⚠️ Aviso de spoiler: este texto contém spoilers importantes da Odisseia. Se você ainda pretende conhecê-la sem antecipações, talvez seja melhor ler depois.
Quero escrever. Mas hoje não me encontro nas palavras.
Quando vejo que não estou conseguindo me expressar aqui,
entendo que o momento não está dos melhores. Porque escrever é minha paixão, as
palavras fluem, sem roteiro, sem planejamento. Nunca tive que pensar para
escrever. Parece que a alma vai guiando, vou colocando o que sinto e tudo vai
fazendo sentido e ganhando forma.
Hoje, não. Está tudo desconectado. Sem rumo, sem encontrar o
que dizer. Não vai dando liga, o sentido vai escorrendo entre as frases e
parece mais um desabafo do que uma reflexão. Parece mais uma tristeza do que
uma experiência existencial. A sensação é de desaparecimento. E, nesse momento,
tudo vai se confundindo. Vêm lembranças antigas, vêm decepções recentes também.
Vem uma sensação de injustiça, de que foi muito esforço, foi tudo muito
batalhado e para quê? A sensação dos resultados, ou, melhor, da ausência deles,
fica mais nítida. As escolhas se enfraquecem, parecem más escolhas, decisões
ruins ao longo do caminho. Eu acabo virando alvo das minhas próprias palavras,
como se eu tivesse que me explicar para mim mesma.
O entorno fica menor. As conquistas também diminuem na mesma
intensidade. O fundo do poço começa a ficar cada vez mais alcançável, e a
leitura é de ter dado milhares de passos para trás em tempo recorde. Fico
estranha a mim mesma, como se eu não fosse eu. Como se o Outro que me dizia
quem eu era tivesse errado, dito outra coisa. Como se eu tivesse entendido
outra coisa.
Uma metáfora absurda, mas é a que me ocorre: como se, ao
acordar do coma, eu não mais reconhecesse o mundo e o meu lugar nele. Tudo
mudou demais. Não tenho mais as conexões antes estabelecidas e agora parece um
caminhar novo, mas estranho, muito assustador, porque já não se é criança, já
não se pode inventar um mundo para caber nele e já não se tem mais os mesmos
recursos para enfrentar o mundo que existe. Então vira uma odisseia mesmo.
(Legal me vir essa palavra, justo agora, porque é o filme em cartaz atualmente.)
Odisseia, humm… Odisseia. E agora, reencontrando
a força que a escrita tem para mim, não consigo deixar de reler e estabelecer
uma conexão com a Odisseia, de Homero.
Com Odisseu, para os gregos e Ulisses, para os romanos. Na
prática, Odisseu e Ulisses são a mesma personagem. Eu prefiro Odisseu. Para
mim, Odisseu me mantém mais próxima de Homero. Odisseu é o homem da Odisseia.
A Odisseia de Odisseu.
Odisseu precisou ir para a guerra. A Guerra de Troia começa,
em grande parte, por causa de Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta. Helena
vai para Troia com Páris, príncipe troiano. Há diferentes versões sobre o que
aconteceu entre os dois, se Helena foi raptada, se foi seduzida ou se partiu
por vontade própria, mas o que permanece é que sua partida desencadeia uma
guerra que duraria dez anos.
Helena é desejada, disputada, considerada a mulher mais
bela, e se torna objeto de projeções e narrativas. Sua identidade é
constantemente construída pelo olhar dos outros. Helena me lembra que existe
uma diferença entre aquilo que somos e aquilo que projetam sobre nós. Eu me
reconheço nisso. Nem sempre escolhi a história que projetaram sobre mim, nem o
lugar que esperavam que eu ocupasse. Mas, uma vez dentro dela, precisei
descobrir como atravessá-la sem me perder de mim.
Menelau reúne os gregos para recuperar Helena, e Odisseu,
rei de Ítaca, é convocado. É nessa guerra que acontece o famoso episódio do
cavalo de Troia, estratégia que permite aos gregos entrar na cidade e
finalmente derrotá-la. É então que entra em cena Sinon, o grego que se oferece
aos troianos como prisioneiro e os convence de que o cavalo é uma oferenda
deixada pelos gregos. É uma demonstração de que, em Troia, vencer não dependia
apenas da força, mas também da capacidade de construir uma narrativa na qual o
outro estivesse disposto a acreditar.
Odisseu foi convocado para guerra. A vida é assim,
nos convoca antes que estejamos prontos. Somos colocados em cenas que
não escolhemos conscientemente, mas nas quais já estamos implicados. O sujeito
não é senhor de suas escolhas: há um desejo que nos atravessa antes de sabermos
dizer o que é. Foi assim comigo. A cena estava posta, e eu, implicada nela.
Houve coisas que desejei, coisas que escolhi e coisas que simplesmente
aconteceram.
E é assim que a Odisseia começa...
Odisseu não estava voltando de uma viagem qualquer. Estava
voltando de dez anos de guerra. Dez anos depois de ter deixado sua casa, sua
esposa Penélope e seu filho Telêmaco. Dez anos depois de ter colocado sua vida
em suspensão para participar de uma guerra que começou pelo desejo do outro
e terminou deixando uma cidade destruída e muitos mortos. A guerra foi vencida,
mas Odisseu ainda precisaria enfrentar a sua própria travessia, a volta para
casa.
Eu me vejo aí, da mesma forma que Odisseu, tentando voltar
para casa. Depois de dez anos de guerra, ele ainda levará outros dez anos para
conseguir chegar a Ítaca, a Penélope, àquilo que deixou para trás. Mas,
pensando bem, ele não tentava apenas chegar a um lugar. Tentava reencontrar uma
posição no mundo. Voltar a ser alguém capaz de reconhecer onde está e,
principalmente, quem é.
E é aí que a Odisseia faz muito sentido
para mim. Porque Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou. E é
justamente aí que a palavra “casa” ganha outro sentido para mim. A casa não é
exatamente um lugar.
