Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

quinta-feira, 19 de março de 2026

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Muitas pessoas chegam até mim dizendo que estão cansadas, mas não é um cansaço físico apenas.

É uma sensação constante de estar devendo, de nunca ser suficiente, mesmo quando fazem tudo o que precisam.

Por fora, a vida segue: trabalho, responsabilidades, rotina.
Por dentro, algo não se acalma.

A mente não para.
O descanso não vem.
E, aos poucos, tudo começa a pesar.

Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso que não encontra lugar no dia a dia.
Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você possa falar e, a partir disso, escutar algo do que está em jogo na sua própria história.

Atendo pessoas que lidam com ansiedade, excesso de cobrança interna, dificuldade de se desligar do trabalho e essa sensação persistente de insuficiência.

Se algo disso te toca, você pode me escrever.
Podemos começar por uma conversa.

sábado, 14 de março de 2026

A cura que não promete cura!

Na tradição médica, a cura costuma ser pensada como a eliminação de um sintoma, o restabelecimento de um funcionamento considerado normal ou o retorno a um estado anterior de equilíbrio. A psicanálise, desde seu nascimento com Sigmund Freud, desloca profundamente essa concepção. O sintoma, para a psicanálise, não é apenas um erro do organismo ou uma disfunção a ser corrigida. Ele é uma formação de compromisso, uma solução singular que o sujeito encontrou para lidar com aquilo que, em sua história, não pôde ser plenamente simbolizado.

Por isso, falar de cura em psicanálise exige cautela. Não se trata de apagar o sintoma como quem remove um defeito técnico. A experiência analítica mostra que o sintoma é também portador de sentido, ainda que esse sentido não esteja imediatamente disponível à consciência. Ele fala de uma história, de um desejo, de uma posição subjetiva diante do outro e do mundo. Nesse ponto, a psicanálise introduz uma diferença fundamental em relação aos modelos terapêuticos centrados na adaptação ou na normalização.

Para Jacques Lacan, o inconsciente não é apenas um reservatório de conteúdos reprimidos, mas uma estrutura que se manifesta na linguagem. O sujeito fala, e ao falar diz sempre mais do que pretende dizer. Na análise, o trabalho não consiste em fornecer respostas ou soluções prontas, mas em sustentar um espaço onde algo do inconsciente possa emergir na palavra. O que se transforma, portanto, não é apenas o sintoma em si, mas a relação que o sujeito estabelece com ele.

Freud já indicava algo dessa lógica ao falar de uma “transformação da miséria neurótica em infelicidade comum”. Essa formulação, frequentemente mal compreendida, não significa resignação diante do sofrimento, mas um deslocamento da posição subjetiva. A análise não promete uma vida sem conflito. Ela permite, no entanto, que o sujeito deixe de estar completamente capturado por repetições inconscientes que se impõem sem possibilidade de elaboração.

Nesse sentido, a cura analítica não pode ser pensada como um ponto final ou como um estado de completude. A psicanálise parte justamente do reconhecimento de que o sujeito é estruturalmente marcado por uma falta. Não há sujeito pleno, totalmente reconciliado consigo mesmo. O desejo humano se organiza em torno dessa falta constitutiva, e é ela que também sustenta o movimento da vida psíquica.

Talvez seja por isso que a cura, em psicanálise, apareça menos como um resultado técnico e mais como uma experiência subjetiva de deslocamento. Algo muda quando o sujeito pode se escutar de outra maneira. Quando aquilo que antes aparecia apenas como sofrimento opaco começa a ganhar contornos de narrativa, de história, de sentido possível.

Há um momento na análise em que algo da própria vida pode ser retomado não apenas como uma sucessão de acontecimentos, mas como uma trama singular que merece ser dita. Quando o sujeito se autoriza a falar de sua história sem a necessidade de encaixá-la em modelos ideais de vida ou de normalidade, algo se transforma em sua posição diante de si mesmo.

Talvez não exista cura no sentido clássico da palavra. A psicanálise não promete apagar o mal-estar que acompanha a condição humana. Mas quando alguém pode reconhecer que sua história, com suas rupturas, impasses e contradições, é digna de ser escutada e contada, algo fundamental já se deslocou.

Nesse ponto, a cura deixa de ser a eliminação do sofrimento e passa a ser a possibilidade de habitar a própria história de outra maneira. Porque, muitas vezes, o que estava em jogo não era apenas o sintoma, mas a impossibilidade de encontrar um lugar para aquilo que, na própria vida, insistia em permanecer sem palavra.

Minha travessia da tecnologia à psicologia!

Há mudanças na vida que não acontecem de forma abrupta. Elas vão sendo gestadas lentamente, quase em silêncio, até que um dia encontram uma forma concreta de existir. Receber minha inscrição no Conselho Regional de Psicologia marca justamente esse ponto de passagem. Um momento em que um percurso interno se torna também uma realidade profissional.

Durante muitos anos, minha vida esteve ligada à tecnologia. Atuei como Analista de Sistemas em empresas de diferentes setores, participando de projetos, lidando com estruturas complexas, processos, dados, prazos e soluções técnicas. O trabalho exigia raciocínio lógico, organização e a capacidade de compreender sistemas que, embora invisíveis para muitos, sustentam grande parte do funcionamento das organizações contemporâneas. Havia algo fascinante na ideia de mapear um problema, compreender sua estrutura e construir caminhos para que ele funcionasse melhor.

A tecnologia trabalha com arquiteturas. Sistemas são compostos por partes que se conectam, trocam informações e produzem resultados. Uma pequena alteração em um ponto pode gerar efeitos em toda a estrutura. Com o tempo, percebi que algo semelhante também acontecia no campo humano, ainda que de forma muito mais complexa e imprevisível. As pessoas também são atravessadas por histórias, relações, conflitos, desejos e experiências que se entrelaçam como uma espécie de rede invisível.

Foi dessa percepção que nasceu, pouco a pouco, meu interesse pela psicologia. Se no universo da tecnologia buscamos compreender a lógica dos sistemas, na psicologia buscamos escutar algo da lógica singular de cada sujeito. Enquanto o sistema tecnológico busca estabilidade e previsibilidade, a vida psíquica é marcada justamente pelo que escapa, pelo que não se encaixa perfeitamente, pelo que insiste em se repetir sem uma explicação imediata.

