Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

domingo, 23 de agosto de 2026

Escrevo sem pressa e sem querer chegar a lugar nenhum!

Comecei esse blog respondendo cartas (e-mails) de amigos, e virou uma profissão: responder cartas. E por que escrever cartas e não telefonar e falar ao vivo? Porque escrever me faz parar, pensar, escrever, corrigir, ir, voltar, gerar algo de muito genuíno, muito cuidadoso, escolher as palavras certas, me fechar um tempo, sem distrações, e me imaginar no lugar da pessoa, sentir o que sente, tentar entender e tentar encontrar uma forma de dizer aquilo que, muitas vezes, é difícil dizer de outra maneira. E foi assim que meu blog foi surgindo, faz anos, antes do celular, antes da internet, antes da IA, antes do imediatismo.

Como me mudei de cidade, os amigos me escreviam e-mails e eu os respondia, não na correria do dia a dia, mas no momento único, reservado, escolhido, intenso. E assim fui respondendo, sanitizando e postando. Primeiramente em um site de “escritores”, com regras e etc., depois decidi sair do site, para ter algo mais autoral. Um blog. Só que entendi que, nesse site, o direito autoral era deles e perdi meus muitos textos. Engraçado como somos sempre “abusados”, invadidos e, quando nos damos conta, parece tarde demais. Perdi muitos textos, muitas cartas respondidas, mas eu tinha ainda alguns rascunhos, algumas outras tantas. E comecei meu blog. Arquivando para uso próprio, para mim mesma. Sem perceber (porque nem controlava exibições e quem entrou ou deixou de entrar), mas cada vez tinha mais gente lendo os textos ou navegando por eles. E fui escrevendo.

Hoje já não recebo tantos e-mails como nos velhos tempos. Hoje escrevo, sanitizando, sobre aquilo que escuto no meu consultório, dos meus pacientes, sobre suas dores, suas histórias, suas dúvidas, seus medos, suas repetições, suas descobertas. Não são mais exatamente cartas que chegam até mim, mas continuam sendo histórias que alguém me confia e que ficam comigo por um tempo. Muitas delas me fazem pensar, me fazem lembrar de outras histórias, de coisas que já vivi, de coisas que já ouvi, de perguntas que também são minhas. Escrevo sobre temas que aparecem com frequência no consultório, tentando falar de saúde mental de um jeito menos engessado, menos cheio de palavras difíceis e, principalmente, sem transformar sofrimento em diagnóstico para tudo. Escrevo para pensar junto, para colocar algumas coisas em palavras, para desmistificar outras e, quem sabe, fazer alguém se reconhecer em alguma coisa que leu aqui.

No fundo, escrevo sobre saúde mental, relações, escolhas, sofrimento, comportamento e tantas outras coisas que vão aparecendo por aqui. Algumas para informar, outras para provocar, outras simplesmente porque eu quero convocar uma reflexão e preciso escrever. Sempre achei estranho guardar só para mim aquilo que aprendo todos os dias ouvindo pessoas. O consultório é um lugar muito particular, protegido, onde histórias são contadas e muitas coisas são pensadas pela primeira vez. Mas a Psicologia não pode ficar restrita à sala de atendimento. Existe, para mim, uma responsabilidade de transmissão e também uma responsabilidade social em falar sobre aquilo que ainda é cercado de preconceito, confusão ou silêncio. Não para ensinar ninguém a viver, nem para oferecer respostas prontas, mas para colocar algumas questões em circulação, provocar pensamento, ampliar conversas e, quem sabe, fazer alguém olhar para si de um jeito diferente.

Joana, a menina falsa.

Eu fui atrás da expressão “Casa da Mãe Joana” e achei interessante pensar menos na origem da expressão e mais naquilo que ela acabou representando para nós: um lugar onde os limites ficam meio frouxos, onde as regras não são muito claras e cada um vai encontrando uma maneira de fazer as coisas do seu jeito. Foi a partir disso que pensei na minha Joana. Não me interessa tanto a Joana como uma pessoa específica, até porque ela pode ser muitas pessoas diferentes e aparecer em muitos lugares. Me interessa esse tipo de comportamento e, principalmente, o ambiente que permite que ele aconteça. Porque uma coisa é encontrar uma pessoa falsa e perceber que ela é falsa. Outra, bem diferente, é estar em um lugar em que a falsidade, a bajulação, a fofoca e os pequenos jogos de poder acabam funcionando e sendo até recompensados.

Você conhece uma pessoa assim? Aquela que parece muito agradável, que pergunta como você está, que elogia seu trabalho, que demonstra preocupação, que parece disponível e interessada, mas que, em algum momento, você descobre que fala uma coisa na sua frente e outra quando você não está? Acho que o que mais incomoda não é exatamente a falsidade. É ter confiado. Quando a pessoa é evidentemente falsa, a gente se protege. O que nos pega é aquela pessoa que constrói uma relação de confiança antes de mostrar que aquela relação estava, desde o início, apoiada em algum interesse. É o colega que se aproxima, conhece as pessoas, percebe rapidamente quem tem poder, quem pode ajudá-lo, quem pode atrapalhá-lo e vai mudando a maneira de se relacionar de acordo com quem está diante dele. Com algumas pessoas é extremamente simpático, com outras é distante. Com determinados gestores demonstra uma lealdade impressionante e, com os colegas, se apresenta como alguém muito preocupado com o grupo, embora seja capaz de questionar, em conversas reservadas, a competência das mesmas pessoas que acabou de elogiar.

Joana sabe observar. Percebe quem precisa de reconhecimento, quem gosta de ser elogiado, quem precisa se sentir importante, quem pode abrir uma porta, quem pode ser uma ameaça. E vai se aproximando de acordo com essas informações. Para uma pessoa oferece admiração, para outra oferece companhia, para outra oferece informação, para outra oferece concordância. Quando aquela pessoa deixa de ser interessante, a proximidade também muda. É uma relação em que o outro não é exatamente encontrado como outro, mas como alguém que ocupa determinada função. E acho que é aí que a coisa começa a ficar mais séria, porque não estamos falando apenas de alguém que mente ou que fala pelas costas. Estamos falando de uma maneira de se relacionar em que o valor do outro passa a depender muito do que ele pode oferecer.

Ao mesmo tempo, é fácil olhar para Joana e simplesmente dizer que ela é falsa, manipuladora, interesseira, desleal. Pode ser tudo isso. Mas existe uma pergunta que me interessa mais: em que tipo de ambiente esse comportamento funciona? Porque Joana não inventou sozinha a lógica em que está inserida. Se uma pessoa percebe que concordar com o chefe é mais seguro do que discordar, ela aprende a concordar. Se percebe que diminuir a reputação de um colega aumenta suas próprias chances de reconhecimento, existe um incentivo para fazer isso. Se entende que as promoções dependem mais da imagem que constrói do que da qualidade do trabalho, vai investir na imagem. Isso não justifica o comportamento, mas mostra que as pessoas também respondem aos ambientes em que vivem. E existem ambientes que produzem muito espaço para esse tipo de jogo.

É nesse sentido que gosto da ideia da “Casa da Mãe Joana”. Não como um lugar simplesmente desorganizado, mas como um lugar em que os limites vão ficando confusos. O que é uma crítica legítima e o que já é uma tentativa de destruir a reputação de alguém? O que é diplomacia e o que é bajulação? O que é networking e o que é interesse? O que é uma preocupação genuína e o que é uma fofoca disfarçada de preocupação? Nem sempre é tão simples distinguir uma coisa da outra, principalmente quando as pessoas aprendem a circular justamente nessas zonas cinzentas. Joana não precisa chegar dizendo que quer prejudicar alguém. Ela pode apenas “levantar uma preocupação”, comentar uma coisa que ouviu, dizer que não queria falar de ninguém, mas achou importante avisar. E então uma informação começa a circular, cada pessoa acrescenta uma interpretação e, quando chega ao outro lado, ninguém sabe mais muito bem onde aquilo começou. A pessoa que iniciou tudo ainda pode dizer que só estava tentando ajudar.

O interessante é que Joana pode ser extremamente agradável. Isso também precisa ser dito porque existe uma imagem muito simples da pessoa falsa como alguém frio, desagradável ou agressivo. Nem sempre é assim. Algumas pessoas sabem ouvir, fazem perguntas, lembram de detalhes, elogiam, fazem você se sentir importante. Não há nada de errado em ser simpático. O que muda é o que existe por trás daquela simpatia e o que acontece quando ela deixa de ser necessária. Em uma relação genuína, o outro continua tendo algum valor mesmo quando não pode nos oferecer nada. Nessa relação interesseira, a pessoa vai perdendo a importância na mesma medida em que deixa de ser útil. É uma diferença que nem sempre aparece no começo, mas que o tempo costuma revelar.

Também não acho que seja possível colocar autenticidade de um lado e falsidade do outro como se fossem coisas tão simples. Todos nós administramos um pouco a nossa imagem. Todos nós já deixamos de dizer alguma coisa porque não era o momento, já fomos mais gentis do que estávamos com vontade de ser, já evitamos uma conversa difícil, já escolhemos o silêncio. Isso faz parte da vida em sociedade. Ser autêntico não significa dizer tudo o que se pensa, nem tratar todas as pessoas exatamente da mesma maneira. Existe contexto, existe privacidade, existe diplomacia. O problema começa quando a adaptação deixa de ser uma forma de convivência e passa a ser uma maneira de manipular o outro. Existe uma diferença entre não dizer tudo e dizer uma coisa apenas porque sabemos que ela vai produzir determinado efeito. Existe uma diferença entre querer crescer e precisar diminuir alguém para conseguir crescer. Existe uma diferença entre preservar-se e construir uma narrativa sobre outra pessoa para se proteger ou obter vantagem.

E é nesse ponto que eu acho interessante fazer a pergunta sobre quanto de Joana existe em cada um de nós. Não porque sejamos todos iguais a ela, mas porque é muito fácil colocar a falsidade sempre no outro. O outro é político, o outro é interesseiro, o outro fala pelas costas, o outro quer aparecer. Nós, quando fazemos alguma dessas coisas, temos sempre uma explicação melhor. Estávamos nos protegendo, estávamos sendo estratégicos, estávamos tentando evitar um problema. De vez em quando, vale olhar para essas pequenas justificativas e perceber o que estamos fazendo com as pessoas ao nosso redor. Como tratamos alguém que não pode nos oferecer nada? O que fazemos quando alguém compete conosco? Conseguimos reconhecer o mérito de alguém que gostaríamos de superar? O que fazemos quando recebemos uma informação que poderia nos colocar em vantagem? Conseguimos falar diretamente com quem nos incomoda ou precisamos de uma terceira pessoa para fazer circular aquilo que não tivemos coragem de dizer?

Acho que é nessas situações que a ética aparece de verdade. Não quando não temos nada a perder, mas quando fazer a coisa certa nos custa alguma coisa. É fácil falar em transparência, integridade e colaboração quando essas palavras não interferem em nenhum interesse nosso. Difícil é sustentar alguma coerência quando uma mentira pode nos beneficiar, quando uma fofoca pode abrir uma vantagem, quando assumir um erro pode prejudicar nossa imagem ou quando defender alguém pode nos colocar em uma posição desconfortável. É aí que os valores deixam de ser discurso e passam a aparecer nas pequenas escolhas.