São dez anos tentando voltar para casa. O mais interessante
é perceber que, embora a guerra tenha terminado, sua história não termina
quando deixa Troia. É justamente aí que começa outra guerra: a do retorno, a
Odisseia. Ele não está apenas tentando chegar a Ítaca. Está tentando
reencontrar o caminho de volta para si mesmo.
Primeiro vieram os Cícones, um povo da Trácia, região ao
norte do mar Egeu. Depois de vencerem a batalha, os homens de Odisseu
permanecem ali para saquear e aproveitar a vitória, quando deveriam seguir
viagem. Essa demora lhes custa caro: os Cícones contra-atacam, e Odisseu perde
muitos homens. A viagem começa, assim, ensinando uma lição difícil: há momentos
em que permanecer, mesmo depois da vitória, pode nos afastar do lugar para onde
queremos voltar, nem toda vitória significa avanço.
Depois, vieram os Lotófagos, onde o perigo já não é a
violência, mas o esquecimento. Comer a flor de lótus significa perder a memória
da pátria e, com ela, o desejo de voltar para casa. É o risco de
esquecer aquilo que nos move, nossos sonhos, e se acomodar a uma existência sem
direção. Eles esquecem a missão, esquecem Ítaca e querem permanecer
ali. Odisseu precisa então ir buscá-los à força e levá-los de volta aos navios.
Ele os amarra para impedir que retornem aos Lotófagos e ordena aos outros
homens que partam imediatamente.
Em seguida vem o Ciclope, Polifemo. Aqui, Odisseu encontra
um perigo do qual não pode escapar apenas pela força. Para sobreviver, precisa
recorrer à inteligência, à astúcia e à capacidade de encontrar uma saída onde,
aparentemente, não existe nenhuma. Eles chegam a uma ilha rochosa, cheia de
cavernas. Odisseu e seus homens encontram uma delas repleta de alimentos:
queijos, leite, animais. Há abundância. Eles entram e esperam pelo dono, sem
imaginar que estão no território de um gigante. Polifemo é um Ciclope, um
gigante de um único olho no meio da testa e filho de Poseidon.
Quando retorna à caverna, Polifemo fecha a entrada com uma
enorme pedra. Odisseu logo percebe que não há força humana capaz de movê-la.
Para sair dali, será preciso pensar. Enquanto o gigante começa a devorar seus
homens, Odisseu oferece vinho a Polifemo. Depois, ele e seus homens o cegam com
uma estaca. Quando o Ciclope pergunta seu nome, Odisseu responde: “Outis,
Ninguém”. Para sobreviver, Odisseu precisa abrir mão do próprio nome e, por
um instante, deixar de ser quem é. É uma estratégia brilhante, mas também
revela algo importante: há momentos em que sobreviver exige esconder a própria
identidade.
Quando Polifemo, depois de ser cegado, grita por socorro, os
outros Ciclopes perguntam quem o está atacando. “Ninguém”, responde ele.
Acreditando que não há perigo, vão embora. Odisseu então consegue escapar com
seus homens, escondidos sob os carneiros do rebanho. Ali, a inteligência vence
a força.
Já a salvo, quando estão no mar, Odisseu não consegue
permanecer em silêncio. Precisa que Polifemo saiba quem o venceu. Grita para o
Ciclope que foi Odisseu, rei de Ítaca, quem o cegou. Polifemo então invoca seu
pai, Poseidon, e pede que Odisseu nunca consiga voltar para casa, ou que, se
voltar, seja depois de muitas perdas.
Há uma ironia nesse momento da Odisseia: Odisseu
consegue escapar do perigo, mas não consegue escapar da necessidade de ser
reconhecido por aquilo que fez. Toda a inteligência que o havia mantido vivo dá
lugar, por alguns instantes, ao orgulho. Ele precisava apenas partir em
silêncio. Mas diz: fui eu. E é justamente aí que sua vitória começa a se
transformar em outra coisa. O ego destrói em segundos aquilo que a
inteligência levou tanto tempo para construir.
Odisseu havia criado uma identidade falsa para sobreviver.
No momento em que está seguro, porém, precisa recuperar seu nome, seu lugar,
sua autoria. Vencer em silêncio não lhe parece suficiente; ele precisa que o
outro saiba quem venceu.
Não basta ter feito; é preciso que o outro testemunhe. E,
quando esse olhar não retorna, o feito parece perder um pouco da sua realidade.
Eu me vejo assim: tentando existir no meu próprio feito sem precisar ser
reconhecida por ele.
A travessia continua. Por um instante, parece que o retorno
finalmente se tornou possível. Éolo lhe entrega os ventos, e Odisseu parte
novamente. Dessa vez, Ítaca já pode ser avistada. Mas, enquanto ele dorme, seus
companheiros, acreditando que o saco entregue por Éolo guarda riquezas, decidem
abri-lo. Os ventos escapam de uma só vez, a embarcação é arrastada para longe e
todo o caminho percorrido se desfaz. Uma das maiores angústias da Odisseia
está aí: estar tão perto de casa e, ainda assim, voltar a se perder. Eu
também conheço esse lugar: o que parecia caminho se desfaz, e é preciso
descobrir como seguir.
Então surgem os Lestrigões, gigantes antropófagos que
devoram seres humanos. Vivem na região de Telepilo, governada pelo rei
Antífates. Odisseu chega com doze navios. Os homens desembarcam em busca de
informações. Uma mulher aparece e chama pelo pai, Antífates, que percebe que os
estrangeiros são humanos e inicia o ataque. Eles destroem quase toda a frota.
Apenas a embarcação de Odisseu consegue escapar. Mais homens ficam pelo
caminho. A cada perda, a viagem vai se tornando mais solitária, e
Odisseu começa a perceber que voltar para casa também significará chegar sem
aqueles com quem partiu.
E aqui não consigo deixar de pensar nos que ficaram para trás. E na minha própria travessia: muitos ficaram pelo caminho, há uma solidão que faz parte do caminho, um ponto que ninguém pode percorrer comigo e nem por mim. Na minha nova profissão, também existe esse lugar. Posso encontrar companhia, orientação, pessoas que me ajudem a seguir, mas há um trecho que inevitavelmente é meu.
