Introdução

A forma como nos apresentamos ao mundo reflete nossa autoconfiança e influencia diretamente nossos vínculos, decisões e percursos. Na PsiT.ech, unimos Psicologia, Tecnologia, Estilo e Organização para oferecer uma experiência de cuidado e transformação.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Luto Digital

Luto Digital: quando a tecnologia interfere no ciclo natural das perdas

A morte sempre foi uma experiência marcada pela finitude. Há um corpo que deixa de existir, um cotidiano que se interrompe, e uma presença que se desfaz no mundo visível. Porém, na era digital, a morte não desaparece por completo, ... ela permanece online. E essa permanência tem efeitos profundos sobre como vivemos e elaboramos o luto.

Hoje, perfis continuam ativos, fotos permanecem públicas, mensagens antigas podem ser revisitadas e algoritmos reavivam memórias mesmo quando não pedimos por elas. O luto deixou de ser apenas um trabalho psicológico e passou a ser também um fenômeno tecnológico.

Perfis que viram monumentos digitais: Quando alguém morre, suas contas nas redes sociais frequentemente permanecem lá — intactas, congeladas ou transformadas em “memoriais” pelas próprias plataformas. O Facebook, por exemplo, permite que perfis sejam convertidos em páginas de lembrança; o Instagram mantém as fotos, mas bloqueia novas postagens. Esses perfis funcionam como verdadeiros monumentos digitais: lugares de visita, de saudade e também de dor. Para algumas pessoas, revisitar o perfil do falecido ajuda a manter o vínculo, organizar a memória e sentir-se menos só. Para outras, é um gatilho constante: uma notificação que lembra o que ainda não foi simbolizado, um feed que insiste em atualizar uma presença que já não existe mais no mundo.

Memórias digitais: guardiãs ou intrusas? O digital democratizou a memória, mas também estendeu a duração do luto.  As plataformas armazenam tudo: fotos, áudios, conversas, e até hábitos de comportamento. Um simples “Nesse dia você estava com fulano” pode abrir uma ferida que estava se fechando. E o algoritmo não entende timing emocional. Ele apenas entrega o que é “relevante”, baseado em registros do passado. As memórias digitais nos oferecem uma espécie de imortalidade fragmentada. A pessoa não está mais viva, mas sua imagem permanece animada, acessível, compartilhável. E isso afeta o trabalho psíquico do luto — que, no fundo, é um processo de reconhecer a ausência e reconstruir a vida a partir dela. Se a presença nunca cessa totalmente, como construir a ausência?

Quando o luto vira um problema tecnológico: Há situações em que o digital não apenas influencia o luto , ele o atrapalha. Por exemplo:

- Quando a pessoa recebe mensagens automáticas, como “Deseje feliz aniversário para…”
- Quando fotos antigas aparecem sem aviso.
- Quando alguém invade o perfil da pessoa falecida e posta algo indevido.
- Quando familiares discutem publicamente o destino das contas.
- Quando seguidores transformam o perfil em um espaço de espetáculo da dor.

Esses acontecimentos expõem um ponto central: a tecnologia não está preparada para a morte e nós, usuários, também não estamos preparados para lidar com o rastro digital dos que amamos.

O luto que se partilha demais. Antes, o luto era íntimo. Hoje, é também público. Há quem poste homenagens, longos textos, fotos, pedidos de oração. Outros preferem silêncio, mas se veem atravessados por manifestações dos demais.

Esse excesso de compartilhamento pode gerar dois movimentos:

- Prorrogação do luto, porque a dor é reativada publicamente o tempo todo.

- Cobrança emocional, como se fosse necessário demonstrar saudade para validar o amor.

A exposição constante da perda cria um luto que não se encerra: ele vira conteúdo, lembrança automática, engajamento.

E quando a pessoa que morreu continua nos enviando mensagens? Com a expansão das IAs generativas e dos “chatbots memoriais”, surgiu uma nova camada do luto digital. Plataformas já oferecem:

- Bots que conversam como a pessoa falecida, treinados por suas mensagens antigas

- Avatares que interagem com vídeos e áudios reconstruídos

- Vozes sintéticas criadas por IA

Isso inaugura um dilema ético e emocional: É possível elaborar a perda enquanto se conversa com uma “versão simulada” de quem morreu? Para alguns, isso traz conforto. Para outros, impede o movimento essencial de aceitar que não há mais retorno.

