Ser psicóloga é ocupar um lugar estranho no laço social.
Um lugar onde o Outro supõe saber, supõe resposta, supõe cura. No cotidiano, isso aparece em pequenas cenas banais: alguém pede um conselho amoroso, um diagnóstico improvisado, uma interpretação rápida de um sofrimento complexo. O sujeito dirige sua pergunta não exatamente à pessoa, mas à função que ela encarna.
Lacan chamou isso de sujeito suposto saber. A psicóloga, fora do consultório, é frequentemente convocada a sustentar essa suposição: como se houvesse um saber pronto sobre o desejo, sobre o sofrimento, sobre a vida. Como se o mal-estar pudesse ser traduzido em uma frase clara, objetiva, eficaz.
Mas a psicanálise nasce justamente do fracasso dessas respostas prontas. O inconsciente não é um manual, nem um algoritmo, nem um diagnóstico que resolve o sujeito. Ele insiste, retorna, escapa. A clínica não é o lugar da solução, mas da pergunta que se sustenta.
Ser psicóloga é também confrontar a fantasia social de que quem escuta o sofrimento estaria imune a ele. Como se conhecer a falta fosse o mesmo que escapar dela. Mas o analista não está fora da linguagem, nem fora do desejo, nem fora do mal-estar. Ele apenas ocupa uma posição ética particular diante disso.
Na cultura contemporânea, marcada pelo discurso capitalista, há uma demanda constante por respostas rápidas, eficiência emocional, felicidade mensurável. O sofrimento deve ser eliminado, otimizado, silenciado. O sujeito quer uma técnica, uma frase, um rótulo que feche a pergunta. Quer um saber que dispense o trabalho do inconsciente.
A psicanálise, ao contrário, insiste na falta. Insiste que não há completude, que não há fórmula para o desejo, que não há manual para o sujeito. Ser psicóloga é, muitas vezes, sustentar essa posição impopular: a de que o que dói não se resolve em um post, em um diagnóstico instantâneo, em uma frase motivacional.
Entre a expectativa de respostas e a ética da escuta, a psicóloga ocupa um lugar incômodo. Mas é justamente nesse incômodo que algo do sujeito pode surgir.
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