Depois veio Circe, uma feiticeira divina, filha do deus-sol
Hélio e da oceânide Perse. Ela vive sozinha na ilha de Eia, em um palácio
cercado por uma natureza quase encantada. Quando Odisseu chega à ilha, envia
alguns de seus homens para explorar o lugar. Eles encontram o palácio de Circe
e são recebidos como hóspedes. Mas ela coloca uma droga mágica na comida deles
e os transforma em porcos. Eles não deixam de ser humanos por dentro. O corpo é
transformado, mas a consciência permanece. É perturbador. O castigo não é
simplesmente morrer; é continuar consciente enquanto sua aparência, sua
dignidade e sua identidade humana são retiradas. Os homens de Odisseu aparecem
como criaturas dominadas pelo apetite e pelo instinto, enquanto Circe parece
revelar aquilo que existe por baixo da aparência civilizada, a fronteira entre
humano e animal. Dessa vez, o perigo não está apenas em perder a vida, mas
em perder a própria forma de existir, a própria humanidade.
Odisseu parte para enfrentá-la e, no caminho, encontra
Hermes. Hermes é um deus, filho de Zeus e Maia. É o mensageiro dos deuses,
protetor dos viajantes, dos caminhos e das passagens, inclusive entre o mundo
dos vivos e o dos mortos. Ele entrega a Odisseu uma planta chamada moly.
Quando Circe tenta enfeitiçá-lo, a magia não funciona. Odisseu então a ameaça
com sua espada e consegue fazê-la desfazer o encantamento. Protegido por moly, ele resiste a Circe e a obriga a devolver aos seus homens a forma humana. Depois
de tantas perdas, Odisseu encontra uma ameaça diferente: não aquilo que pode
matá-lo, mas aquilo que pode fazê-lo deixar de ser quem é.
Mas Circe não continua sendo sua inimiga. Depois de
enfrentá-la, Odisseu permanece com ela durante um ano. Come, descansa, desfruta
da vida. Pela primeira vez em muito tempo, não está lutando para sobreviver nem
tentando escapar de algum perigo. Está simplesmente vivendo. Circe passa a
representar a possibilidade de permanecer. Odisseu pode ficar: há alimento,
descanso, prazer, uma vida possível. Mas, depois de um ano, ele escolhe partir.
E aqui já não se trata apenas de seguir viagem, mas de sustentar uma escolha. Escolher
significa deixar para trás uma vida possível para seguir em direção àquela que
se deseja.
Eu também reconheço minha Circe: a possibilidade de
permanecer em uma vida profissional estabelecida, em um lugar que eu já
conhecia no mundo. Mas escolhi partir. Voltar a estudar e começar outra profissão significou abrir
mão de uma vida que funcionava para escolher outra, ainda sem garantias.
Até aqui, muitas vezes Odisseu é levado pelos acontecimentos; com Circe, precisa escolher. Pode permanecer, mas decide partir. E é Circe quem lhe indica o próximo passo. Ela, que parecia uma ameaça, torna-se aquela que indica o caminho. Odisseu precisará descer ao mundo dos mortos e consultar Tirésias, o profeta cego, e ouvir aquilo que precisa saber. Não basta agir; Odisseu precisa saber. A viagem agora exige dele algo diferente da astúcia ou da força: exige conhecimento. Nem tudo o que nos ameaça precisa ser evitado. Há ameaças que só conseguimos atravessar quando aceitamos olhar para elas e dar-lhes um nome.
No mundo dos mortos, Tirésias lhe revela aquilo que ainda
está por vir, o que ele precisará enfrentar para chegar a Ítaca. É ali
também que Odisseu encontra algo que não estava procurando: sua mãe,
Anticleia, e descobre que ela morreu durante sua longa ausência. Anticleia me
toca muito. Ao encontrar a mãe, Odisseu descobre que, enquanto estava longe, a
vida continuou. Sua escolha teve um custo: sua mãe morreu. Há perdas que não
acontecem porque escolhemos mal, mas porque toda escolha nos afasta de alguma
coisa. Não podemos levar tudo conosco. Escolher um caminho significa deixar
outros para trás, e algumas perdas só conseguimos enxergar quando já estamos
longe demais para voltar.
Ao descer ao mundo dos mortos, Odisseu encontra ainda
Agamêmnon, Aquiles e outros mortos da guerra. Sei bem que há verdades que não
desaparecem. Elas apenas esperam o momento em que já não podemos fugir delas.
Insistem em permanecer, mesmo quando tentamos deixá-las para trás. A
resposta pode estar justamente onde evitamos olhar. Para descobrir o que
precisa saber e continuar sua jornada, Odisseu precisou descer ao lugar que
representa a própria morte. Para seguir adiante, precisou olhar de frente para
aquilo que havia deixado para trás.
Lá, ele encontra também Agamêmnon, que é irmão de Menelau.
Os dois são filhos de Atreu e Aérope e pertencem à família dos Atridas.
Agamêmnon conta que, quando voltou da guerra, foi recebido em casa pela própria
esposa, Clitemnestra, e pelo amante dela, Egisto, e acabou assassinado pelos
dois. Ele conseguiu voltar da guerra, mas não encontrou em casa o que
imaginava. Seu encontro com Odisseu acrescenta uma dimensão sombria: a
desconfiança, a traição e a impossibilidade de acreditar que aqueles que ficaram
permaneceram exatamente como eram. Voltar para casa não significa
reencontrar as pessoas como as deixamos. O tempo transforma também aqueles que
ficaram.
É isso que sinto quando olho ao redor e percebo que já não
reconheço muitos dos que compartilharam comigo uma parte da minha vida. Algumas
pessoas continuam ocupando os mesmos lugares, mas parecem outras. Outras
mudaram, algumas muito, sem que eu percebesse quando isso aconteceu. E então
vem a pergunta: como eu não me dei conta antes? Quando estamos dentro de uma
história, não percebemos suas transformações no momento em que acontecem. Só
reconhecemos a distância quando olhamos para trás. As pessoas que reencontro hoje
carregam uma história que aconteceu sem mim, assim como eu carrego tudo o que aconteceu
enquanto estive longe. Não fomos apenas separados pelo tempo; fomos
transformados por ele.
