Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

🧠 Anorexia e obesidade: dois lados do mesmo impasse?

À primeira vista, anorexia e obesidade parecem posições opostas. Em uma, há recusa da comida; na outra, excesso. No entanto, do ponto de vista da psicanálise, essas manifestações podem ser pensadas como respostas distintas a questões semelhantes que atravessam o sujeito: a relação com o corpo, com o desejo, com o olhar do Outro, com o gozo e com o controle.

Para a psicanálise, o corpo não é apenas um organismo biológico. Ele é também um corpo marcado pela linguagem, pela história e pelas relações que constituem o sujeito. É um corpo atravessado pelo olhar do outro, por expectativas, afetos e significações. Assim, tanto na anorexia quanto na obesidade, o corpo pode tornar-se um lugar onde algo que não encontra palavras se inscreve. Na anorexia, ele pode aparecer como lugar de recusa, de privação e de tentativa de controle, uma forma de dizer “não” a certas demandas. Na obesidade, pode tornar-se um lugar de excesso, uma tentativa de preenchimento, um modo de lidar com algo que se apresenta como vazio. Em ambos os casos, não se trata apenas de comida.

A partir de Lacan, é possível pensar esses quadros também pela via do gozo, uma forma de satisfação que ultrapassa a lógica do bem-estar e que, muitas vezes, se aproxima do sofrimento. Na anorexia, o gozo pode se articular ao controle, à restrição e à recusa. Na obesidade, pode aparecer ligado ao excesso, à repetição e à tentativa de tamponar algo que falta. São, portanto, modos diferentes de responder à falta, ao desejo e à relação com o próprio corpo.

Essas questões também não podem ser separadas do contexto cultural em que vivemos. A cultura contemporânea exige controle constante do corpo, promove ideais de perfeição quase inalcançáveis, associa felicidade ao consumo e frequentemente responsabiliza o indivíduo por seu sofrimento. Nesse cenário, tanto a anorexia quanto a obesidade podem ser compreendidas como formas de resposta a esse discurso social, cada uma à sua maneira. Nenhuma delas se reduz a uma simples questão de disciplina, força de vontade ou vaidade.

Na clínica, a psicanálise não coloca anorexia e obesidade em uma escala moral. Em vez de julgar ou normatizar, ela se orienta por perguntas: o que esse corpo está dizendo? O que está em jogo nessa relação com o comer? Qual é a história singular desse sujeito? O trabalho analítico não busca apenas normalizar comportamentos ou corpos, mas abrir um espaço de palavra onde o sujeito possa elaborar sua relação com o desejo, com o corpo e com aquilo que lhe falta.

Nesse sentido, anorexia e obesidade não são apenas opostos na balança; muitas vezes são respostas distintas a um mesmo impasse com o corpo, o desejo e a falta.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Lacan vs Jung: a ética da falta vs. a ética da totalidade

A história da psicanálise é também a história de suas rupturas. Entre as mais decisivas, está a separação entre Freud e Jung e, posteriormente, a leitura radical que Lacan faz dessa cisão. Enquanto Jung constrói uma psicologia orientada para a totalidade, Lacan insiste em uma ética da falta, do furo, da não completude. Este ensaio propõe uma leitura crítica dessa oposição e suas implicações clínicas e culturais, especialmente no contexto contemporâneo, em que o discurso da integração e do propósito domina o campo da saúde mental.

Jung e a ética da totalidade: individuação e sentido - Jung propõe que o trabalho analítico vise a individuação, isto é, a integração progressiva das instâncias psíquicas em uma totalidade coerente. O inconsciente, em sua teoria, não é apenas pessoal, mas também coletivo, estruturado por arquétipos universais que atravessam culturas e épocas. O sintoma, nesse quadro, é frequentemente interpretado como uma mensagem simbólica que aponta para um processo de integração ainda não realizado. A clínica junguiana, assim, tende a uma hermenêutica do sentido: sonhos, mitos e narrativas são ampliados simbolicamente, buscando revelar um "telos", uma direção para a psique, trata-se de uma ética que aposta na reconciliação do sujeito consigo mesmo, na construção de uma unidade psíquica que faça sentido existencial.

Para Jung, telos (do grego télos, que significa "fim", "objetivo" ou "propósito") é a finalidade inerente, o sentido ou o "propósito" que dirige o desenvolvimento psíquico humano. Diferente da abordagem freudiana, que é frequentemente causal (busca a causa no passado), a psicologia analítica de Jung é fortemente teleológica, focando no "para que" um sintoma, sonho ou comportamento existe e para onde a psique está caminhando.

