão perto daquilo que escapa, do que não se resolve, do que precisa permanecer em suspenso. Às vezes penso na pessoa que eu era ali e na que sou aqui e parece que não são exatamente a mesma. Mas são. E me intriga: como se chega tão longe e ainda se é a mesma, embora tudo pareça tão diferente.

E quanto o paciente me diz que lembrou do que eu disse, quando ele volta para beber mais na fonte do seu próprio inconsciente, aumenta a pressão, aumenta a autocobrança, você se questiona. Na verdade, estamos juntos atravessando os fantasmas. Entre o real, o simbólico e o imaginário.

A realidade do paciente vai surgindo e a sua realidade fica ali, sem lugar. E você vai, não querendo psicoeducar, mas já psicoeducando. Não exatamente como ele espera. Você não responde, devolve a pergunta. O paciente vai associando. Entre a demanda e a escuta. Entre aquilo que o paciente espera, aquilo que pretende que você faça e aquilo que, inevitavelmente, você acaba fazendo.

E depois você se atém ao seu olhar, ao seu sentido, ao que aconteceu ali, ora sem palavras mesmo para nomear, ora nítido como a luz. E, ainda assim, você desconfia daquilo que pareceu tão claro. Daquilo que você pensou ter visto.

É uma profissão perigosa. Sim. Acredito nisso. E sempre me pergunto: perigosa para quem? Para o analista? Para o paciente? Para o narcisismo? Para as certezas? É uma profissão solitária também e, ao mesmo tempo, lotada de pensadores e autores, de abordagens. Lendo, lendo e lendo. Se construindo e desconstruindo.

E quando termina o dia, após várias sessões, já em casa, já em outros papéis, você quer se recolher. Não cabe mais nada. O silêncio é necessário. Mas não seria justo com os seus, que chegam falando muito, te solicitam, te buscam. E você está ali, querendo estar e também querendo desaparecer um pouco. Eles chegam com a vida que continua, e você ainda tentando sair de tantas outras vidas que passaram por você.

Você se olha e se pergunta se é uma farsa ou se realmente é sua escolha, é o seu desejo. Se haver com meu desejo. Comecei assim e estou aí nesse ponto, me havendo com ele, dia após dia, entre arrependimentos e comemorações. Me sentindo abençoada por ter "vencido na vida" e estar podendo estar aqui e, ora, me lamentando pela falta de raciocínio crítico e por uma idealização gigante, por ser tão idealista de achar que desejo é para ser vivido em intensidade. Custe o que custar.

Sabendo que dinheiro não compra tudo. Mas igualmente me havendo com a falta dele.

Complicado demais.

O desejo se move constantemente

Há uma hora em que a gente percebe que passou tempo demais tentando caber.

Caber na família. No trabalho. Na expectativa de alguém. Na ideia de sucesso que nos ensinaram. Na versão de nós mesmos que parece mais fácil de explicar.

E o mais estranho é quando, finalmente, conseguimos. A vida se organiza. O trabalho chega. O dinheiro começa a entrar. As coisas parecem estar no lugar. Há uma certa estabilidade. Uma espécie de silêncio depois de tantos anos de tempestade. Mas alguma coisa continua fora do lugar.

É difícil explicar. Porque, de fora, parece que está tudo bem. Esse é o problema.

Há vidas que são construídas como quem monta uma casa seguindo uma planta que recebeu pronta. Cada cômodo no lugar, cada parede obedecendo ao desenho. Até que um dia você entra e percebe que não sabe onde fica você.

É isso que o desejo costuma fazer: ele desarruma um pouco a casa. Ele aparece onde não deveria. Insiste onde já havíamos decidido não olhar. Faz barulho. Interrompe planos. Desconfia das certezas. E nem sempre sabemos o que fazer com ele.

Passamos anos confundindo desejo com conquista. Achamos que querer é chegar. Que felicidade é finalmente possuir aquilo que faltava. Que, quando todas as peças estiverem no lugar, alguma coisa dentro de nós finalmente descansará. Mas o desejo não parece funcionar assim. Ele se move.

É por isso que algumas pessoas se sentem mais vivas justamente quando tudo parece incerto. Em uma cidade nova. Em um palco. Em um encontro inesperado. Em uma escolha que ninguém ao redor entende. Não porque o sofrimento seja desejável. Mas porque, em determinados momentos, existe uma estranha sensação de presença quando já não é possível viver apenas para corresponder.

Há algo de muito solitário em descobrir que a vida que esperavam de nós não é necessariamente a vida que queremos. E há algo ainda mais difícil: perceber que já não são apenas os outros que nos prendem. As vozes deles ficaram dentro. Foram incorporadas por nós.

A gente aprende a se vigiar. A antecipar o julgamento. A diminuir o próprio desejo antes que alguém precise fazê-lo. Aprende a chamar de prudência aquilo que talvez seja medo. De maturidade aquilo que talvez seja renúncia. De estabilidade aquilo que, silenciosamente, virou prisão. Então talvez a pergunta não seja: “O que eu quero?” A pergunte é anterior: “O que, em mim, ainda consegue querer?”

Porque existe uma parte de nós que sabe. Mesmo quando não sabemos explicar. Ela aparece no corpo. Num cansaço que não passa. Numa vontade que retorna. Numa tristeza sem nome. Num sonho que insistimos em esquecer. Numa frase que escapou sem querer. Num lugar onde respiramos diferente.

A psicanálise é, entre outras coisas, um lugar para prestar atenção nessas pequenas fugas. Não para descobrir uma resposta definitiva. Mas para escutar. Escutar aquilo que ficou abafado pela pressa, pela expectativa, pelo desempenho, pela necessidade de dar certo.