E as organizações têm uma responsabilidade enorme nisso. Não adianta falar de ética e colaboração se, na prática, quem cresce é quem bajula, quem recebe informação privilegiada é quem está mais próximo da liderança e quem discorda passa a ser visto como uma pessoa difícil. As pessoas observam muito mais o que acontece do que aquilo que está escrito nos valores da empresa. Se o chefe recompensa quem concorda com ele, todo mundo aprende rapidamente que discordar tem um preço. Se a fofoca é uma maneira eficiente de conseguir espaço junto à liderança, a fofoca passa a fazer parte do funcionamento daquele lugar. Se assumir um erro traz mais consequências do que escondê-lo, as pessoas aprendem a esconder. Cultura não é aquilo que a organização diz que valoriza. É aquilo que ela repete e recompensa.

Por isso, quando pensamos em Joana, acho importante não pensar apenas na pessoa. Existe uma cultura que pode favorecer ou dificultar determinados comportamentos. Um ambiente muito competitivo, pouco transparente, em que as regras de reconhecimento não são claras e as relações de poder são mal administradas, cria um terreno muito fértil para esse tipo de comportamento. As pessoas começam a guardar informação, a desconfiar umas das outras, a criar pequenos grupos, a pensar duas vezes antes de compartilhar uma ideia. Parte da energia que deveria estar voltada para o trabalho passa a ser gasta tentando entender o que está acontecendo nos bastidores e se proteger dos outros. Aos poucos, a própria organização passa a funcionar como uma espécie de Casa da Mãe Joana, em que ninguém sabe muito bem quais são as regras, mas todos aprendem a jogar.

E existe uma dimensão da Joana que também me interessa. Não para justificá-la, mas para lembrar que comportamentos assim têm uma história. Joana pode ter aprendido, muito cedo, que precisava agradar para ser aceita, que era importante perceber o que o outro queria antes de mostrar o que ela própria queria, que dizer exatamente o que pensava poderia lhe trazer problemas. Pode ter se tornado muito boa em perceber as pessoas e adaptar-se a elas. Essa habilidade pode ter sido útil em algum momento e, com o tempo, ter se transformado na forma como ela se relaciona. A pessoa passa a ser aquilo que o outro precisa que ela seja e, depois de muito tempo fazendo isso, pode nem saber mais muito bem quem é quando não precisa agradar ninguém. Compreender de onde um comportamento vem não significa dizer que ele está certo. Só significa olhar para ele com um pouco mais de complexidade.

No trabalho, isso não significa que precisamos compreender Joana para suportá-la ou aceitar tudo o que ela faz. É possível compreender e colocar limite. Não precisamos responder à fofoca com fofoca, nem entrar numa disputa para provar quem é mais esperto. Podemos ser cuidadosos com aquilo que compartilhamos, registrar decisões importantes, falar diretamente quando for necessário e não permitir que uma relação seja conduzida pelo jogo que o outro propõe. Existe uma espécie de proteção em continuar sendo coerente. Tratar com respeito quem pode nos promover e quem não pode nos oferecer nada. Reconhecer o trabalho de quem compete conosco. Assumir um erro sem precisar encontrar um culpado. Não usar uma informação recebida em confiança como instrumento de poder. Não precisar diminuir alguém para parecer maior.

Joana vai continuar existindo. Em algum trabalho, em algum grupo, em alguma família, em algum lugar onde pessoas estejam disputando espaço, reconhecimento, pertencimento ou poder. O ponto não é eliminar todas as Joanas, porque isso não vai acontecer. O que me parece mais interessante é pensar em que tipo de ambiente nós estamos ajudando a construir e o que estamos dispostos a fazer para que determinados comportamentos não sejam a maneira mais eficiente de sobreviver e crescer. Porque, quando a falsidade deixa de ser apenas uma característica de uma pessoa e passa a ser uma forma de funcionamento de todo o lugar, já não estamos mais falando de Joana. Estamos falando da casa inteira.

No mundo corporativo, conheci uma menina exatamente assim, chamada Joana, e foi ela quem me inspirou a escrever esse texto. Depois dela, comecei a perceber que existem muitas Joanas por aí, quase sempre disfarçadas de outros nomes. E não estou falando de mulheres. Isso não tem nada a ver com gênero. Aliás, pensando no mundo corporativo e na misoginia que ainda atravessa tantos ambientes de trabalho, arrisco dizer que existem muito mais Joãos do que Joanas ocupando esses lugares de poder, circulando por essas relações e jogando esse jogo. Joana é só o nome que eu dei a um comportamento que, no fundo, não tem gênero.

E, de certa forma, escrever sobre ela também é uma maneira de sublimar e homenagear a minha Joana, a menina mais falsa que já conheci. Dar algum destino melhor. Hoje, como psicóloga, posso dizer que essas e tantas outras experiências vão formando a nossa escuta. A gente passa a reconhecer movimentos, desconfiar de atitudes e entender pessoas e lugares, que só quem já passou por determinadas situações consegue entender. Acho curioso pensar que uma pessoa que me fez tão mal acabou, de algum jeito, fazendo tão bem para minha formação e hoje também está, sem saber, na minha maneira de olhar para as pessoas. Sofrer é ruim, principalmente enquanto está acontecendo. Ter sofrido é outra coisa. Com o tempo, algumas experiências vão ganhando outro lugar dentro da gente. Elas ensinam, dão repertório, deixam a gente mais atento e, de algum modo, nos tornam mais preparados psiquicamente.

A infância que continua em nós

Quando eu falo com vocês sobre a importância de se analisar, penso muito na infância. Não exatamente em voltar para ela, mas em perceber o quanto ela ainda está presente, às vezes em lugares que a gente nem imagina. A gente passou os primeiros anos da vida acreditando no que nos diziam. Não tinha muito como fazer diferente. Se alguém dizia que éramos difíceis, acreditávamos. Se diziam que éramos sensíveis demais, que não podíamos sentir raiva, que precisávamos agradar, que era melhor ficar quieto, aquilo ia entrando. E não entrava como uma opinião. Entrava como uma verdade sobre quem a gente era. Uma criança não consegue pensar que o adulto também tem uma história, seus próprios limites, suas frustrações, suas dificuldades. Ela não pensa: “isso tem mais a ver com essa pessoa do que comigo”. Ela simplesmente tenta entender o que está acontecendo e, muitas vezes, conclui que o problema está nela.

E depois a gente cresce.

Só que algumas dessas coisas continuam funcionando por dentro. A gente sabe, racionalmente, que não precisa agradar todo mundo, mas sente uma culpa enorme quando desagrada alguém. Sabe que pode dizer não, mas trava. Percebe que está repetindo uma relação que não faz bem, mas continua ali. Às vezes, se torna exatamente aquilo que sofreu. Fica rígido porque cresceu num ambiente rígido. Controla porque aprendeu que perder o controle era perigoso. Se cala porque aprendeu cedo demais que falar tinha consequências. E tem uma coisa curiosa nisso: a gente costuma perceber com mais facilidade o que fizeram com a gente do que aquilo que passou a fazer parte de nós.

A análise, para mim, passa muito por aí. Não apenas descobrir quem fez o quê, nem construir uma explicação para tudo que somos. É poder olhar um pouco mais demoradamente para a própria história e perceber o que foi ficando.

O que eu acreditei sobre mim? O que eu aprendi que precisava fazer para ser amado? Do que eu ainda tenho medo? O que eu repito sem perceber que estou repetindo? E por que algumas coisas são tão difíceis de dizer não?

Porque dizer não, muitas vezes, não é só dizer não para alguém. É dizer não para um lugar que ocupamos durante muito tempo. É contrariar uma expectativa que parecia fazer parte do amor. É deixar de ser aquela pessoa que sempre entende, sempre cede, sempre está disponível, sempre tenta não incomodar. E isso pode ser muito difícil. Até porque mudar uma repetição não traz imediatamente uma sensação de liberdade. Às vezes traz culpa. Estranheza. Uma sensação de que estamos fazendo alguma coisa errada, mesmo quando sabemos que não estamos.

Acho que crescer tem alguma relação com poder olhar para isso sem tanta pressa de resolver. Entender que muita coisa que fazemos hoje começou muito antes de termos condições de escolher. E que, depois de um tempo, aquilo que foi uma forma de adaptação vira simplesmente o nosso jeito de viver, de amar, de trabalhar, de se relacionar.

Só que não precisa ser assim para sempre. Não se trata de apagar a infância, nem de transformar os pais em vilões, nem de encontrar uma causa para cada coisa. É mais simples e mais difícil do que isso. É poder se aproximar da própria história e começar a enxergar algumas coisas que, durante muito tempo, pareciam naturais.

É o trabalho da análise: perceber que algumas certezas que temos sobre nós foram aprendidas. E, quando uma coisa foi aprendida, ela também pode ser interrogada. Não para virar outra pessoa. Mas para descobrir, aos poucos, o que de fato é nosso e o que a gente só continuou carregando porque um dia acreditou que precisava carregar.

sábado, 22 de agosto de 2026

Quando estar perdida deixa de ser só uma fase

Ela me disse que não era sobre sua profissão. Também não era sobre estar trilhando outro caminho, recomeçando ou tentando descobrir o que fazer da vida.

Era sobre estar perdida.

Por fora, tudo parecia seguir seu rumo. A vida continuava acontecendo, as responsabilidades estavam sendo cumpridas, as pessoas ao redor seguiam seus planos e, aparentemente, nada estava fora do lugar. Mas, por dentro, ela não sabia mais para onde estava indo.

Os dias pareciam muito iguais.

Ela acordava, fazia o que precisava ser feito, trabalhava, respondia às mensagens, conversava com as pessoas, sorria quando era necessário e seguia. Só que havia uma sensação persistente de estar apenas atravessando os dias, sem realmente viver nenhum deles.

O mais difícil era explicar. Ela me dizia várias vezes na sessão "não como te explicar".

Como dizer que estava mal quando, aparentemente, estava tudo bem? Como falar sobre o vazio quando não existia uma grande tragédia acontecendo? Como admitir que estava cansada de uma vida que, para quem olhava de fora, parecia perfeitamente normal?

Ela se sentia sozinha. Muito sozinha. Apesar de externamente tudo dizer o contrário.

E essa solidão não significava necessariamente estar sem pessoas por perto. Era uma solidão interna, aquela sensação de estar vivendo alguma coisa que ninguém conseguia enxergar. Ela continuava presente, conversando, trabalhando, cumprindo suas obrigações, mas carregava por dentro uma espécie de desconexão com a própria vida.

Foi nesse ponto que comecei a pensar que precisamos falar sobre depressão de uma maneira menos estereotipada.

Nem sempre a depressão aparece como alguém que não consegue sair da cama ou que deixa de fazer absolutamente tudo. Algumas pessoas continuam trabalhando, cuidando da casa, encontrando amigos e mantendo uma rotina aparentemente normal enquanto enfrentam, silenciosamente, um sofrimento profundo.

Sentir-se constantemente vazia, perder o interesse pelas coisas que antes faziam sentido, viver uma rotina marcada pela falta de prazer, pelo cansaço, pela desesperança, pelo isolamento ou pela sensação de que os dias perderam o significado são sinais que merecem atenção. Isso não significa que toda tristeza ou sensação de estar perdida seja depressão.  

Mas sofrimento não precisa chegar ao limite para ser levado a sério.

Se você se reconhece nesse relato, procurar ajuda pode ser um primeiro passo. Conversar com um psicólogo ou psicóloga pode oferecer um espaço seguro para entender o que está acontecendo, nomear sentimentos e perceber se existe algo além de uma fase difícil. Em algumas situações, uma avaliação com um médico psiquiatra também pode ser importante.

A terapia não precisa começar quando você já sabe explicar o que sente. Você pode chegar dizendo justamente isso: “Eu não sei o que está acontecendo comigo. Só sei que não estou bem.”

E isso já é suficiente para começar uma conversa.

Estar perdida não significa que você fracassou. Não significa que todo mundo descobriu o caminho e você ficou para trás. Significa que existe alguma coisa dentro de você pedindo atenção.

