Mas, afinal, o que é o Bem? E o que chamamos de Mal?
Há uma sombra que habita o humano. Nem sempre a
reconhecemos. Ela se esconde em um sorriso, disfarça-se de razão, veste-se de
orgulho. Manifesta-se na dureza de quem já não consegue sentir a dor do outro.
E há também uma luz. Não das que prometem um mundo sem
sofrimento. É uma luz silenciosa, que insiste em permanecer mesmo quando tudo
parece conspirar contra. E isso me toca: a possibilidade de não sermos, para
sempre, aquilo que a dor fez de nós.
O ser humano é complexo. Há palavras que nunca foram ditas,
ausências que nunca foram elaboradas, feridas que atravessam os anos sem
encontrar lugar. E aquilo que não conseguimos compreender em nós acaba por
transbordar sobre os outros. Ferimos porque fomos feridos; afastamos porque
tememos o abandono; destruímos aquilo que mais desejamos preservar.
Mas a dor, embora explique alguns caminhos, não nos concede
o direito de ferir. Há uma linha tênue entre compreender a história de alguém e
justificar aquilo que essa pessoa faz com a história que carrega.
É nesse intervalo, entre o que nos aconteceu e o que
escolhemos fazer com isso, que existe alguma possibilidade.
A Psicologia me aproxima desse lugar em que eu me encontro
com aquilo que desconheço de mim. Não existe encontro mais difícil. Preciso
abandonar minhas certezas, reconhecer minhas contradições e olhar, sem
disfarces, para as minhas sombras.
É preciso coragem para atravessar esse caminho. Querer
mudar. Enquanto houver disposição para me escutar, uma palavra capaz de me
tocar, um encontro que inaugure outra possibilidade, não posso afirmar que tudo
está perdido.
O Bem, afinal, não é uma virtude distante, reservada aos que
nunca erraram. É, para mim, uma escolha cotidiana: não devolver a violência que
recebemos, não transformar a amargura em destino, não permitir que a crueldade
alheia nos convença de que a ternura é fraqueza.
Conhecendo a escuridão, não faço dela minha morada.
Ninguém se transforma apenas porque foi condenado e ninguém
se transforma simplesmente porque foi amado. A mudança exige um encontro
consigo mesmo, reconhecer os próprios atos e a coragem de responder por eles.
Por isso, quando digo que, enquanto o Bem existir, o Mal tem
cura, não repito uma frase qualquer, não falo de bondade ingênua, incapaz de
reconhecer a crueldade do mundo. Falo da possibilidade de que a última palavra
não pertença àquilo que destrói.
Falo da consciência que desperta, da dor que encontra
linguagem, da mão que interrompe o gesto de ferir, do ser humano que, diante da
sombra, decide não a alimentar.
Ninguém salva ninguém. Mas pode sim recusar a fazer da
indiferença uma defesa ou do mal uma fatalidade. O Bem não precisa vencer o
mundo inteiro para continuar existindo. Basta que sobreviva em nós. No olhar,
na palavra que oferecemos, na dignidade que preservamos, na coragem de não
reproduzir aquilo que um dia nos feriu.
Mesmo depois de tantas sombras, ainda somos capazes de
escolher a luz.
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