O trabalho do luto na era digital. Freud dizia que o luto é o processo de retirar energia psíquica de quem se foi, para investir novamente na vida. Mas como retirar investimento de alguém cuja presença permanece ativa no digital? Como dizer “adeus” a alguém que reaparece no feed? Não há resposta única. Cada pessoa lida à sua maneira.

O que a psicologia aponta é que o luto digital não precisa ser evitado, mas precisa ser cuidado. É importante decidir conscientemente:

- Quais perfis manter?

- O que guardar?

- O que deixar partir?

- O que simboliza presença e o que simboliza prisão?

A tecnologia amplia a memória, mas não substitui o trabalho emocional. É preciso tempo, elaboração e, muitas vezes, apoio terapêutico para reorganizar o que permanece vivo no digital e o que se cala no mundo real.

Fechar um ciclo não é deletar, é significar. Lidar com o luto digital é, no fim, um gesto de responsabilidade afetiva consigo mesmo. Não se trata de esquecer a pessoa, nem de apagar tudo, mas de construir um novo vínculo com essa presença que agora só existe na forma de traços digitais. 

O digital guarda uma história. O luto, uma transformação.  E entre esses dois mundos, o online e o psíquico, estamos aprendendo a atravessar a ausência quando a memória insiste em permanecer acesa.

Saúde Mental no Mundo Tech

Psicologia e Saúde Mental: Escuta e Cuidado para Quem Vive o Mundo Tech

A produção de conteúdo em psicologia e saúde mental, especialmente quando voltada para pessoas que atuam na área de tecnologia, exige um cuidado que vai além da divulgação de informações ou conceitos teóricos. Trata-se de construir um perfil de conteúdos que seja ético, sensível, tecnicamente consistente e, ao mesmo tempo, profundamente conectado à experiência subjetiva de quem vive imerso em ambientes digitais, lógicas de performance e aceleração constante.

Profissionais de tecnologia costumam habitar um contexto marcado por alta complexidade cognitiva, demandas contínuas por atualização, pressão por resultados, prazos curtos, longas jornadas, trabalho remoto ou híbrido e uma relação intensa com telas, métricas e sistemas. Embora esse cenário seja frequentemente associado a status, inovação e autonomia, ele também produz formas específicas de sofrimento psíquico que nem sempre são facilmente reconhecidas, nem por quem vive, nem por quem observa de fora.

Nesse sentido, um perfil de conteúdos em psicologia voltado a esse público precisa, antes de tudo, nomear o que muitas vezes permanece silenciado: o cansaço mental crônico, a dificuldade de desligar, a sensação de estar sempre em débito, a solidão mesmo em ambientes colaborativos, a perda de sentido no trabalho, a ansiedade diante da obsolescência constante e o esvaziamento subjetivo que pode acompanhar carreiras altamente técnicas. Falar de saúde mental aqui não é apenas falar de sintomas, mas de modos de vida.

Outro desafio importante é evitar tanto a hipertecnificação do discurso psicológico quanto sua banalização. Por um lado, conteúdos excessivamente técnicos afastam, criam uma sensação de inadequação ou reforçam a ideia de que o sofrimento precisa ser “explicado” para ser legítimo. Por outro, mensagens genéricas, motivacionais ou excessivamente simplificadas não alcançam a profundidade da experiência de quem está acostumado a pensar de forma analítica e crítica. O equilíbrio está em traduzir conceitos psicológicos e psicanalíticos de forma acessível, sem empobrecê-los, respeitando a inteligência e a complexidade subjetiva do público.

Um bom perfil de conteúdos também precisa considerar a relação entre subjetividade e tecnologia, indo além de discursos moralizantes sobre “uso excessivo de telas”. É fundamental refletir sobre como os dispositivos digitais reorganizam o tempo, o desejo, a atenção e os vínculos; como o trabalho mediado por tecnologia altera fronteiras entre vida pessoal e profissional; e como a lógica algorítmica, de métricas e entregas, pode atravessar a forma como o sujeito passa a se perceber e se avaliar. Esse tipo de abordagem ajuda o leitor a se reconhecer no conteúdo, não como alguém “que falha”, mas como alguém atravessado por um contexto específico.