E cuidar disso também é uma forma de seguir em frente.

Se esses sentimentos têm sido frequentes, intensos ou estão interferindo na sua vida, procure um profissional de saúde mental. Você não precisa esperar piorar para pedir ajuda.

Às vezes, o primeiro caminho para se encontrar é simplesmente admitir que você não está conseguindo fazer isso sozinha.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Minha Odisseia até Ítaca

⚠️ Aviso de spoiler: este texto contém spoilers importantes da Odisseia. Se você ainda pretende conhecê-la sem antecipações, talvez seja melhor ler depois.

Quero escrever. Mas hoje não me encontro nas palavras.

Quando vejo que não estou conseguindo me expressar aqui, entendo que o momento não está dos melhores. Porque escrever é minha paixão, as palavras fluem, sem roteiro, sem planejamento. Nunca tive que pensar para escrever. Parece que a alma vai guiando, vou colocando o que sinto e tudo vai fazendo sentido e ganhando forma.

Hoje, não. Está tudo desconectado. Sem rumo, sem encontrar o que dizer. Não vai dando liga, o sentido vai escorrendo entre as frases e parece mais um desabafo do que uma reflexão. Parece mais uma tristeza do que uma experiência existencial. A sensação é de desaparecimento. E, nesse momento, tudo vai se confundindo. Vêm lembranças antigas, vêm decepções recentes também. Vem uma sensação de injustiça, de que foi muito esforço, foi tudo muito batalhado e para quê? A sensação dos resultados, ou, melhor, da ausência deles, fica mais nítida. As escolhas se enfraquecem, parecem más escolhas, decisões ruins ao longo do caminho. Eu acabo virando alvo das minhas próprias palavras, como se eu tivesse que me explicar para mim mesma.

O entorno fica menor. As conquistas também diminuem na mesma intensidade. O fundo do poço começa a ficar cada vez mais alcançável, e a leitura é de ter dado milhares de passos para trás em tempo recorde. Fico estranha a mim mesma, como se eu não fosse eu. Como se o Outro que me dizia quem eu era tivesse errado, dito outra coisa. Como se eu tivesse entendido outra coisa.

Uma metáfora absurda, mas é a que me ocorre: como se, ao acordar do coma, eu não mais reconhecesse o mundo e o meu lugar nele. Tudo mudou demais. Não tenho mais as conexões antes estabelecidas e agora parece um caminhar novo, mas estranho, muito assustador, porque já não se é criança, já não se pode inventar um mundo para caber nele e já não se tem mais os mesmos recursos para enfrentar o mundo que existe. Então vira uma odisseia mesmo. (Legal me vir essa palavra, justo agora, porque é o filme em cartaz atualmente.)

Odisseia, humm… Odisseia. E agora, reencontrando a força que a escrita tem para mim, não consigo deixar de reler e estabelecer uma conexão com a Odisseia, de Homero.

Com Odisseu, para os gregos e Ulisses, para os romanos. Na prática, Odisseu e Ulisses são a mesma personagem. Eu prefiro Odisseu. Para mim, Odisseu me mantém mais próxima de Homero. Odisseu é o homem da Odisseia.  A Odisseia de Odisseu.

Odisseu precisou ir para a guerra. A Guerra de Troia começa, em grande parte, por causa de Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta. Helena vai para Troia com Páris, príncipe troiano. Há diferentes versões sobre o que aconteceu entre os dois, se Helena foi raptada, se foi seduzida ou se partiu por vontade própria, mas o que permanece é que sua partida desencadeia uma guerra que duraria dez anos.

Helena é desejada, disputada, considerada a mulher mais bela, e se torna objeto de projeções e narrativas. Sua identidade é constantemente construída pelo olhar dos outros. Helena me lembra que existe uma diferença entre aquilo que somos e aquilo que projetam sobre nós. Eu me reconheço nisso. Nem sempre escolhi a história que projetaram sobre mim, nem o lugar que esperavam que eu ocupasse. Mas, uma vez dentro dela, precisei descobrir como atravessá-la sem me perder de mim.

Menelau reúne os gregos para recuperar Helena, e Odisseu, rei de Ítaca, é convocado. É nessa guerra que acontece o famoso episódio do cavalo de Troia, estratégia que permite aos gregos entrar na cidade e finalmente derrotá-la. É então que entra em cena Sinon, o grego que se oferece aos troianos como prisioneiro e os convence de que o cavalo é uma oferenda deixada pelos gregos. É uma demonstração de que, em Troia, vencer não dependia apenas da força, mas também da capacidade de construir uma narrativa na qual o outro estivesse disposto a acreditar.

Odisseu foi convocado para guerra. A vida é assim, nos convoca antes que estejamos prontos. Somos colocados em cenas que não escolhemos conscientemente, mas nas quais já estamos implicados. O sujeito não é senhor de suas escolhas: há um desejo que nos atravessa antes de sabermos dizer o que é. Foi assim comigo. A cena estava posta, e eu, implicada nela. Houve coisas que desejei, coisas que escolhi e coisas que simplesmente aconteceram.  

E é assim que a Odisseia começa...

Odisseu não estava voltando de uma viagem qualquer. Estava voltando de dez anos de guerra. Dez anos depois de ter deixado sua casa, sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco. Dez anos depois de ter colocado sua vida em suspensão para participar de uma guerra que começou pelo desejo do outro e terminou deixando uma cidade destruída e muitos mortos. A guerra foi vencida, mas Odisseu ainda precisaria enfrentar a sua própria travessia, a volta para casa.

Eu me vejo aí, da mesma forma que Odisseu, tentando voltar para casa. Depois de dez anos de guerra, ele ainda levará outros dez anos para conseguir chegar a Ítaca, a Penélope, àquilo que deixou para trás. Mas, pensando bem, ele não tentava apenas chegar a um lugar. Tentava reencontrar uma posição no mundo. Voltar a ser alguém capaz de reconhecer onde está e, principalmente, quem é.

E é aí que a Odisseia faz muito sentido para mim. Porque Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou. E é justamente aí que a palavra “casa” ganha outro sentido para mim. A casa não é exatamente um lugar.

São dez anos tentando voltar para casa. O mais interessante é perceber que, embora a guerra tenha terminado, sua história não termina quando deixa Troia. É justamente aí que começa outra guerra: a do retorno, a Odisseia. Ele não está apenas tentando chegar a Ítaca. Está tentando reencontrar o caminho de volta para si mesmo.

Primeiro vieram os Cícones, um povo da Trácia, região ao norte do mar Egeu. Depois de vencerem a batalha, os homens de Odisseu permanecem ali para saquear e aproveitar a vitória, quando deveriam seguir viagem. Essa demora lhes custa caro: os Cícones contra-atacam, e Odisseu perde muitos homens. A viagem começa, assim, ensinando uma lição difícil: há momentos em que permanecer, mesmo depois da vitória, pode nos afastar do lugar para onde queremos voltar, nem toda vitória significa avanço.

Depois, vieram os Lotófagos, onde o perigo já não é a violência, mas o esquecimento. Comer a flor de lótus significa perder a memória da pátria e, com ela, o desejo de voltar para casa. É o risco de esquecer aquilo que nos move, nossos sonhos, e se acomodar a uma existência sem direção.  Eles esquecem a missão, esquecem Ítaca e querem permanecer ali. Odisseu precisa então ir buscá-los à força e levá-los de volta aos navios. Ele os amarra para impedir que retornem aos Lotófagos e ordena aos outros homens que partam imediatamente.

Em seguida vem o Ciclope, Polifemo. Aqui, Odisseu encontra um perigo do qual não pode escapar apenas pela força. Para sobreviver, precisa recorrer à inteligência, à astúcia e à capacidade de encontrar uma saída onde, aparentemente, não existe nenhuma. Eles chegam a uma ilha rochosa, cheia de cavernas. Odisseu e seus homens encontram uma delas repleta de alimentos: queijos, leite, animais. Há abundância. Eles entram e esperam pelo dono, sem imaginar que estão no território de um gigante. Polifemo é um Ciclope, um gigante de um único olho no meio da testa e filho de Poseidon.

Quando retorna à caverna, Polifemo fecha a entrada com uma enorme pedra. Odisseu logo percebe que não há força humana capaz de movê-la. Para sair dali, será preciso pensar. Enquanto o gigante começa a devorar seus homens, Odisseu oferece vinho a Polifemo. Depois, ele e seus homens o cegam com uma estaca. Quando o Ciclope pergunta seu nome, Odisseu responde: “Outis, Ninguém”. Para sobreviver, Odisseu precisa abrir mão do próprio nome e, por um instante, deixar de ser quem é. É uma estratégia brilhante, mas também revela algo importante: há momentos em que sobreviver exige esconder a própria identidade.

Quando Polifemo, depois de ser cegado, grita por socorro, os outros Ciclopes perguntam quem o está atacando. “Ninguém”, responde ele. Acreditando que não há perigo, vão embora. Odisseu então consegue escapar com seus homens, escondidos sob os carneiros do rebanho. Ali, a inteligência vence a força.

Já a salvo, quando estão no mar, Odisseu não consegue permanecer em silêncio. Precisa que Polifemo saiba quem o venceu. Grita para o Ciclope que foi Odisseu, rei de Ítaca, quem o cegou. Polifemo então invoca seu pai, Poseidon, e pede que Odisseu nunca consiga voltar para casa, ou que, se voltar, seja depois de muitas perdas.

Há uma ironia nesse momento da Odisseia: Odisseu consegue escapar do perigo, mas não consegue escapar da necessidade de ser reconhecido por aquilo que fez. Toda a inteligência que o havia mantido vivo dá lugar, por alguns instantes, ao orgulho. Ele precisava apenas partir em silêncio. Mas diz: fui eu. E é justamente aí que sua vitória começa a se transformar em outra coisa. O ego destrói em segundos aquilo que a inteligência levou tanto tempo para construir.

Odisseu havia criado uma identidade falsa para sobreviver. No momento em que está seguro, porém, precisa recuperar seu nome, seu lugar, sua autoria. Vencer em silêncio não lhe parece suficiente; ele precisa que o outro saiba quem venceu.

Não basta ter feito; é preciso que o outro testemunhe. E, quando esse olhar não retorna, o feito parece perder um pouco da sua realidade. Eu me vejo assim: tentando existir no meu próprio feito sem precisar ser reconhecida por ele.

A travessia continua. Por um instante, parece que o retorno finalmente se tornou possível. Éolo lhe entrega os ventos, e Odisseu parte novamente. Dessa vez, Ítaca já pode ser avistada. Mas, enquanto ele dorme, seus companheiros, acreditando que o saco entregue por Éolo guarda riquezas, decidem abri-lo. Os ventos escapam de uma só vez, a embarcação é arrastada para longe e todo o caminho percorrido se desfaz. Uma das maiores angústias da Odisseia está aí: estar tão perto de casa e, ainda assim, voltar a se perder. Eu também conheço esse lugar: o que parecia caminho se desfaz, e é preciso descobrir como seguir.

Então surgem os Lestrigões, gigantes antropófagos que devoram seres humanos. Vivem na região de Telepilo, governada pelo rei Antífates. Odisseu chega com doze navios. Os homens desembarcam em busca de informações. Uma mulher aparece e chama pelo pai, Antífates, que percebe que os estrangeiros são humanos e inicia o ataque. Eles destroem quase toda a frota. Apenas a embarcação de Odisseu consegue escapar. Mais homens ficam pelo caminho. A cada perda, a viagem vai se tornando mais solitária, e Odisseu começa a perceber que voltar para casa também significará chegar sem aqueles com quem partiu.

