O Carnaval é um tempo de festa, exceção, excesso, liberdade. Um intervalo no calendário onde as normas se afrouxam, os corpos se autorizam, as ruas se tornam palco e o sujeito parece escapar, ainda que momentaneamente, das exigências ordinárias da vida social. Mas o que está em jogo, do ponto de vista psicanalítico, nesse fenômeno coletivo?
O Carnaval seria um dispositivo simbólico que dramatiza algo estrutural: a relação do sujeito com a lei, com o corpo, com o gozo e com o Outro. Longe de ser apenas uma festa, ele encena, em larga escala, as tensões entre norma e transgressão, desejo e imperativo, limite e excesso.
Na tradição ocidental, o Carnaval sempre ocupou o lugar de um tempo de inversão: reis se vestem de plebeus, normas se flexibilizam, máscaras permitem anonimato. A própria palavra remete à ideia de despedida da carne, antecipando o período de restrição da Quaresma. Essa dinâmica pode ser lida como uma encenação da relação do sujeito com a Lei simbólica. A Lei, em psicanálise, não é apenas jurídica ou moral, mas estrutural: ela é aquilo que introduz a falta, a castração simbólica, organizando o desejo. O Carnaval, então, não aboliria a Lei; ele a confirmaria, ao instituir um tempo específico para sua suspensão controlada. A transgressão é autorizada, prevista, regulamentada. Há horários, circuitos, regras, policiamento, patrocinadores. A festa funciona como uma válvula simbólica que permite o excesso, mas sem ameaçar o laço social.
O uso de fantasias e máscaras no Carnaval é central. O sujeito pode se apresentar como outro, experimentar identidades, brincar com gênero, classe, status, moralidade. Para Lacan, a identidade é sempre uma construção imaginária, sustentada por semblantes. A máscara carnavalesca torna visível aquilo que normalmente permanece invisível: toda identidade é, em certa medida, uma máscara. O Carnaval explicita o caráter ficcional do eu. Ao mesmo tempo, oferece uma autorização coletiva para a encenação de outras posições subjetivas, muitas vezes recalcadas no cotidiano. Nesse sentido, o Carnaval pode ser lido como uma dramatização do estádio do espelho em escala social: o sujeito se vê, se reconhece, se perde e se reinventa na imagem que apresenta ao Outro.
Talvez nenhum outro momento cultural concentre tanto o corpo quanto o Carnaval. Dança, toque, exibição, erotização, consumo de substâncias, fadiga, excesso. O corpo se torna palco privilegiado do laço social. Para Lacan, o gozo não se reduz ao prazer. Ele é aquilo que ultrapassa o princípio do prazer, que toca o limite do corpo, que se inscreve como excesso. O Carnaval pode ser pensado como um regime particular de gozo coletivo, onde o excesso é incentivado, celebrado, estetizado. No entanto, esse gozo não é livre; ele é comandado por imperativos: divertir-se, aproveitar, não perder nada, postar, mostrar, performar alegria. O supereu contemporâneo, longe de proibir, ordena: goze! O Carnaval, então, pode ser visto como uma vitrine privilegiada do supereu do discurso capitalista: goze, consuma, mostre, circule, produza imagens de felicidade.
Lacan descreveu o discurso capitalista como um curto-circuito da castração: ele promete satisfação plena, sem resto, sem falta. No Carnaval contemporâneo, essa lógica aparece na transformação da festa em produto: abadás, camarotes VIP, experiências exclusivas, pacotes turísticos, algoritmos que capturam e monetizam o desejo. A festa, que historicamente poderia ter sido espaço de subversão simbólica, torna-se também espaço de intensificação do consumo. A transgressão é vendida, a liberdade é patrocinada, o gozo é capturado em métricas e imagens. O sujeito é convidado a gozar, mas de maneira dirigida, previsível, rentável. A rua se torna plataforma, o corpo se torna mídia, o afeto se torna conteúdo.
O Carnaval mostra como o laço social é sempre atravessado por discursos, e como o sujeito circula entre essas posições. O Carnaval também é um espaço onde conteúdos inconscientes podem emergir: agressividade, erotismo, fantasia, crítica social, luto, memória, resistência. Escolas de samba, blocos e performances frequentemente tematizam história, violência, desigualdade, gênero, raça, política. Nesse sentido, a festa não é apenas escapismo; ela é também um modo de dizer o indizível, de simbolizar o real, de produzir narrativas coletivas. O inconsciente não está fora da festa; ele a atravessa.
Apesar do espetáculo, há sempre um resto: o cansaço, o vazio pós-festa, a melancolia, o silêncio após o excesso. Para Lacan, não há gozo sem resto, sem perda, sem limite. O fim do Carnaval pode ser lido como retorno da Lei, mas também como retorno do sujeito ao seu tempo próprio, à sua falta estrutural, ao desejo que não se resolve na festa. O Carnaval, lido pela psicanálise lacaniana, não é apenas uma festa. É um laboratório do laço social, um palco do discurso capitalista, uma encenação da relação do sujeito com a Lei, o corpo e o gozo.
Se a cultura contemporânea nos convoca a gozar sem parar, talvez a clínica e o pensamento crítico possam recolocar a pergunta pelo limite, pela falta, pelo desejo que não se deixa capturar. Entre a máscara e o rosto, entre a rua e o consultório, entre o gozo e o desejo, o sujeito segue inventando modos de existir.
