Há algum tempo, escrevi um texto chamado A Arquitetura do Enlouquecimento. Para minha surpresa, ele circulou bastante. Foi lido por mais de mil pessoas, o que, para um texto que nasceu quase como uma reflexão pessoal sobre a mente humana, me fez pensar sobre o que havia ali que encontrava eco em quem lia.
Hoje volto a esse texto.
Não para corrigir o que escrevi, mas para olhar novamente para o que escolhi naquela época. A arquitetura continua me parecendo uma metáfora particularmente potente para pensar o sofrimento psíquico. Afinal, ninguém enlouquece em um único cômodo. A mente também tem corredores. Há portas que permanecem fechadas por anos, quartos onde certas lembranças foram guardadas porque, em algum momento, era impossível permanecer diante delas. Há salas que se tornaram grandes demais para uma pessoa ocupar sozinha e outras tão pequenas que mal permitem respirar. Existem janelas pelas quais conseguimos olhar o mundo e outras que foram fechadas para nos proteger dele. E há casas que foram construídas sobre terrenos difíceis.
Cada sujeito chega à vida com uma história que não escolheu. Algumas experiências funcionam como paredes sólidas, oferecendo abrigo e continuidade. Outras deixam rachaduras que atravessam a construção inteira. Há perdas, abandonos, violências, humilhações, rupturas e silêncios que não desaparecem simplesmente porque o tempo passou. Eles permanecem inscritos na arquitetura. Mas o sofrimento não está apenas no que aconteceu. Está também na maneira como precisamos aprender a viver depois que aconteceu.
Uma pessoa pode passar anos tentando sustentar uma casa que já não consegue abrigá-la. Pode reforçar paredes, consertar portas, limpar incessantemente os mesmos cômodos, enquanto evita entrar justamente naquele lugar onde a estrutura começou a ceder.
Muitas vezes, o que chamamos de sintoma é também uma forma encontrada para continuar morando ali. A ansiedade pode ser uma sentinela que nunca abandona a porta. A culpa pode ocupar um quarto inteiro. A necessidade de controle pode funcionar como uma tentativa desesperada de impedir que o teto desabe. O isolamento pode parecer uma escolha quando, por dentro, é uma forma de proteção. A procrastinação, a compulsão, a raiva, a apatia e tantas outras manifestações podem cumprir funções que nem sempre conseguimos enxergar de imediato. Por isso, compreender o sofrimento psíquico exige mais do que perguntar o que está errado.
É preciso perguntar como essa casa foi construída. Quem podia entrar. Quem precisava ficar do lado de fora. Quais portas precisaram ser trancadas. Quais espaços nunca puderam ser ocupados. Onde a pessoa aprendeu a se esconder. E, principalmente, em que momento ela deixou de sentir que aquela casa também poderia ser sua.
Há ainda uma dimensão que me interessa particularmente: a arquitetura não é construída apenas de dentro para fora. Vivemos em estruturas sociais que também organizam nossos espaços internos. Família, trabalho, relações, gênero, sexualidade, desempenho, produtividade, expectativas e tantas outras exigências participam silenciosamente dessa construção. O mundo externo também pode nos ensinar quais cômodos podemos ocupar e quais devemos abandonar.
Algumas pessoas passam a vida tentando caber em casas projetadas por outras pessoas.
E isso tem um custo. Talvez uma das tarefas mais importantes de um processo analítico seja justamente permitir que o sujeito comece a reconhecer a arquitetura que recebeu e, a partir daí, possa decidir o que deseja conservar, o que precisa reconstruir e o que já não precisa mais sustentar.
Não se trata de demolir tudo. Há partes da construção que foram fundamentais para sobreviver. Defesas que um dia foram necessárias. Estratégias que protegeram quando não havia outra possibilidade. O que um adulto pode reconhecer como limitante muitas vezes foi, em outro momento da vida, aquilo que tornou possível continuar.
Por isso, a clínica não deveria tratar essas estruturas tentando categorizá-las. É preciso escutá-las. Há uma diferença importante entre desmontar uma defesa e compreender por que ela precisou existir. E é aí que a arquitetura deixa de ser apenas uma imagem do enlouquecimento e passa a ser também uma imagem da análise.
Entramos na casa com cuidado. Percorremos corredores conhecidos e desconhecidos. Abrimos algumas portas. Encontramos objetos esquecidos. Descobrimos cômodos que nunca haviam sido nomeados. Algumas paredes precisam permanecer. Outras podem ganhar uma passagem. Há janelas que podem ser abertas depois de muitos anos. E, pouco a pouco, a pessoa pode começar a perceber que não é apenas aquilo que aconteceu com ela. Ela também é quem pode construir alguma coisa a partir disso.
Volto hoje ao texto que escrevi há alguns anos com a sensação de que a metáfora permanece, mas ganhou outras camadas. O enlouquecimento não me parece apenas o momento em que a arquitetura interna entra em colapso. Ele também pode ser compreendido como o ponto em que uma construção deixa de comportar a vida que precisa acontecer dentro dela.
Nesse sentido, o trabalho não é simplesmente voltar a uma suposta normalidade.
É construir condições para habitar a própria vida.
E é bem difícil: não apenas encontrar um lugar no mundo, mas sentir que se tem o direito de ocupar esse lugar.
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