E aqui não consigo deixar de pensar nos que ficaram para trás. E na minha própria travessia: muitos ficaram pelo caminho, há uma solidão que faz parte do caminho, um ponto que ninguém pode percorrer comigo e nem por mim. Na minha nova profissão, também existe esse lugar. Posso encontrar companhia, orientação, pessoas que me ajudem a seguir, mas há um trecho que inevitavelmente é meu.   

Depois veio Circe, uma feiticeira divina, filha do deus-sol Hélio e da oceânide Perse. Ela vive sozinha na ilha de Eia, em um palácio cercado por uma natureza quase encantada. Quando Odisseu chega à ilha, envia alguns de seus homens para explorar o lugar. Eles encontram o palácio de Circe e são recebidos como hóspedes. Mas ela coloca uma droga mágica na comida deles e os transforma em porcos. Eles não deixam de ser humanos por dentro. O corpo é transformado, mas a consciência permanece. É perturbador. O castigo não é simplesmente morrer; é continuar consciente enquanto sua aparência, sua dignidade e sua identidade humana são retiradas. Os homens de Odisseu aparecem como criaturas dominadas pelo apetite e pelo instinto, enquanto Circe parece revelar aquilo que existe por baixo da aparência civilizada, a fronteira entre humano e animal. Dessa vez, o perigo não está apenas em perder a vida, mas em perder a própria forma de existir, a própria humanidade.

Odisseu parte para enfrentá-la e, no caminho, encontra Hermes. Hermes é um deus, filho de Zeus e Maia. É o mensageiro dos deuses, protetor dos viajantes, dos caminhos e das passagens, inclusive entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Ele entrega a Odisseu uma planta chamada moly. Quando Circe tenta enfeitiçá-lo, a magia não funciona. Odisseu então a ameaça com sua espada e consegue fazê-la desfazer o encantamento. Protegido por moly, ele resiste a Circe e a obriga a devolver aos seus homens a forma humana. Depois de tantas perdas, Odisseu encontra uma ameaça diferente: não aquilo que pode matá-lo, mas aquilo que pode fazê-lo deixar de ser quem é.

Mas Circe não continua sendo sua inimiga. Depois de enfrentá-la, Odisseu permanece com ela durante um ano. Come, descansa, desfruta da vida. Pela primeira vez em muito tempo, não está lutando para sobreviver nem tentando escapar de algum perigo. Está simplesmente vivendo. Circe passa a representar a possibilidade de permanecer. Odisseu pode ficar: há alimento, descanso, prazer, uma vida possível. Mas, depois de um ano, ele escolhe partir. E aqui já não se trata apenas de seguir viagem, mas de sustentar uma escolha. Escolher significa deixar para trás uma vida possível para seguir em direção àquela que se deseja.

Eu também reconheço minha Circe: a possibilidade de permanecer em uma vida profissional estabelecida, em um lugar que eu já conhecia no mundo. Mas escolhi partir. Voltar a estudar e começar outra profissão significou abrir mão de uma vida que funcionava para escolher outra, ainda sem garantias.

Até aqui, muitas vezes Odisseu é levado pelos acontecimentos; com Circe, precisa escolher. Pode permanecer, mas decide partir. E é Circe quem lhe indica o próximo passo. Ela, que parecia uma ameaça, torna-se aquela que indica o caminho. Odisseu precisará descer ao mundo dos mortos e consultar Tirésias, o profeta cego, e ouvir aquilo que precisa saber. Não basta agir; Odisseu precisa saber. A viagem agora exige dele algo diferente da astúcia ou da força: exige conhecimento. Nem tudo o que nos ameaça precisa ser evitado. Há ameaças que só conseguimos atravessar quando aceitamos olhar para elas e dar-lhes um nome.  

No mundo dos mortos, Tirésias lhe revela aquilo que ainda está por vir, o que ele precisará enfrentar para chegar a Ítaca. É ali também que Odisseu encontra algo que não estava procurando: sua mãe, Anticleia, e descobre que ela morreu durante sua longa ausência. Anticleia me toca muito. Ao encontrar a mãe, Odisseu descobre que, enquanto estava longe, a vida continuou. Sua escolha teve um custo: sua mãe morreu. Há perdas que não acontecem porque escolhemos mal, mas porque toda escolha nos afasta de alguma coisa. Não podemos levar tudo conosco. Escolher um caminho significa deixar outros para trás, e algumas perdas só conseguimos enxergar quando já estamos longe demais para voltar.

Ao descer ao mundo dos mortos, Odisseu encontra ainda Agamêmnon, Aquiles e outros mortos da guerra. Sei bem que há verdades que não desaparecem. Elas apenas esperam o momento em que já não podemos fugir delas. Insistem em permanecer, mesmo quando tentamos deixá-las para trás. A resposta pode estar justamente onde evitamos olhar. Para descobrir o que precisa saber e continuar sua jornada, Odisseu precisou descer ao lugar que representa a própria morte. Para seguir adiante, precisou olhar de frente para aquilo que havia deixado para trás.

Lá, ele encontra também Agamêmnon, que é irmão de Menelau. Os dois são filhos de Atreu e Aérope e pertencem à família dos Atridas. Agamêmnon conta que, quando voltou da guerra, foi recebido em casa pela própria esposa, Clitemnestra, e pelo amante dela, Egisto, e acabou assassinado pelos dois. Ele conseguiu voltar da guerra, mas não encontrou em casa o que imaginava. Seu encontro com Odisseu acrescenta uma dimensão sombria: a desconfiança, a traição e a impossibilidade de acreditar que aqueles que ficaram permaneceram exatamente como eram. Voltar para casa não significa reencontrar as pessoas como as deixamos. O tempo transforma também aqueles que ficaram.

É isso que sinto quando olho ao redor e percebo que já não reconheço muitos dos que compartilharam comigo uma parte da minha vida. Algumas pessoas continuam ocupando os mesmos lugares, mas parecem outras. Outras mudaram, algumas muito, sem que eu percebesse quando isso aconteceu. E então vem a pergunta: como eu não me dei conta antes? Quando estamos dentro de uma história, não percebemos suas transformações no momento em que acontecem. Só reconhecemos a distância quando olhamos para trás. As pessoas que reencontro hoje carregam uma história que aconteceu sem mim, assim como eu carrego tudo o que aconteceu enquanto estive longe. Não fomos apenas separados pelo tempo; fomos transformados por ele.

Depois vieram as Sereias, cujo canto representa uma tentação tão poderosa que Odisseu precisa criar uma estratégia para poder escutá-las sem se entregar a elas. Ele manda os homens colocarem cera nos seus ouvidos. Mas ele não, ele quer ouvir o canto, então pede que o amarrem ao mastro do navio. Não quer fingir que a tentação não existe, nem abrir mão do desejo de conhecê-la. Mas sabe que, se estiver livre, não conseguirá resistir.

Reconhecer os próprios limites também é uma forma de liberdade. Odisseu não confia apenas na própria força de vontade. Antes de encontrar a tentação, cria as condições para não ser levado por ela. Resistir à tentação não é fingir que ela não existe, mas reconhecer a nossa vulnerabilidade e construir estratégias para atravessá-la.

Eu também ouvi muitos cantos pelo caminho. Propostas para ficar. Convites para retornar. Promessas de uma vida que eu já conhecia bem. Havia conforto, segurança, reconhecimento. Por alguns momentos, continuar em direção ao desconhecido pareceu muito mais difícil do que eu imaginava.

Vieram Cila e Caríbdis. Cila é um monstro de seis cabeças, e cada uma delas pode arrancar e devorar um homem. Caríbdis é um enorme redemoinho capaz de engolir o mar e destruir toda a embarcação. Circe já havia avisado Odisseu: ele teria que passar entre os dois perigos e não havia uma saída sem perda. Odisseu precisa escolher não entre o perigo e a segurança, mas entre dois perigos diferentes. Não existe uma decisão capaz de preservar tudo. E é justamente aí que a escolha ganha um forte significado. Não existe uma decisão sem custo. Não se trata de escolher entre o bem e o mal, mas entre duas dores possíveis. Qual dor carregar? Qual perda suportar para continuar o caminho?

Odisseu escolhe passar mais próximo de Cila, porque enfrentar Caríbdis poderia significar perder toda a embarcação e todos os homens de uma só vez. Ainda assim, seis homens são levados por Cila. Algumas escolhas não permitem evitar a dor. Permitem apenas decidir qual dor é possível carregar.

Foi assim também comigo. Havia um caminho conhecido, que eu já sabia percorrer, não sem dor, mas abrindo mão do meu desejo. E havia outro, ainda sem nome, sem garantias e cheio de perguntas, em que eu precisaria abrir mão da segurança. Escolher significava perder. Escolhi as perguntas, mesmo sem saber onde elas me levariam.

Depois veio a ilha do rebanho sagrado, a ilha do Sol. Ali estão os bois de Hélio, que não podem ser tocados. Odisseu sabe disso. Tirésias havia avisado. Circe também havia avisado. Desta vez, portanto, não se trata de escolher, não foi por falta de aviso, o limite está dado, e eles sabem qual é. Mas seus homens estão famintos. Enquanto Odisseu dorme, seus companheiros matam e comem alguns dos bois sagrados. Quando Hélio descobre, exige punição, senão ameaça apagar o sol da terra. Zeus então envia um raio que destrói a embarcação. Todos os homens morrem. Só Odisseu sobrevive.

Nem tudo está sob nosso controle. Odisseu havia planejado, orientado seus homens. Ainda assim, não conseguiu controlar as escolhas dos outros. Há momentos em que fazemos tudo o que está ao nosso alcance e, mesmo assim, o resultado escapa das nossas mãos.

Essa foi uma lição difícil da minha própria travessia. Eu queria acreditar que, se tomasse cuidado, planejasse cada passo e fizesse tudo certo, conseguiria prever onde aquela decisão iria me levar. Mas a vida não funciona assim. Quando decidi mudar, não havia garantias, nem mapa, nem caminho. A partir dali, a travessia seria só minha. Eu precisaria seguir sozinha, assumindo o risco e a responsabilidade pela minha escolha. Não controlamos o mar, nem o que ele levará de nós. Só podemos escolher continuar e sustentar a escolha que fizemos.

E então resta Calipso.

É muito significativo que, depois de tantas batalhas, monstros, tempestades, perdas e mortes, Odisseu fique preso não em um lugar de horror, mas em um lugar aparentemente perfeito. Calipso oferece a ele a juventude eterna e a possibilidade de tornar-se imortal caso escolha permanecer e casar-se com ela. Ele poderia viver longe das dores do mundo, sem envelhecer, sem morrer. Odisseu permanece ali durante sete anos, tem tudo, mas, ainda assim, quer partir. É justamente o que torna Calipso tão marcante na Odisseia: Odisseu precisa escolher entre uma vida boa e a vida que deseja. Ele poderia permanecer naquele lugar perfeito, mas não seria Ítaca. Estar confortável é diferente de estar em casa. 

Odisseu quer voltar para Ítaca, mas o desejo, sozinho, não era suficiente.

Então Zeus decide que Odisseu deve ser libertado e, novamente, envia Hermes para levar a ordem. Hermes chega à ilha, transmite a mensagem e deixa claro que Odisseu precisa partir. Calipso não o liberta por vontade própria; apenas cumpre a determinação dos deuses.

O significativo é que Hermes não tira Odisseu da ilha. Não constrói o barco, não atravessa o mar com ele, não o conduz até Ítaca. Apenas traz a mensagem, oferece proteção e abre uma possibilidade. O resto cabe a Odisseu. Algumas pessoas são assim na nossa vida: não caminham conosco até o fim, mas aparecem exatamente quando uma passagem se faz possível. Quando o que precisamos não é de alguém que nos carregue, mas de alguém que abra uma porta.