Além disso, conteúdos em psicologia para esse público precisam sustentar uma posição ética clara. Não se trata de oferecer diagnósticos, receitas de autocuidado ou soluções rápidas para problemas estruturais. O foco deve estar em abrir espaços de reflexão, questionamento e elaboração, mostrando que buscar ajuda psicológica não é sinal de fraqueza, mas um movimento de responsabilidade consigo mesmo. Especialmente na área de tecnologia, onde a valorização da autonomia e da racionalidade pode dificultar o reconhecimento da vulnerabilidade, esse ponto é central.

Também é importante que o perfil dialogue com temas como identidade profissional, transições de carreira, lutos silenciosos ligados ao trabalho, medo de perder relevância, perfeccionismo, síndrome do impostor e dificuldades de pertencimento. Muitos profissionais de tecnologia constroem sua identidade de forma muito atrelada à performance intelectual e ao reconhecimento técnico, o que pode tornar qualquer falha, pausa ou dúvida vivida como ameaça ao próprio valor subjetivo. Conteúdos que abordam essas questões com profundidade ajudam a descolar o sujeito de uma identificação total com o trabalho.

Um perfil de conteúdos em psicologia e saúde mental, voltado ao público tech, precisa transmitir coerência entre forma e conteúdo. Uma comunicação clara, visualmente leve, organizada e não excessivamente estimulante também é parte do cuidado. A estética, o ritmo das postagens e o tom da escrita comunicam tanto quanto as palavras. Em um universo já saturado de informação, oferecer conteúdos que convidem à pausa, à reflexão e ao pensamento pode ser, por si só, um gesto clínico.

Falar de psicologia e saúde mental para quem trabalha com tecnologia é reconhecer que, por trás de códigos, sistemas e soluções, existem sujeitos. Sujeitos que pensam muito, produzem muito, mas também se cansam, sofrem, duvidam e, muitas vezes, não encontram espaço para elaborar tudo isso.  


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Profissionais de tecnologia e o mal-estar

O universo da tecnologia é, talvez, um dos que melhor encarnam o espírito do nosso tempo: velocidade, produtividade, otimização constante e a promessa de que todo problema pode ser resolvido com a ferramenta certa. Há sempre um novo framework, um novo método, um novo sistema capaz de corrigir falhas, reduzir riscos e aumentar performance.

Mas há algo que não se deixa organizar em sprints, nem se resolve com entregas: o sujeito.

Na clínica, é cada vez mais comum ouvir profissionais da tecnologia chegarem com uma sensação difusa de esgotamento, vazio ou inadequação, mesmo quando “tudo parece estar dando certo”. Bons salários, reconhecimento técnico, empresas desejadas  e ainda assim, uma angústia que insiste. A pergunta costuma aparecer disfarçada: “O que mais eu deveria estar fazendo para me sentir melhor?”

A psicanálise nos ensina que essa pergunta já nasce deslocada. Porque ela supõe que o mal-estar é um bug a ser corrigido, quando, na verdade, ele é estrutural. 

Freud já apontava que o sofrimento humano não é um acidente de percurso, mas parte da própria condição de viver em civilização. Lacan radicaliza isso ao mostrar que o sujeito é constituído por uma falta, algo que nenhum sistema, por mais sofisticado, consegue preencher. O problema é que o discurso da tecnologia promete exatamente o contrário: eficiência total, previsibilidade, controle.

Para muitos profissionais de tech, o trabalho se torna o lugar privilegiado para tentar tampar essa falta. Produzir mais, aprender mais, entregar melhor, subir mais rápido. O saber técnico vira um ideal: se eu dominar tudo, não falto. Mas quanto mais se corre atrás desse ideal, mais ele se afasta. A lógica é cruel: o reconhecimento nunca é suficiente, a próxima meta já está posta, o upgrade nunca termina.

Na linguagem lacaniana, trata-se de um sujeito capturado pelo discurso do mestre contemporâneo, hoje travestido de discurso da performance. Um discurso que exige gozo, produtividade e disponibilidade contínua, enquanto promete pertencimento e valor. Só que cobra caro: o corpo adoece, o desejo empobrece, a vida vai ficando estreita.