A passagem da tecnologia para a psicologia não foi uma ruptura, mas uma travessia. Um deslocamento de olhar. Antes eu trabalhava com sistemas construídos para funcionar de forma eficiente. Agora me dedico a escutar sujeitos que muitas vezes chegam justamente quando algo deixou de funcionar como antes em suas vidas. No lugar de códigos e arquiteturas digitais, encontro histórias, afetos, impasses e perguntas que não possuem respostas prontas.

Se na tecnologia o objetivo costuma ser corrigir falhas e otimizar processos, na clínica psicológica o trabalho é de outra ordem. Não se trata de consertar pessoas, mas de criar um espaço onde algo de sua própria experiência possa ser escutado e elaborado. O sofrimento humano raramente se apresenta como um erro técnico que precisa ser eliminado. Ele carrega sentidos, histórias e marcas que fazem parte da trajetória de cada sujeito.

A experiência anterior no campo tecnológico também me permite olhar com atenção para o mundo em que vivemos hoje. A tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ocupar um lugar central na forma como nos relacionamos, trabalhamos, pensamos e nos percebemos. Redes sociais, conectividade permanente, inteligência artificial e transformações digitais produzem impactos profundos na subjetividade contemporânea. Compreender essa intersecção entre psicologia e tecnologia tornou-se parte importante do meu percurso.

Receber a inscrição profissional como psicóloga não significa abandonar o caminho anterior, mas reconhecer que ele também faz parte da construção do que sou hoje. Cada experiência vivida, cada projeto desenvolvido e cada encontro ao longo dos anos compõem a história que me trouxe até aqui.

Agora se abre uma nova etapa. Uma etapa marcada pela escuta clínica, pelo encontro com diferentes histórias e pela possibilidade de acompanhar pessoas em seus processos de reflexão e transformação. A clínica não é um lugar de certezas absolutas, mas um espaço onde perguntas podem ser sustentadas e elaboradas com cuidado.

Talvez seja justamente isso que une, de forma inesperada, esses dois mundos que marcaram minha trajetória. Tanto na tecnologia quanto na psicologia existe um interesse profundo em compreender estruturas, conexões e processos. A diferença é que, na clínica, o que está em jogo não é apenas o funcionamento de um sistema, mas a singularidade de uma vida.

Hoje, ao iniciar oficialmente minha atuação como psicóloga, tenho a sensação de que essa mudança não representa apenas um novo título profissional. Ela simboliza um movimento mais amplo de escuta, curiosidade e abertura para a complexidade da experiência humana. Um caminho que começou há muito tempo e que agora encontra sua forma de se concretizar.

A vida adulta está longe de ser um tempo de respostas prontas.

A vida adulta costuma ser vista como o momento em que tudo deveria estar resolvido. Espera-se que o adulto saiba o que quer, tenha clareza sobre suas escolhas, controle suas emoções e consiga lidar com as responsabilidades da vida cotidiana.

Mas a experiência mostra que a vida adulta está longe de ser um tempo de respostas prontas.

É justamente nesse período que muitas pessoas se veem atravessadas por diferentes exigências: trabalho, relações afetivas, família, responsabilidades financeiras, expectativas sociais e projetos de vida. Ao mesmo tempo em que se constrói uma trajetória, surgem também dúvidas, conflitos e momentos de impasse.

Muitas pessoas chegam à vida adulta com a sensação de que precisam dar conta de tudo. Ser produtivo, bem-sucedido, emocionalmente estável, presente nas relações e capaz de responder rapidamente às demandas do mundo. Porém, por trás dessa expectativa de controle, frequentemente existem cansaço, ansiedade, insegurança e a sensação de que algo não está exatamente no lugar.

Nem sempre é fácil falar sobre isso.

Na rotina acelerada da vida adulta, muitas vezes os espaços de escuta vão se tornando cada vez mais raros. Conversas acabam sendo rápidas, superficiais ou atravessadas pelas urgências do cotidiano. Com o tempo, sentimentos importantes podem acabar sendo silenciados ou adiados indefinidamente.

A psicologia pode oferecer um espaço diferente.

Um espaço onde o sujeito pode falar sobre sua própria experiência sem precisar corresponder a expectativas externas. Um lugar onde questões relacionadas ao trabalho, às relações afetivas, à família, à identidade, ao desejo e às escolhas de vida podem ser pensadas com mais profundidade.

Na clínica psicológica, não se trata apenas de resolver problemas imediatos, mas de compreender como cada pessoa se relaciona com sua própria história, com seus conflitos e com as decisões que atravessam seu caminho.

Vivemos também em uma época marcada por transformações rápidas, especialmente no mundo do trabalho e da tecnologia. A conectividade constante, as novas formas de organização profissional, o trabalho remoto, as redes sociais e o fluxo contínuo de informações criam um cenário em que as fronteiras entre vida pessoal e profissional muitas vezes se tornam difusas.

Esse contexto pode gerar novas possibilidades, mas também novas formas de pressão e exigência subjetiva. Muitas pessoas sentem dificuldade em se desconectar, em encontrar tempo para si mesmas ou em compreender o impacto dessas transformações na própria vida emocional.

Pensar sobre essas experiências também faz parte do trabalho psicológico.

A análise e a psicoterapia não oferecem respostas prontas nem modelos de vida a seguir. Elas criam um espaço onde o sujeito pode escutar algo de si mesmo, compreender melhor sua posição diante da própria história e, a partir daí, encontrar caminhos mais próprios para viver.

A vida adulta não precisa ser apenas um lugar de obrigações e respostas automáticas. Ela também pode ser um momento de reflexão, elaboração e transformação.

Porque, mesmo quando tudo parece estar funcionando por fora, muitas vezes ainda existem perguntas importantes esperando para serem escutadas.

A infância é um período intenso de desenvolvimento emocional.

A infância costuma ser lembrada como um tempo de leveza, brincadeiras e descobertas. E, de fato, é uma fase cheia de imaginação, curiosidade e aprendizado. É quando o mundo começa a ganhar forma: as primeiras amizades, as experiências na escola, as perguntas sobre tudo o que existe ao redor.

Mas a infância também é um período intenso de desenvolvimento emocional.

As crianças estão aprendendo a lidar com sentimentos, frustrações, medos, perdas e mudanças. Muitas vezes ainda não possuem palavras suficientes para explicar o que estão sentindo. Por isso, aquilo que acontece dentro delas aparece de outras maneiras: no comportamento, nas brincadeiras, nos desenhos, no corpo ou nas relações com os outros.