Até que, pouco a pouco, uma pergunta deixa de parecer tão impossível: Que vida pode ser minha?

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quando queremos parar de sentir antes de entender o que sentimos

Existe uma coisa que aparece com bastante frequência no consultório: o desejo de encontrar uma solução. 

E não há nada de estranho nisso. Quando estamos sofrendo, queremos sofrer menos. Quando alguma coisa dói, queremos que a dor passe. Quando estamos ansiosos, deprimidos, confusos ou exaustos, é compreensível desejar que alguém nos mostre o caminho para sair dali.

O problema começa quando transformamos esse desejo em uma exigência: a de que todo sofrimento precisa ser eliminado o mais rapidamente possível.

Vivemos em uma cultura bastante orientada para a solução. Há sempre alguma coisa para fazer, corrigir, otimizar, tratar ou eliminar. E isso também aparece na relação com a psicologia.

Às vezes, o paciente chega ao consultório já sabendo o que tem.

Eu tenho TDAH. Eu sou narcisista. Eu tenho trauma. Meu problema é apego. Minha personalidade é dependente. Eu preciso fazer TCC. Fiquei sabendo que a melhor abordagem é a comportamental, que direciona você e te ensina a sentir. Quero fazer determinada abordagem porque é a que funciona para isso.

É claro que essas hipóteses podem fazer sentido. Diagnósticos são importantes e diferentes abordagens psicológicas têm seus fundamentos, seus métodos e suas indicações. Mas existe algo interessante nessa necessidade de chegar com tudo definido. O que aconteceria se, antes de tentar explicar, classificar e solucionar, pudéssemos simplesmente olhar?

Sentir um pouco. Observar. Perceber o que acontece dentro de nós. Perguntar se aquela explicação realmente faz sentido.

E, na relação com o psicólogo, experimentar se existe espaço para falar, pensar e ser escutado. Perceber se há confiança, se existe possibilidade de construir um vínculo, se aquela pessoa consegue nos acompanhar naquilo que ainda nem sabemos nomear. Para mim, é uma das coisas mais difíceis em uma psicoterapia: tolerar não saber imediatamente. Porque a angústia de não saber pode ser quase tão desconfortável quanto o próprio sofrimento. E então surge a tentação de se anestesiar.

Não no sentido literal. Podemos nos anestesiar de muitas maneiras: procurando uma explicação definitiva, consumindo incessantemente conteúdos sobre saúde mental, mudando de terapeuta a cada desconforto, procurando a técnica perfeita, tentando controlar todos os pensamentos ou transformando cada sentimento em um diagnóstico.

Tudo isso pode produzir uma sensação momentânea de organização. Mas organizar não é necessariamente compreender. E aliviar não é necessariamente elaborar. Existe uma diferença importante entre cuidar do sofrimento e tentar não sentir sofrimento nenhum. Nem todo sofrimento é um sinal de que alguma coisa precisa ser imediatamente retirada.

O sofrimento é uma informação. Ele pode apontar para um conflito, uma perda, um limite ultrapassado, um desejo que não reconhecemos, uma relação que nos machuca ou uma vida que já não está fazendo sentido da maneira como vinha sendo vivida.

Isso não significa romantizar a dor. Não precisamos sofrer mais para que a terapia seja “profunda”. Não precisamos recusar alívio, diagnóstico, medicação ou técnicas que podem ajudar. E certamente não precisamos transformar sofrimento em uma espécie de prova de maturidade. A questão é outra.

É possível buscar alívio sem transformar o alívio no único objetivo. É bom querer que a dor diminua e, ao mesmo tempo, é bom também ter curiosidade sobre aquilo que ela está tentando dizer. A psicoterapia não é apenas o lugar onde vamos para encontrar uma resposta. É também o lugar onde aprendemos a fazer perguntas melhores.

Antes de tentar fazer a dor desaparecer, será que podemos entender um pouco melhor o que está acontecendo? Porque quando conseguimos finalmente sentir aquilo que estávamos desesperados para anestesiar, descobrimos que o sofrimento não era apenas algo a ser eliminado. Era algo que precisava ser escutado, entendido. Elaborado.

Sujeito Suposto Saber

Às vezes me pergunto o que significa, de fato, ocupar o lugar de analista.

Não apenas o lugar que a teoria descreve, o lugar de suposto saber, mas esse lugar concreto, encarnado, de quem chega à sessão com um corpo. Um corpo que sente sono. Que às vezes se agita. Que se cansa. Que se interessa. Que se surpreende. Que, de vez em quando, parece saber alguma coisa antes mesmo que eu consiga formular o que é.

Porque entramos na sessão com o nosso corpo.

E, quando penso nisso, penso também em tudo o que chega pela porta junto com cada paciente. Casos muito complicados, casos banais, problemas disfarçados de objetos, de discursos, de sintomas. Alguns tímidos ao extremo. Outros em que não se consegue interromper, dada a eloquência da fala e a ininterrupção. Mulheres, homens, adolescentes, crianças. Concretos como as crianças, abstratos como outros. Céticos e crédulos.

Cada um chega com uma maneira muito própria de estar no mundo. E você está ali.

Ali, no lugar de suposto saber.

Essa talvez seja uma das posições mais curiosas que já ocupei. Porque, ao mesmo tempo em que o outro supõe que você sabe alguma coisa, você precisa sustentar a possibilidade de não saber. E isso é muito diferente de simplesmente não saber.

Você chega atravessada pela sua própria história, pelo seu percurso, pela sua análise, por aquilo que aprendeu, pelo que estudou, pelo que ainda não compreendeu. Seu conhecimento precisa, de alguma maneira, entrar em suspensão para que você possa estar ali. Não porque ele deixe de existir, mas porque não pode ocupar todo o espaço.