Lacan e a ética da falta: sujeito dividido e desejo - Lacan, ao reler Freud, recusa qualquer ideal de totalidade. O sujeito da psicanálise é estruturalmente dividido ($), atravessado pela linguagem e pela falta. O inconsciente, longe de ser um reservatório de símbolos universais, é estruturado como uma linguagem, tecido por significantes singulares que emergem da história do sujeito.  A ética lacaniana não busca integrar, mas sustentar a falta como condição do desejo. Não há individuação plena, nem síntese final. O sujeito se constitui em torno de um furo, a castração, que nenhuma narrativa simbólica pode suturar. A interpretação analítica, nesse contexto, não oferece sentido totalizante; ela opera cortes na cadeia significante, produzindo deslocamentos e novas posições subjetivas.

A diferença entre Jung e Lacan não é apenas teórica, mas profundamente ética.

Jung orienta a clínica para a integração e para a construção de sentido. O analista frequentemente ocupa o lugar de intérprete dos símbolos universais da psique.

Lacan orienta a clínica para a implicação subjetiva diante da falta. O analista sustenta uma posição de não-saber, recusando a oferta de sentido pleno.

Enquanto a ética junguiana tende a apaziguar o conflito pela via da síntese simbólica, a ética lacaniana sustenta o conflito como motor do desejo.

O jungianismo cultural contemporâneo - O discurso contemporâneo do autoconhecimento, do propósito, dos arquétipos e da espiritualidade corporativa ressoa fortemente Jung. Na cultura digital e no mercado de saúde mental, proliferam narrativas de integração do self, de alinhamento interior e de realização total. Sob a lente lacaniana, esse movimento pode ser lido como uma tentativa imaginária de suturar a falta estrutural, transformando-a em projeto de completude.

O discurso capitalista, como formalizado por Lacan, opera precisamente nesse curto-circuito: promete um gozo sem falta, uma subjetividade sem furo, um self plenamente realizado. A ética lacaniana, ao contrário, insiste na impossibilidade dessa promessa.

Jung oferece uma psicologia do sentido; Lacan, uma ética da falta. Jung busca a unidade; Lacan insiste na divisão. Jung propõe a reconciliação; Lacan sustenta o desencaixe como condição do desejo. Em um mundo que promete integração, performance e felicidade contínua, a psicanálise lacaniana permanece como um discurso radicalmente contracultural: ela afirma que não há totalidade, que o sujeito é atravessado pela falta e que é justamente aí que se joga a ética do desejo.

Andrea Ruas – Psicologia e Tecnologia (PsiT.ech)

Dá-lhe psicanálise!

Ser psicóloga é ocupar um lugar estranho no laço social.

Um lugar onde o Outro supõe saber, supõe resposta, supõe cura. No cotidiano, isso aparece em pequenas cenas banais: alguém pede um conselho amoroso, um diagnóstico improvisado, uma interpretação rápida de um sofrimento complexo. O sujeito dirige sua pergunta não exatamente à pessoa, mas à função que ela encarna.

Lacan chamou isso de sujeito suposto saber. A psicóloga, fora do consultório, é frequentemente convocada a sustentar essa suposição: como se houvesse um saber pronto sobre o desejo, sobre o sofrimento, sobre a vida. Como se o mal-estar pudesse ser traduzido em uma frase clara, objetiva, eficaz.

Mas a psicanálise nasce justamente do fracasso dessas respostas prontas. O inconsciente não é um manual, nem um algoritmo, nem um diagnóstico que resolve o sujeito. Ele insiste, retorna, escapa. A clínica não é o lugar da solução, mas da pergunta que se sustenta.

Ser psicóloga é também confrontar a fantasia social de que quem escuta o sofrimento estaria imune a ele. Como se conhecer a falta fosse o mesmo que escapar dela. Mas o analista não está fora da linguagem, nem fora do desejo, nem fora do mal-estar. Ele apenas ocupa uma posição ética particular diante disso.

Na cultura contemporânea, marcada pelo discurso capitalista, há uma demanda constante por respostas rápidas, eficiência emocional, felicidade mensurável. O sofrimento deve ser eliminado, otimizado, silenciado. O sujeito quer uma técnica, uma frase, um rótulo que feche a pergunta. Quer um saber que dispense o trabalho do inconsciente.

