Inaugurar um lugar para o sujeito.
Não se trata de abrir um espaço de adaptação, mas de sustentar uma posição no discurso.
A psicanálise, desde Freud e relida por Lacan, nos ensinou que o sujeito não coincide consigo mesmo, que há um resto irredutível ao saber, à norma e à técnica. O inconsciente, estruturado como uma linguagem, fala onde o eu acredita dominar. É a esse ponto de furo no saber que a clínica se dirige.
Este consultório se inaugura em um tempo marcado pelo discurso capitalista, que promete gozo sem limite, transparência total e eficiência constante. Um discurso que transforma o sujeito em consumidor de soluções e o sintoma em defeito a ser eliminado. Contra essa lógica, a psicanálise sustenta que o sintoma é uma invenção singular, uma resposta ao real, e que o gozo não se deixa domesticar por protocolos.
Aqui, a palavra é tomada em sua dimensão ética. Não para normalizar, mas para permitir que algo do desejo possa se dizer. O Nome-do-Pai, enquanto função simbólica, não aparece como norma moral, mas como operador que introduz uma falta, uma lei, uma possibilidade de separação do gozo do Outro. É nessa hiância que o sujeito pode advir.
Abrir este espaço é sustentar um lugar onde o sujeito não seja reduzido ao desempenho, ao diagnóstico ou ao algoritmo. Um lugar onde o gozo possa ser interrogado, onde o sofrimento não seja imediatamente convertido em patologia, e onde a singularidade possa encontrar um endereço.
Que aqui se possa falar do amor e do trabalho, do corpo e da tecnologia, da solidão e do excesso, do laço social e de seus impasses. Que aqui a fala encontre escuta, e o silêncio, tempo.
Este consultório se inaugura como um lugar de resistência ao imperativo de gozar, produzir e se mostrar. Um lugar onde o sujeito pode, talvez, autorizar-se a dizer algo de seu desejo.
É a esse ponto que a psicanálise se dirige.
Andrea Ruas
Psicóloga | Psicanalista
PsiTech – Psicologia, Psicanálise e Tecnologia
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