Você está ali com o seu inconsciente.

Atenção flutuante e muita cobrança.

Você escuta, observa, espera. Tenta não escolher de antemão o que é importante. Tenta não correr para uma conclusão. E, ao mesmo tempo, existe uma parte sua que se pergunta se está fazendo certo, se percebeu alguma coisa, se deixou passar algo, se deveria ter dito outra coisa, se falou demais, se falou de menos.

Depois, vem a própria análise.

E a supervisão.

E aquela sensação de que, em determinados momentos, tudo fica embaralhado. O certo é errado, o errado é certo e, de repente, não existe exatamente certo e errado.

É o que é.

Lembro de ouvir minha supervisora dizer que quem sabe é quem está ali. O paciente é quem sabe. E, ainda assim, eu me vejo diante da curiosa condição de ser detentora de um saber que tenho e, ao mesmo tempo, não sei que tenho.

Talvez seja essa uma das contradições mais interessantes desse trabalho.

Você estuda para saber, mas precisa aprender a não saber.

Nos intervalos entre uma sessão e outra, há relatórios, anotações, análises. E ainda mais leitura. Você vai se cercando de montanhas de livros. Lê autores, lê abordagens, volta para aquilo que já leu, descobre que não tinha entendido, lê de novo.

Lê para compreender o que aconteceu.

Lê para compreender o que não aconteceu.

Lê porque alguma coisa naquela sessão ficou atravessada e você ainda não conseguiu nomear.

E a vida vai mudando bruscamente.

Eu venho de uma carreira anterior, em uma área bastante diferente, e às vezes me pego devaneando em algumas comparações. Olho para o que fazia antes e para o que faço agora e penso no quanto é estar do outro lado.

Do outro lado do quê, exatamente, eu nem sempre sei.

Talvez do lado em que as respostas são menos importantes do que as perguntas. Do lado em que aquilo que não se sabe pode ser justamente o que precisa permanecer aberto.

E então acontece de um paciente voltar na sessão seguinte e dizer que lembrou de alguma coisa que eu falei.

Uma frase.

Uma pergunta.

Alguma coisa aparentemente pequena.

E ele volta para beber mais na fonte do próprio inconsciente.

E, nesse momento, aumenta a pressão.

Aumenta a autocobrança.

Porque agora aquilo que você disse teve um efeito. Ou talvez tenha tido. E você começa a se questionar.

O que eu disse?

Por que disse?

O que ele escutou?

O que ele fez com aquilo?

O que eu não escutei?

Na verdade, estamos juntos atravessando os fantasmas.

Entre o real, o simbólico e o imaginário.

A realidade do paciente vai surgindo e, ao mesmo tempo, alguma coisa da minha própria realidade também está ali. Porque eu não desapareço completamente para que o outro exista. Eu estou presente. Com meu corpo, minha história, minhas referências, minhas marcas, minhas perguntas.

E existe ainda uma outra coisa que me atravessa: a tentativa de não psicoeducar e, ao mesmo tempo, perceber que, às vezes, já estou psicoeducando.

Entre uma coisa e outra.

Entre aquilo que eu gostaria de sustentar e aquilo que escapa.

Depois, quando a sessão termina, eu me atenho ao meu olhar, ao meu sentido, ao que aconteceu ali. Às vezes sem palavras mesmo para nomear. Outras vezes, nítido como a luz.

E isso também é curioso.

Porque há momentos em que alguma coisa simplesmente acontece na sessão e você não sabe explicar exatamente o que foi. Você sabe que houve alguma coisa. Mas não sabe ainda dizer o quê.

E talvez seja preciso suportar isso também.

É uma profissão perigosa. Como diz sempre minha supervisora: "é profissão perigo".

É, ao mesmo tempo, uma profissão solitária e uma profissão lotada de gente. Lotada de pensadores, autores, teorias, abordagens. Você está sozinha diante de alguém e, de algum modo, está acompanhada por uma biblioteca inteira.

Lendo, lendo e lendo.

Se construindo e desconstruindo.

E quando termina o dia, depois de várias sessões, você chega em casa e já está em outros papéis. Você é outra coisa. Você é você mesma fora daquele lugar.

Mas ainda carrega um pouco do que aconteceu.

E quer se recolher.

Não cabe mais nada.

O silêncio é necessário.

Só que o silêncio nem sempre é possível. E talvez nem seja justo com os seus, que chegam falando muito, contando coisas, pedindo atenção, solicitando você.

E então você se olha e se pergunta:

Será que sou uma farsa?

Será que realmente é minha escolha?

É o meu desejo?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis.

Porque desejar alguma coisa não significa necessariamente encontrar prazer em todos os seus aspectos. E escolher alguma coisa não significa nunca se arrepender dela.

Comecei assim e estou aqui, nesse ponto, me havendo com ele, com o meu desejo.

Dia após dia.

Entre arrependimentos e comemorações.

Às vezes me sinto abençoada por ter “vencido na vida” e estar podendo estar aqui. Ter chegado até aqui. Poder escolher, em alguma medida, o que faço da minha vida.

Em outras, me lamento pela falta de raciocínio crítico que talvez tenha existido em algumas escolhas. Por uma idealização. Por ter sido tão idealista a ponto de acreditar que desejo é para ser vivido em intensidade.

Como se desejar fosse suficiente.

Como se dinheiro não comprasse quase nada importante.

E, ao mesmo tempo, me havendo com a falta dele.

Porque dinheiro não compra tudo. Mas a falta dele também atravessa tudo.

E talvez seja aí que eu esteja agora: tentando sustentar as duas coisas sem precisar resolver imediatamente nenhuma delas.