A psicanálise, ao contrário, insiste na falta. Insiste que não há completude, que não há fórmula para o desejo, que não há manual para o sujeito. Ser psicóloga é, muitas vezes, sustentar essa posição impopular: a de que o que dói não se resolve em um post, em um diagnóstico instantâneo, em uma frase motivacional.

Entre a expectativa de respostas e a ética da escuta, a psicóloga ocupa um lugar incômodo. Mas é justamente nesse incômodo que algo do sujeito pode surgir.

Ser psicóloga

Ser psicóloga é descobrir que, para muitas pessoas, você nunca está de folga.

Em um churrasco, você não é “a amiga Andréa”, você é o plantão emocional gratuito. Entre a sobremesa e o café, alguém já puxa: - “Posso te contar um negócio… mas é rápido.”
Nunca é rápido.

Todo mundo quer uma análise relâmpago, de preferência sem contexto, sem vínculo e sem pagar. Querem saber por que o ex sumiu, se a sogra é narcisista, se o filho é “um pouco autista”, se o chefe é tóxico, e se o cachorro está com ansiedade de separação. (Sim, já perguntaram.)

Tem também a categoria “me diagnostica aqui, agora”: - “Eu vi um vídeo no TikTok e acho que sou bipolar, TDAH e borderline ao mesmo tempo, o que você acha?”
A pessoa quer um laudo em guardanapo, de preferência com uma frase que resolva a vida inteira.

E há os mais criativos, que acreditam que psicóloga tem superpoderes:
- “Você consegue ler minha mente?”
- “Você está me analisando agora?”
Sim, claro, estou interpretando seu inconsciente enquanto você escolhe a carne do churrasco.

Mas talvez o mais curioso seja a fantasia de que psicóloga não pode errar, não pode cansar, não pode ficar triste, não pode ser humana. Como se estudar o sofrimento nos tornasse imunes a ele. Spoiler: não.

No fundo, acho que essas perguntas estranhas dizem algo bonito: as pessoas querem ser escutadas. Só confundem escuta com consulta gratuita e clínica com conversa de bar.

Ser psicóloga é isso: entre um pedido de conselho amoroso e uma tentativa de diagnóstico instantâneo, a gente segue lembrando que a clínica não cabe em uma frase e o inconsciente não funciona por mensagem no email.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

🎭 Carnaval, gozo e o sujeito

O Carnaval é um tempo de festa, exceção, excesso, liberdade. Um intervalo no calendário onde as normas se afrouxam, os corpos se autorizam, as ruas se tornam palco e o sujeito parece escapar, ainda que momentaneamente, das exigências ordinárias da vida social. Mas o que está em jogo, do ponto de vista psicanalítico, nesse fenômeno coletivo?  

O Carnaval seria um dispositivo simbólico que dramatiza algo estrutural: a relação do sujeito com a lei, com o corpo, com o gozo e com o Outro. Longe de ser apenas uma festa, ele encena, em larga escala, as tensões entre norma e transgressão, desejo e imperativo, limite e excesso.

Na tradição ocidental, o Carnaval sempre ocupou o lugar de um tempo de inversão: reis se vestem de plebeus, normas se flexibilizam, máscaras permitem anonimato. A própria palavra remete à ideia de despedida da carne, antecipando o período de restrição da Quaresma. Essa dinâmica pode ser lida como uma encenação da relação do sujeito com a Lei simbólica. A Lei, em psicanálise, não é apenas jurídica ou moral, mas estrutural: ela é aquilo que introduz a falta, a castração simbólica, organizando o desejo. O Carnaval, então, não aboliria a Lei; ele a confirmaria, ao instituir um tempo específico para sua suspensão controlada. A transgressão é autorizada, prevista, regulamentada. Há horários, circuitos, regras, policiamento, patrocinadores. A festa funciona como uma válvula simbólica que permite o excesso, mas sem ameaçar o laço social.

O uso de fantasias e máscaras no Carnaval é central. O sujeito pode se apresentar como outro, experimentar identidades, brincar com gênero, classe, status, moralidade. Para Lacan, a identidade é sempre uma construção imaginária, sustentada por semblantes. A máscara carnavalesca torna visível aquilo que normalmente permanece invisível: toda identidade é, em certa medida, uma máscara. O Carnaval explicita o caráter ficcional do eu. Ao mesmo tempo, oferece uma autorização coletiva para a encenação de outras posições subjetivas, muitas vezes recalcadas no cotidiano. Nesse sentido, o Carnaval pode ser lido como uma dramatização do estádio do espelho em escala social: o sujeito se vê, se reconhece, se perde e se reinventa na imagem que apresenta ao Outro.