Outro ponto recorrente na clínica é a confusão entre função e identidade. “Eu sou o que eu faço.” Quando o cargo muda, o projeto acaba, a empresa corta, algo desmorona por dentro. Não é só a perda do trabalho, é a perda de um lugar simbólico. E aí surge a pergunta que não estava prevista: quem sou eu sem esse lugar?

A psicanálise não oferece respostas prontas nem planos de carreira emocional. Ela oferece algo mais incômodo e mais necessário: um espaço onde o sujeito pode falar sem precisar performar, sem precisar entregar, sem precisar ser excelente. Um espaço onde a falta não é um erro, mas um ponto de partida. Para profissionais de tecnologia, isso costuma ser uma experiência radicalmente nova. Estar em um lugar onde não se espera eficiência, onde o silêncio conta, onde não há expectativas de melhora. Aos poucos, algo se desloca: o sujeito começa a perceber que não precisa ser inteiro, completo, resolvido.

Não se trata de abandonar a tecnologia, nem de demonizar o trabalho. Trata-se de desalojar o ideal de que o trabalho pode responder a tudo. Quando isso cai, o trabalho pode voltar a ser o que deveria ser: uma parte da vida  e não o lugar onde se tenta resolver a própria existência. Talvez o maior ganho para quem passa pela análise seja este: aprender que nem tudo precisa ser otimizado. Que há perguntas que não pedem solução, mas escuta. E que, às vezes, o mais ético não é produzir mais, mas sustentar um intervalo. Porque o sujeito não é um sistema e o desejo não roda em segundo plano.


Mudança de Posição Subjetiva

Depois que a porta se fecha e o silêncio se instala, algo muda. Não imediatamente, não de forma bonita ou organizada. Muda por dentro. É como se o mundo continuasse igual, mas você já não estivesse mais no mesmo lugar de antes. Durante muito tempo, eu acreditei que o trabalho era também um espaço de pertencimento. Que a dedicação criava laços. Que a responsabilidade compartilhada produzia algo próximo de afeto. Hoje eu sei: aquilo não era vínculo, era função. E quando a função cai, o resto cai junto. O que não se fala muito é que sair desse lugar, do cargo, do poder, do reconhecimento, não produz apenas perda. Produz também um vazio estranho, difícil de nomear. Porque o que desaparece não é só o salário, o crachá ou os benefícios. O que cai é uma identidade inteira que estava apoiada nisso. Sem esse apoio, a pergunta aparece nua: quem sou eu quando não sou mais necessária? Essa pergunta assusta. Ela desorganiza. Ela faz oscilar. Em alguns dias, vem acompanhada de entusiasmo, sensação de liberdade, vontade de construir algo novo. Em outros, vem como arrependimento, medo, sensação de ter jogado tudo fora. Essa oscilação é efeito de atravessar uma mudança real de posição. Quando você deixa de ocupar um lugar sustentado por garantias externas, status, estrutura, validação, e passa a construir algo a partir de dentro, sem promessa, sem roteiro claro, o chão parece instável. E ele é mesmo. Não porque você esteja errada, mas porque agora não há mais onde se apoiar que não seja o próprio desejo. No meu caso, foi aí que a Psicologia deixou de ser um interesse distante e virou caminho. Não como ideal romântico, não como “vocação salvadora”, mas como resposta possível depois de uma ruptura. Uma escolha feita não a partir do sucesso garantido, mas daquilo que fazia sentido sustentar, mesmo sem aplauso.

Isso muda tudo. Muda a relação com o tempo, com o dinheiro, com o reconhecimento. Muda a forma de medir valor. Antes, esforço e retorno pareciam seguir uma lógica clara. Agora, não mais. O trabalho acontece, mas os efeitos não são imediatos, nem lineares, nem previsíveis. E isso confronta diretamente quem passou anos sendo medida por performance. É nesse ponto que muita gente recua. Busca rapidamente outro lugar que ofereça as mesmas garantias, o mesmo espelho narcísico, o mesmo conforto simbólico. Não por covardia, mas porque sustentar a falta cansa. Sustentar o não saber dá medo.

