Introdução

A forma como nos apresentamos ao mundo reflete nossa autoconfiança e influencia diretamente nossos vínculos, decisões e percursos. Na PsiT.ech, unimos Psicologia, Tecnologia, Estilo e Organização para oferecer uma experiência de cuidado e transformação.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Um lugar para o sujeito

Inaugurar um consultório é inaugurar um lugar para o sujeito.

Não se trata de abrir um espaço de adaptação, mas de sustentar uma posição no discurso.

A psicanálise, desde Freud e relida por Lacan, nos ensinou que o sujeito não coincide consigo mesmo, que há um resto irredutível ao saber, à norma e à técnica. O inconsciente, estruturado como uma linguagem, fala onde o eu acredita dominar. É a esse ponto de furo no saber que a clínica se dirige.

Este consultório se inaugura em um tempo marcado pelo discurso capitalista, que promete gozo sem limite, transparência total e eficiência constante. Um discurso que transforma o sujeito em consumidor de soluções e o sintoma em defeito a ser eliminado. Contra essa lógica, a psicanálise sustenta que o sintoma é uma invenção singular, uma resposta ao real, e que o gozo não se deixa domesticar por protocolos.

Aqui, a palavra é tomada em sua dimensão ética. Não para normalizar, mas para permitir que algo do desejo possa se dizer. O Nome-do-Pai, enquanto função simbólica, não aparece como norma moral, mas como operador que introduz uma falta, uma lei, uma possibilidade de separação do gozo do Outro. É nessa hiância que o sujeito pode advir.

Abrir este espaço é sustentar um lugar onde o sujeito não seja reduzido ao desempenho, ao diagnóstico ou ao algoritmo. Um lugar onde o gozo possa ser interrogado, onde o sofrimento não seja imediatamente convertido em patologia, e onde a singularidade possa encontrar um endereço.

Que aqui se possa falar do amor e do trabalho, do corpo e da tecnologia, da solidão e do excesso, do laço social e de seus impasses. Que aqui a fala encontre escuta, e o silêncio, tempo.

Este consultório se inaugura como um lugar de resistência ao imperativo de gozar, produzir e se mostrar. Um lugar onde o sujeito pode, talvez, autorizar-se a dizer algo de seu desejo.

É a esse ponto que a psicanálise se dirige.

Andrea Ruas
Psicóloga | Psicanalista
PsiTech – Psicologia, Psicanálise e Tecnologia

Eu e o Clube dos Três

Passei anos liderando equipes... acreditando que eu estava construindo não só um time, mas relações de confiança, amizades. A gente passa tanto tempo no trabalho que, no fim, começa a achar que aquelas pessoas fazem parte da nossa vida de verdade. Que existe ali um tipo de vínculo que vai seguir mesmo quando a gente não estiver mais naquele cargo, naquela rotina, naquele crachá.

Só que a vida tem um jeito muito particular de mostrar quem realmente está com você e quase sempre é nos momentos difíceis, nos momentos em que você perde. Eu pedi demissão, porque já não me adequava mais àquele lugar, depois de ser preterida de forma singular. Foi tempo tentando entender, como é que décadas de entrega, de responsabilidade, de resolver problemas, de noites mal dormidas tinham virado… nada. Uma decisão tomada numa sala ... sozinha.

A minha demissão foi a minha maneira de dizer “chega”. Só que eu não imaginava o que vinha depois. Achei que, ao sair, viria aquele movimento natural: mensagens, ligações, gente querendo saber como eu estava. Achei que aquelas pessoas que eu ajudei, que eu defendi, que eu acolhi, que eu promovi, que eu incentivei… estariam ali. Nem que fosse um “e aí, como você está?”. Mas não, o silêncio veio primeiro.

No fim, sobraram três. De um universo inteiro. Três que realmente se preocuparam, que acompanharam meu processo, que ficaram, que quiseram saber. Três que não desapareceram quando eu deixei de ser “útil”, “influente”, “a chefe”, “a que resolve”. E eu precisei encarar o fato de que muitos nunca foram gratos, talvez nunca tenham sido nem próximos. Talvez eu tenha confundido convivência com afeto, parceria com cumplicidade e liderança com companheirismo. Foi libertador admitir.