Talvez nenhum outro momento cultural concentre tanto o corpo quanto o Carnaval. Dança, toque, exibição, erotização, consumo de substâncias, fadiga, excesso. O corpo se torna palco privilegiado do laço social. Para Lacan, o gozo não se reduz ao prazer. Ele é aquilo que ultrapassa o princípio do prazer, que toca o limite do corpo, que se inscreve como excesso. O Carnaval pode ser pensado como um regime particular de gozo coletivo, onde o excesso é incentivado, celebrado, estetizado. No entanto, esse gozo não é livre; ele é comandado por imperativos: divertir-se, aproveitar, não perder nada, postar, mostrar, performar alegria. O supereu contemporâneo, longe de proibir, ordena: goze! O Carnaval, então, pode ser visto como uma vitrine privilegiada do supereu do discurso capitalista: goze, consuma, mostre, circule, produza imagens de felicidade.

Lacan descreveu o discurso capitalista como um curto-circuito da castração: ele promete satisfação plena, sem resto, sem falta. No Carnaval contemporâneo, essa lógica aparece na transformação da festa em produto: abadás, camarotes VIP, experiências exclusivas, pacotes turísticos, algoritmos que capturam e monetizam o desejo. A festa, que historicamente poderia ter sido espaço de subversão simbólica, torna-se também espaço de intensificação do consumo. A transgressão é vendida, a liberdade é patrocinada, o gozo é capturado em métricas e imagens. O sujeito é convidado a gozar, mas de maneira dirigida, previsível, rentável. A rua se torna plataforma, o corpo se torna mídia, o afeto se torna conteúdo.

O Carnaval mostra como o laço social é sempre atravessado por discursos, e como o sujeito circula entre essas posições. O Carnaval também é um espaço onde conteúdos inconscientes podem emergir: agressividade, erotismo, fantasia, crítica social, luto, memória, resistência. Escolas de samba, blocos e performances frequentemente tematizam história, violência, desigualdade, gênero, raça, política. Nesse sentido, a festa não é apenas escapismo; ela é também um modo de dizer o indizível, de simbolizar o real, de produzir narrativas coletivas. O inconsciente não está fora da festa; ele a atravessa.

Apesar do espetáculo, há sempre um resto: o cansaço, o vazio pós-festa, a melancolia, o silêncio após o excesso. Para Lacan, não há gozo sem resto, sem perda, sem limite. O fim do Carnaval pode ser lido como retorno da Lei, mas também como retorno do sujeito ao seu tempo próprio, à sua falta estrutural, ao desejo que não se resolve na festa. O Carnaval, lido pela psicanálise lacaniana, não é apenas uma festa. É um laboratório do laço social, um palco do discurso capitalista, uma encenação da relação do sujeito com a Lei, o corpo e o gozo. 

Se a cultura contemporânea nos convoca a gozar sem parar, talvez a clínica e o pensamento crítico possam recolocar a pergunta pelo limite, pela falta, pelo desejo que não se deixa capturar. Entre a máscara e o rosto, entre a rua e o consultório, entre o gozo e o desejo, o sujeito segue inventando modos de existir.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Um lugar para o sujeito

Inaugurar um lugar para o sujeito.

Não se trata de abrir um espaço de adaptação, mas de sustentar uma posição no discurso.

A psicanálise, desde Freud e relida por Lacan, nos ensinou que o sujeito não coincide consigo mesmo, que há um resto irredutível ao saber, à norma e à técnica. O inconsciente, estruturado como uma linguagem, fala onde o eu acredita dominar. É a esse ponto de furo no saber que a clínica se dirige.

Este consultório se inaugura em um tempo marcado pelo discurso capitalista, que promete gozo sem limite, transparência total e eficiência constante. Um discurso que transforma o sujeito em consumidor de soluções e o sintoma em defeito a ser eliminado. Contra essa lógica, a psicanálise sustenta que o sintoma é uma invenção singular, uma resposta ao real, e que o gozo não se deixa domesticar por protocolos.

Aqui, a palavra é tomada em sua dimensão ética. Não para normalizar, mas para permitir que algo do desejo possa se dizer. O Nome-do-Pai, enquanto função simbólica, não aparece como norma moral, mas como operador que introduz uma falta, uma lei, uma possibilidade de separação do gozo do Outro. É nessa hiância que o sujeito pode advir.