Depois vieram as Sereias, cujo canto representa uma tentação
tão poderosa que Odisseu precisa criar uma estratégia para poder escutá-las sem
se entregar a elas. Ele manda os homens colocarem cera nos seus ouvidos. Mas
ele não, ele quer ouvir o canto, então pede que o amarrem ao mastro do navio.
Não quer fingir que a tentação não existe, nem abrir mão do desejo de
conhecê-la. Mas sabe que, se estiver livre, não conseguirá resistir.
Reconhecer os próprios limites também é uma forma de
liberdade. Odisseu não confia apenas na própria força de vontade. Antes de
encontrar a tentação, cria as condições para não ser levado por ela. Resistir
à tentação não é fingir que ela não existe, mas reconhecer a nossa
vulnerabilidade e construir estratégias para atravessá-la.
Eu também ouvi muitos cantos pelo caminho. Propostas para
ficar. Convites para retornar. Promessas de uma vida que eu já conhecia bem.
Havia conforto, segurança, reconhecimento. Por alguns momentos, continuar em
direção ao desconhecido pareceu muito mais difícil do que eu imaginava.
Vieram Cila e Caríbdis. Cila é um monstro de seis cabeças, e
cada uma delas pode arrancar e devorar um homem. Caríbdis é um enorme
redemoinho capaz de engolir o mar e destruir toda a embarcação. Circe já havia
avisado Odisseu: ele teria que passar entre os dois perigos e não havia uma
saída sem perda. Odisseu precisa escolher não entre o perigo e a segurança, mas
entre dois perigos diferentes. Não existe uma decisão capaz de preservar tudo.
E é justamente aí que a escolha ganha um forte significado. Não existe
uma decisão sem custo. Não se trata de escolher entre o bem e o mal, mas
entre duas dores possíveis. Qual dor carregar? Qual perda suportar para
continuar o caminho?
Odisseu escolhe passar mais próximo de Cila, porque
enfrentar Caríbdis poderia significar perder toda a embarcação e todos os
homens de uma só vez. Ainda assim, seis homens são levados por Cila. Algumas
escolhas não permitem evitar a dor. Permitem apenas decidir qual dor é possível
carregar.
Foi assim também comigo. Havia um caminho conhecido, que eu
já sabia percorrer, não sem dor, mas abrindo mão do meu desejo. E havia outro,
ainda sem nome, sem garantias e cheio de perguntas, em que eu precisaria abrir
mão da segurança. Escolher significava perder. Escolhi as perguntas, mesmo sem
saber onde elas me levariam.
Depois veio a ilha do rebanho sagrado, a ilha do Sol. Ali
estão os bois de Hélio, que não podem ser tocados. Odisseu sabe disso. Tirésias
havia avisado. Circe também havia avisado. Desta vez, portanto, não se trata de
escolher, não foi por falta de aviso, o limite está dado, e eles sabem qual é.
Mas seus homens estão famintos. Enquanto Odisseu dorme, seus companheiros matam
e comem alguns dos bois sagrados. Quando Hélio descobre, exige punição, senão
ameaça apagar o sol da terra. Zeus então envia um raio que destrói a
embarcação. Todos os homens morrem. Só Odisseu sobrevive.
Nem tudo está sob nosso controle. Odisseu havia
planejado, orientado seus homens. Ainda assim, não conseguiu controlar as
escolhas dos outros. Há momentos em que fazemos tudo o que está ao nosso
alcance e, mesmo assim, o resultado escapa das nossas mãos.
Essa foi uma lição difícil da minha própria travessia. Eu
queria acreditar que, se tomasse cuidado, planejasse cada passo e fizesse tudo
certo, conseguiria prever onde aquela decisão iria me levar. Mas a vida não
funciona assim. Quando decidi mudar, não havia garantias, nem mapa, nem caminho.
A partir dali, a travessia seria só minha. Eu precisaria seguir sozinha,
assumindo o risco e a responsabilidade pela minha escolha. Não controlamos o
mar, nem o que ele levará de nós. Só podemos escolher continuar e sustentar a
escolha que fizemos.
E então resta Calipso.
É muito significativo que, depois de tantas batalhas,
monstros, tempestades, perdas e mortes, Odisseu fique preso não em um lugar de
horror, mas em um lugar aparentemente perfeito. Calipso oferece a ele a
juventude eterna e a possibilidade de tornar-se imortal caso escolha permanecer
e casar-se com ela. Ele poderia viver longe das dores do mundo, sem envelhecer,
sem morrer. Odisseu permanece ali durante sete anos, tem tudo, mas, ainda
assim, quer partir. É justamente o que torna Calipso tão marcante na Odisseia:
Odisseu precisa escolher entre uma vida boa e a vida que deseja. Ele poderia
permanecer naquele lugar perfeito, mas não seria Ítaca. Estar
confortável é diferente de estar em casa.
Odisseu quer voltar para Ítaca, mas o desejo, sozinho, não era suficiente.
Então Zeus decide que Odisseu deve ser libertado e,
novamente, envia Hermes para levar a ordem. Hermes chega à ilha, transmite a
mensagem e deixa claro que Odisseu precisa partir. Calipso não o liberta por
vontade própria; apenas cumpre a determinação dos deuses.
O significativo é que Hermes não tira Odisseu da ilha. Não
constrói o barco, não atravessa o mar com ele, não o conduz até Ítaca. Apenas
traz a mensagem, oferece proteção e abre uma possibilidade. O resto cabe a
Odisseu. Algumas pessoas são assim na nossa vida: não caminham conosco até o
fim, mas aparecem exatamente quando uma passagem se faz possível. Quando o que
precisamos não é de alguém que nos carregue, mas de alguém que abra uma porta.