Uma criança pode ficar mais quieta, mais irritada, apresentar dificuldades na escola, medo de separação, dificuldades para dormir ou mudanças repentinas de comportamento. Nem sempre esses sinais significam apenas uma fase passageira. Muitas vezes são formas de expressar algo que ainda não conseguiu ser dito em palavras.

Na psicologia, a infância é compreendida como um momento fundamental na constituição da subjetividade. É nesse período que a criança começa a construir sua forma de se relacionar com o mundo, com os outros e consigo mesma. As experiências vividas nessa fase ajudam a formar a base emocional que acompanhará o sujeito ao longo da vida.

Por isso, quando uma criança encontra um espaço de escuta, algo importante pode acontecer.

Na clínica psicológica infantil, a criança não precisa “explicar” tudo o que sente da maneira como um adulto faria. O brincar, os jogos, os desenhos e as histórias também fazem parte da linguagem da criança. Através dessas formas de expressão, ela pode mostrar seus medos, seus conflitos, suas fantasias e suas perguntas sobre o mundo.

O atendimento psicológico infantil é, antes de tudo, um espaço de cuidado e compreensão da experiência da criança.

Hoje, as crianças também crescem em um mundo profundamente atravessado pela tecnologia. Tablets, celulares, jogos digitais, vídeos e redes sociais fazem parte do cotidiano de muitas famílias. Esse universo pode trazer aprendizado, criatividade e novas formas de interação, mas também levanta questões importantes sobre atenção, limites, relações e desenvolvimento emocional.

Pensar sobre como a infância se constrói nesse cenário contemporâneo também faz parte do trabalho psicológico.

Crescer é um processo complexo, cheio de descobertas e desafios. Quando uma criança encontra um espaço onde pode ser escutada e compreendida, ela ganha a possibilidade de elaborar seus sentimentos, desenvolver recursos emocionais e fortalecer sua forma própria de estar no mundo.

Porque, mesmo quando ainda não encontra as palavras, toda criança tem algo a dizer sobre aquilo que vive e sente.

O envelhecimento é uma etapa importante da vida!

O envelhecimento é uma etapa importante da vida e, muitas vezes, também uma das menos faladas quando se trata de emoções, desejos e subjetividade.

Existe uma ideia comum de que, ao chegar à velhice, a pessoa já viveu tudo o que precisava viver. Como se as grandes transformações já tivessem ficado para trás. Como se as perguntas sobre a vida, sobre o sentido das coisas ou sobre si mesmo deixassem de existir.

Mas a experiência mostra que não é assim.

Envelhecer também traz mudanças profundas. Mudanças no corpo, no ritmo da vida, nas relações, nas atividades do cotidiano. Muitas vezes chegam também transformações importantes na família, aposentadoria, mudanças na rotina, perdas, despedidas ou a necessidade de reinventar o próprio lugar no mundo.

Algumas dessas mudanças podem ser vividas com tranquilidade. Outras, porém, despertam sentimentos difíceis de nomear: solidão, sensação de vazio, saudade, medo do futuro ou a impressão de que a vida perdeu parte do seu movimento.

Em muitos casos, o sofrimento nessa fase da vida acaba sendo silenciado. Existe uma expectativa social de que a pessoa mais velha deve ser sempre forte, compreensiva, resignada. Muitas vezes ela se torna aquela que escuta todos, que cuida dos outros, que sustenta a família emocionalmente. No entanto, nem sempre existe um espaço onde ela própria possa falar sobre o que sente.

A psicologia pode ser justamente esse espaço.

Um lugar de escuta onde a história de vida pode ser contada, lembrada e também ressignificada. Um espaço onde é possível falar sobre perdas, transformações, dúvidas e desejos, sem julgamento e sem a expectativa de que certas questões já deveriam estar resolvidas.

A velhice não é apenas um tempo de perdas. Ela também pode ser um momento de elaboração, de reflexão e de construção de novos sentidos para a própria história. Muitas pessoas encontram nesse período uma oportunidade de olhar para a própria trajetória com mais profundidade, de compreender experiências passadas e de se reposicionar diante da vida.

Hoje, vivemos também em um mundo que muda rapidamente, especialmente por causa da tecnologia. Novas formas de comunicação, redes sociais, aplicativos, inteligência artificial e transformações digitais fazem parte do cotidiano. Para muitas pessoas mais velhas, isso pode despertar curiosidade, interesse e aprendizado; para outras, pode gerar estranhamento ou sensação de distância em relação às novas gerações.

Pensar sobre essas mudanças também faz parte da experiência de viver no mundo contemporâneo.

A psicologia não é apenas um recurso para momentos de crise. Ela pode ser um espaço de reflexão, de cuidado consigo mesmo e de valorização da própria história.

Cada vida carrega experiências únicas, atravessadas por escolhas, encontros, perdas e transformações. Poder falar sobre essa trajetória, dar novos sentidos ao que foi vivido e continuar elaborando a própria história é algo que não tem idade.

Porque, em qualquer momento da vida, ainda há muito a ser dito, pensado e compreendido sobre si mesmo.

A adolescência é um tempo intenso.

Muita coisa está acontecendo ao mesmo tempo: mudanças no corpo, nas amizades, na relação com a família, nas expectativas sobre o futuro. É uma fase em que muitas perguntas aparecem, algumas que nunca tinham sido feitas antes.

Quem sou eu? O que esperam de mim? Onde eu me encaixo? Por que às vezes me sinto tão diferente dos outros?

Ao mesmo tempo, a adolescência de hoje acontece em um mundo muito particular. Um mundo conectado o tempo todo. As redes sociais mostram vidas aparentemente perfeitas, opiniões aparecem a todo momento, comparações são quase inevitáveis. Às vezes parece que é preciso ter uma resposta rápida para tudo, ter uma opinião formada, saber exatamente quem se é, quando, na verdade, esse é justamente o momento da vida em que muitas coisas ainda estão sendo descobertas.

Nem sempre é fácil lidar com isso.