Abrir este espaço é sustentar um lugar onde o sujeito não seja reduzido ao desempenho, ao diagnóstico ou ao algoritmo. Um lugar onde o gozo possa ser interrogado, onde o sofrimento não seja imediatamente convertido em patologia, e onde a singularidade possa encontrar um endereço.

Que aqui se possa falar do amor e do trabalho, do corpo e da tecnologia, da solidão e do excesso, do laço social e de seus impasses. Que aqui a fala encontre escuta, e o silêncio, tempo.

Este consultório se inaugura como um lugar de resistência ao imperativo de gozar, produzir e se mostrar. Um lugar onde o sujeito pode, talvez, autorizar-se a dizer algo de seu desejo.

É a esse ponto que a psicanálise se dirige.

Andrea Ruas
Psicóloga | Psicanalista
PsiTech – Psicologia, Psicanálise e Tecnologia

Eu e o Clube dos Três

Passei anos liderando equipes... acreditando que eu estava construindo não só um time, mas relações de confiança, amizades. A gente passa tanto tempo no trabalho que, no fim, começa a achar que aquelas pessoas fazem parte da nossa vida de verdade. Que existe ali um tipo de vínculo que vai seguir mesmo quando a gente não estiver mais naquele cargo, naquela rotina, naquele crachá.

Só que a vida tem um jeito muito particular de mostrar quem realmente está com você e quase sempre são nos momentos difíceis, nos momentos em que você perde. Eu pedi demissão, porque já não me adequava mais àquele lugar, depois de ser preterida de forma singular. Foi tempo tentando entender, como é que décadas de entrega, de responsabilidade, de resolver problemas, de dedicação total, de noites mal dormidas tinham virado… nada. Uma decisão tomada numa sala ... sozinha.

A minha demissão foi a minha maneira de dizer “chega”. Só que eu não imaginava o que viria depois. Achei que, ao sair, viria aquele movimento natural: mensagens, ligações, gente querendo saber como eu estava. Achei que aquelas pessoas que eu ajudei, que eu ensinei, que eu defendi, que eu acolhi, que eu promovi, que eu incentivei… estariam ali. Nem que fosse um “e aí, como você está?”. Mas não, o silêncio veio primeiro - e, claro, a curiosidade, depois.

No fim, sobraram três. De um universo inteiro. Três que realmente se preocuparam, que acompanharam meu processo, que ficaram, que quiseram saber. Três que não recuaram quando eu deixei de ser “útil”, “influente”, “a chefe”, “a que resolve”. E eu precisei encarar que nem todas as relações se sustentavam do jeito que eu imaginava ao longo do tempo e que, em muitos momentos, a gratidão não se fez presente. Parte do que eu vivi como proximidade também se relacionava ao lugar que eu ocupava ali. Talvez eu tenha confundido convivência com afeto, parceria com cumplicidade e liderança com companheirismo. Foi libertador admitir e isso foi ganhando outro lugar em mim.

E aí entrou o sentimento difícil de nomear: um estranhamento. Sim, desconexão, um desconforto. Aquela sensação de olhar para trás e ver tudo com mais nitidez do que antes. A percepção de que muita gente parecia simpática, próxima, parceira … mera conveniência. Era bom enquanto eu estava ali para servir, proteger, facilitar. Eram vínculos sustentados pela função que eu ocupava. E junto veio a desilusão, de ter acreditado, investido.  

Eles (e não são poucos) me buscavam incessantemente e ainda me procuram (como disse, acho que mais por curiosidade do que por preocupação). Vejo alguns deles nas redes, postando, com discursos motivacionais, defendendo "valores"… Meu corpo responde antes da minha cabeça: algo em mim se afasta. O olhar não sustenta. Um estranhamento difícil de ignorar. Algo me diz: “não”. E eu tenho aprendido a respeitar esse “não”. Não como raiva, não como mágoa. Esse "não" é lucidez. Ele é o meu corpo entendendo, antes de mim, que não é "de verdade". É atuação, não é vínculo. Não é real.

Hoje, olhando com mais calma, eu entendo que minha saída não criou esse cenário, apenas o revelou: o quanto as relações no trabalho podem ser frágeis, circunstanciais e atravessadas por interesses. O quanto algumas pessoas se aproximam do cargo, não da pessoa. Do poder, não da história. Do que você resolve, não do que você é. E dói, mas liberta. Porque mostra quem somos. Quem permanece de algum modo, mesmo quando os lugares já não são os mesmos. Quem olha sem crachá, sem função, sem utilidade.

