Há algum tempo venho aprendendo que a injustiça nem sempre se apresenta de forma escancarada. Às vezes ela chega silenciosa, vestida de omissão. E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil combatê-la.
Existe uma frase que não sai da minha cabeça: quem vê uma injustiça e escolhe não fazer nada já fez uma escolha. A neutralidade, diante do que fere o outro, quase nunca é neutra. O silêncio protege quem causa o dano e abandona quem o sofre. Não agir também é uma forma de agir.
Talvez eu pense tanto nisso porque minha história foi construída acreditando exatamente no contrário: que pequenas ações transformam destinos.
Minha primeira escolha profissional foi a tecnologia. Um universo lógico, estruturado, onde eu acreditava que quase tudo poderia ser resolvido com conhecimento, esforço e organização. Aprendi muito ali. Aprendi disciplina, método, persistência. Mas, em algum momento, percebi que o que mais me movia não eram os sistemas. Eram as pessoas.
Foi então que decidi recomeçar.
Escolhi a Psicologia quando muita gente já acreditava que eu tinha encontrado meu caminho definitivo. Recomeçar nunca é simples. Exige abrir mão da segurança, do reconhecimento já conquistado e da falsa tranquilidade de permanecer onde já sabemos caminhar.
Eu escolhi começar de novo.
E, como tantos recomeços, ele veio acompanhado de dúvidas, medo, noites mal dormidas e da pergunta que quase todo mundo faz em silêncio: "Será que vai dar certo?"
Depois veio a clínica.
Ela não nasceu pronta. Não apareceu por acaso. Não foi fruto de sorte.
Ela foi construída tijolo por tijolo. Atendimento por atendimento. Curso por curso. Estudo por estudo. Horas de trabalho invisível. Finais de semana dedicados. Investimentos que muitas vezes significaram abrir mão de viagens, conforto, descanso e tantas outras coisas que pareciam importantes naquele momento.
Quem vê o resultado dificilmente imagina o caminho.
Não vê as renúncias.
Não vê os dias em que o medo quase venceu.
Não vê as contas feitas inúmeras vezes para saber se seria possível continuar.
Não vê as lágrimas escondidas para conseguir sorrir no atendimento seguinte.
E, quando eu acreditava que finalmente poderia apenas viver aquilo que havia construído, a vida decidiu me ensinar que ela nem sempre respeita os nossos planos.
Meu corpo passou a travar batalhas que eu jamais imaginei enfrentar.
Vieram exames, procedimentos, incertezas, limitações e uma rotina que me obrigou a descobrir uma força que eu sequer sabia que existia.
Passei a conviver diariamente com a possibilidade de perder aquilo que eu ainda estava aprendendo a conquistar.
Ao mesmo tempo, precisei assistir ao desmoronamento de muitas expectativas que eu alimentava havia anos.
Planos precisaram ser refeitos.
Sonhos tiveram que mudar de forma.
Projetos foram adiados.
Alguns simplesmente deixaram de existir.
E existe um luto muito silencioso em perder futuros que ainda nem aconteceram.
Ninguém ensina como atravessar isso.
Mas existe algo que essa caminhada me ensinou de forma definitiva: a dor pode endurecer ou pode ampliar nossa capacidade de enxergar o outro.
Eu escolho a segunda opção.
Talvez seja por isso que a injustiça hoje me incomode tanto.
Porque sei o peso que uma palavra pode aliviar.
Porque sei o estrago que uma omissão pode causar.
Porque conheço, na pele, o que significa enfrentar batalhas que quase ninguém vê.
Porque aprendi que existem pessoas sorrindo enquanto sustentam tempestades inteiras por dentro.
Por isso, quando vejo alguém sendo diminuído, atacado, desacreditado ou tratado com indiferença, não consigo fingir que não é comigo.
É.
Sempre é.
Vivemos em sociedade justamente porque as dores nunca pertencem apenas a quem as sente.
Quando aceitamos o desrespeito contra alguém, abrimos espaço para que ele alcance todos nós.
Quando escolhemos permanecer em silêncio para preservar o nosso conforto, muitas vezes entregamos o outro à própria sorte.
E isso também é uma escolha.
Minha história nunca foi sobre facilidade.
Foi sobre reconstrução.
Sobre coragem.
Sobre recomeços.
Sobre aprender que força não é ausência de medo, mas a decisão de continuar apesar dele.
Foi sobre entender que dignidade não pode depender da conveniência das pessoas ao redor.
Hoje continuo caminhando.
Ainda enfrentando desafios que não escolhi.
Ainda reconstruindo expectativas.
Ainda aprendendo a lidar com limites que a vida me apresentou sem pedir licença.
Mas, se existe algo de que não pretendo abrir mão, é da minha consciência.
Prefiro correr o risco de me posicionar do que carregar o peso da omissão.
Porque tudo o que vivi me ensinou que o mundo não muda apenas pelas grandes atitudes.
Ele muda quando pessoas comuns decidem não normalizar o que é injusto.
No fim, talvez seja isso que realmente defina quem somos.
Não a quantidade de dificuldades que enfrentamos.
Mas aquilo que escolhemos fazer quando testemunhamos a dor do outro.
Porque quem presencia uma injustiça e escolhe não fazer nada não permaneceu neutro.
Apenas escolheu de que lado da história queria estar.
E eu espero continuar escolhendo, todos os dias, o lado da humanidade.
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