Muitos adolescentes experimentam ansiedade, insegurança, medo de errar, pressão para corresponder às expectativas da escola, da família ou dos amigos. Outros vivem sentimentos difíceis de nomear: um incômodo constante, uma sensação de não pertencimento, uma tristeza que aparece sem motivo claro, ou simplesmente a impressão de que ninguém entende realmente o que está acontecendo por dentro.

Às vezes também existe a vontade de falar, mas não se sabe exatamente para quem. Nem sempre é simples conversar com os pais. Com os amigos, muitas vezes as conversas ficam na superfície. E nem todo mundo se sente à vontade para mostrar vulnerabilidade.

A psicologia existe justamente para criar um espaço diferente.

Um espaço onde é possível falar livremente, sem julgamento e sem a pressão de ter que dar respostas certas. Um espaço onde dúvidas, conflitos, angústias e perguntas podem aparecer do jeito que são. Na psicologia, não se espera que o adolescente já saiba quem é ou quem quer ser. Pelo contrário: é justamente o lugar onde essas perguntas podem começar a ser pensadas.

A adolescência não é apenas um período de transição entre infância e vida adulta. É um momento importante de construção da própria identidade, de descoberta do desejo, de experimentação de caminhos e possibilidades. Muitas vezes, aquilo que parece confuso ou difícil faz parte justamente desse processo de se tornar sujeito da própria história.

Vivemos também em uma geração profundamente marcada pela tecnologia. A internet, os jogos, os aplicativos, a inteligência artificial, os conteúdos que circulam nas redes, tudo isso influencia a forma como os jovens se relacionam, aprendem, se informam e constroem sua própria imagem. O mundo digital pode aproximar pessoas, criar comunidades e abrir possibilidades, mas também pode gerar comparação constante, excesso de estímulos, cobranças invisíveis e uma sensação de que nunca se é suficiente.

Pensar sobre essas experiências também faz parte do trabalho psicológico.

A psicologia não é um lugar apenas para momentos de crise. Muitas vezes ela é simplesmente um espaço para entender melhor a própria vida, para organizar pensamentos, para dar palavras a sentimentos que ainda não encontraram forma.

Crescer não significa ter todas as respostas.

Significa poder fazer perguntas.

E, às vezes, ter um espaço onde essas perguntas podem ser escutadas faz toda a diferença.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

🧠 Anorexia e obesidade: dois lados do mesmo impasse?

À primeira vista, anorexia e obesidade parecem posições opostas. Em uma, há recusa da comida; na outra, excesso. No entanto, do ponto de vista da psicanálise, essas manifestações podem ser pensadas como respostas distintas a questões semelhantes que atravessam o sujeito: a relação com o corpo, com o desejo, com o olhar do Outro, com o gozo e com o controle.

Para a psicanálise, o corpo não é apenas um organismo biológico. Ele é também um corpo marcado pela linguagem, pela história e pelas relações que constituem o sujeito. É um corpo atravessado pelo olhar do outro, por expectativas, afetos e significações. Assim, tanto na anorexia quanto na obesidade, o corpo pode tornar-se um lugar onde algo que não encontra palavras se inscreve. Na anorexia, ele pode aparecer como lugar de recusa, de privação e de tentativa de controle, uma forma de dizer “não” a certas demandas. Na obesidade, pode tornar-se um lugar de excesso, uma tentativa de preenchimento, um modo de lidar com algo que se apresenta como vazio. Em ambos os casos, não se trata apenas de comida.

A partir de Lacan, é possível pensar esses quadros também pela via do gozo, uma forma de satisfação que ultrapassa a lógica do bem-estar e que, muitas vezes, se aproxima do sofrimento. Na anorexia, o gozo pode se articular ao controle, à restrição e à recusa. Na obesidade, pode aparecer ligado ao excesso, à repetição e à tentativa de tamponar algo que falta. São, portanto, modos diferentes de responder à falta, ao desejo e à relação com o próprio corpo.

Essas questões também não podem ser separadas do contexto cultural em que vivemos. A cultura contemporânea exige controle constante do corpo, promove ideais de perfeição quase inalcançáveis, associa felicidade ao consumo e frequentemente responsabiliza o indivíduo por seu sofrimento. Nesse cenário, tanto a anorexia quanto a obesidade podem ser compreendidas como formas de resposta a esse discurso social, cada uma à sua maneira. Nenhuma delas se reduz a uma simples questão de disciplina, força de vontade ou vaidade.

Na clínica, a psicanálise não coloca anorexia e obesidade em uma escala moral. Em vez de julgar ou normatizar, ela se orienta por perguntas: o que esse corpo está dizendo? O que está em jogo nessa relação com o comer? Qual é a história singular desse sujeito? O trabalho analítico não busca apenas normalizar comportamentos ou corpos, mas abrir um espaço de palavra onde o sujeito possa elaborar sua relação com o desejo, com o corpo e com aquilo que lhe falta.

Nesse sentido, anorexia e obesidade não são apenas opostos na balança; muitas vezes são respostas distintas a um mesmo impasse com o corpo, o desejo e a falta.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Lacan vs Jung: a ética da falta vs. a ética da totalidade

A história da psicanálise é também a história de suas rupturas. Entre as mais decisivas, está a separação entre Freud e Jung e, posteriormente, a leitura radical que Lacan faz dessa cisão. Enquanto Jung constrói uma psicologia orientada para a totalidade, Lacan insiste em uma ética da falta, do furo, da não completude. Este ensaio propõe uma leitura crítica dessa oposição e suas implicações clínicas e culturais, especialmente no contexto contemporâneo, em que o discurso da integração e do propósito domina o campo da saúde mental.

Jung e a ética da totalidade: individuação e sentido - Jung propõe que o trabalho analítico vise a individuação, isto é, a integração progressiva das instâncias psíquicas em uma totalidade coerente. O inconsciente, em sua teoria, não é apenas pessoal, mas também coletivo, estruturado por arquétipos universais que atravessam culturas e épocas. O sintoma, nesse quadro, é frequentemente interpretado como uma mensagem simbólica que aponta para um processo de integração ainda não realizado. A clínica junguiana, assim, tende a uma hermenêutica do sentido: sonhos, mitos e narrativas são ampliados simbolicamente, buscando revelar um "telos", uma direção para a psique, trata-se de uma ética que aposta na reconciliação do sujeito consigo mesmo, na construção de uma unidade psíquica que faça sentido existencial.