Calipso me faz pensar na minha própria história. Não foi
apenas deixar para trás uma profissão, mas abrir mão de uma vida que
funcionava. Eu tinha muito do que poderia desejar: conforto, segurança,
reconhecimento. E, ainda assim, havia em mim a sensação de que aquele não era
mais o meu lugar. Calipso representa, para mim, esse lugar onde permaneci por
mais de vinte anos: confortável, conhecido e seguro, mas que, em algum momento,
deixou de ser casa.
Após a mensagem de Hermes, é Calipso quem fornece a Odisseu
os recursos para construir a jangada. Ele quer Ítaca. E é aí que a
palavra “casa” começa realmente a ganhar outro significado. Casa deixa de ser
apenas um lugar para onde se volta e passa a ser aquilo que dá sentido ao
desejo de voltar. Odisseu não quer simplesmente retornar a um território. Quer
reencontrar aquilo que o constitui: Penélope, Telêmaco, sua história, seus
vínculos e a possibilidade de reconhecer a si mesmo.
O retorno não significa voltar a ser quem se era antes.
Odisseu já não é o mesmo homem que partiu. Ítaca pode até ser, ele ainda não
sabe. O desafio do retorno não está em chegar a um lugar, mas em descobrir se,
depois de tudo, ainda somos capazes de pertencer a ele.
Depois de deixar a ilha de Calipso, Odisseu enfrenta uma
tempestade provocada por Poseidon, que destrói sua embarcação. Quase morto,
chega à terra dos Feácios, na ilha de Esquéria. Está nu, exausto, sem pertences
e sem saber exatamente onde está.
É nesse momento que surge Nausícaa, filha do rei Alcínoo e
da rainha Arete. Atena aparece em seu sonho e a incentiva a ir até o rio lavar roupas
com suas servas, lembrando-lhe que ela está em idade de se casar. Nausícaa vai
até lá com as jovens e, enquanto elas brincam, o barulho desperta Odisseu, que
estava escondido entre os arbustos.
Odisseu está irreconhecível. É um homem que perdeu tudo, um
náufrago. Nausícaa poderia ter medo e fugir, mas não foge. Odisseu pede ajuda,
e ela lhe oferece roupas e orientação. Indica o caminho até o palácio de seus
pais e explica como chegar à cidade sem acompanhá-lo, evitando comentários
sobre um possível casamento com um estrangeiro. Ela não resolve o problema de
Odisseu. Não o leva até Ítaca. No palácio, o rei Alcínoo acolhe o estrangeiro,
os Feácios o hospedam e, finalmente, providenciam um navio para levá-lo a
Ítaca. Nausícaa lhe dá exatamente aquilo de que ele precisa naquele momento: condições
para seguir.
Também encontrei minha Nausícaa pelo caminho. Ela apareceu
quando eu já não sabia como continuar. Não fez a travessia por mim, mas me
devolveu as condições para seguir. Em um momento em que eu já não sabia o
que fazer, sua presença foi o suficiente para que eu conseguisse dar o próximo
passo.
Quando finalmente chega a Ítaca, Odisseu tem a aparência de
um mendigo. Ninguém o reconhece imediatamente. E, curiosamente, nem ele próprio
consegue reconhecer a ilha para a qual passou tantos anos tentando voltar.
Odisseu encontra Eumeu. O porqueiro fiel de Odisseu não sabe
que é ele e, ainda assim, oferece comida, abrigo e hospitalidade. Mais tarde,
participa da recuperação da casa. Há uma diferença entre ser reconhecido e ser
acolhido sem precisar ser reconhecido. Eumeu não reconhece o rei, o herói
ou o homem que partiu vinte anos antes. Reconhece apenas um homem que precisa
de abrigo e isso é suficiente para acolhê-lo.
Há uma forma de amor que permanece quando já não temos
posição ou conquistas que provem quem fomos. Um amor que não precisa saber quem
fomos para acolher quem somos. Sei bem do que estou falando.
Inicialmente, Odisseu não é reconhecido e não reconhece
Ítaca. Atena havia lançado uma névoa sobre a ilha, protegendo-a até que ele
pudesse, enfim, retornar. Atena me faz pensar que há sempre ajuda no caminho.
Há quem nos proteja o suficiente, para que possamos encontrar nosso próprio
caminho. Ao longo da minha própria jornada, encontrei pessoas assim: não
fizeram a travessia por mim, mas me ajudaram a não perder a direção.
Enfim, há ainda quem consiga reconhecê-lo.
Primeiro, Argos, seu velho cachorro. Já debilitado, depois
de tantos anos esperando pelo dono, ele reconhece Odisseu pelo cheiro. Odisseu,
porém, não pode demonstrar que o reconheceu, precisa manter seu disfarce. Argos
então morre. Argos não reconhece o rei, mas o homem. E é justamente isso que
torna essa cena tão poderosa: quem nos reconhece quando já não temos
status, posição, aparência ou poder? Quem nos conhece quando não temos
nada para oferecer? Quem consegue enxergar aquilo que permanece em nós quando
tudo aquilo que costumava nos definir já não está mais lá?
Depois, Euricleia, sua antiga ama, ao lavar os pés do
suposto mendigo, reconhece a cicatriz na perna de Odisseu. É uma marca
que atravessou os anos e sobreviveu a tudo o que aconteceu depois. Ela
reconhece o homem que está diante dela não pelo rosto ou pelas roupas, mas por
uma marca que o tempo não conseguiu apagar. Odisseu, porém, a impede de revelar
sua identidade. Ainda não é o momento de ser reconhecido por todos.
Essa parte me toca. Quando deixei para trás o lugar que
ocupei por tantos anos, muitas pessoas ficaram pelo caminho. Muitas escolheram
acreditar em versões que não eram minhas. No meio de tantos, sobraram poucos.
Não permaneceram porque precisavam de quem eu fui, mas porque foram capazes de enxergar
quem eu me tornei.