E aí entrou o sentimento que eu não esperava: o nojo. Sim, nojo. Aquela sensação de olhar para trás e ver tudo com mais nitidez do que antes. A percepção de que muita gente parecia simpática, parecia próxima, parecia parceira… mas era só conveniência. Era só interesse. Era bom enquanto eu estava ali para servir, proteger, facilitar. E junto vem a raiva. A raiva de ter acreditado. De ter investido.  

Hoje, quando muitos deles me procuram (acho que mais por curiosidade e não preocupação) vejo alguns deles nas redes, sorrindo, postando frases motivacionais, defendendo “valores”, posando de bacana… meu corpo responde antes da minha cabeça: sinto repulsa. O olhar não sustenta. Algo dentro de mim diz: “não”. E eu tenho aprendido a respeitar esse “não”. Porque não é somente raiva, não é apenas mágoa. Esse "não" é lucidez. Ele é o meu corpo entendendo, antes de mim, que nunca foi parceria. Era atuação e eu era a única acreditando que era real.

Hoje, olhando com mais calma, eu entendo que minha saída revelou o que estava escondido: o quanto as relações no trabalho são frágeis, circunstanciais e profundamente egoístas. O quanto algumas pessoas se aproximam do cargo, não da pessoa. Do poder, não da história. Do que você resolve, não do que você é. E dói, mas liberta. Porque me mostrou quem são os meus. Quem fica quando não tem nada para ganhar. Quem olha sem crachá, sem função, sem utilidade.

Sobraram três. E sabe de uma coisa? Esses três valem mais do que muitos, são importantes: são os que se importam. Eu os "importo" para dentro da minha vida, não por função ou conveniência, mas por presença real. Três pode ser pouco para quem mede relações por quantidade ou posição, mas é muito quando o critério passa a ser vínculo. O que ficou não foi o número, foi a qualidade do laço, o que muda tudo.

Com o tempo, a relação cresceu. Tem grupo no zap, encontros, comemorações, risadas. A gente se encontra, tem café, tem almoço, tem balada, tem fofoca... tem vida. Chegaram os babies, os significant-others, o círculo aumentou. Estamos construindo histórias sem crachá, sem reunião, sem avaliação de desempenho. São vínculos que acontecem por fora, sem interesse algum, faz bem, nos divertirmos e, por isso, são tão verdadeiros.

Hoje eu sigo a vida, leve, ainda com raiva, sim, porque isso também é parte do processo, mas com mais clareza. Eu não romantizo, não confundo mais interesse com consideração. Eu aprendi que a verdadeira lealdade aparece quando você cai. E nesse momento, você descobre quem realmente atravessa a porta com você, segurando sua mão.

E o resto? O resto fica para trás. E que fique mesmo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Minha Clínica

Escuto sujeitos atravessados pela tecnologia, sem reduzir o sofrimento à produtividade. A clínica é um espaço onde o algoritmo não governa o desejo. Clínica do sujeito digital e do trabalho contemporâneo

É um espaço de pensamento crítico sobre subjetividade, tecnologia e clínica. PsiT.ech não oferece autoajuda digital.  

Sem dicas, sem promessas — apenas escuta e pensamento

Sofrimento contemporâneo 

  • Cansaço crônico e burnout
  • Excesso de desempenho (imperativo de produtividade)
  • Ansiedade sem objeto claro
  • Solidão na era digital
  • Dificuldade de desligar (hiperconectividade)
  • Cultura do “sempre feliz” e seus efeitos

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Luto Digital

Luto Digital: quando a tecnologia interfere no ciclo natural das perdas

A morte sempre foi uma experiência marcada pela finitude. Há um corpo que deixa de existir, um cotidiano que se interrompe, e uma presença que se desfaz no mundo visível. Porém, na era digital, a morte não desaparece por completo, ... ela permanece online. E essa permanência tem efeitos profundos sobre como vivemos e elaboramos o luto.

Hoje, perfis continuam ativos, fotos permanecem públicas, mensagens antigas podem ser revisitadas e algoritmos reavivam memórias mesmo quando não pedimos por elas. O luto deixou de ser apenas um trabalho psicológico e passou a ser também um fenômeno tecnológico.