Para Jung, telos (do grego télos, que significa "fim", "objetivo" ou "propósito") é a finalidade inerente, o sentido ou o "propósito" que dirige o desenvolvimento psíquico humano. Diferente da abordagem freudiana, que é frequentemente causal (busca a causa no passado), a psicologia analítica de Jung é fortemente teleológica, focando no "para que" um sintoma, sonho ou comportamento existe e para onde a psique está caminhando.

Lacan e a ética da falta: sujeito dividido e desejo - Lacan, ao reler Freud, recusa qualquer ideal de totalidade. O sujeito da psicanálise é estruturalmente dividido ($), atravessado pela linguagem e pela falta. O inconsciente, longe de ser um reservatório de símbolos universais, é estruturado como uma linguagem, tecido por significantes singulares que emergem da história do sujeito.  A ética lacaniana não busca integrar, mas sustentar a falta como condição do desejo. Não há individuação plena, nem síntese final. O sujeito se constitui em torno de um furo, a castração, que nenhuma narrativa simbólica pode suturar. A interpretação analítica, nesse contexto, não oferece sentido totalizante; ela opera cortes na cadeia significante, produzindo deslocamentos e novas posições subjetivas.

A diferença entre Jung e Lacan não é apenas teórica, mas profundamente ética.

Jung orienta a clínica para a integração e para a construção de sentido. O analista frequentemente ocupa o lugar de intérprete dos símbolos universais da psique.

Lacan orienta a clínica para a implicação subjetiva diante da falta. O analista sustenta uma posição de não-saber, recusando a oferta de sentido pleno.

Enquanto a ética junguiana tende a apaziguar o conflito pela via da síntese simbólica, a ética lacaniana sustenta o conflito como motor do desejo.

O jungianismo cultural contemporâneo - O discurso contemporâneo do autoconhecimento, do propósito, dos arquétipos e da espiritualidade corporativa ressoa fortemente Jung. Na cultura digital e no mercado de saúde mental, proliferam narrativas de integração do self, de alinhamento interior e de realização total. Sob a lente lacaniana, esse movimento pode ser lido como uma tentativa imaginária de suturar a falta estrutural, transformando-a em projeto de completude.

O discurso capitalista, como formalizado por Lacan, opera precisamente nesse curto-circuito: promete um gozo sem falta, uma subjetividade sem furo, um self plenamente realizado. A ética lacaniana, ao contrário, insiste na impossibilidade dessa promessa.

Jung oferece uma psicologia do sentido; Lacan, uma ética da falta. Jung busca a unidade; Lacan insiste na divisão. Jung propõe a reconciliação; Lacan sustenta o desencaixe como condição do desejo. Em um mundo que promete integração, performance e felicidade contínua, a psicanálise lacaniana permanece como um discurso radicalmente contracultural: ela afirma que não há totalidade, que o sujeito é atravessado pela falta e que é justamente aí que se joga a ética do desejo.

Andrea Ruas – Psicologia e Tecnologia (PsiT.ech)

Dá-lhe psicanálise!

Ser psicóloga é ocupar um lugar estranho no laço social.

Um lugar onde o Outro supõe saber, supõe resposta, supõe cura. No cotidiano, isso aparece em pequenas cenas banais: alguém pede um conselho amoroso, um diagnóstico improvisado, uma interpretação rápida de um sofrimento complexo. O sujeito dirige sua pergunta não exatamente à pessoa, mas à função que ela encarna.

Lacan chamou isso de sujeito suposto saber. A psicóloga, fora do consultório, é frequentemente convocada a sustentar essa suposição: como se houvesse um saber pronto sobre o desejo, sobre o sofrimento, sobre a vida. Como se o mal-estar pudesse ser traduzido em uma frase clara, objetiva, eficaz.

Mas a psicanálise nasce justamente do fracasso dessas respostas prontas. O inconsciente não é um manual, nem um algoritmo, nem um diagnóstico que resolve o sujeito. Ele insiste, retorna, escapa. A clínica não é o lugar da solução, mas da pergunta que se sustenta.

Ser psicóloga é também confrontar a fantasia social de que quem escuta o sofrimento estaria imune a ele. Como se conhecer a falta fosse o mesmo que escapar dela. Mas o analista não está fora da linguagem, nem fora do desejo, nem fora do mal-estar. Ele apenas ocupa uma posição ética particular diante disso.

Na cultura contemporânea, marcada pelo discurso capitalista, há uma demanda constante por respostas rápidas, eficiência emocional, felicidade mensurável. O sofrimento deve ser eliminado, otimizado, silenciado. O sujeito quer uma técnica, uma frase, um rótulo que feche a pergunta. Quer um saber que dispense o trabalho do inconsciente.

A psicanálise, ao contrário, insiste na falta. Insiste que não há completude, que não há fórmula para o desejo, que não há manual para o sujeito. Ser psicóloga é, muitas vezes, sustentar essa posição impopular: a de que o que dói não se resolve em um post, em um diagnóstico instantâneo, em uma frase motivacional.

Entre a expectativa de respostas e a ética da escuta, a psicóloga ocupa um lugar incômodo. Mas é justamente nesse incômodo que algo do sujeito pode surgir.

Ser psicóloga

Ser psicóloga é descobrir que, para muitas pessoas, você nunca está de folga.

Em um churrasco, você não é “a amiga Andréa”, você é o plantão emocional gratuito. Entre a sobremesa e o café, alguém já puxa: - “Posso te contar um negócio… mas é rápido.”
Nunca é rápido.

Todo mundo quer uma análise relâmpago, de preferência sem contexto, sem vínculo e sem pagar. Querem saber por que o ex sumiu, se a sogra é narcisista, se o filho é “um pouco autista”, se o chefe é tóxico, e se o cachorro está com ansiedade de separação. (Sim, já perguntaram.)

Tem também a categoria “me diagnostica aqui, agora”: - “Eu vi um vídeo no TikTok e acho que sou bipolar, TDAH e borderline ao mesmo tempo, o que você acha?”
A pessoa quer um laudo em guardanapo, de preferência com uma frase que resolva a vida inteira.

E há os mais criativos, que acreditam que psicóloga tem superpoderes:
- “Você consegue ler minha mente?”
- “Você está me analisando agora?”
Sim, claro, estou interpretando seu inconsciente enquanto você escolhe a carne do churrasco.