Calipso me faz pensar na minha própria história. Não foi apenas deixar para trás uma profissão, mas abrir mão de uma vida que funcionava. Eu tinha muito do que poderia desejar: conforto, segurança, reconhecimento. E, ainda assim, havia em mim a sensação de que aquele não era mais o meu lugar. Calipso representa, para mim, esse lugar onde permaneci por mais de vinte anos: confortável, conhecido e seguro, mas que, em algum momento, deixou de ser casa.

Após a mensagem de Hermes, é Calipso quem fornece a Odisseu os recursos para construir a jangada. Ele quer Ítaca. E é aí que a palavra “casa” começa realmente a ganhar outro significado. Casa deixa de ser apenas um lugar para onde se volta e passa a ser aquilo que dá sentido ao desejo de voltar. Odisseu não quer simplesmente retornar a um território. Quer reencontrar aquilo que o constitui: Penélope, Telêmaco, sua história, seus vínculos e a possibilidade de reconhecer a si mesmo.

O retorno não significa voltar a ser quem se era antes. Odisseu já não é o mesmo homem que partiu. Ítaca pode até ser, ele ainda não sabe. O desafio do retorno não está em chegar a um lugar, mas em descobrir se, depois de tudo, ainda somos capazes de pertencer a ele.

Depois de deixar a ilha de Calipso, Odisseu enfrenta uma tempestade provocada por Poseidon, que destrói sua embarcação. Quase morto, chega à terra dos Feácios, na ilha de Esquéria. Está nu, exausto, sem pertences e sem saber exatamente onde está.

É nesse momento que surge Nausícaa, filha do rei Alcínoo e da rainha Arete. Atena aparece em seu sonho e a incentiva a ir até o rio lavar roupas com suas servas, lembrando-lhe que ela está em idade de se casar. Nausícaa vai até lá com as jovens e, enquanto elas brincam, o barulho desperta Odisseu, que estava escondido entre os arbustos.

Odisseu está irreconhecível. É um homem que perdeu tudo, um náufrago. Nausícaa poderia ter medo e fugir, mas não foge. Odisseu pede ajuda, e ela lhe oferece roupas e orientação. Indica o caminho até o palácio de seus pais e explica como chegar à cidade sem acompanhá-lo, evitando comentários sobre um possível casamento com um estrangeiro. Ela não resolve o problema de Odisseu. Não o leva até Ítaca. No palácio, o rei Alcínoo acolhe o estrangeiro, os Feácios o hospedam e, finalmente, providenciam um navio para levá-lo a Ítaca. Nausícaa lhe dá exatamente aquilo de que ele precisa naquele momento: condições para seguir.

Também encontrei minha Nausícaa pelo caminho. Ela apareceu quando eu já não sabia como continuar. Não fez a travessia por mim, mas me devolveu as condições para seguir.  Em um momento em que eu já não sabia o que fazer, sua presença foi o suficiente para que eu conseguisse dar o próximo passo.

Quando finalmente chega a Ítaca, Odisseu tem a aparência de um mendigo. Ninguém o reconhece imediatamente. E, curiosamente, nem ele próprio consegue reconhecer a ilha para a qual passou tantos anos tentando voltar.

Odisseu encontra Eumeu. O porqueiro fiel de Odisseu não sabe que é ele e, ainda assim, oferece comida, abrigo e hospitalidade. Mais tarde, participa da recuperação da casa. Há uma diferença entre ser reconhecido e ser acolhido sem precisar ser reconhecido. Eumeu não reconhece o rei, o herói ou o homem que partiu vinte anos antes. Reconhece apenas um homem que precisa de abrigo e isso é suficiente para acolhê-lo.

Há uma forma de amor que permanece quando já não temos posição ou conquistas que provem quem fomos. Um amor que não precisa saber quem fomos para acolher quem somos. Sei bem do que estou falando.

Inicialmente, Odisseu não é reconhecido e não reconhece Ítaca. Atena havia lançado uma névoa sobre a ilha, protegendo-a até que ele pudesse, enfim, retornar. Atena me faz pensar que há sempre ajuda no caminho. Há quem nos proteja o suficiente, para que possamos encontrar nosso próprio caminho. Ao longo da minha própria jornada, encontrei pessoas assim: não fizeram a travessia por mim, mas me ajudaram a não perder a direção.

Enfim, há ainda quem consiga reconhecê-lo.

Primeiro, Argos, seu velho cachorro. Já debilitado, depois de tantos anos esperando pelo dono, ele reconhece Odisseu pelo cheiro. Odisseu, porém, não pode demonstrar que o reconheceu, precisa manter seu disfarce. Argos então morre. Argos não reconhece o rei, mas o homem. E é justamente isso que torna essa cena tão poderosa: quem nos reconhece quando já não temos status, posição, aparência ou poder? Quem nos conhece quando não temos nada para oferecer? Quem consegue enxergar aquilo que permanece em nós quando tudo aquilo que costumava nos definir já não está mais lá?

Depois, Euricleia, sua antiga ama, ao lavar os pés do suposto mendigo, reconhece a cicatriz na perna de Odisseu. É uma marca que atravessou os anos e sobreviveu a tudo o que aconteceu depois. Ela reconhece o homem que está diante dela não pelo rosto ou pelas roupas, mas por uma marca que o tempo não conseguiu apagar. Odisseu, porém, a impede de revelar sua identidade. Ainda não é o momento de ser reconhecido por todos.

Essa parte me toca. Quando deixei para trás o lugar que ocupei por tantos anos, muitas pessoas ficaram pelo caminho. Muitas escolheram acreditar em versões que não eram minhas. No meio de tantos, sobraram poucos. Não permaneceram porque precisavam de quem eu fui, mas porque foram capazes de enxergar quem eu me tornei.

Durante muito tempo, acreditei saber quem era. Afinal, existem pessoas, lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que funcionam como espelhos: é também através do olhar do outro que construímos uma imagem de nós mesmos. Mas o que acontece quando esses espelhos desaparecem? Quando as pessoas mudam, os lugares deixam de ser nossos, os trabalhos terminam e as escolhas que nos definiam já não fazem sentido? O que sobra?

Sobraram Filoécio, Demódoco e alguns poucos outros. Talvez não por acaso sejam justamente essas figuras secundárias que, no retorno de Odisseu, ganham uma importância tão grande.

Filoécio é o vaqueiro fiel de Odisseu. Não é da família, não é um herói, não é um deus. É alguém que permaneceu ligado à casa e ao rei durante todos aqueles anos de ausência. Quando Odisseu retorna disfarçado, Filoécio demonstra sua lealdade e participa da recuperação da casa.

Para mim, fidelidade é isso: permanecer ligado a alguém mesmo quando já não há presença, reconhecimento ou qualquer garantia. Há pessoas que não precisam de provas para permanecer. Simplesmente permanecem.

Demódoco faz diferente. É o aedo cego dos feácios. Não enxerga Odisseu, mas conta a sua história. Ao ouvi-la, Odisseu se emociona e se reconhece naquilo que outro consegue narrar sobre ele. Há momentos em que não precisamos que alguém nos veja; precisamos que alguém consiga nos contar de volta.

Eu me identifico aqui. É o que me faz falta agora: não uma nova identidade, mas uma narrativa capaz de reunir o que, dentro de mim, parece ter se dispersado. Talvez eu não tenha deixado de saber quem sou; talvez tenha apenas perdido, por algum tempo, a capacidade de enxergar a história que ainda conecta minhas partes.

É isso que algumas pessoas fazem por nós: guardam uma parte da nossa história quando nós mesmos já não conseguimos enxergá-la inteira. Não nos devolvem quem éramos. Ajudam-nos a reconhecer aquilo que, apesar de tudo, continua sendo nosso.

Mas chega o momento em que esse reconhecimento precisa partir de nós.

Em Ítaca, há 108 pretendentes ocupando a casa de Odisseu, disputando Penélope e, com ela, o lugar de rei de Ítaca. O homem que retorna precisa permanecer disfarçado, observando tudo sem ser reconhecido.

Penélope então propõe uma prova: aquele que conseguir manejar o arco de Odisseu e lançar uma flecha através dos orifícios de doze machados será seu marido. Nenhum dos pretendentes consegue. Odisseu, ainda disfarçado de mendigo, pede para tentar. Toma o arco, encorda-o com facilidade e realiza o desafio.

Não por acaso, antes de disparar a primeira flecha, Odisseu pede a Apolo que lhe conceda glória. Depois de tantos anos tentando sobreviver: finalmente, ele está pronto para mostrar aquilo que ainda sabe fazer. E, seu gesto revela aquilo que as aparências escondiam: aquele mendigo é Odisseu.

Existe algo disso na minha própria travessia. Depois de tanto tempo tentando me adaptar ao que a vida pedia, começo a descobrir não apenas o que deixei para trás, mas aquilo que ainda sei fazer. Aquilo que continua sendo meu, mesmo quando todo o resto mudou.

Nesse momento, fico pensando em Telêmaco: ele cresce enquanto espera por alguém que não está lá. Passa boa parte da Odisseia vivendo numa casa em que o pai está ausente, enquanto homens mais velhos disputam um lugar que não lhes pertence. Atena o ajuda, mas não pode viver por ele. Telêmaco precisa sair, perguntar, procurar respostas e, aos poucos, descobrir o próprio lugar.

Quando Telêmaco sai de Ítaca procurando notícias do pai, visita Nestor, em Pilos. Nestor conta o que conhece sobre o retorno dos gregos, mas não consegue dizer exatamente onde Odisseu está. Não pode devolver Odisseu a Telêmaco, mas pode oferecer a ele uma parte da história que procura. Às vezes, é o que precisamos: alguém, não para nos dizer quem somos, mas para nos devolver referências a partir das quais possamos voltar a nos reconhecer.

Então Telêmaco vai a Esparta, procurar Menelau e Helena.

Menelau conta que, em seu próprio retorno da guerra, ficou preso no Egito e precisou consultar Proteu, o “Velho do Mar”. Proteu era capaz de assumir diferentes formas para escapar de quem tentasse capturá-lo: podia transformar-se em animais, água, árvore.

Proteu me faz pensar em quantas formas podemos assumir sem, necessariamente, deixar de ser quem somos. Odisseu mudou de lugar, de aparência, de posição e até de nome. E, ainda assim, continuou sendo Odisseu. Mudar não é necessariamente perder quem somos. É justamente a mudança que nos obriga a descobrir o que, em nós, não muda.

Menelau e seus homens conseguem prendê-lo e, depois que Proteu volta à sua forma original, ele revela o que sabe. E é Proteu quem informa a Menelau que Odisseu está na ilha de Calipso. Proteu não pode levar Telêmaco até o pai, mas lhe devolve uma certeza a partir da qual ele pode continuar: Odisseu está vivo.

Eu preciso olhar para Telêmaco, assim como também preciso olhar para Penêlope. Durante vinte anos, Odisseu atravessou mares tentando voltar. Penélope atravessou vinte anos permanecendo. E permanecer é também uma forma de travessia. Ela não ficou exatamente no mesmo lugar enquanto ele partia; precisou inventar maneiras de sustentar a casa, adiar escolhas, proteger aquilo que ainda acreditava existir e esperar sem garantias.

Nem toda a Odisseia é sobre quem retorna. É também sobre quem fica. Sobre aqueles que esperam, acompanham e, de alguma maneira, também são transformados pela partida de quem amam. Não estive sozinha nessa travessia. Enquanto eu mudava de direção, minha família acompanhou meu movimento. Esperou, sustentou minhas dúvidas, conviveu com minhas incertezas e acreditou em mim mesmo quando eu ainda não sabia exatamente para onde estava indo. Eles não fizeram a travessia por mim, porque não poderiam. Mas permaneceram.