O desejo e a realidade.

A escolha e o arrependimento.

O saber e o não saber.

A teoria e o corpo.

O analista e a pessoa que existe antes, durante e depois da sessão.

Talvez ocupar esse lugar seja, em alguma medida, estar sempre entre essas coisas.

E continuar me havendo com meu desejo.

Dia após dia.

Complicado demais.

domingo, 13 de setembro de 2026

A solidão que a gente constrói!

Atendi uma senhora na clínica. Bonita, elegante, muito inteligente, dessas pessoas que entram numa sala trazendo consigo uma vida inteira de realizações. Havia nela uma espécie de segurança que não era exatamente tranquilidade, eram muitos anos aprendendo a não depender de ninguém. Falava de si com lucidez, tinha uma capacidade rara de olhar para a própria história sem fazer dela uma coleção de desculpas, mas também sem pedir absolvição. Era a última sessão do dia, e isso me permitiu permanecer um pouco mais depois que ela foi embora, sentada diante daquela sala já silenciosa, pensando no que havia escutado. Fiquei com a sensação de que, naquela hora, não tinha ouvido apenas uma mulher falar da própria solidão. Tinha ouvido uma vida inteira falar através dela.

Há uma espécie de solidão que não começa quando as pessoas vão embora. Ela começa muito antes, quando aprendemos que é mais seguro não precisar delas. Essa mulher me fez pensar nisso porque falava da própria solidão sem exatamente se queixar dela. Havia quase um reconhecimento. A vida que tinha naquele momento era, em alguma medida, a vida que havia construído. Durante muitos anos, o trabalho ocupou quase tudo, não apenas o tempo, mas também o lugar das relações, dos encontros, da circulação pelo mundo, da sensação de pertencimento. Enquanto havia trabalho, havia gente. Havia compromissos, conversas, viagens, projetos, convites, telefonemas. Havia uma vida social permanentemente ativa. Só quando o trabalho deixou de ocupar aquele lugar foi possível perceber que uma parte importante daquela sociabilidade estava sustentada menos pelos vínculos do que pela função que ela exercia no mundo. Quando a função desapareceu, alguma coisa desapareceu junto. E existe uma experiência particularmente desconcertante na maturidade: descobrir que aquilo que imaginávamos ser nossa vida era, em parte, a estrutura que ocupávamos.

Pensei em Freud e naquilo que retorna quando uma solução deixa de funcionar. O sujeito não repete simplesmente porque não aprendeu. Repete porque há alguma coisa que insiste, alguma coisa que não se deixa resolver apenas pela consciência. Há formas de vida que se organizam em torno de uma defesa tão eficiente que deixam de parecer defesa. Tornam-se identidade. A pessoa já não diz “eu faço isso para me proteger”. Ela diz “eu sou assim”. Sou independente. Sou workaholic. Não gosto de depender. Gosto de ficar sozinha. Não tenho tempo para relações superficiais. Gosto de gente, mas não preciso de ninguém. E uma defesa que ganha o nome de personalidade se torna muito mais difícil de interrogar.

Havia, naquela mulher, uma independência que parecia ter começado muito cedo. Falava de uma mãe complicada, de uma infância em que amor e exigência pareciam ter se misturado. Não é preciso transformar uma mãe difícil na origem de todos os destinos. A psicanálise não serve para produzir culpados retroativos. Mas sabemos que é nas primeiras relações que o sujeito começa a aprender algo sobre seu próprio valor, sobre o que precisa fazer para ser amado, sobre o que pode esperar do outro e, sobretudo, sobre o lugar que imagina ocupar no desejo de quem cuida dele. Melanie Klein nos ensinou a levar a sério a intensidade dessas primeiras relações, a ambivalência inevitável entre amor e ódio, gratidão e ressentimento, dependência e desejo de independência. A criança não possui ainda recursos para pensar “minha mãe está frustrada com a própria vida” ou “minha mãe carrega uma história que nada tem a ver comigo”. A criança pensa a partir de si. Se o amor não chega como gostaria, conclui que há algo nela que precisa ser corrigido.

É aí que uma criança pode começar uma história silenciosa. Preciso ser melhor. Preciso ser brilhante. Preciso não dar trabalho. Preciso não precisar. Preciso ser tão boa que ninguém queira me abandonar. Essas frases não são formuladas conscientemente. O inconsciente não trabalha assim. Elas aparecem como modos de existir, escolhas que se repetem, ambições que parecem espontâneas, uma necessidade quase física de competência, reconhecimento, controle. E quando essa criança cresce, pode se tornar uma mulher admiravelmente capaz. O que um dia foi defesa passa a ser talento. O que nasceu de uma falta pode se transformar em realização. E isso torna tudo mais complexo, porque não se trata de dizer que o sucesso foi falso. Ele foi real. As conquistas foram reais. O sofrimento também.

Winnicott ajuda a pensar nesse ponto a partir daquilo que chamou de falso self. Não no sentido vulgar de uma pessoa fingida, mas de uma organização psíquica construída para responder adequadamente ao ambiente, muitas vezes tão bem adaptada que o próprio sujeito já não sabe onde termina a adaptação e começa o desejo. Há pessoas que se tornam extremamente boas em ser aquilo que o mundo espera delas. Funcionam. Produzem. Entregam. Correspondem. São admiradas. E, justamente por isso, podem passar muito tempo sem se perguntar o que acontece quando não precisam mais funcionar. Existe uma diferença entre estar vivo e estar funcionando, embora por muitos anos essa diferença é quase imperceptível.