Mas talvez o mais curioso seja a fantasia de que psicóloga não pode errar, não pode cansar, não pode ficar triste, não pode ser humana. Como se estudar o sofrimento nos tornasse imunes a ele. Spoiler: não.

No fundo, acho que essas perguntas estranhas dizem algo bonito: as pessoas querem ser escutadas. Só confundem escuta com consulta gratuita e clínica com conversa de bar.

Ser psicóloga é isso: entre um pedido de conselho amoroso e uma tentativa de diagnóstico instantâneo, a gente segue lembrando que a clínica não cabe em uma frase e o inconsciente não funciona por mensagem no email.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

🎭 Carnaval, gozo e o sujeito

O Carnaval é um tempo de festa, exceção, excesso, liberdade. Um intervalo no calendário onde as normas se afrouxam, os corpos se autorizam, as ruas se tornam palco e o sujeito parece escapar, ainda que momentaneamente, das exigências ordinárias da vida social. Mas o que está em jogo, do ponto de vista psicanalítico, nesse fenômeno coletivo?  

O Carnaval seria um dispositivo simbólico que dramatiza algo estrutural: a relação do sujeito com a lei, com o corpo, com o gozo e com o Outro. Longe de ser apenas uma festa, ele encena, em larga escala, as tensões entre norma e transgressão, desejo e imperativo, limite e excesso.

Na tradição ocidental, o Carnaval sempre ocupou o lugar de um tempo de inversão: reis se vestem de plebeus, normas se flexibilizam, máscaras permitem anonimato. A própria palavra remete à ideia de despedida da carne, antecipando o período de restrição da Quaresma. Essa dinâmica pode ser lida como uma encenação da relação do sujeito com a Lei simbólica. A Lei, em psicanálise, não é apenas jurídica ou moral, mas estrutural: ela é aquilo que introduz a falta, a castração simbólica, organizando o desejo. O Carnaval, então, não aboliria a Lei; ele a confirmaria, ao instituir um tempo específico para sua suspensão controlada. A transgressão é autorizada, prevista, regulamentada. Há horários, circuitos, regras, policiamento, patrocinadores. A festa funciona como uma válvula simbólica que permite o excesso, mas sem ameaçar o laço social.

O uso de fantasias e máscaras no Carnaval é central. O sujeito pode se apresentar como outro, experimentar identidades, brincar com gênero, classe, status, moralidade. Para Lacan, a identidade é sempre uma construção imaginária, sustentada por semblantes. A máscara carnavalesca torna visível aquilo que normalmente permanece invisível: toda identidade é, em certa medida, uma máscara. O Carnaval explicita o caráter ficcional do eu. Ao mesmo tempo, oferece uma autorização coletiva para a encenação de outras posições subjetivas, muitas vezes recalcadas no cotidiano. Nesse sentido, o Carnaval pode ser lido como uma dramatização do estádio do espelho em escala social: o sujeito se vê, se reconhece, se perde e se reinventa na imagem que apresenta ao Outro.

Talvez nenhum outro momento cultural concentre tanto o corpo quanto o Carnaval. Dança, toque, exibição, erotização, consumo de substâncias, fadiga, excesso. O corpo se torna palco privilegiado do laço social. Para Lacan, o gozo não se reduz ao prazer. Ele é aquilo que ultrapassa o princípio do prazer, que toca o limite do corpo, que se inscreve como excesso. O Carnaval pode ser pensado como um regime particular de gozo coletivo, onde o excesso é incentivado, celebrado, estetizado. No entanto, esse gozo não é livre; ele é comandado por imperativos: divertir-se, aproveitar, não perder nada, postar, mostrar, performar alegria. O supereu contemporâneo, longe de proibir, ordena: goze! O Carnaval, então, pode ser visto como uma vitrine privilegiada do supereu do discurso capitalista: goze, consuma, mostre, circule, produza imagens de felicidade.

Lacan descreveu o discurso capitalista como um curto-circuito da castração: ele promete satisfação plena, sem resto, sem falta. No Carnaval contemporâneo, essa lógica aparece na transformação da festa em produto: abadás, camarotes VIP, experiências exclusivas, pacotes turísticos, algoritmos que capturam e monetizam o desejo. A festa, que historicamente poderia ter sido espaço de subversão simbólica, torna-se também espaço de intensificação do consumo. A transgressão é vendida, a liberdade é patrocinada, o gozo é capturado em métricas e imagens. O sujeito é convidado a gozar, mas de maneira dirigida, previsível, rentável. A rua se torna plataforma, o corpo se torna mídia, o afeto se torna conteúdo.

O Carnaval mostra como o laço social é sempre atravessado por discursos, e como o sujeito circula entre essas posições. O Carnaval também é um espaço onde conteúdos inconscientes podem emergir: agressividade, erotismo, fantasia, crítica social, luto, memória, resistência. Escolas de samba, blocos e performances frequentemente tematizam história, violência, desigualdade, gênero, raça, política. Nesse sentido, a festa não é apenas escapismo; ela é também um modo de dizer o indizível, de simbolizar o real, de produzir narrativas coletivas. O inconsciente não está fora da festa; ele a atravessa.

Apesar do espetáculo, há sempre um resto: o cansaço, o vazio pós-festa, a melancolia, o silêncio após o excesso. Para Lacan, não há gozo sem resto, sem perda, sem limite. O fim do Carnaval pode ser lido como retorno da Lei, mas também como retorno do sujeito ao seu tempo próprio, à sua falta estrutural, ao desejo que não se resolve na festa. O Carnaval, lido pela psicanálise lacaniana, não é apenas uma festa. É um laboratório do laço social, um palco do discurso capitalista, uma encenação da relação do sujeito com a Lei, o corpo e o gozo. 

Se a cultura contemporânea nos convoca a gozar sem parar, talvez a clínica e o pensamento crítico possam recolocar a pergunta pelo limite, pela falta, pelo desejo que não se deixa capturar. Entre a máscara e o rosto, entre a rua e o consultório, entre o gozo e o desejo, o sujeito segue inventando modos de existir.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Um lugar para o sujeito

Inaugurar um lugar para o sujeito.

Não se trata de abrir um espaço de adaptação, mas de sustentar uma posição no discurso.

A psicanálise, desde Freud e relida por Lacan, nos ensinou que o sujeito não coincide consigo mesmo, que há um resto irredutível ao saber, à norma e à técnica. O inconsciente, estruturado como uma linguagem, fala onde o eu acredita dominar. É a esse ponto de furo no saber que a clínica se dirige.