Sobraram três. Meu grupo dos três! E sabe de uma coisa? Esses três valem muitos, são importantes: são os que se importam. Eu os "importo" para dentro da minha vida, não por função ou conveniência, mas por presença real. Três? Pode parecer pouco para quem mede relações por quantidade ou posição, mas é muito quando o critério passa a ser vínculo. O que ficou não foi o número, foi a qualidade do laço, o que muda tudo.

Com o tempo, a relação cresceu. Tem grupo no zap, encontros, comemorações, risadas. A gente se encontra, tem café, tem almoço, tem jantinha, tem fofoca... tem vida. Chegaram os babies, os significant-others, o círculo aumentou. Estamos construindo histórias sem crachá, sem reunião, sem avaliação de desempenho. São vínculos que acontecem por fora, sem interesse algum, fazem bem, nos divertirmos e, por isso, são tão verdadeiros.

Hoje eu sigo a vida, leve, talvez ainda com raiva, sim, porque isso também é parte do processo, mas com mais clareza. Eu não romantizo, não confundo mais ... Interesse ou consideração? Eu aprendi que lealdade aparece quando você cai. E nesse momento, você descobre quem realmente atravessa a porta com você, segurando na sua mão.

E o resto? O resto, naturalmente se afasta. 

O que ficou, ficou com verdade. O que não ficou, cumpriu seu papel de passagem.

- - - - - - - - 

E a vocês três,

Escrevo não apenas para agradecer, mas para nomear algo que, por muito tempo, eu não consegui simbolizar com clareza. Em um momento em que uma estrutura importante da minha vida se desfez, e com ela também um modo de me reconhecer no olhar do outro, vocês permaneceram. E essa permanência teve um valor que hoje consigo reconhecer para além da simples presença social ou afetiva: ela teve efeito de sustentação psíquica.

Havia ali uma expectativa silenciosa de que os vínculos se manteriam estáveis mesmo na ausência da função que antes os organizava. Quando essa expectativa se rompeu, o que emergiu foi um tipo de desamparo que não dizia apenas da perda de um lugar, mas da fragilidade das construções imaginárias que sustentavam certos laços. Foi nesse contexto que a presença de vocês adquiriu um outro estatuto: não mais o de confirmação de uma posição, mas o de amparo possível diante da queda dessa posição.

Vocês não ocuparam o lugar do discurso, nem o lugar da explicação. Ocuparam, de forma mais discreta e talvez mais decisiva, o lugar da continuidade do vínculo quando ele já não era sustentado por nenhuma equivalência funcional. Isso, do ponto de vista subjetivo, teve um efeito importante de inscrição: o de que nem todo laço se organiza exclusivamente em torno da utilidade, do papel ou da função desempenhada.

Reconheço hoje que foi nessa diferença que algo pôde se reorganizar em mim. Não como reparação total, mas como possibilidade de reinscrição de que o outro pode permanecer sem que isso esteja necessariamente atrelado ao que se faz ou representa. Nesse sentido, vocês não apenas permaneceram, vocês sustentaram uma experiência de continuidade onde tudo, naquele momento, parecia ter se fragmentado.

É por isso que os nomeio como “os três”, não como redução numérica, mas como marca simbólica de um núcleo de laço que resistiu à dissolução generalizada das expectativas. Essa marca, hoje, não indica escassez, mas precisão: o reconhecimento de que, em determinados momentos, o essencial não se mede pela extensão, mas pela consistência do que permanece.

Com gratidão, 

Andrea

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Minha Clínica

Escuto sujeitos atravessados pela tecnologia, sem reduzir o sofrimento à produtividade. A clínica é um espaço onde o algoritmo não governa o desejo. Clínica do sujeito digital e do trabalho contemporâneo

É um espaço de pensamento crítico sobre subjetividade, tecnologia e clínica. PsiT.ech não oferece autoajuda digital.  

Sem dicas, sem promessas ... apenas escuta e pensamento

Sofrimento contemporâneo 

  • Cansaço crônico e burnout
  • Excesso de desempenho (imperativo de produtividade)
  • Ansiedade sem objeto claro
  • Solidão na era digital
  • Dificuldade de desligar (hiperconectividade)
  • Cultura do “sempre feliz” e seus efeitos

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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