Durante muito tempo, acreditei saber quem era. Afinal,
existem pessoas, lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que
funcionam como espelhos: é também através do olhar do outro que construímos uma
imagem de nós mesmos. Mas o que acontece quando esses espelhos desaparecem?
Quando as pessoas mudam, os lugares deixam de ser nossos, os trabalhos terminam
e as escolhas que nos definiam já não fazem sentido? O que sobra?
Sobraram Filoécio, Demódoco e alguns poucos outros. Talvez
não por acaso sejam justamente essas figuras secundárias que, no retorno de
Odisseu, ganham uma importância tão grande.
Filoécio é o vaqueiro fiel de Odisseu. Não é da família, não
é um herói, não é um deus. É alguém que permaneceu ligado à
casa e ao rei durante todos aqueles anos de ausência. Quando Odisseu retorna
disfarçado, Filoécio demonstra sua lealdade e participa da recuperação da casa.
Para mim, fidelidade é isso: permanecer ligado a alguém
mesmo quando já não há presença, reconhecimento ou qualquer garantia. Há
pessoas que não precisam de provas para permanecer. Simplesmente permanecem.
Demódoco faz diferente. É o aedo cego dos feácios. Não
enxerga Odisseu, mas conta a sua história. Ao ouvi-la, Odisseu se emociona e se
reconhece naquilo que outro consegue narrar sobre ele. Há momentos em
que não precisamos que alguém nos veja; precisamos que alguém consiga nos
contar de volta.
Eu me identifico aqui. É o que me faz falta agora: não uma
nova identidade, mas uma narrativa capaz de reunir o que, dentro de mim, parece
ter se dispersado. Talvez eu não tenha deixado de saber quem sou; talvez tenha
apenas perdido, por algum tempo, a capacidade de enxergar a história que ainda
conecta minhas partes.
É isso que algumas pessoas fazem por nós: guardam uma parte
da nossa história quando nós mesmos já não conseguimos enxergá-la inteira. Não
nos devolvem quem éramos. Ajudam-nos a reconhecer aquilo que, apesar de tudo,
continua sendo nosso.
Mas chega o momento em que esse reconhecimento precisa
partir de nós.
Em Ítaca, há 108 pretendentes ocupando a casa de Odisseu,
disputando Penélope e, com ela, o lugar de rei de Ítaca. O homem que retorna
precisa permanecer disfarçado, observando tudo sem ser reconhecido.
Penélope então propõe uma prova: aquele que conseguir
manejar o arco de Odisseu e lançar uma flecha através dos orifícios de doze
machados será seu marido. Nenhum dos pretendentes consegue. Odisseu, ainda
disfarçado de mendigo, pede para tentar. Toma o arco, encorda-o com facilidade
e realiza o desafio.
Não por acaso, antes de disparar a primeira flecha, Odisseu
pede a Apolo que lhe conceda glória. Depois de tantos anos tentando sobreviver:
finalmente, ele está pronto para mostrar aquilo que ainda sabe fazer. E, seu
gesto revela aquilo que as aparências escondiam: aquele mendigo é
Odisseu.
Existe algo disso na minha própria travessia. Depois de
tanto tempo tentando me adaptar ao que a vida pedia, começo a descobrir não
apenas o que deixei para trás, mas aquilo que ainda sei fazer. Aquilo que
continua sendo meu, mesmo quando todo o resto mudou.
Nesse momento, fico pensando em Telêmaco: ele cresce
enquanto espera por alguém que não está lá. Passa boa parte da Odisseia
vivendo numa casa em que o pai está ausente, enquanto homens mais velhos
disputam um lugar que não lhes pertence. Atena o ajuda, mas não pode viver por
ele. Telêmaco precisa sair, perguntar, procurar respostas e, aos poucos,
descobrir o próprio lugar.
Quando Telêmaco sai de Ítaca procurando notícias do pai,
visita Nestor, em Pilos. Nestor conta o que conhece sobre o retorno dos gregos,
mas não consegue dizer exatamente onde Odisseu está. Não pode devolver Odisseu
a Telêmaco, mas pode oferecer a ele uma parte da história que procura. Às
vezes, é o que precisamos: alguém, não para nos dizer quem somos, mas para nos
devolver referências a partir das quais possamos voltar a nos reconhecer.
Então Telêmaco vai a Esparta, procurar Menelau e Helena.
Menelau conta que, em seu próprio retorno da guerra, ficou
preso no Egito e precisou consultar Proteu, o “Velho do Mar”. Proteu era capaz
de assumir diferentes formas para escapar de quem tentasse capturá-lo: podia
transformar-se em animais, água, árvore.
Proteu me faz pensar em quantas formas podemos assumir sem,
necessariamente, deixar de ser quem somos. Odisseu mudou de lugar, de
aparência, de posição e até de nome. E, ainda assim, continuou sendo Odisseu.
Mudar não é necessariamente perder quem somos. É justamente a mudança que nos
obriga a descobrir o que, em nós, não muda.
Menelau e seus homens conseguem prendê-lo e, depois que
Proteu volta à sua forma original, ele revela o que sabe. E é Proteu quem
informa a Menelau que Odisseu está na ilha de Calipso. Proteu não pode levar
Telêmaco até o pai, mas lhe devolve uma certeza a partir da qual ele pode continuar:
Odisseu está vivo.
Eu preciso olhar para Telêmaco, assim como também preciso
olhar para Penêlope. Durante vinte anos, Odisseu atravessou mares tentando
voltar. Penélope atravessou vinte anos permanecendo. E permanecer é também uma
forma de travessia. Ela não ficou exatamente no mesmo lugar enquanto ele
partia; precisou inventar maneiras de sustentar a casa, adiar escolhas,
proteger aquilo que ainda acreditava existir e esperar sem garantias.