O trabalho oferece uma solução sofisticada para esse problema. Ele oferece identidade, reconhecimento e, em muitos casos, uma forma socialmente legítima de não olhar para determinadas faltas. Não fui porque estava trabalhando. Não liguei porque estava trabalhando. Não encontrei porque estava cansado. Não tenho tempo porque tenho um projeto. Não preciso de ninguém porque tenho minha vida. Enquanto estamos ocupados, a questão não aparece com tanta força. O trabalho pode funcionar como objeto de investimento, como fonte de narcisismo, como lugar onde o sujeito encontra uma confirmação cotidiana de seu valor. Somos procurados, necessários, admirados. Recebemos alguma coisa do olhar dos outros que nos devolve uma imagem suportável de nós mesmos.

Lacan faz uma pergunta mais incômoda: de quem é esse desejo? O que exatamente estamos tentando obter quando buscamos incessantemente reconhecimento? O sujeito deseja ser desejado pelo Outro, mas nunca consegue fechar completamente essa conta. Há sempre um resto, alguma coisa que não se completa. Podemos conquistar mais uma posição, mais um prêmio, mais uma entrevista, mais um projeto, mais uma prova de que somos bons, e ainda assim permanecer a pergunta infantil escondida em algum lugar: agora você me ama? Agora sou suficiente? Agora você não pode me deixar?

Talvez seja isso que exista de mais humano por trás de algumas trajetórias. A pessoa se torna excepcional não apenas porque deseja realizar, mas porque existe algo que precisa ser constantemente confirmado. Ela passa a vida respondendo a uma pergunta que nunca foi formulada. E o problema do reconhecimento é que ele é insaciável. Nenhuma quantidade de aplauso responde definitivamente àquilo que o sujeito pergunta ao Outro. O desejo desliza. Quando uma conquista é alcançada, outra precisa ocupar seu lugar. Quando um público se vai, outro precisa aparecer. Quando uma função termina, o vazio que ela encobria pode se tornar evidente.

Foi isso que pensei ao ouvi-la falar do fim do trabalho. Não que o trabalho tivesse sido uma mentira ou uma fuga. Ele tinha sido também amor, vocação, prazer, realização. Era uma solução. E quando uma solução desaparece, aquilo que ela mantinha em silêncio pode retornar.

A aposentadoria, uma mudança de carreira, os filhos que saem de casa, o corpo que já não acompanha o ritmo, qualquer ruptura que retire do sujeito o lugar que ocupava no mundo pode produzir uma espécie de revelação. Não porque o passado se torne falso, mas porque o presente deixa de oferecer as mesmas distrações. O telefone toca menos. Os convites diminuem. As pessoas seguem suas próprias vidas. A agenda esvazia. E então aparece uma pergunta que não tem mais como ser adiada: quem sou eu quando ninguém precisa daquilo que sei fazer?

É uma pergunta dura. Para algumas pessoas, o trabalho não ocupava apenas oito, dez ou doze horas do dia. Ocupava um lugar no campo do Outro. Era através dele que eram vistas, nomeadas, reconhecidas. Era ali que sabiam quem eram. Quando esse lugar desaparece, não se perde apenas uma atividade. Perde-se uma identificação. E o sujeito se vê obrigado a encontrar alguma coisa de si para além dos significantes que durante décadas o representaram.

Lacan dizia que um significante representa o sujeito para outro significante. Gosto de pensar nisso quando observo alguém que passou a vida sendo representado por aquilo que faz. Jornalista. Médica. Empresária. Artista. Professora. Mãe. A profissão, o cargo, o lugar social funcionam como nomes que organizam a existência. São importantes, evidentemente. Mas nenhum deles esgota o sujeito. Quando o nome que sustentava a identidade deixa de operar, pode surgir a sensação de que não sabemos mais quem somos. E o que aparece nesse intervalo não é uma nova identidade pronta para ocupar o lugar da antiga. Aparece a falta.

A falta é difícil de suportar. Por isso inventamos tantas maneiras de preenchê-la. Uma delas é trabalhar. Outra é ser necessário. Outra é ser admirado. Outra é não precisar de ninguém. E por aí vai.

A independência pode esconder uma dificuldade profunda de depender. E depender, em psicanálise, não é fraqueza. O bebê depende absolutamente do outro. O sujeito humano continua dependendo, embora a vida adulta construa inúmeras formas de negar essa condição. Precisamos de amor, de reconhecimento, de cuidado, de presença. Precisamos de alguém que nos escute quando não temos nada interessante para dizer. Precisamos de relações nas quais nossa utilidade não seja o fundamento do vínculo.

Para alguém que passou a vida inteira construindo valor através daquilo que faz, isso pode ser assustador. Ser útil é relativamente seguro. Ser amado é outra coisa. Ser útil estabelece uma troca. Ser amado introduz uma vulnerabilidade.

E a intimidade é o lugar onde essa diferença se torna insuportavelmente clara. Há uma diferença entre ter pessoas ao redor e ter alguém diante de quem podemos deixar de desempenhar. Intimidade é o espaço em que a performance pode descansar. Onde não precisamos ser inteligentes, interessantes, fortes, produtivos, generosos, sensatos. Onde podemos aparecer nas partes menos apresentáveis, inclusive naquelas que preferimos esconder. Para quem aprendeu cedo que o amor precisava ser conquistado, simplesmente existir diante de alguém pode ser mais difícil do que realizar qualquer coisa.

Foi aí que a solidão daquela mulher deixou de me parecer apenas uma circunstância e passou a me parecer uma questão psíquica. Existem pessoas que estão sozinhas porque a vida as colocou nessa condição. Existem pessoas que estão sozinhas porque não encontraram quem desejassem. E existem pessoas que, sem saber exatamente como, construíram uma vida em que ninguém consegue chegar muito perto. Não porque não desejem intimidade, mas porque a intimidade exige aquilo que aprenderam a evitar: espera, frustração, dependência, perda de controle, possibilidade de rejeição.