Ficar exige outra ética. Hoje, eu entendo que não se trata de romantizar a perda nem de demonizar o passado. Trata-se de reconhecer que certas saídas não são fuga ... são retirada. Um gesto que interrompe um circuito de violência, de apagamento, de desrespeito. Um gesto que diz: aqui eu não fico mais.

Depois disso, nada volta a ser como antes. E ainda bem. Porque, quando a ilusão cai, não dá para simplesmente recolocá-la no lugar. O que dá é construir outra coisa, com menos fantasia e mais verdade. Com menos plateia e mais sustentação. Com menos papel e mais presença. Talvez crescer agora não signifique subir rápido, nem expandir logo, nem provar nada para ninguém. Talvez crescer seja aprender a ficar. Ficar sem garantias. Ficar sem ideal inflado. Ficar sem confundir utilidade com valor. E, aos poucos, descobrir que a vida que se constrói fora do crachá , no trabalho e nos vínculos, pode até ser mais incerta, mas é infinitamente mais real.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O preço ético de uma escolha

Mesmo antes da demissão, a entrada na Psicologia já operava como resposta a uma violência simbólica vivida no campo profissional anterior, e os anos finais da formação coincidiram com a elaboração dessa ruptura, que transformou o que antes seria um interesse em uma escolha de carreira. A oscilação atual, entre a convicção de que dará certo e o arrependimento por ter abandonado garantias materiais, status e reconhecimento, não é sinal de imaturidade nem de erro, mas efeito direto da passagem de um lugar sustentado por ideais, pertencimento institucional e garantias externas para a posição de analista, que exige autorização própria, responsabilidade sem selo e sustentação da falta. Ao ocupar esse lugar, caem o Ideal do Eu profissional, a fantasia de pertencimento e a lógica linear entre esforço e retorno, produzindo luto, angústia e vertigem, sobretudo em quem vinha de um campo de alta valorização narcísica. No lugar dessas quedas surge o não saber, a solidão estrutural da clínica, a exposição financeira sem promessa e o analista como semblante - função e não centro - o que inevitavelmente toca o narcisismo e produz ambivalência. A oscilação persiste enquanto coexistem dois regimes de valor: um ainda medido por reconhecimento e segurança, outro já orientado pela ética do desejo do analista. Ela tende a se atenuar não quando há sucesso ou estabilidade, mas quando o sujeito deixa de usar esses critérios como medida de valor. Nesse sentido, o risco não está em desejar crescer, mas em usar a clínica como reparação narcísica ou novo Ideal do Eu; quando o crescimento decorre da sustentação do desejo e não da tentativa de tamponar a angústia, ele organiza em vez de inflar. O que está em jogo, portanto, não é provar que a escolha “deu certo”, mas sustentar uma carreira fundada em um ato, e não em promessas, aceitando o preço ético, simbólico e financeiro que essa posição implica.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Algo importante está em curso

A mudança da tecnologia para a Psicologia não aconteceu como um projeto vocacional bem desenhado, nem como uma decisão tomada em condições ideais. Ela se produziu no interior de uma ruptura, depois de uma experiência prolongada de desmentido, negligência e esvaziamento simbólico. O que se rompeu ali não foi apenas um vínculo profissional, mas um conjunto de garantias narcísicas que sustentavam uma posição: reconhecimento, centralidade, pertencimento, valor social, previsibilidade material.

Antes da demissão, a Psicologia já estava presente, mas ocupava um lugar lateral, quase íntimo: um interesse, um prazer intelectual, algo que poderia existir como hobby, não como eixo estruturante da vida profissional. Nesse momento, a tecnologia ainda sustentava o lugar principal, com salário, benefícios, prestígio e um horizonte relativamente estável. A escolha pela Psicologia, então, não vinha da falta, mas do excesso: era possível desejar porque havia garantias.

O que se produz depois, e isso é decisivo, é uma mudança de estatuto. A saída da empresa não se dá como simples troca de emprego, mas como resposta a uma violência simbólica acumulada: promessas não cumpridas, apagamento do lugar ocupado, retirada de reconhecimento, quase uma tentativa de tornar o sujeito invisível. Permanecer ali teria implicado aceitar uma posição de humilhação contínua, de suporte silencioso para um discurso que já não a incluía. Nesse ponto, sair não foi uma escolha confortável, mas um limite: “não fico mais nesse lugar”.