Nem toda a Odisseia é sobre quem retorna. É também
sobre quem fica. Sobre aqueles que esperam, acompanham e, de alguma maneira, também
são transformados pela partida de quem amam. Não estive sozinha nessa
travessia. Enquanto eu mudava de direção, minha família acompanhou meu
movimento. Esperou, sustentou minhas dúvidas, conviveu com minhas incertezas e
acreditou em mim mesmo quando eu ainda não sabia exatamente para onde estava
indo. Eles não fizeram a travessia por mim, porque não poderiam. Mas
permaneceram.
É uma forma de amar: não impedir a transformação de quem
amamos. Telêmaco e Penêlope me fazem pensar nisso: há quem precise partir
para se transformar e há quem permaneça para sustentar essa partida.
Com a ajuda de Telêmaco, Eumeu, Filoécio e alguns poucos
aliados fiéis, Odisseu enfrenta os pretendentes e os mata. O primeiro a cair é
Antínoo, aquele que havia se colocado como líder entre os que ocupavam sua
casa, aquele que simboliza a arrogância de quem se sente dono de um lugar que
não lhe pertence.
Existe Antínoo na minha jornada: essa pessoa que ocupa o
lugar que um dia foi meu, mas nunca poderá ocupar aquilo que eu fui naquele
lugar. É difícil aceitar a passagem do tempo, perceber que aquilo que um dia
nos pertenceu pode continuar existindo sem nós. Mas há uma diferença: o espaço
pode ser preenchido. A história, não. Essa pessoa pode viver
outras experiências, construir outras relações, deixar suas próprias marcas.
Lugares mudam de dono, funções são substituídas, pessoas chegam e partem. Mas
aquilo que eu vivi não pode ser reencenado por outra pessoa. Ninguém pode ser
quem fui, amar quem amei, cometer os mesmos erros que cometi, deixar as mesmas
marcas que deixei. Pode ocupar o espaço que um dia foi meu, mas nunca poderá
ocupar aquilo que eu fui ali.
Há ainda Pêmio, o aedo, aquele que continua cantando no
palácio durante a ausência de Odisseu. Ele está dentro da casa, mas não está
exatamente ao lado daqueles que a ocupam. Canta porque é sua função, porque é o
lugar que lhe coube e, naquele momento, porque também precisa sobreviver.
Quando chega a hora do confronto, pede para ser poupado, e Telêmaco intervém em
seu favor. Há também Medon, o arauto. Ele também é poupado. Não era um dos
pretendentes, mas havia permanecido dentro daquela casa durante a ausência de
Odisseu. Sua posição o obrigava a servir àqueles que agora ocupavam o palácio.
Pêmio e Medon me fazem pensar em algumas pessoas que
ficaram. Fizeram escolhas que me feriram, mas nem todas tiveram liberdade para
escolher. Há quem nos decepcione não porque tenha deixado de nos reconhecer,
mas porque também está tentando preservar seu lugar. Nem toda permanência é uma
escolha. Nem todo silêncio é cumplicidade. O outro também está tentando
sobreviver dentro da casa que mudou de dono. Nem toda traição é uma escolha. Às
vezes, é o modo imperfeito que alguém encontra para permanecer de pé.
Odisseu reencontra o pai, Laertes, que ainda reconhece o
filho. Laertes está velho, afastado, sofrendo pela ausência de Odisseu. Quando
finalmente se revela, há um reconhecimento entre pai e filho. Na luta final
contra os pretendentes, Laertes recupera a força e mata Eupeites, pai de
Antínoo.
Há algo muito forte nesse encontro: antes de ser rei, herói,
marido ou aquele que retorna, Odisseu é filho. Existe uma parte de nós que
antecede tudo aquilo que conquistamos e todos os lugares que ocupamos no mundo.
Uma parte que não depende do cargo, da profissão, do reconhecimento ou da
posição que os outros nos dão.
É isso que Laertes representa para mim. Uma raiz. Aquilo que
permanece quando todas as outras referências desaparecem. Posso perder um
lugar, uma profissão, uma posição, pessoas que me reconheciam, e até a imagem
que construí de mim mesma. Mas existe alguma coisa anterior a tudo isso, alguma
coisa que não começou com essas conquistas e que não termina quando elas deixam
de existir. Antes de ser tudo aquilo que o mundo reconheceu em mim, eu já era
alguém. Aquilo que é verdadeiramente nosso cria raízes. Algumas são tão
profundas que continuam nos sustentando mesmo quando nós próprios já não
sabemos exatamente quem somos.
Enfim, Odisseu recupera sua casa, sua autoridade e seu lugar
em Ítaca.
Mas ainda falta o reconhecimento mais importante: Penélope.
Penélope não o reconhece imediatamente. Ou talvez não queira
simplesmente acreditar. Afinal, vinte anos se passaram. O homem diante dela
envelheceu, mudou e carrega uma história que ela não viveu. Ela não pode tomar
como verdade apenas o que lhe dizem. Penélope afirma que, se ele realmente é
Odisseu, os dois têm sinais que somente eles conhecem. Então ela pede que levem
a cama do quarto para outro lugar. Odisseu se enfurece. Como poderiam mover
nossa cama? Ela tinha sido construída por ele próprio em cima de uma oliveira
viva.
É nesse momento que Penélope o reconhece. Não pela aparência
ou pela posição. Não porque alguém lhe disse que aquele homem era Odisseu. Ela
o reconhece por algo que pertence apenas à história dos dois. Aquilo
que é verdadeiramente nosso tem raízes. Há coisas que podem mudar de
forma, de aparência, de lugar, mas não perdem necessariamente sua origem.
A cama, construída a partir de uma oliveira viva e ainda
presa às suas raízes, diz isso: podemos mudar, nos afastar, nos perder e até
deixar de nos reconhecer por algum tempo. Mas há algo que permanece ligado à
nossa história e que nos ajuda a encontrar o caminho de volta.
Depois, Odisseu sai para percorrer Ítaca. Não reconhece a
ilha. A névoa ainda está sobre ela. Atena então dissipa a névoa e revela a
Odisseu: sua própria terra.
