Quero escrever sobre a minha posição de analista (uso a
abordagem psicanalítica), quero dizer sobre como entramos com o nosso corpo na
sessão. Às vezes ele pesa, às vezes se agita, às vezes parece querer escapar.
Há sono, inquietação, cansaço, atenção, presença. E há aquilo que ainda não
sabemos nomear.
Casos muito complicados, casos triviais, problemas disfarçados
de objetos, discursos, alguns tímidos ao extremo, outros em que não se consegue
interromper, dada a eloquência da fala e a ininterrupção. Mulheres, homens,
adolescentes, crianças. Concretos como as crianças, abstratos como outros.
Céticos e crédulos.
E você ali, no lugar de suposto saber. Um lugar que o outro
lhe oferece. Você tem conhecimento, estudo, experiência, está muito preparada,
mas, naquela sessão, precisa suspender a tentação de saber de antemão. O saber,
se vier, não é exatamente seu. É algo que se constrói ali, na fala do outro,
entre aquilo que ele diz e aquilo que ainda não sabe que está dizendo.
E, ainda assim, você está ali, no lugar de suposto saber.
Totalmente atravessada pelo outro, desconectada da sua própria história, colocando seu conhecimento em
suspensão, para estar ali. Com o seu inconsciente. Atenção flutuante e muita
cobrança. Lembrando da sua própria análise e do que vai encontrar na
supervisão.
Onde há um embaralhamento, o certo é errado, o errado é
certo e não tem certo e errado. É o que é. Ouvi a supervisora dizer que quem
sabe é quem ali estava e, portanto, sou detentora de um saber que tenho e não
sei que tenho.
Nos intervalos, vários relatórios e análises. E ainda mais
leitura. Você vai se cercando de montanhas de livros, artigos, anotações,
palavras sublinhadas, páginas marcadas para voltar depois. E, quanto mais lê,
maior parece ser o território que falta conhecer. Uma palavra leva a outra, um
autor a outro, uma pergunta abre uma passagem e, quando você percebe, já está
longe de onde começou. Lê para compreender o que ouviu e, às vezes, para
suportar o que não compreendeu. Lê e encontra alguma coisa que ilumina, outra
que confunde, outra que desmente aquilo que você acreditava ter entendido. E
então volta. À análise, à supervisão, ao livro, à sessão. Como se houvesse
sempre alguma coisa prestes a se revelar e, ao mesmo tempo, alguma coisa que
precisasse permanecer sem nome. Você vai se construindo nesse movimento, entre
o que sabe e o que não sabe, entre o que pensa ter entendido e aquilo que
insiste em escapar. E continua lendo.
A vida vai mudando bruscamente. E eu, que venho de uma
carreira anterior, em exatas, justamente na área de que hoje me afasto,
devaneio em algumas comparações. É curioso olhar para trás e perceber o quanto
atravessei. Como se tivesse caminhado até o outro lado, para um lugar quase
oposto. Antes, tão perto de certezas, de resultados, de respostas. Hoje, tão
perto daquilo que escapa, do que não se resolve, do que precisa permanecer em
suspenso. Às vezes penso na pessoa que eu era ali e na que sou aqui e parece
que não são exatamente a mesma. Mas são. E me intriga: como se chega tão longe
e ainda se é a mesma, embora tudo pareça tão diferente.
E quanto o paciente me diz que lembrou do que eu disse,
quando ele volta para beber mais na fonte do seu próprio inconsciente, aumenta
a pressão, aumenta a autocobrança, você se questiona. Na verdade, estamos juntos
atravessando os fantasmas. Entre o real, o simbólico e o imaginário.
A realidade do paciente vai surgindo e a sua realidade fica
ali, sem lugar. E você vai, não querendo psicoeducar, mas já psicoeducando. Não
exatamente como ele espera. Você não responde, devolve a pergunta. O paciente
vai associando. Entre a demanda e a escuta. Entre aquilo que o paciente espera,
aquilo que pretende que você faça e aquilo que, inevitavelmente, você acaba
fazendo.
E depois você se atém ao seu olhar, ao seu sentido, ao que
aconteceu ali, ora sem palavras mesmo para nomear, ora nítido como a luz. E,
ainda assim, você desconfia daquilo que pareceu tão claro. Daquilo que você
pensou ter visto.
É uma profissão perigosa. Sim. Acredito nisso. E sempre me
pergunto: perigosa para quem? Para o analista? Para o paciente? Para o
narcisismo? Para as certezas? É uma profissão solitária também e, ao mesmo
tempo, lotada de pensadores e autores, de abordagens. Lendo, lendo e lendo. Se
construindo e desconstruindo.
E quando termina o dia, após várias sessões, já em casa, já
em outros papéis, você quer se recolher. Não cabe mais nada. O silêncio é
necessário. Mas não seria justo com os seus, que chegam falando muito, te
solicitam, te buscam. E você está ali, querendo estar e também querendo
desaparecer um pouco. Eles chegam com a vida que continua, e você ainda
tentando sair de tantas outras vidas que passaram por você.
Você se olha e se pergunta se é uma farsa ou se realmente é
sua escolha, é o seu desejo. Se haver com meu desejo. Comecei assim e estou aí
nesse ponto, me havendo com ele, dia após dia, entre arrependimentos e
comemorações. Me sentindo abençoada por ter "vencido na vida" e estar
podendo estar aqui e, ora, me lamentando pela falta de raciocínio crítico e por
uma idealização gigante, por ser tão idealista de achar que desejo é para ser
vivido em intensidade. Custe o que custar.
Sabendo que dinheiro não compra tudo. Mas igualmente me
havendo com a falta dele.
Complicado demais.