Este consultório se inaugura em um tempo marcado pelo discurso capitalista, que promete gozo sem limite, transparência total e eficiência constante. Um discurso que transforma o sujeito em consumidor de soluções e o sintoma em defeito a ser eliminado. Contra essa lógica, a psicanálise sustenta que o sintoma é uma invenção singular, uma resposta ao real, e que o gozo não se deixa domesticar por protocolos.

Aqui, a palavra é tomada em sua dimensão ética. Não para normalizar, mas para permitir que algo do desejo possa se dizer. O Nome-do-Pai, enquanto função simbólica, não aparece como norma moral, mas como operador que introduz uma falta, uma lei, uma possibilidade de separação do gozo do Outro. É nessa hiância que o sujeito pode advir.

Abrir este espaço é sustentar um lugar onde o sujeito não seja reduzido ao desempenho, ao diagnóstico ou ao algoritmo. Um lugar onde o gozo possa ser interrogado, onde o sofrimento não seja imediatamente convertido em patologia, e onde a singularidade possa encontrar um endereço.

Que aqui se possa falar do amor e do trabalho, do corpo e da tecnologia, da solidão e do excesso, do laço social e de seus impasses. Que aqui a fala encontre escuta, e o silêncio, tempo.

Este consultório se inaugura como um lugar de resistência ao imperativo de gozar, produzir e se mostrar. Um lugar onde o sujeito pode, talvez, autorizar-se a dizer algo de seu desejo.

É a esse ponto que a psicanálise se dirige.

Andrea Ruas
Psicóloga | Psicanalista
PsiTech – Psicologia, Psicanálise e Tecnologia

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Minha Clínica

Escuto sujeitos atravessados pela tecnologia, sem reduzir o sofrimento à produtividade. A clínica é um espaço onde o algoritmo não governa o desejo. Clínica do sujeito digital e do trabalho contemporâneo

É um espaço de pensamento crítico sobre subjetividade, tecnologia e clínica. PsiT.ech não oferece autoajuda digital.  

Sem dicas, sem promessas — apenas escuta e pensamento

Sofrimento contemporâneo 

  • Cansaço crônico e burnout
  • Excesso de desempenho (imperativo de produtividade)
  • Ansiedade sem objeto claro
  • Solidão na era digital
  • Dificuldade de desligar (hiperconectividade)
  • Cultura do “sempre feliz” e seus efeitos

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Luto Digital

Luto Digital: quando a tecnologia interfere no ciclo natural das perdas

A morte sempre foi uma experiência marcada pela finitude. Há um corpo que deixa de existir, um cotidiano que se interrompe, e uma presença que se desfaz no mundo visível. Porém, na era digital, a morte não desaparece por completo, ... ela permanece online. E essa permanência tem efeitos profundos sobre como vivemos e elaboramos o luto.

Hoje, perfis continuam ativos, fotos permanecem públicas, mensagens antigas podem ser revisitadas e algoritmos reavivam memórias mesmo quando não pedimos por elas. O luto deixou de ser apenas um trabalho psicológico e passou a ser também um fenômeno tecnológico.

Perfis que viram monumentos digitais: Quando alguém morre, suas contas nas redes sociais frequentemente permanecem lá — intactas, congeladas ou transformadas em “memoriais” pelas próprias plataformas. O Facebook, por exemplo, permite que perfis sejam convertidos em páginas de lembrança; o Instagram mantém as fotos, mas bloqueia novas postagens. Esses perfis funcionam como verdadeiros monumentos digitais: lugares de visita, de saudade e também de dor. Para algumas pessoas, revisitar o perfil do falecido ajuda a manter o vínculo, organizar a memória e sentir-se menos só. Para outras, é um gatilho constante: uma notificação que lembra o que ainda não foi simbolizado, um feed que insiste em atualizar uma presença que já não existe mais no mundo.

Memórias digitais: guardiãs ou intrusas? O digital democratizou a memória, mas também estendeu a duração do luto.  As plataformas armazenam tudo: fotos, áudios, conversas, e até hábitos de comportamento. Um simples “Nesse dia você estava com fulano” pode abrir uma ferida que estava se fechando. E o algoritmo não entende timing emocional. Ele apenas entrega o que é “relevante”, baseado em registros do passado. As memórias digitais nos oferecem uma espécie de imortalidade fragmentada. A pessoa não está mais viva, mas sua imagem permanece animada, acessível, compartilhável. E isso afeta o trabalho psíquico do luto — que, no fundo, é um processo de reconhecer a ausência e reconstruir a vida a partir dela. Se a presença nunca cessa totalmente, como construir a ausência?

Quando o luto vira um problema tecnológico: Há situações em que o digital não apenas influencia o luto , ele o atrapalha. Por exemplo:

- Quando a pessoa recebe mensagens automáticas, como “Deseje feliz aniversário para…”
- Quando fotos antigas aparecem sem aviso.
- Quando alguém invade o perfil da pessoa falecida e posta algo indevido.
- Quando familiares discutem publicamente o destino das contas.
- Quando seguidores transformam o perfil em um espaço de espetáculo da dor.

Esses acontecimentos expõem um ponto central: a tecnologia não está preparada para a morte e nós, usuários, também não estamos preparados para lidar com o rastro digital dos que amamos.

O luto que se partilha demais. Antes, o luto era íntimo. Hoje, é também público. Há quem poste homenagens, longos textos, fotos, pedidos de oração. Outros preferem silêncio, mas se veem atravessados por manifestações dos demais.

Esse excesso de compartilhamento pode gerar dois movimentos:

- Prorrogação do luto, porque a dor é reativada publicamente o tempo todo.

- Cobrança emocional, como se fosse necessário demonstrar saudade para validar o amor.

A exposição constante da perda cria um luto que não se encerra: ele vira conteúdo, lembrança automática, engajamento.

E quando a pessoa que morreu continua nos enviando mensagens? Com a expansão das IAs generativas e dos “chatbots memoriais”, surgiu uma nova camada do luto digital. Plataformas já oferecem:

- Bots que conversam como a pessoa falecida, treinados por suas mensagens antigas

- Avatares que interagem com vídeos e áudios reconstruídos

- Vozes sintéticas criadas por IA

Isso inaugura um dilema ético e emocional: É possível elaborar a perda enquanto se conversa com uma “versão simulada” de quem morreu? Para alguns, isso traz conforto. Para outros, impede o movimento essencial de aceitar que não há mais retorno.