Perfis que viram monumentos digitais: Quando alguém morre, suas contas nas redes sociais frequentemente permanecem lá — intactas, congeladas ou transformadas em “memoriais” pelas próprias plataformas. O Facebook, por exemplo, permite que perfis sejam convertidos em páginas de lembrança; o Instagram mantém as fotos, mas bloqueia novas postagens. Esses perfis funcionam como verdadeiros monumentos digitais: lugares de visita, de saudade e também de dor. Para algumas pessoas, revisitar o perfil do falecido ajuda a manter o vínculo, organizar a memória e sentir-se menos só. Para outras, é um gatilho constante: uma notificação que lembra o que ainda não foi simbolizado, um feed que insiste em atualizar uma presença que já não existe mais no mundo.

Memórias digitais: guardiãs ou intrusas? O digital democratizou a memória, mas também estendeu a duração do luto.  As plataformas armazenam tudo: fotos, áudios, conversas, e até hábitos de comportamento. Um simples “Nesse dia você estava com fulano” pode abrir uma ferida que estava se fechando. E o algoritmo não entende timing emocional. Ele apenas entrega o que é “relevante”, baseado em registros do passado. As memórias digitais nos oferecem uma espécie de imortalidade fragmentada. A pessoa não está mais viva, mas sua imagem permanece animada, acessível, compartilhável. E isso afeta o trabalho psíquico do luto — que, no fundo, é um processo de reconhecer a ausência e reconstruir a vida a partir dela. Se a presença nunca cessa totalmente, como construir a ausência?

Quando o luto vira um problema tecnológico: Há situações em que o digital não apenas influencia o luto , ele o atrapalha. Por exemplo:

- Quando a pessoa recebe mensagens automáticas, como “Deseje feliz aniversário para…”
- Quando fotos antigas aparecem sem aviso.
- Quando alguém invade o perfil da pessoa falecida e posta algo indevido.
- Quando familiares discutem publicamente o destino das contas.
- Quando seguidores transformam o perfil em um espaço de espetáculo da dor.

Esses acontecimentos expõem um ponto central: a tecnologia não está preparada para a morte e nós, usuários, também não estamos preparados para lidar com o rastro digital dos que amamos.

O luto que se partilha demais. Antes, o luto era íntimo. Hoje, é também público. Há quem poste homenagens, longos textos, fotos, pedidos de oração. Outros preferem silêncio, mas se veem atravessados por manifestações dos demais.

Esse excesso de compartilhamento pode gerar dois movimentos:

- Prorrogação do luto, porque a dor é reativada publicamente o tempo todo.

- Cobrança emocional, como se fosse necessário demonstrar saudade para validar o amor.

A exposição constante da perda cria um luto que não se encerra: ele vira conteúdo, lembrança automática, engajamento.

E quando a pessoa que morreu continua nos enviando mensagens? Com a expansão das IAs generativas e dos “chatbots memoriais”, surgiu uma nova camada do luto digital. Plataformas já oferecem:

- Bots que conversam como a pessoa falecida, treinados por suas mensagens antigas

- Avatares que interagem com vídeos e áudios reconstruídos

- Vozes sintéticas criadas por IA

Isso inaugura um dilema ético e emocional: É possível elaborar a perda enquanto se conversa com uma “versão simulada” de quem morreu? Para alguns, isso traz conforto. Para outros, impede o movimento essencial de aceitar que não há mais retorno.

O trabalho do luto na era digital. Freud dizia que o luto é o processo de retirar energia psíquica de quem se foi, para investir novamente na vida. Mas como retirar investimento de alguém cuja presença permanece ativa no digital? Como dizer “adeus” a alguém que reaparece no feed? Não há resposta única. Cada pessoa lida à sua maneira.

O que a psicologia aponta é que o luto digital não precisa ser evitado, mas precisa ser cuidado. É importante decidir conscientemente:

- Quais perfis manter?

- O que guardar?

- O que deixar partir?

- O que simboliza presença e o que simboliza prisão?

A tecnologia amplia a memória, mas não substitui o trabalho emocional. É preciso tempo, elaboração e, muitas vezes, apoio terapêutico para reorganizar o que permanece vivo no digital e o que se cala no mundo real.