É aí que algo da ordem do ato se inscreve. Não um ato heroico, nem libertador no sentido imaginário, mas um ato no sentido psicanalítico: um corte que rompe um circuito e produz consequências irreversíveis. Mesmo sob coerção, mesmo com perdas reais, houve um ponto em que a decisão não foi delegada ao Outro. O sujeito não foi expulso; retirou-se. Isso não apaga a violência sofrida, mas muda a posição subjetiva frente a ela.

Depois disso, a Psicologia deixa de ser hobby e passa a ser resposta. Não resposta reparatória no sentido simples, mas resposta ética: uma tentativa de reinscrever o desejo depois da queda das garantias. É nesse momento que o campo muda radicalmente. O que antes podia ser pensado com leveza passa a carregar peso. A formação acontece junto com o luto: luto da carreira anterior, do salário alto, do plano de saúde, da previsibilidade, do lugar social reconhecido. Nada disso desaparece sem deixar resto.

É justamente por isso que a oscilação aparece. Em alguns momentos, surge a convicção quase eufórica de que “vai dar certo”, de que será uma excelente psicanalista, de que haverá crescimento, expansão, talvez até uma empresa, outros consultórios, uma estrutura maior. Em outros, emerge o arrependimento cru: a sensação de loucura, de ter abandonado demais, de estar se expondo a um risco excessivo, de trocar segurança por incerteza, de ver o carro envelhecer, o dinheiro apertar, e as garantias parecerem cada vez mais frágeis.

Essa oscilação não é sinal de imaturidade nem de falta de clareza. Ela marca exatamente o ponto em que dois regimes de desejo ainda coexistem sem se resolver. De um lado, permanece o desejo ligado ao ideal: sucesso, reconhecimento, crescimento visível, reparação das perdas anteriores. De outro, começa a se instalar algo muito mais silencioso e exigente: o desejo do analista, que não se sustenta em garantias externas e não promete retorno imaginário.

A posição de analista impõe uma torção radical à lógica anterior. Se antes o valor vinha da centralidade, da liderança, do fazer funcionar, agora o trabalho exige sustentar um lugar esvaziado de ideal. O analista não é suporte, não é prova, não é solução. Ele opera a partir da falta, não da completude. Isso tem consequências subjetivas profundas, sobretudo para alguém que ocupou durante anos posições de referência e sustentação.

Por isso, o dinheiro passa a ser um ponto sensível. Não apenas como necessidade material real, que é inegável, mas como substituto simbólico das garantias perdidas. Em alguns momentos, fantasiar crescimento, expansão e empresa aparece como tentativa de tamponar a angústia: se der muito certo, então valeu; se crescer muito, então não foi loucura; se prosperar, então houve justiça. Em outros momentos, a mesma lógica se volta contra o sujeito: se não houver sucesso rápido, então foi erro; se faltar dinheiro, então a escolha foi insensata.

O trabalho analítico consiste justamente em não resolver essa tensão por via imaginária. Nem transformar a clínica num novo ideal que venha reparar a ferida narcísica deixada pela tecnologia, nem recuar dela em nome da segurança perdida. Sustentar a posição de analista implica tolerar um tempo de não saber, de instabilidade, de aposta sem garantia. Implica aceitar que a clínica não responde ao ultraje sofrido com restituição imaginária, mas com reposicionamento subjetivo.

Nesse sentido, a saída da empresa e a entrada na Psicologia não são eventos separados, mas partes de um mesmo movimento. O ato que disse “não fico mais” reaparece hoje, de forma menos espetacular, em escolhas cotidianas: continuar investindo no consultório apesar do medo; sustentar a formação mesmo sem aplauso; trabalhar sem transformar cada resultado em prova de valor pessoal. O mesmo ato que rompeu com um lugar violento agora precisa se desdobrar numa ética de trabalho que não se deixe capturar por novos ideais.

A oscilação, então, não é algo a ser eliminado rapidamente. Ela diminui não quando tudo dá certo, mas quando o sujeito consegue desejar sem exigir garantias absolutas. Quando o sucesso deixa de ser condição de existência e passa a ser consequência possível. Quando a clínica pode crescer sem virar fetiche, e o dinheiro pode circular sem ocupar o lugar de salvação simbólica.