É uma forma de amar: não impedir a transformação de quem amamos. Telêmaco  e Penêlope me fazem pensar nisso: há quem precise partir para se transformar e há quem permaneça para sustentar essa partida.

Com a ajuda de Telêmaco, Eumeu, Filoécio e alguns poucos aliados fiéis, Odisseu enfrenta os pretendentes e os mata. O primeiro a cair é Antínoo, aquele que havia se colocado como líder entre os que ocupavam sua casa, aquele que simboliza a arrogância de quem se sente dono de um lugar que não lhe pertence.

Existe Antínoo na minha jornada: essa pessoa que ocupa o lugar que um dia foi meu, mas nunca poderá ocupar aquilo que eu fui naquele lugar. É difícil aceitar a passagem do tempo, perceber que aquilo que um dia nos pertenceu pode continuar existindo sem nós. Mas há uma diferença: o espaço pode ser preenchido. A história, não. Essa pessoa pode viver outras experiências, construir outras relações, deixar suas próprias marcas. Lugares mudam de dono, funções são substituídas, pessoas chegam e partem. Mas aquilo que eu vivi não pode ser reencenado por outra pessoa. Ninguém pode ser quem fui, amar quem amei, cometer os mesmos erros que cometi, deixar as mesmas marcas que deixei. Pode ocupar o espaço que um dia foi meu, mas nunca poderá ocupar aquilo que eu fui ali.

Há ainda Pêmio, o aedo, aquele que continua cantando no palácio durante a ausência de Odisseu. Ele está dentro da casa, mas não está exatamente ao lado daqueles que a ocupam. Canta porque é sua função, porque é o lugar que lhe coube e, naquele momento, porque também precisa sobreviver. Quando chega a hora do confronto, pede para ser poupado, e Telêmaco intervém em seu favor. Há também Medon, o arauto. Ele também é poupado. Não era um dos pretendentes, mas havia permanecido dentro daquela casa durante a ausência de Odisseu. Sua posição o obrigava a servir àqueles que agora ocupavam o palácio.

Pêmio e Medon me fazem pensar em algumas pessoas que ficaram. Fizeram escolhas que me feriram, mas nem todas tiveram liberdade para escolher. Há quem nos decepcione não porque tenha deixado de nos reconhecer, mas porque também está tentando preservar seu lugar. Nem toda permanência é uma escolha. Nem todo silêncio é cumplicidade. O outro também está tentando sobreviver dentro da casa que mudou de dono. Nem toda traição é uma escolha. Às vezes, é o modo imperfeito que alguém encontra para permanecer de pé.

Odisseu reencontra o pai, Laertes, que ainda reconhece o filho. Laertes está velho, afastado, sofrendo pela ausência de Odisseu. Quando finalmente se revela, há um reconhecimento entre pai e filho. Na luta final contra os pretendentes, Laertes recupera a força e mata Eupeites, pai de Antínoo.

Há algo muito forte nesse encontro: antes de ser rei, herói, marido ou aquele que retorna, Odisseu é filho. Existe uma parte de nós que antecede tudo aquilo que conquistamos e todos os lugares que ocupamos no mundo. Uma parte que não depende do cargo, da profissão, do reconhecimento ou da posição que os outros nos dão.

É isso que Laertes representa para mim. Uma raiz. Aquilo que permanece quando todas as outras referências desaparecem. Posso perder um lugar, uma profissão, uma posição, pessoas que me reconheciam, e até a imagem que construí de mim mesma. Mas existe alguma coisa anterior a tudo isso, alguma coisa que não começou com essas conquistas e que não termina quando elas deixam de existir. Antes de ser tudo aquilo que o mundo reconheceu em mim, eu já era alguém. Aquilo que é verdadeiramente nosso cria raízes. Algumas são tão profundas que continuam nos sustentando mesmo quando nós próprios já não sabemos exatamente quem somos.

Enfim, Odisseu recupera sua casa, sua autoridade e seu lugar em Ítaca.

Mas ainda falta o reconhecimento mais importante: Penélope.

Penélope não o reconhece imediatamente. Ou talvez não queira simplesmente acreditar. Afinal, vinte anos se passaram. O homem diante dela envelheceu, mudou e carrega uma história que ela não viveu. Ela não pode tomar como verdade apenas o que lhe dizem. Penélope afirma que, se ele realmente é Odisseu, os dois têm sinais que somente eles conhecem. Então ela pede que levem a cama do quarto para outro lugar. Odisseu se enfurece. Como poderiam mover nossa cama? Ela tinha sido construída por ele próprio em cima de uma oliveira viva.

É nesse momento que Penélope o reconhece. Não pela aparência ou pela posição. Não porque alguém lhe disse que aquele homem era Odisseu. Ela o reconhece por algo que pertence apenas à história dos dois. Aquilo que é verdadeiramente nosso tem raízes. Há coisas que podem mudar de forma, de aparência, de lugar, mas não perdem necessariamente sua origem.

A cama, construída a partir de uma oliveira viva e ainda presa às suas raízes, diz isso: podemos mudar, nos afastar, nos perder e até deixar de nos reconhecer por algum tempo. Mas há algo que permanece ligado à nossa história e que nos ajuda a encontrar o caminho de volta.

Depois, Odisseu sai para percorrer Ítaca. Não reconhece a ilha. A névoa ainda está sobre ela. Atena então dissipa a névoa e revela a Odisseu: sua própria terra.

Atena é justamente a presença que não faz a travessia por Odisseu, mas o orienta, protege, cria condições e aparece quando ele precisa enxergar o próximo passo. Ela o ajuda ao longo de toda travessia, auxilia Telêmaco, intervém para que Odisseu deixe Calipso, conduz encontros importantes e, em Ítaca, cria e desfaz a névoa e o ajuda a recuperar sua casa.

E é justamente aqui que essa história ganha, para mim, mais sentido ainda.

Ítaca nunca foi apenas um lugar. Ítaca é quem você é.  É algo interno onde conseguimos nos reconhecer. Odisseu perdeu certezas. Odisseu mudou. Ítaca também mudou, mas alguma coisa sobreviveu ao tempo e às transformações.  Ele é rei, guerreiro, náufrago, amante, estrangeiro, mendigo. E, ainda assim, existe algo que permanece reconhecível.

Quem você é tem raízes.

Essa é a parte que mais me convoca. Eu também estou tentando voltar para casa e, às vezes, sem saber exatamente onde está minha Ítaca. Como Odisseu, atravesso uma espécie de névoa: o lugar está ali, mas já não consigo reconhecê-lo. O mais difícil é admitir que a casa para a qual tento voltar já não me parece a mesma, e eu também não sou mais a mesma que partiu. O que procuro, então, não é simplesmente reencontrar esse lugar, mas descobrir o que, em mim, apesar de tudo o que mudou, continua fincado nas minhas próprias raízes.

Ítaca, para mim, não é um endereço. Não é sequer uma vida que existiu antes. É uma posição interna, a partir da qual eu possa novamente olhar para o mundo e me reconhecer.

Durante muito tempo, a gente acredita que sabe quem é. Não porque eu tenha encontrado sozinha essa resposta, mas porque existem pessoas, lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que funcionam como espelhos. O Outro nos devolve uma imagem de nós mesmos. E, de algum modo, vamos aprendendo a nos reconhecer nesta imagem. Até que um dia o espelho muda. Ou nós mudamos. E aquilo que antes parecia tão evidente deixa de ser.

A imagem que nos sustentava já não coincide com o que vemos. E então começa uma tarefa bem difícil: descobrir quem somos. Acho que eu estou nesse intervalo: entre a pessoa que eu era e aquela que ainda não consigo ser. É estranho, assusta, já não há segurança.

É como acordar de um coma, sim. Não porque tudo tenha acabado, mas porque tudo parece ter continuado sem mim. As conexões mudaram, as referências mudaram, algumas pessoas já não estão, e algumas certezas perderam o sentido. Há escolhas que, durante muito tempo, pareceram certas e que agora revisito com o desconforto de quem olha para o passado sabendo o que só foi possível saber depois.

É difícil acordar: perceber que a vida continuou enquanto você esteve fora. E, quando finalmente volta a olhar para si, já não é exatamente a mesma pessoa que partiu.

E então surge uma pergunta: e se eu estiver errada?
E se todo aquele esforço não tiver me levado aonde eu imaginava?
E se aquilo que eu acreditava ser caminho, olhando agora, parece passos para trás?

É aí que a minha história começa a se voltar contra mim. As palavras que normalmente me ajudam a organizar o mundo passam a me interrogar.  Cada conquista parece menor, cada escolha parece suspeita, e cada caminho percorrido parece carregar a possibilidade de que poderia ter sido outro.

Mas é aí que Odisseu me ajuda. A Odisseia não é a história de um homem que sabe exatamente para onde está indo. É a história de um homem que, muitas vezes, não consegue chegar. Ele se perde, é enganado, erra, perde companheiros e é afastado de casa inúmeras vezes justamente quando acredita estar perto.

Há momentos em que o retorno parece impossível. E, ainda assim, Odisseu continua, existe uma direção: Ítaca. 

Ele não tem certeza de que está no caminho certo, mas existe alguma coisa que o faz continuar desejando chegar. Ítaca não tem garantia. É um norte.

É isso: não necessariamente uma resposta, mas um norte. Tenho exigido de mim uma definição quando, na verdade, estou vivendo uma travessia. E travessias são assim: sem mapas, confusas. A gente avança sem saber exatamente onde e se vai chegar, tentando apenas não se perder tanto pelo caminho.

Às vezes parece que estamos avançando e, de repente, uma tempestade nos devolve quilômetros. Às vezes precisamos escolher entre dois perigos. Às vezes precisamos deixar alguma coisa para trás. Às vezes somos tentados pelo esquecimento, pelo conforto de não querer mais voltar. E há momentos em que ouvimos vozes que podem nos destruir se acreditarmos demais nelas. Mais do que isso, precisamos descer ao mundo dos mortos para reencontrar aquilo que está enterrado vivo dentro nós.

É isso que está acontecendo comigo. Não estou desaparecendo, e sim perdendo as referências antigas que me diziam quem eu era. E existe uma diferença enorme entre desaparecer e deixar de caber na imagem que eu tinha de mim mesma.

Sei que estou na minha própria Odisseia. Não no começo, porque já existe uma história inteira atrás de mim. Não no fim, porque ainda não cheguei a Ítaca. Preciso continuar caminhando.

Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou.

Eu não sei exatamente quem vou encontrar quando chegar. Nem sei ainda, ao certo, o que é, para mim, Ítaca, mas eu não preciso saber agora.

Não quero recuperar a vida que existia antes. Não quero voltar ao que fui, mas construir um lugar a partir de quem me tornei. E, por enquanto, é só isso que eu preciso saber: ainda existe alguma coisa em mim que me faz desejar, mesmo quando tudo parece desconectado. Mesmo quando as palavras, que sempre foram meu abrigo, hoje parecem não querer me obedecer.

Minha Odisseia particular: descobrir o que ainda me pertence, o que, em meio a tantas mudanças, continua sendo meu. O mais difícil é me dar conta do que eu ainda não sei fazer: me haver com meu desejo.

Mas sei que, no final, nos tornamos quem somos.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Às vezes, a gente não precisa de mais tempo. Precisa de menos coisas para dar conta.