Atena é justamente a presença que não faz a
travessia por Odisseu, mas o orienta, protege, cria condições e aparece quando
ele precisa enxergar o próximo passo. Ela o ajuda ao longo de toda
travessia, auxilia Telêmaco, intervém para que Odisseu deixe Calipso, conduz
encontros importantes e, em Ítaca, cria e desfaz a névoa e o ajuda a recuperar
sua casa.
E é justamente aqui que essa história ganha, para mim, mais
sentido ainda.
Ítaca nunca foi apenas um lugar. Ítaca é quem você
é. É algo interno onde conseguimos nos reconhecer. Odisseu perdeu
certezas. Odisseu mudou. Ítaca também mudou, mas alguma coisa sobreviveu ao
tempo e às transformações. Ele é rei, guerreiro, náufrago, amante,
estrangeiro, mendigo. E, ainda assim, existe algo que permanece reconhecível.
Quem você é tem raízes.
Essa é a parte que mais me convoca. Eu também estou tentando
voltar para casa e, às vezes, sem saber exatamente onde está minha Ítaca. Como
Odisseu, atravesso uma espécie de névoa: o lugar está ali, mas já não consigo
reconhecê-lo. O mais difícil é admitir que a casa para a qual tento voltar já
não me parece a mesma, e eu também não sou mais a mesma que partiu. O que
procuro, então, não é simplesmente reencontrar esse lugar, mas descobrir o que,
em mim, apesar de tudo o que mudou, continua fincado nas minhas próprias
raízes.
Ítaca, para mim, não é um endereço. Não é sequer uma vida
que existiu antes. É uma posição interna, a partir da qual eu possa novamente
olhar para o mundo e me reconhecer.
Durante muito tempo, a gente acredita que sabe quem é. Não
porque eu tenha encontrado sozinha essa resposta, mas porque existem pessoas,
lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que funcionam como
espelhos. O Outro nos devolve uma imagem de nós mesmos. E, de algum modo, vamos
aprendendo a nos reconhecer nesta imagem. Até que um dia o espelho muda. Ou nós
mudamos. E aquilo que antes parecia tão evidente deixa de ser.
A imagem que nos sustentava já não coincide com o que vemos.
E então começa uma tarefa bem difícil: descobrir quem somos. Acho que eu estou
nesse intervalo: entre a pessoa que eu era e aquela que ainda não consigo ser.
É estranho, assusta, já não há segurança.
É como acordar de um coma, sim. Não porque tudo tenha
acabado, mas porque tudo parece ter continuado sem mim. As conexões mudaram, as
referências mudaram, algumas pessoas já não estão, e algumas certezas perderam
o sentido. Há escolhas que, durante muito tempo, pareceram certas e que agora
revisito com o desconforto de quem olha para o passado sabendo o que só foi
possível saber depois.
É difícil acordar: perceber que a vida continuou enquanto
você esteve fora. E, quando finalmente volta a olhar para si, já não é
exatamente a mesma pessoa que partiu.
E então surge uma pergunta: e se eu estiver errada?
E se todo aquele esforço não tiver me levado aonde eu imaginava?
E se aquilo que eu acreditava ser caminho, olhando agora, parece passos para
trás?
É aí que a minha história começa a se voltar contra mim. As
palavras que normalmente me ajudam a organizar o mundo passam a me
interrogar. Cada conquista parece menor, cada escolha parece
suspeita, e cada caminho percorrido parece carregar a possibilidade de que
poderia ter sido outro.
Mas é aí que Odisseu me ajuda. A Odisseia não
é a história de um homem que sabe exatamente para onde está indo. É a história
de um homem que, muitas vezes, não consegue chegar. Ele se perde, é enganado,
erra, perde companheiros e é afastado de casa inúmeras vezes justamente quando
acredita estar perto.
Há momentos em que o retorno parece impossível. E, ainda
assim, Odisseu continua, existe uma direção: Ítaca.
Ele não tem certeza de que está no caminho certo, mas existe
alguma coisa que o faz continuar desejando chegar. Ítaca não tem garantia. É um
norte.
É isso: não necessariamente uma resposta, mas um norte.
Tenho exigido de mim uma definição quando, na verdade, estou vivendo uma
travessia. E travessias são assim: sem mapas, confusas. A gente avança sem
saber exatamente onde e se vai chegar, tentando apenas não se perder tanto pelo
caminho.
Às vezes parece que estamos avançando e, de repente, uma
tempestade nos devolve quilômetros. Às vezes precisamos escolher entre dois
perigos. Às vezes precisamos deixar alguma coisa para trás. Às vezes somos
tentados pelo esquecimento, pelo conforto de não querer mais voltar. E há
momentos em que ouvimos vozes que podem nos destruir se acreditarmos demais nelas.
Mais do que isso, precisamos descer ao mundo dos mortos para reencontrar aquilo
que está enterrado vivo dentro nós.
É isso que está acontecendo comigo. Não estou desaparecendo,
e sim perdendo as referências antigas que me diziam quem eu era. E existe uma
diferença enorme entre desaparecer e deixar de caber na imagem que eu tinha de
mim mesma.
Sei que estou na minha própria Odisseia. Não no começo,
porque já existe uma história inteira atrás de mim. Não no fim, porque ainda
não cheguei a Ítaca. Preciso continuar caminhando.
Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou.
Eu não sei exatamente quem vou encontrar quando chegar. Nem
sei ainda, ao certo, o que é, para mim, Ítaca, mas eu não preciso saber
agora.
Não quero recuperar a vida que existia antes. Não quero voltar
ao que fui, mas construir um lugar a partir de quem me tornei. E, por enquanto,
é só isso que eu preciso saber: ainda existe alguma coisa em mim que me faz
desejar, mesmo quando tudo parece desconectado. Mesmo quando as palavras, que
sempre foram meu abrigo, hoje parecem não querer me obedecer.
Minha Odisseia particular: descobrir o que ainda me
pertence, o que, em meio a tantas mudanças, continua sendo meu. O mais difícil
é me dar conta do que eu ainda não sei fazer: me haver com meu desejo.
Mas sei que, no final, nos tornamos quem somos.