É possível passar a vida desejando profundamente uma relação e, ao mesmo tempo, fazendo tudo para não ficar à mercê dela. A solidão pode ser uma forma de controle. Quando estou sozinho, ninguém me abandona. Quando não preciso, ninguém pode me decepcionar. Quando não espero, ninguém pode frustrar minha expectativa. Quando minha vida está ocupada pelo trabalho, não preciso descobrir o que existe quando o trabalho termina.

É uma defesa brilhante. E como toda boa defesa, funciona. Até o momento em que deixa de funcionar.

Foi então que pensei naquilo que plantamos. Não como uma moral simplista, como se cada pessoa recebesse exatamente aquilo que merece, mas como uma constatação: nossas escolhas repetidas vão criando um ambiente psíquico e relacional no qual passamos a viver. Se durante quarenta anos escolhemos o trabalho em detrimento dos encontros, não é surpreendente que, aos setenta, o trabalho seja uma coisa que já não existe e os encontros também não. Se durante décadas recusamos convites porque havia sempre algo mais urgente, chega uma hora em que as pessoas param de convidar. Não por crueldade. Por adaptação. Os outros também aprendem.

Existe uma dor particular em perceber que ninguém nos abandonou de uma vez. Fomos, aos poucos, ficando menos presentes na vida dos outros até que nossa ausência deixou de ser percebida como ausência. Isso é diferente de culpa. Culpa é uma coisa mais pobre. Responsabilidade é mais difícil, porque pressupõe que, mesmo quando não escolhemos as circunstâncias que nos formaram, participamos das formas que nossa vida assume depois delas. Não escolhemos a família que tivemos, o amor que recebemos, as faltas da infância, as humilhações, os abandonos, as condições históricas, as perdas. Mas chega um momento em que podemos perguntar o que fizemos com aquilo que fizeram conosco.

Essa pergunta não absolve os pais nem condena os filhos. Ela apenas desloca o sujeito de uma posição passiva diante da própria história. Freud nos ensinou que também somos feitos daquilo que não sabemos sobre nós mesmos. A repetição é uma maneira de continuar vivendo o que não conseguimos elaborar. A análise começa, em alguma medida, quando aquilo que parecia destino começa a adquirir a possibilidade de ser lido.

Para mim, envelhecer é chegar a esse lugar, a um balanço sem contabilidade em que começamos a enxergar não apenas o que conquistamos, mas também aquilo que sacrificamos para conquistar. Para quem construiu a própria identidade em torno do trabalho, as perguntas são muito duras: quem sou eu quando não estou trabalhando? Quem sou eu quando ninguém precisa daquilo que sei fazer? Quem sou eu quando não tenho mais uma função que organize meu tempo, minha autoestima e meus encontros? E, quem consegue ficar comigo quando não tenho nada para oferecer?

Essa última pergunta toca num lugar bem primitivo. Ser amado não é a mesma coisa que ser útil. Ser procurado não é a mesma coisa que ser querido. Ser admirado não é a mesma coisa que ser conhecido. E a maior dificuldade está em suportar ser conhecido sem poder controlar completamente a imagem que o outro faz de nós.

Há uma fantasia narcísica de que, se formos suficientemente bons, poderemos finalmente garantir o amor do outro. Mas o desejo do outro não se deixa controlar. O Outro nunca nos devolve exatamente a resposta que esperamos. Podemos passar a vida tentando preencher essa falta e, ainda assim, permanecer faltantes. Lacan torna isso claro: não há objeto capaz de completar definitivamente o sujeito. A busca por reconhecimento pode ser interminável, porque o que está sendo buscado não é um prêmio, nem um cargo, nem um elogio. É uma garantia impossível de que somos, finalmente, suficientes.

E então a vida pode ficar cheia de conquistas e muito pobre de descanso.

A mesma mulher que se tornou absolutamente independente pode ter passado a vida inteira desejando ser cuidada. A mesma pessoa que diz gostar de estar sozinha pode sentir falta de companhia. A mesma que fez do trabalho uma escolha pode descobrir, quando ele termina, que também havia ali uma fuga. Nada disso torna falsa a independência, nem invalida as conquistas. Apenas mostra que somos feitos de motivos que não conhecemos inteiramente.

Foi pensando nela que reafirmo que a solidão da maturidade é uma revelação. Ela retira os ruídos. Tira o trabalho, os compromissos, a urgência, as pessoas que circulavam porque havia uma função a cumprir. E deixa uma pergunta, que não está ligada a quantidade de amigos ou frequência de encontros, mas sobre nossa capacidade de vínculo: conseguimos deixar alguém entrar? Conseguimos precisar? Conseguimos sustentar uma relação quando ela deixa de ser conveniente? Conseguimos oferecer presença quando não há nada a ganhar com ela?

Não há necessidade de patologizar quem escolhe uma vida mais solitária. Existem pessoas que encontram no silêncio uma liberdade legítima, uma forma de recolhimento, uma intimidade consigo mesmas que não precisa ser corrigida. O problema começa quando a solidão deixa de ser escolha e passa a ser apenas o resultado natural de uma vida que nunca encontrou tempo para cultivar aquilo que não era urgente.

Relações precisam de tempo improdutivo. É difícil de aceitar isso numa cultura que transformou até o descanso em produtividade. Relações exigem repetição, disponibilidade, inconveniências, presença sem finalidade. Não se constrói intimidade apenas nas brechas da agenda. Não se ama alguém somente quando sobra tempo. E passamos décadas acreditando que, quando tivéssemos finalmente tempo, viveríamos. Só que o tempo chegou e algumas pessoas já não estavam mais lá.