Às vezes, a gente olha para a própria vida e conclui que está faltando tempo. Falta tempo para descansar, para estudar, para trabalhar com mais qualidade, para responder as mensagens, para cuidar da casa, para estar com quem ama, para fazer exercício, para ler aquele livro que está parado na cabeceira, para começar aquele projeto que há meses mora na nossa cabeça, para visitar alguém que sentimos saudade, para simplesmente não fazer absolutamente nada. A sensação é quase sempre a mesma: se o dia tivesse mais algumas horas, talvez finalmente conseguíssemos colocar a vida em ordem. Talvez amanhã. Talvez na semana que vem. Talvez quando esse projeto terminar. Talvez quando o trabalho diminuir. Talvez quando as coisas se organizarem. E seguimos vivendo como se o problema fosse o relógio, quando, muitas vezes, o que está nos sufocando não é a falta de tempo, mas o excesso de coisas que acreditamos precisar dar conta.

Vivemos em uma época em que estar ocupado parece ter se transformado em uma espécie de prova de valor. A agenda cheia pode produzir a sensação de importância. Quanto mais compromissos, mais demandas, mais projetos, mais responsabilidades, mais mensagens para responder, mais pessoas precisando de nós, mais parece que estamos fazendo alguma coisa relevante com a nossa existência. O descanso, por outro lado, frequentemente vem acompanhado de culpa. Sentamos no sofá e, em vez de simplesmente descansar, começamos a pensar no que deveríamos estar fazendo. Assistimos a uma série e sentimos que estamos desperdiçando tempo. Dormimos um pouco mais e imediatamente calculamos tudo aquilo que poderíamos ter produzido naquela manhã. Até o lazer, em determinados momentos, precisa parecer produtivo para que possamos nos autorizar a vivê-lo.

Talvez por isso tanta gente diga que está cansada, mas continue acrescentando coisas à própria rotina. Cansada, mas aceita mais um compromisso. Cansada, mas começa outro curso. Cansada, mas assume mais uma responsabilidade. Cansada, mas responde imediatamente a tudo. Cansada, mas sente que precisa estar disponível. Cansada, mas não consegue dizer não. Cansada, mas continua tentando provar que consegue. E, quando percebe, já não está apenas administrando tarefas. Está administrando a expectativa de ser uma pessoa que dá conta de tudo.

Existe uma diferença importante entre ter muitas coisas para fazer e sentir que precisamos dar conta de muitas coisas. Nem tudo aquilo que ocupa espaço na nossa vida precisa permanecer ali. Nem toda demanda precisa ser atendida imediatamente. Nem todo pedido precisa receber um sim. Nem toda oportunidade precisa ser aproveitada. Nem todo problema precisa ser resolvido por nós. Nem toda relação precisa ser sustentada a qualquer custo. Nem todo projeto precisa chegar até o fim. Nem toda expectativa precisa ser correspondida. Nem tudo aquilo que conseguimos fazer precisa continuar fazendo parte da nossa vida.

E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de reconhecer: às vezes, o que precisamos não é aprender a administrar melhor o nosso tempo, mas aceitar que algumas coisas terão de ficar de fora.

Há uma fantasia bastante sedutora de que, com organização suficiente, conseguiremos encaixar tudo. Acordar mais cedo. Dormir mais tarde. Fazer uma lista. Baixar um aplicativo. Montar uma planilha. Estabelecer prioridades. Criar uma rotina perfeita. Otimizar cada minuto. Ouvir um podcast enquanto caminhamos. Responder mensagens enquanto tomamos café. Trabalhar enquanto almoçamos. Estudar no intervalo. Aproveitar o trânsito para aprender alguma coisa. Transformar cada espaço vazio do dia em uma oportunidade de produtividade.

E talvez, em determinado momento, a gente precise perguntar: por que tudo precisa ser aproveitado? Por que até o tempo livre precisa produzir alguma coisa? Por que temos tanta dificuldade em simplesmente existir sem transformar cada minuto em investimento?

A vida não é uma empresa que precisa apresentar resultados trimestrais. Nós não somos projetos de produtividade permanente. Não precisamos transformar cada experiência em aprendizado, cada dificuldade em crescimento, cada encontro em networking, cada hobby em habilidade e cada descanso em estratégia para voltar a produzir melhor.

Às vezes, estamos cansados porque estamos fazendo coisas demais. Mas, às vezes, estamos cansados porque estamos tentando sustentar versões demais de nós mesmos.

Existe o profissional que precisamos ser, o filho que queremos ser, o parceiro que acreditamos precisar ser, o amigo disponível, o adulto responsável, a pessoa saudável, disciplinada, estudiosa, informada, interessante, produtiva, organizada, bem-humorada, emocionalmente madura, financeiramente equilibrada e ainda capaz de manter uma vida social minimamente satisfatória. E talvez nenhuma dessas versões seja, isoladamente, um problema. O problema aparece quando acreditamos que precisamos ser todas elas ao mesmo tempo, o tempo inteiro.

A psicanálise nos convida, entre outras coisas, a desconfiar um pouco das certezas com que organizamos a nossa própria vida. Quem disse que precisamos dar conta de tudo? Quem disse que precisamos corresponder a todas as expectativas? Quem disse que precisamos estar sempre disponíveis? Quem disse que descansar precisa ser merecido? Quem disse que diminuir o ritmo significa fracassar?

Talvez algumas dessas exigências sejam tão antigas que já nem percebamos que são exigências. Elas se apresentam como escolhas pessoais, como características da nossa personalidade, como responsabilidade, como ambição, como maturidade. "Eu sou assim." "Eu gosto de fazer tudo direito." "Eu não consigo deixar para depois." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu gosto de estar sempre ocupado." "Eu funciono melhor sob pressão." "Eu só preciso me organizar melhor." Às vezes, tudo isso é verdade. Mas às vezes também é a maneira que encontramos de não entrar em contato com algo que aparece quando paramos.

Porque existe uma pergunta desconfortável escondida no silêncio: e se eu não estiver fazendo nada? Quem sou eu quando não estou produzindo? Quem sou eu quando não estou resolvendo um problema? Quando não estou ajudando alguém? Quando não estou conquistando alguma coisa? Quando não estou sendo necessário? Quando não estou tentando melhorar? Quando não tenho uma meta para perseguir?

Talvez seja por isso que algumas pessoas tenham tanta dificuldade em descansar. Não necessariamente porque não saibam descansar, mas porque o descanso retira temporariamente algumas das funções que organizam sua identidade. Enquanto estão ocupadas, sabem o que precisam fazer. Há uma tarefa, um objetivo, uma cobrança, um próximo passo. Quando tudo isso diminui, pode surgir um vazio que não é exatamente falta de tempo. É falta de familiaridade com o próprio desejo.

E talvez seja aí que a frase "preciso de mais tempo" comece a ganhar outro sentido. Talvez você não precise de mais tempo para fazer tudo o que já está fazendo. Talvez precise de coragem para admitir que não quer mais fazer algumas dessas coisas. Isso não significa abandonar responsabilidades ou viver de maneira irresponsável. Não significa romantizar a desorganização, negligenciar aquilo que importa ou transformar qualquer desconforto em justificativa para desistir. Pelo contrário. Muitas vezes, escolher o que permanece exige muito mais responsabilidade do que simplesmente continuar acumulando.

Dizer "não consigo fazer isso agora" pode ser mais difícil do que aceitar mais uma tarefa. Dizer "não quero" pode ser mais difícil do que dizer "não tenho tempo". Dizer "isso não faz mais sentido para mim" pode ser mais difícil do que continuar. Porque, quando alegamos falta de tempo, ainda podemos preservar a fantasia de que gostaríamos de fazer tudo. O problema seria apenas a agenda. Mas quando reconhecemos que não queremos, precisamos nos responsabilizar pelo desejo. Precisamos admitir que escolher uma coisa significa abrir mão de outra. E talvez seja justamente isso que nos assuste.

Toda escolha implica uma perda. Escolher também é renunciar. Não podemos estar em todos os lugares, viver todas as experiências, atender todas as expectativas, manter todas as relações, aceitar todas as oportunidades e construir todas as versões possíveis da nossa vida. Em algum momento, precisamos escolher. E escolher significa dizer não para alguma coisa. 

Talvez uma parte do nosso sofrimento venha justamente da tentativa de viver sem renunciar a nada. Queremos a carreira e o tempo livre. Queremos o dinheiro e a tranquilidade. Queremos o reconhecimento e a privacidade. Queremos estar disponíveis para todo mundo e também ter tempo para nós. Queremos crescer profissionalmente sem abrir mão de nenhuma noite. Queremos cuidar da família sem deixar de cuidar de nós. Queremos estudar, viajar, trabalhar, amar, descansar, produzir, criar, conviver, aprender, treinar, dormir bem e ainda ter tempo para olhar pela janela sem culpa.

E, quando percebemos que não cabe tudo, concluímos que estamos administrando mal a vida. Talvez não. Talvez simplesmente não caiba. Existe algo profundamente humano em reconhecer limites. O problema é que fomos ensinados a enxergar limite como deficiência. Quem não dá conta de tudo parece menos competente. Quem precisa de ajuda parece menos capaz. Quem desacelera parece estar ficando para trás. Quem recusa uma oportunidade parece não ter ambição. Quem muda de caminho parece ter fracassado. E assim vamos construindo uma relação bastante cruel com nós mesmos: só nos autorizamos a parar quando o corpo nos obriga.

Esperamos adoecer para descansar. Esperamos chegar ao limite para dizer não. Esperamos perder a paciência para reconhecer que algo está demais. Esperamos não suportar mais para admitir que aquela rotina não funciona. Esperamos que o corpo grite aquilo que não conseguimos dizer.

Talvez fosse possível escutar antes. Talvez fosse possível perceber o cansaço antes de transformá-lo em exaustão. A irritação antes de transformá-la em explosão. A tristeza antes de transformá-la em isolamento. A falta de desejo antes de chamá-la de preguiça. A sobrecarga antes de chamá-la de falta de organização. 

Talvez o corpo não esteja sempre pedindo mais disciplina. Às vezes, está pedindo menos coisas. E isso vale também para a nossa vida psíquica.

Há pensamentos demais, preocupações demais, comparações demais, expectativas demais, explicações demais. Temos respostas para quase tudo, mas talvez estejamos cada vez menos disponíveis para perguntar o que realmente queremos. Sabemos o que deveríamos fazer. Sabemos o que seria mais produtivo. Sabemos o que seria mais saudável. Sabemos o que os outros esperam. Sabemos o que precisamos melhorar.

Mas sabemos o que desejamos? Essa talvez seja uma pergunta mais difícil.

Porque desejo não funciona como uma planilha. Ele não aparece necessariamente organizado, coerente e com prazo definido. Às vezes, ele aparece como uma inquietação. Como uma vontade que não sabemos explicar. Como uma coisa que nos dá prazer e que não parece útil. Como uma escolha que não faz sentido para ninguém, mas faz sentido para nós. Como uma vontade de parar. De mudar. De ficar. De ir embora. De começar alguma coisa. Ou simplesmente de não fazer nada por um tempo.

E talvez seja preciso criar algum espaço para escutar isso. Não necessariamente um espaço enorme. Às vezes, apenas alguns pequenos espaços ao longo do dia em que não precisamos responder a ninguém, produzir nada ou justificar o que estamos fazendo.

Um café tomado sem celular. Uma caminhada sem podcast. Uma noite sem compromisso. Uma tarde sem produtividade. Uma conversa que não precisa levar a lugar nenhum. Um domingo que não precisa ser utilizado para colocar a vida em dia. Pode parecer pouco. Mas, para quem está acostumado a preencher todos os espaços, o pouco já é uma mudança enorme.

Talvez a pergunta não seja "como vou conseguir fazer tudo?". Talvez seja "o que realmente precisa ser feito por mim?". E depois: "o que pode esperar?" "O que pode ser delegado?" "O que pode ser recusado?" "O que já não faz sentido?" "O que estou fazendo apenas porque sempre fiz?" "O que estou tentando provar?" "O que aconteceria se eu não desse conta?"