Fechar um ciclo não é deletar, é significar. Lidar com o luto digital é, no fim, um gesto de responsabilidade afetiva consigo mesmo. Não se trata de esquecer a pessoa, nem de apagar tudo, mas de construir um novo vínculo com essa presença que agora só existe na forma de traços digitais. 

 O digital guarda uma história. O luto, uma transformação.  E entre esses dois mundos, o online e o psíquico, estamos aprendendo a atravessar a ausência quando a memória insiste em permanecer acesa.

Saúde Mental no Mundo Tech

Psicologia e Saúde Mental: Escuta e Cuidado para Quem Vive o Mundo Tech                   

A produção de conteúdo em psicologia e saúde mental, especialmente quando voltada para pessoas que atuam na área de tecnologia, exige um cuidado que vai além da divulgação de informações ou conceitos teóricos. Trata-se de construir um perfil de conteúdos que seja ético, sensível, tecnicamente consistente e, ao mesmo tempo, profundamente conectado à experiência subjetiva de quem vive imerso em ambientes digitais, lógicas de performance e aceleração constante.

Profissionais de tecnologia costumam habitar um contexto marcado por alta complexidade cognitiva, demandas contínuas por atualização, pressão por resultados, prazos curtos, longas jornadas, trabalho remoto ou híbrido e uma relação intensa com telas, métricas e sistemas. Embora esse cenário seja frequentemente associado a status, inovação e autonomia, ele também produz formas específicas de sofrimento psíquico que nem sempre são facilmente reconhecidas, nem por quem vive, nem por quem observa de fora.

Nesse sentido, um perfil de conteúdos em psicologia voltado a esse público precisa, antes de tudo, nomear o que muitas vezes permanece silenciado: o cansaço mental crônico, a dificuldade de desligar, a sensação de estar sempre em débito, a solidão mesmo em ambientes colaborativos, a perda de sentido no trabalho, a ansiedade diante da obsolescência constante e o esvaziamento subjetivo que pode acompanhar carreiras altamente técnicas. Falar de saúde mental aqui não é apenas falar de sintomas, mas de modos de vida.

Outro desafio importante é evitar tanto a hipertecnificação do discurso psicológico quanto sua banalização. Por um lado, conteúdos excessivamente técnicos afastam, criam uma sensação de inadequação ou reforçam a ideia de que o sofrimento precisa ser “explicado” para ser legítimo. Por outro, mensagens genéricas, motivacionais ou excessivamente simplificadas não alcançam a profundidade da experiência de quem está acostumado a pensar de forma analítica e crítica. O equilíbrio está em traduzir conceitos psicológicos e psicanalíticos de forma acessível, sem empobrecê-los, respeitando a inteligência e a complexidade subjetiva do público.

Um bom perfil de conteúdos também precisa considerar a relação entre subjetividade e tecnologia, indo além de discursos moralizantes sobre “uso excessivo de telas”. É fundamental refletir sobre como os dispositivos digitais reorganizam o tempo, o desejo, a atenção e os vínculos; como o trabalho mediado por tecnologia altera fronteiras entre vida pessoal e profissional; e como a lógica algorítmica, de métricas e entregas, pode atravessar a forma como o sujeito passa a se perceber e se avaliar. Esse tipo de abordagem ajuda o leitor a se reconhecer no conteúdo, não como alguém “que falha”, mas como alguém atravessado por um contexto específico.

Além disso, conteúdos em psicologia para esse público precisam sustentar uma posição ética clara. Não se trata de oferecer diagnósticos, receitas de autocuidado ou soluções rápidas para problemas estruturais. O foco deve estar em abrir espaços de reflexão, questionamento e elaboração, mostrando que buscar ajuda psicológica não é sinal de fraqueza, mas um movimento de responsabilidade consigo mesmo. Especialmente na área de tecnologia, onde a valorização da autonomia e da racionalidade pode dificultar o reconhecimento da vulnerabilidade, esse ponto é central.