O que está em jogo, no fundo, não é decidir se a Psicologia foi a escolha “certa” ou “errada”, mas sustentar uma posição subjetiva que não se submeta novamente à lógica do ultraje, seja pela submissão a um Outro violento, seja pela tentativa de reparação grandiosa. Trata-se de construir uma trajetória a partir de um ato, e não de uma promessa.

Essa travessia é lenta, desconfortável e solitária em muitos momentos. Mas ela marca algo essencial: a passagem de uma vida organizada por garantias externas para uma vida sustentada por um desejo que aceita a falta. É isso que torna a oscilação compreensível e, ao mesmo tempo, sinal de que algo importante está em curso.

A Queda das Garantias

Na psicanálise, a queda das garantias nomeia um momento estruturalmente delicado da experiência subjetiva: aquele em que os apoios simbólicos que organizavam a vida deixam de funcionar como antes. Não se trata apenas de perder algo externo, um trabalho, um vínculo, um lugar social, mas de perder a certeza de que esses elementos garantiam um sentido estável para a existência.

As garantias são construções simbólicas. Elas se apoiam em identificações, ideais, promessas herdadas e expectativas de reconhecimento. Família, profissão, amor, pertencimento, mérito, saber: tudo isso pode funcionar como garantia na medida em que oferece ao sujeito uma resposta à pergunta “quem sou eu para o Outro?”. Enquanto essas respostas se sustentam, o sujeito se orienta, mesmo que com conflitos.

A queda das garantias ocorre quando essas respostas falham. O Outro, entendido em psicanálise como o lugar da lei, da linguagem e do reconhecimento, mostra-se inconsistente. O sujeito descobre que não era tão amado, tão necessário, tão escolhido quanto imaginava; ou que o lugar que ocupava não estava garantido por nenhum pacto simbólico sólido. Essa descoberta não é apenas cognitiva, é afetiva e corporal. Ela produz angústia, vergonha, ressentimento, tristeza e também um sentimento de desamparo.

Em Freud, esse momento aparece ligado às experiências de luto e às feridas narcísicas. Algo que sustentava o investimento libidinal é perdido, e o eu precisa retirar essa libido, processo que não ocorre sem dor. Já em Lacan, a queda das garantias se articula à noção de que o Outro não existe como instância plena e consistente. Toda garantia é, em última instância, uma suposição. Quando essa suposição cai, o sujeito se confronta com a falta no Outro e, por consequência, com a própria falta.

Por isso, a queda das garantias costuma ser vivida como humilhação narcísica. Não é apenas “perder”, é descobrir que aquilo em que se apostava como amor, reconhecimento ou pertencimento não tinha a solidez imaginada. O trabalho que parecia família, o amor que parecia incondicional, a posição que parecia merecida, tudo isso revela seu caráter contingente. O sofrimento advém menos da perda em si e mais do colapso da fantasia que a sustentava.

Clinicamente, esse momento é ambíguo. Ele pode levar ao fechamento, à melancolização ou à repetição defensiva de antigas apostas. Mas pode também abrir um trabalho analítico decisivo. Quando as garantias caem, o sujeito já não pode se apoiar nelas para responder pelo seu desejo. Isso o convoca a uma posição mais singular, menos protegida por ideais, mas também menos alienada a eles.

A análise não visa restaurar garantias perdidas nem oferecer novas promessas de completude. Seu trabalho é sustentar a travessia desse vazio sem tamponá-lo rapidamente. Trata-se de permitir que o sujeito reconheça onde apostava em garantias imaginárias, onde buscava amor no lugar de reconhecimento simbólico, onde confundia pertencimento com valor.

A queda das garantias não é, portanto, um erro do percurso, mas um ponto de verdade. Ela revela que nenhuma instância, família, trabalho, amor ou saber, pode assegurar definitivamente o lugar do sujeito. O que resta, após essa queda, não é uma solução pronta, mas a possibilidade de construir laços menos idealizados e um modo de existir que não dependa de promessas de completude. É nesse ponto que a psicanálise aposta: não em garantias, mas na responsabilidade singular do sujeito diante de seu desejo.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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