Talvez algumas respostas sejam desconfortáveis. Talvez outras tragam alívio. Porque existe uma espécie de liberdade silenciosa em perceber que não precisamos carregar tudo aquilo que conseguimos carregar.

Ser capaz não significa ser obrigado. Dar conta não significa precisar dar conta. Ter tempo não significa precisar preenchê-lo. E dizer não para algumas coisas não significa dizer não para a vida. Às vezes, é justamente o contrário. É dizer sim para aquilo que realmente queremos viver. Talvez seja esse o movimento mais difícil da maturidade: deixar de perguntar apenas "do que eu sou capaz?" e começar a perguntar "o que vale a pena para mim?". 

Porque capacidade sem escolha pode virar sobrecarga. E, às vezes, a gente passa tanto tempo tentando provar que consegue carregar o mundo que esquece de perguntar se ainda quer carregá-lo.

Por isso, talvez antes de comprar uma agenda nova, baixar mais um aplicativo de produtividade ou tentar encontrar uma maneira de encaixar mais cinco tarefas no mesmo dia, valha a pena olhar para a própria vida e perguntar com honestidade: o que poderia sair daqui?

Não para produzir mais. Não para fazer melhor. Não para se tornar uma versão mais eficiente de si mesmo. 

Mas para respirar. Para sentir. Para estar. Para descobrir que talvez exista uma vida possível depois daquilo que você acreditava precisar dar conta.

Porque, às vezes, a gente não precisa de mais tempo. Precisa de menos coisas para dar conta.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Uma segunda-feira qualquer...

Eu tenho pensado muito sobre essa necessidade que a gente criou de transformar tudo em aprendizado. Parece que não basta sofrer. A gente precisa sair do sofrimento com alguma coisa nas mãos: uma lição, uma evolução, um propósito, uma versão melhor de nós mesmos. Como se a dor só pudesse ser legitimada depois de produzir algum resultado. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para admitir que, às vezes, eu simplesmente me arrependo. Não de tudo, não o tempo inteiro e talvez nem seja exatamente arrependimento. É mais difícil de explicar do que isso.

Eu larguei um emprego, benefícios, um bom salário, uma área, para me aventurar na Psicologia. E usar a palavra “aventurar” talvez ainda seja uma das formas mais honestas que encontrei para falar sobre essa escolha. Não porque eu não soubesse o que estava fazendo, mas porque existe alguma coisa de muito incerta em abandonar uma carreira relativamente consolidada para começar outra. Eu sabia que queria a Psicologia, sabia que gostava da área, sabia que havia alguma coisa naquela profissão que fazia sentido para mim, mas saber disso não tornou a escolha menos assustadora. Eu deixei para trás uma remuneração, uma imagem, um reconhecimento, um lugar, que, em alguns momentos, faz falta e entrei em uma profissão que exige muito antes de oferecer qualquer sensação real de estabilidade.

Só que a história não termina aí, como talvez fosse mais bonito contar. Eu não estou no meio da graduação, esperando algum dia me tornar psicóloga. Eu já me formei. Tenho meu consultório montado, estou atendendo muitos pacientes, presencialmente e on-line, de muitos outros lugares e, sinceramente, gosto muito do que faço. Gosto da clínica, gosto de estudar, gosto de ler, gosto das perguntas que a Psicologia me provoca e gosto da possibilidade de passar horas tentando compreender alguma coisa que, para outra pessoa, pode parecer apenas uma conversa. Eu construí uma profissão que faz sentido para mim e tenho orgulho disso. Mas isso não significa que todas as manhãs eu acorde pensando que fiz a melhor escolha da minha vida.

Tem segundas-feiras em que eu me arrependo. É sobre escolher uma vida e sentir falta da outra!

E acho importante conseguir dizer isso sem imediatamente transformar a frase em uma grande reflexão sobre coragem, propósito ou realização pessoal. Porque talvez eu simplesmente esteja cansada. Talvez algumas segundas-feiras sejam só segundas-feiras. Talvez nem tudo precise significar alguma coisa.

Existe uma romantização muito grande da mudança profissional, principalmente quando ela pode ser contada depois que as coisas começam a dar certo. A história fica bonita: alguém estava insatisfeito, teve coragem, largou um emprego estável, seguiu um sonho, estudou, se reinventou e hoje trabalha com aquilo que ama. É uma narrativa ótima. O problema é que quase ninguém conta a parte intermediária. Ninguém fala tanto sobre a graduação difícil, sobre as leituras que parecem nunca acabar, sobre a sensação de que sempre existe alguma coisa que você ainda não sabe, sobre a necessidade de continuar estudando mesmo depois de formada, sobre supervisão, cursos, atualização, construção de carreira e, principalmente, sobre a dificuldade de transformar uma profissão que você ama em uma forma sustentável de viver.

A Psicologia tem ainda uma particularidade que talvez torne tudo isso um pouco mais contraditório. É uma profissão que eu escolhi porque gosto de compreender pessoas, de ouvir, de estudar, de pensar. E justamente por isso existe sempre a sensação de que nunca é suficiente. Você se forma e percebe o tamanho do que ainda não sabe. Lê um livro e encontra outros dez. Aprende uma teoria e percebe que existem outras maneiras de olhar para a mesma coisa. Atende um paciente e sai da sessão pensando em uma intervenção, uma palavra, uma pergunta que poderia ter sido diferente. E então estuda mais. Lê mais. Faz mais. Tenta entender mais. Existe uma espécie de movimento infinito de aprofundamento que, ao mesmo tempo em que é uma das coisas mais bonitas da profissão, também é exaustivo.

E existe ainda a realidade de trabalhar como psicóloga hoje. Existe a chamada uberização da Psicologia, a pressão por preços, as plataformas, a necessidade de divulgar o próprio trabalho, produzir conteúdo, responder mensagens, organizar agenda, lidar com faltas, pagamentos, burocracias e, além de tudo isso, estudar e atender. Existe uma ideia muito difundida de que, se você trabalha com aquilo que ama, o restante deixa de importar. Mas não deixa. Amor pela profissão não paga conta. Propósito não substitui estabilidade. E gostar do que eu faço não significa que eu não possa sentir falta da segurança financeira ou de outros tipos de reconhecimento.

Eu posso amar a Psicologia e sentir falta do que trabalhava. Posso gostar profundamente da clínica e achar difícil construir uma carreira nela. Posso olhar para o meu consultório e sentir orgulho do que consegui fazer e, em outro momento, pensar que talvez tivesse sido mais fácil continuar onde eu estava. Essas coisas não se anulam. Elas podem existir ao mesmo tempo.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar quando fazemos uma escolha grande: depois que escolhemos um caminho, continuamos capazes de imaginar todos os outros. Eu poderia ter permanecido naquele emprego. Poderia ter continuado naquela outra área. Poderia ter seguido aquela carreira e talvez hoje estivesse igualmente feliz. Às vezes eu penso nisso. E pensar nisso não significa necessariamente que eu quero voltar. Significa apenas que aquela vida existiu. Ela foi minha durante muito tempo. Tinha coisas boas.Não preciso transformar a minha vida anterior em um erro para justificar a vida que tenho hoje.

Talvez eu também não precise transformar a Psicologia em uma escolha perfeita para justificar ter feito essa mudança. Eu não preciso dizer que foi a melhor decisão da minha vida. Com certeza foi uma decisão importante. Uma decisão que fez sentido para mim naquele momento e que continua fazendo sentido em muitos aspectos, embora também tenha ônus que eu não imaginava completamente quando comecei.

Porque escolher alguma coisa também é abrir mão de outras. E acho que existe uma certa ingenuidade em falar sobre escolhas sem falar sobre renúncias. Quando eu escolhi a Psicologia, eu não ganhei apenas uma profissão. Eu também abri mão de determinadas certezas. Ganhei um consultório, pacientes, estudo, leituras, uma profissão que me interessa profundamente e a possibilidade de fazer um trabalho que considero significativo. Mas também ganhei instabilidade, responsabilidade, dúvidas e uma necessidade permanente de continuar construindo alguma coisa que ainda não está pronta.

E talvez seja justamente isso que me incomoda em tantas narrativas sobre encontrar o próprio propósito. Elas parecem sugerir que, quando finalmente encontramos aquilo que amamos, a dúvida desaparece. A minha experiência mostra que não. Eu encontrei uma profissão de que gosto muito e continuo tendo dúvidas. Eu construí um consultório e ainda sinto receio. Eu me formei e continuo estudando muito e com afinco, como se ainda faltasse alguma coisa. Eu atendo pessoas e continuo sendo uma pessoa com as minhas próprias questões. Eu fiz uma escolha que considero importante e, em determinadas segundas-feiras, ainda penso que talvez tenha sido uma péssima ideia.

E eu não preciso resolver essa contradição.

Talvez a gente tenha uma necessidade excessiva de resolver tudo. Se estou feliz, preciso explicar por quê. Se estou triste, preciso descobrir o que aprendi. Se estou sofrendo, preciso encontrar um propósito. Se mudei de carreira, preciso dizer que foi a melhor decisão da minha vida. Se estou cansada, preciso descobrir qual foi o ensinamento daquele cansaço. Como se toda experiência precisasse produzir imediatamente algum sentido.

Eu não quero mais transformar todo desconforto em crescimento. Às vezes eu quero apenas reconhecer que está difícil. Sem uma grande conclusão, sem uma lição e sem a obrigação de agradecer pelo sofrimento. Porque nem todo sofrimento precisa virar aprendizado.

Talvez algumas coisas simplesmente doam. Algumas escolhas simplesmente custem. Algumas fases simplesmente sejam cansativas. E talvez amadurecer também seja conseguir permanecer diante dessas coisas sem precisar imediatamente transformá-las em uma história bonita.

Eu não sei se fiz a escolha certa todos os dias. Na verdade, em alguns dias eu tenho bastante certeza de que não fiz. Mas também sei que existe uma parte muito grande de mim que gosta de estar aqui. Eu gosto da Psicologia, gosto da clínica, gosto de estudar, gosto dos pacientes que chegam até mim, gosto de efetivamente fazer diferença na vida dos meus pacientes, gosto das histórias que escuto e das perguntas que esse trabalho me obriga a fazer. Tenho orgulho do consultório que construí e da profissão que estou construindo. Isso também é verdade.

Talvez a questão seja justamente aceitar que uma verdade não precisa apagar a outra. Posso estar feliz e cansada. Posso amar o que faço e sentir falta do que deixei para trás. Posso estar orgulhosa e insegura. Posso ter escolhido conscientemente e ainda assim sentir saudade da vida que não escolhi.

E talvez seja isso que eu queira preservar nessa escolha: o direito de não precisar transformá-la em uma história perfeita. Eu não quero olhar para trás daqui a alguns anos e precisar dizer que largar aquele emprego foi a melhor coisa que me aconteceu. Talvez tenha sido. Talvez não. Talvez tenha sido apenas uma das decisões importantes da minha vida, com coisas muito boas e coisas muito difíceis.

Por enquanto, sigo estudando demais, lendo sem parar, atendendo muitoooooo, construindo meu consultório e tentando aprender a viver de uma profissão que escolhi porque gosto. E, de vez em quando, numa segunda-feira particularmente difícil, provavelmente vou continuar pensando que talvez eu tenha cometido um erro enorme.

Sei que não preciso brigar com esse pensamento. Posso apenas deixá-lo existir. Porque nem todo sofrimento precisa virar aprendizado. Às vezes, um sofrimento é apenas sofrimento.  

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

Postagens Mais Vistas