Também é importante que o perfil dialogue com temas como identidade profissional, transições de carreira, lutos silenciosos ligados ao trabalho, medo de perder relevância, perfeccionismo, síndrome do impostor e dificuldades de pertencimento. Muitos profissionais de tecnologia constroem sua identidade de forma muito atrelada à performance intelectual e ao reconhecimento técnico, o que pode tornar qualquer falha, pausa ou dúvida vivida como ameaça ao próprio valor subjetivo. Conteúdos que abordam essas questões com profundidade ajudam a descolar o sujeito de uma identificação total com o trabalho.

Um perfil de conteúdos em psicologia e saúde mental, voltado ao público tech, precisa transmitir coerência entre forma e conteúdo. Uma comunicação clara, visualmente leve, organizada e não excessivamente estimulante também é parte do cuidado. A estética, o ritmo das postagens e o tom da escrita comunicam tanto quanto as palavras. Em um universo já saturado de informação, oferecer conteúdos que convidem à pausa, à reflexão e ao pensamento pode ser, por si só, um gesto clínico.

Falar de psicologia e saúde mental para quem trabalha com tecnologia é reconhecer que, por trás de códigos, sistemas e soluções, existem sujeitos. Sujeitos que pensam muito, produzem muito, mas também se cansam, sofrem, duvidam e, muitas vezes, não encontram espaço para elaborar tudo isso.  


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Profissionais de tecnologia e o mal-estar

O universo da tecnologia é, talvez, um dos que melhor encarnam o espírito do nosso tempo: velocidade, produtividade, otimização constante e a promessa de que todo problema pode ser resolvido com a ferramenta certa. Há sempre um novo framework, um novo método, um novo sistema capaz de corrigir falhas, reduzir riscos e aumentar performance.

Mas há algo que não se deixa organizar em sprints, nem se resolve com entregas: o sujeito.

Na clínica, é cada vez mais comum ouvir profissionais da tecnologia chegarem com uma sensação difusa de esgotamento, vazio ou inadequação, mesmo quando “tudo parece estar dando certo”. Bons salários, reconhecimento técnico, empresas desejadas  e ainda assim, uma angústia que insiste. A pergunta costuma aparecer disfarçada: “O que mais eu deveria estar fazendo para me sentir melhor?”

A psicanálise nos ensina que essa pergunta já nasce deslocada. Porque ela supõe que o mal-estar é um bug a ser corrigido, quando, na verdade, ele é estrutural. 

Freud já apontava que o sofrimento humano não é um acidente de percurso, mas parte da própria condição de viver em civilização. Lacan radicaliza isso ao mostrar que o sujeito é constituído por uma falta, algo que nenhum sistema, por mais sofisticado, consegue preencher. O problema é que o discurso da tecnologia promete exatamente o contrário: eficiência total, previsibilidade, controle.

Para muitos profissionais de tech, o trabalho se torna o lugar privilegiado para tentar tampar essa falta. Produzir mais, aprender mais, entregar melhor, subir mais rápido. O saber técnico vira um ideal: se eu dominar tudo, não falto. Mas quanto mais se corre atrás desse ideal, mais ele se afasta. A lógica é cruel: o reconhecimento nunca é suficiente, a próxima meta já está posta, o upgrade nunca termina.

Na linguagem lacaniana, trata-se de um sujeito capturado pelo discurso do mestre contemporâneo, hoje travestido de discurso da performance. Um discurso que exige gozo, produtividade e disponibilidade contínua, enquanto promete pertencimento e valor. Só que cobra caro: o corpo adoece, o desejo empobrece, a vida vai ficando estreita.

Outro ponto recorrente na clínica é a confusão entre função e identidade. “Eu sou o que eu faço.” Quando o cargo muda, o projeto acaba, a empresa corta, algo desmorona por dentro. Não é só a perda do trabalho, é a perda de um lugar simbólico. E aí surge a pergunta que não estava prevista: quem sou eu sem esse lugar?

A psicanálise não oferece respostas prontas nem planos de carreira emocional. Ela oferece algo mais incômodo e mais necessário: um espaço onde o sujeito pode falar sem precisar performar, sem precisar entregar, sem precisar ser excelente. Um espaço onde a falta não é um erro, mas um ponto de partida. Para profissionais de tecnologia, isso costuma ser uma experiência radicalmente nova. Estar em um lugar onde não se espera eficiência, onde o silêncio conta, onde não há expectativas de melhora. Aos poucos, algo se desloca: o sujeito começa a perceber que não precisa ser inteiro, completo, resolvido.