Existe nisso uma dimensão trágica, mas também uma possibilidade de elaboração. Enquanto houver desejo de encontro, alguma coisa permanece aberta. A psicanálise não promete uma vida sem falta. Promete, quando muito, a possibilidade de não ser inteiramente governado pela falta. Podemos reconhecer nossas repetições. Podemos descobrir as defesas que um dia nos salvaram e que hoje organizam nosso sofrimento. Podemos perceber que aquilo que chamávamos de força continha medo; que aquilo que chamávamos de independência escondia dificuldade de depender; que aquilo que chamávamos de dedicação era uma maneira de não ficar diante de nós mesmos.

E ainda é possível plantar.

Não para recuperar o tempo perdido, porque o tempo perdido não se recupera. Nem para fabricar, na velhice, uma vida social que pareça uma reparação daquilo que não foi vivido. Mas para fazer uma coisa mais simples: aprender a estar com alguém sem precisar ser alguma coisa para essa pessoa. Aprender a ficar. A telefonar. A aceitar um convite. A deixar que alguém cuide. A dizer que sentiu falta. A assumir que precisa. É um movimento mais radical de uma vida construída sobre a independência: descobrir que precisar do outro não nos torna menos inteiros.

Quando a paciente saiu da sala, fiquei alguns minutos olhando para a poltrona vazia. Pensei que a análise tem algo de curioso. Uma pessoa entra, fala durante cinquenta minutos e vai embora, e o que permanece não é exatamente aquilo que ela disse. Permanece o que se produziu entre o que ela disse e aquilo que foi possível escutar. Um intervalo. Uma falta. Uma pergunta que não se fecha.

Naquela noite, fiquei pensando que a maturidade não é apenas o momento em que colhemos aquilo que plantamos. É também a época da vida em que conseguimos olhar para o terreno e reconhecer nossas escolhas sem precisar transformá-las em culpa. O que foi plantado está ali. Algumas coisas floresceram. Outras secaram. Algumas deram frutos que não esperávamos. Outras ocuparam espaço demais. Ainda resta algum terreno.

Concluo que a ideia não é perguntar: por que estamos sozinhos? Mas perceber como fomos construindo essa solidão ao longo da vida. E, quando conseguimos olhar para isso com honestidade, surge uma nova pergunta: o que ainda podemos construir? O que podemos fazer de diferente? A porta continua ali. 

sábado, 12 de setembro de 2026

A Arquitetura do Enlouquecimento: quando a casa já não nos abriga mais...


Há algum tempo, escrevi um texto chamado A Arquitetura do Enlouquecimento. Para minha surpresa, ele circulou bastante. Foi lido por mais de mil pessoas, o que, para um texto que nasceu quase como uma reflexão pessoal sobre a mente humana, me fez pensar sobre o que havia ali que encontrava eco em quem lia.


Hoje volto a esse texto.

Não para corrigir o que escrevi, mas para olhar novamente para o que escolhi naquela época. A arquitetura continua me parecendo uma metáfora particularmente potente para pensar o sofrimento psíquico. Afinal, ninguém enlouquece em um único cômodo. A mente também tem corredores. Há portas que permanecem fechadas por anos, quartos onde certas lembranças foram guardadas porque, em algum momento, era impossível permanecer diante delas. Há salas que se tornaram grandes demais para uma pessoa ocupar sozinha e outras tão pequenas que mal permitem respirar. Existem janelas pelas quais conseguimos olhar o mundo e outras que foram fechadas para nos proteger dele. E há casas que foram construídas sobre terrenos difíceis.


Cada sujeito chega à vida com uma história que não escolheu. Algumas experiências funcionam como paredes sólidas, oferecendo abrigo e continuidade. Outras deixam rachaduras que atravessam a construção inteira. Há perdas, abandonos, violências, humilhações, rupturas e silêncios que não desaparecem simplesmente porque o tempo passou. Eles permanecem inscritos na arquitetura. Mas o sofrimento não está apenas no que aconteceu. Está também na maneira como precisamos aprender a viver depois que aconteceu.

Uma pessoa pode passar anos tentando sustentar uma casa que já não consegue abrigá-la. Pode reforçar paredes, consertar portas, limpar incessantemente os mesmos cômodos, enquanto evita entrar justamente naquele lugar onde a estrutura começou a ceder.


Muitas vezes, o que chamamos de sintoma é também uma forma encontrada para continuar morando ali. A ansiedade pode ser uma sentinela que nunca abandona a porta. A culpa pode ocupar um quarto inteiro. A necessidade de controle pode funcionar como uma tentativa desesperada de impedir que o teto desabe. O isolamento pode parecer uma escolha quando, por dentro, é uma forma de proteção. A procrastinação, a compulsão, a raiva, a apatia e tantas outras manifestações podem cumprir funções que nem sempre conseguimos enxergar de imediato. Por isso, compreender o sofrimento psíquico exige mais do que perguntar o que está errado. 


É preciso perguntar como essa casa foi construída. Quem podia entrar. Quem precisava ficar do lado de fora. Quais portas precisaram ser trancadas. Quais espaços nunca puderam ser ocupados. Onde a pessoa aprendeu a se esconder. E, principalmente, em que momento ela deixou de sentir que aquela casa também poderia ser sua.


Há ainda uma dimensão que me interessa particularmente: a arquitetura não é construída apenas de dentro para fora. Vivemos em estruturas sociais que também organizam nossos espaços internos. Família, trabalho, relações, gênero, sexualidade, desempenho, produtividade, expectativas e tantas outras exigências participam silenciosamente dessa construção. O mundo externo também pode nos ensinar quais cômodos podemos ocupar e quais devemos abandonar.


