Ser psicóloga é descobrir que, para muitas pessoas, você nunca está de folga.
Em um churrasco, você não é “a amiga Andréa”, você é o plantão emocional gratuito. Entre a sobremesa e o café, alguém já puxa: - “Posso te contar um negócio… mas é rápido.”
Nunca é rápido.
Todo mundo quer uma análise relâmpago, de preferência sem contexto, sem vínculo e sem pagar. Querem saber por que o ex sumiu, se a sogra é narcisista, se o filho é “um pouco autista”, se o chefe é tóxico, e se o cachorro está com ansiedade de separação. (Sim, já perguntaram.)
Tem também a categoria “me diagnostica aqui, agora”: - “Eu vi um vídeo no TikTok e acho que sou bipolar, TDAH e borderline ao mesmo tempo, o que você acha?”
A pessoa quer um laudo em guardanapo, de preferência com uma frase que resolva a vida inteira.
E há os mais criativos, que acreditam que psicóloga tem superpoderes:
- “Você consegue ler minha mente?”
- “Você está me analisando agora?”
Sim, claro, estou interpretando seu inconsciente enquanto você escolhe a carne do churrasco.
Mas talvez o mais curioso seja a fantasia de que psicóloga não pode errar, não pode cansar, não pode ficar triste, não pode ser humana. Como se estudar o sofrimento nos tornasse imunes a ele. Spoiler: não.
No fundo, acho que essas perguntas estranhas dizem algo bonito: as pessoas querem ser escutadas. Só confundem escuta com consulta gratuita e clínica com conversa de bar.
Ser psicóloga é isso: entre um pedido de conselho amoroso e uma tentativa de diagnóstico instantâneo, a gente segue lembrando que a clínica não cabe em uma frase e o inconsciente não funciona por mensagem no email.
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