O trabalho do luto na era digital. Freud dizia que o luto é o processo de retirar energia psíquica de quem se foi, para investir novamente na vida. Mas como retirar investimento de alguém cuja presença permanece ativa no digital? Como dizer “adeus” a alguém que reaparece no feed? Não há resposta única. Cada pessoa lida à sua maneira.

O que a psicologia aponta é que o luto digital não precisa ser evitado, mas precisa ser cuidado. É importante decidir conscientemente:

- Quais perfis manter?

- O que guardar?

- O que deixar partir?

- O que simboliza presença e o que simboliza prisão?

A tecnologia amplia a memória, mas não substitui o trabalho emocional. É preciso tempo, elaboração e, muitas vezes, apoio terapêutico para reorganizar o que permanece vivo no digital e o que se cala no mundo real.

Fechar um ciclo não é deletar, é significar. Lidar com o luto digital é, no fim, um gesto de responsabilidade afetiva consigo mesmo. Não se trata de esquecer a pessoa, nem de apagar tudo, mas de construir um novo vínculo com essa presença que agora só existe na forma de traços digitais. 

 O digital guarda uma história. O luto, uma transformação.  E entre esses dois mundos, o online e o psíquico, estamos aprendendo a atravessar a ausência quando a memória insiste em permanecer acesa.

Saúde Mental no Mundo Tech

Psicologia e Saúde Mental: Escuta e Cuidado para Quem Vive o Mundo Tech                   

A produção de conteúdo em psicologia e saúde mental, especialmente quando voltada para pessoas que atuam na área de tecnologia, exige um cuidado que vai além da divulgação de informações ou conceitos teóricos. Trata-se de construir um perfil de conteúdos que seja ético, sensível, tecnicamente consistente e, ao mesmo tempo, profundamente conectado à experiência subjetiva de quem vive imerso em ambientes digitais, lógicas de performance e aceleração constante.

Profissionais de tecnologia costumam habitar um contexto marcado por alta complexidade cognitiva, demandas contínuas por atualização, pressão por resultados, prazos curtos, longas jornadas, trabalho remoto ou híbrido e uma relação intensa com telas, métricas e sistemas. Embora esse cenário seja frequentemente associado a status, inovação e autonomia, ele também produz formas específicas de sofrimento psíquico que nem sempre são facilmente reconhecidas, nem por quem vive, nem por quem observa de fora.

Nesse sentido, um perfil de conteúdos em psicologia voltado a esse público precisa, antes de tudo, nomear o que muitas vezes permanece silenciado: o cansaço mental crônico, a dificuldade de desligar, a sensação de estar sempre em débito, a solidão mesmo em ambientes colaborativos, a perda de sentido no trabalho, a ansiedade diante da obsolescência constante e o esvaziamento subjetivo que pode acompanhar carreiras altamente técnicas. Falar de saúde mental aqui não é apenas falar de sintomas, mas de modos de vida.

Outro desafio importante é evitar tanto a hipertecnificação do discurso psicológico quanto sua banalização. Por um lado, conteúdos excessivamente técnicos afastam, criam uma sensação de inadequação ou reforçam a ideia de que o sofrimento precisa ser “explicado” para ser legítimo. Por outro, mensagens genéricas, motivacionais ou excessivamente simplificadas não alcançam a profundidade da experiência de quem está acostumado a pensar de forma analítica e crítica. O equilíbrio está em traduzir conceitos psicológicos e psicanalíticos de forma acessível, sem empobrecê-los, respeitando a inteligência e a complexidade subjetiva do público.

Um bom perfil de conteúdos também precisa considerar a relação entre subjetividade e tecnologia, indo além de discursos moralizantes sobre “uso excessivo de telas”. É fundamental refletir sobre como os dispositivos digitais reorganizam o tempo, o desejo, a atenção e os vínculos; como o trabalho mediado por tecnologia altera fronteiras entre vida pessoal e profissional; e como a lógica algorítmica, de métricas e entregas, pode atravessar a forma como o sujeito passa a se perceber e se avaliar. Esse tipo de abordagem ajuda o leitor a se reconhecer no conteúdo, não como alguém “que falha”, mas como alguém atravessado por um contexto específico.

Além disso, conteúdos em psicologia para esse público precisam sustentar uma posição ética clara. Não se trata de oferecer diagnósticos, receitas de autocuidado ou soluções rápidas para problemas estruturais. O foco deve estar em abrir espaços de reflexão, questionamento e elaboração, mostrando que buscar ajuda psicológica não é sinal de fraqueza, mas um movimento de responsabilidade consigo mesmo. Especialmente na área de tecnologia, onde a valorização da autonomia e da racionalidade pode dificultar o reconhecimento da vulnerabilidade, esse ponto é central.

Também é importante que o perfil dialogue com temas como identidade profissional, transições de carreira, lutos silenciosos ligados ao trabalho, medo de perder relevância, perfeccionismo, síndrome do impostor e dificuldades de pertencimento. Muitos profissionais de tecnologia constroem sua identidade de forma muito atrelada à performance intelectual e ao reconhecimento técnico, o que pode tornar qualquer falha, pausa ou dúvida vivida como ameaça ao próprio valor subjetivo. Conteúdos que abordam essas questões com profundidade ajudam a descolar o sujeito de uma identificação total com o trabalho.

Um perfil de conteúdos em psicologia e saúde mental, voltado ao público tech, precisa transmitir coerência entre forma e conteúdo. Uma comunicação clara, visualmente leve, organizada e não excessivamente estimulante também é parte do cuidado. A estética, o ritmo das postagens e o tom da escrita comunicam tanto quanto as palavras. Em um universo já saturado de informação, oferecer conteúdos que convidem à pausa, à reflexão e ao pensamento pode ser, por si só, um gesto clínico.

Falar de psicologia e saúde mental para quem trabalha com tecnologia é reconhecer que, por trás de códigos, sistemas e soluções, existem sujeitos. Sujeitos que pensam muito, produzem muito, mas também se cansam, sofrem, duvidam e, muitas vezes, não encontram espaço para elaborar tudo isso.  


Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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