Não se trata de abandonar a tecnologia, nem de demonizar o trabalho. Trata-se de desalojar o ideal de que o trabalho pode responder a tudo. Quando isso cai, o trabalho pode voltar a ser o que deveria ser: uma parte da vida  e não o lugar onde se tenta resolver a própria existência. Talvez o maior ganho para quem passa pela análise seja este: aprender que nem tudo precisa ser otimizado. Que há perguntas que não pedem solução, mas escuta. E que, às vezes, o mais ético não é produzir mais, mas sustentar um intervalo. Porque o sujeito não é um sistema e o desejo não roda em segundo plano.


Mudança de Posição Subjetiva

Depois que a porta se fecha e o silêncio se instala, algo muda. Não imediatamente, não de forma bonita ou organizada. Muda por dentro. É como se o mundo continuasse igual, mas você já não estivesse mais no mesmo lugar de antes. Durante muito tempo, eu acreditei que o trabalho era também um espaço de pertencimento. Que a dedicação criava laços. Que a responsabilidade compartilhada produzia algo próximo de afeto. Hoje eu sei: aquilo não era vínculo, era função. E quando a função cai, o resto cai junto. O que não se fala muito é que sair desse lugar, do cargo, do poder, do reconhecimento, não produz apenas perda. Produz também um vazio estranho, difícil de nomear. Porque o que desaparece não é só o salário, o crachá ou os benefícios. O que cai é uma identidade inteira que estava apoiada nisso. Sem esse apoio, a pergunta aparece nua: quem sou eu quando não sou mais necessária? Essa pergunta assusta. Ela desorganiza. Ela faz oscilar. Em alguns dias, vem acompanhada de entusiasmo, sensação de liberdade, vontade de construir algo novo. Em outros, vem como arrependimento, medo, sensação de ter jogado tudo fora. Essa oscilação é efeito de atravessar uma mudança real de posição. Quando você deixa de ocupar um lugar sustentado por garantias externas, status, estrutura, validação, e passa a construir algo a partir de dentro, sem promessa, sem roteiro claro, o chão parece instável. E ele é mesmo. Não porque você esteja errada, mas porque agora não há mais onde se apoiar que não seja o próprio desejo. No meu caso, foi aí que a Psicologia deixou de ser um interesse distante e virou caminho. Não como ideal romântico, não como “vocação salvadora”, mas como resposta possível depois de uma ruptura. Uma escolha feita não a partir do sucesso garantido, mas daquilo que fazia sentido sustentar, mesmo sem aplauso.

Isso muda tudo. Muda a relação com o tempo, com o dinheiro, com o reconhecimento. Muda a forma de medir valor. Antes, esforço e retorno pareciam seguir uma lógica clara. Agora, não mais. O trabalho acontece, mas os efeitos não são imediatos, nem lineares, nem previsíveis. E isso confronta diretamente quem passou anos sendo medida por performance. É nesse ponto que muita gente recua. Busca rapidamente outro lugar que ofereça as mesmas garantias, o mesmo espelho narcísico, o mesmo conforto simbólico. Não por covardia, mas porque sustentar a falta cansa. Sustentar o não saber dá medo.

Ficar exige outra ética. Hoje, eu entendo que não se trata de romantizar a perda nem de demonizar o passado. Trata-se de reconhecer que certas saídas não são fuga ... são retirada. Um gesto que interrompe um circuito de violência, de apagamento, de desrespeito. Um gesto que diz: aqui eu não fico mais.

Depois disso, nada volta a ser como antes. E ainda bem. Porque, quando a ilusão cai, não dá para simplesmente recolocá-la no lugar. O que dá é construir outra coisa, com menos fantasia e mais verdade. Com menos plateia e mais sustentação. Com menos papel e mais presença. Talvez crescer agora não signifique subir rápido, nem expandir logo, nem provar nada para ninguém. Talvez crescer seja aprender a ficar. Ficar sem garantias. Ficar sem ideal inflado. Ficar sem confundir utilidade com valor. E, aos poucos, descobrir que a vida que se constrói fora do crachá , no trabalho e nos vínculos, pode até ser mais incerta, mas é infinitamente mais real.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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