Algumas pessoas passam a vida tentando caber em casas projetadas por outras pessoas.

E isso tem um custo. Talvez uma das tarefas mais importantes de um processo analítico seja justamente permitir que o sujeito comece a reconhecer a arquitetura que recebeu e, a partir daí, possa decidir o que deseja conservar, o que precisa reconstruir e o que já não precisa mais sustentar.


Não se trata de demolir tudo. Há partes da construção que foram fundamentais para sobreviver. Defesas que um dia foram necessárias. Estratégias que protegeram quando não havia outra possibilidade. O que um adulto pode reconhecer como limitante muitas vezes foi, em outro momento da vida, aquilo que tornou possível continuar.


Por isso, a clínica não deveria tratar essas estruturas tentando categorizá-las. É preciso escutá-las. Há uma diferença importante entre desmontar uma defesa e compreender por que ela precisou existir. E é aí que a arquitetura deixa de ser apenas uma imagem do enlouquecimento e passa a ser também uma imagem da análise. 


Entramos na casa com cuidado. Percorremos corredores conhecidos e desconhecidos. Abrimos algumas portas. Encontramos objetos esquecidos. Descobrimos cômodos que nunca haviam sido nomeados. Algumas paredes precisam permanecer. Outras podem ganhar uma passagem. Há janelas que podem ser abertas depois de muitos anos. E, pouco a pouco, a pessoa pode começar a perceber que não é apenas aquilo que aconteceu com ela. Ela também é quem pode construir alguma coisa a partir disso.


Volto hoje ao texto que escrevi há alguns anos com a sensação de que a metáfora permanece, mas ganhou outras camadas. O enlouquecimento não me parece apenas o momento em que a arquitetura interna entra em colapso. Ele também pode ser compreendido como o ponto em que uma construção deixa de comportar a vida que precisa acontecer dentro dela.


Nesse sentido, o trabalho não é simplesmente voltar a uma suposta normalidade.

É construir condições para habitar a própria vida.

E é bem difícil: não apenas encontrar um lugar no mundo, mas sentir que se tem o direito de ocupar esse lugar.







quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Sem Culpa não há Reparação

Há uma diferença importante entre querer reparar e querer desfazer.

Desfazer é desejar que aquilo não tivesse acontecido. Reparar é outra coisa: é reconhecer que aconteceu, reconhecer o que foi perdido ou danificado e, ainda assim, encontrar uma maneira de fazer algo com isso.

Na perspectiva de Melanie Klein, a reparação está profundamente ligada à posição depressiva. É quando o sujeito começa a perceber que o outro não é apenas uma extensão de seus desejos, mas alguém inteiro, amado e também capaz de ser ferido. A culpa aparece, então, não simplesmente como condenação, mas como possibilidade de responsabilização.

Sem culpa, não há propriamente reparação. Há, no máximo, tentativa de apagar vestígios.

Isso aparece de maneiras muito discretas na clínica.

Um paciente pode passar anos dizendo que não teve escolha. Que fez o que precisava fazer. Que o outro também errou. Que as circunstâncias eram aquelas. E talvez tudo isso seja verdade. Mas, em algum momento, surge uma frase diferente: “Eu sei que também fiz alguma coisa ali.” Essa frase pode parecer pequena. Não é.

Ela marca uma mudança importante: o sujeito deixa de estar apenas diante daquilo que fizeram com ele e começa a se perguntar sobre aquilo que fez, deixou de fazer ou não conseguiu fazer. Não para assumir uma culpa total pelo acontecido, mas para recuperar alguma participação na própria história. É nesse ponto que a reparação pode começar a operar.

E reparar não significa necessariamente pedir desculpas, voltar para alguém, reconstruir uma relação ou recuperar aquilo que foi perdido. Há perdas que não podem ser desfeitas. Pessoas não voltam. Lugares deixam de existir. Relações terminam. Certos períodos da vida não podem ser recuperados. Há também perdas no trabalho: um cargo, uma posição, uma promoção esperada, um projeto, uma identidade profissional. A reparação, nesses casos, consiste em outra coisa: conseguir reconhecer o valor do que existiu sem precisar permanecer preso àquilo.

Na clínica, às vezes, o movimento mais difícil não é perdoar o outro. É deixar de precisar destruir o outro para sobreviver ao que ele fez. E, em outros momentos, é deixar de destruir a si mesmo pelo que fez ou pelo que acredita ter feito. 

Importante dizer que culpa e reparação caminham juntas, mas culpa e punição não são a mesma coisa. A culpa que não encontra possibilidade de reparação pode transformar-se em autopunição. O sujeito passa a acreditar que sofrer é a única maneira de demonstrar que reconhece o dano. Como se continuar pagando fosse uma forma de manter vivo aquilo que aconteceu. Mas reparar não é pagar uma dívida infinitamente.

É poder olhar para o que foi feito, pelo outro e por si mesmo, sem precisar negar, idealizar ou destruir. É sustentar a ambivalência: amar e ter raiva; sentir falta e reconhecer que não pode voltar; reconhecer o próprio erro sem transformar-se inteiramente em erro. Por isso que a reparação tenha tão pouco de heroico. Ela não costuma acontecer em grandes gestos. Aparece quando alguém finalmente consegue cuidar de alguma coisa que antes abandonava. Quando reconhece um limite. Quando pede desculpas sem exigir absolvição. Quando deixa de repetir uma violência. Quando consegue ocupar um lugar novo sem precisar destruir o lugar antigo.

Reparar é aceitar que algumas coisas não voltarão a ser como eram. E, por isso mesmo, começar a perguntar o que ainda pode ser feito.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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