Sim, eu queria escrever. De maneira livre, sem preocupação com o tema, com onde chegar e o que dizer. Pra expressar mesmo, esse estado de não saber nomear nada, não saber dizer. Esses dias que a gente está com o coração apertado e as palavras não dão conta.
Você monta tudo, se empenha, faz o seu melhor, mas ainda assim nada é suficiente. O mundo é duro demais. Você espera, até. Treina a paciência, tenta contemplar, mas algo lá dentro te boicota, te impede de ver o avanço.
O corpo padece, porque a energia se esvai. Para quem te olha de fora, está tudo inteiro. Mas você - e só você - sabe que está quebrada, despedaçada, com medo. E então vem a pergunta: cadê essa coragem que todos dizem que você tem?
Sei lá.
Às vezes parece até um delírio coletivo. Ou talvez não. Talvez seja só você que já não se reconhece mais ali.
E isso é o que mais confunde: não é que nunca tenha existido. Existiu. Esteve ali por muito tempo. Era quase óbvio, natural. Você era corajosa e ponto. E agora se vê tentando negociar com algo que simplesmente não responde mais. Como se a coragem tivesse ido embora sem avisar. Pode isso?
Talvez a coragem não tenha ido embora. Talvez ela só não seja mais aquilo que você achava que era.
Talvez coragem, agora, seja isso:
continuar mesmo sem se reconhecer,
seguir mesmo sem garantia,
sustentar a própria dúvida sem fugir dela.
Não tem nada de grandioso nisso. E justamente por isso, tem tudo.
Esse ciclo de perder e reencontrar forças é o que nos torna humanos, complexos e reais. Não precisamos mais carregar o peso de uma coragem inabalável o tempo todo. Permitir-se sentir vulnerável, aceitando a própria fragilidade, é também coragem.
A gente cresce achando que vai chegar num ponto de firmeza, de certeza, de estabilidade. Mas a vida não se organiza assim. Ela desorganiza, desmonta, refaz e muitas vezes sem pedir permissão.
Porque quando já não dá mais para sustentar a imagem de quem você deveria ser, sobra a possibilidade, ainda que frágil, de encontrar quem você é, ali, naquele resto.
Sem garantias. Sem aplauso. Sem certeza.
Só presença.
E se não houver um “chegar lá” que resolva tudo, mas apenas movimentos, idas, voltas, pausas?
E se o sentido dessa travessia não estiver no destino, mas no próprio ato de caminhar?
A dor, por mais difícil que seja, não é vazia. Ela diz de algo. Ela insiste. Ela aponta. Revela que estamos vivos, que estamos lutando, acreditando em algo maior, mesmo que ainda não saibamos o quê.
E talvez exista algo de muito verdadeiro quando tudo isso cai.
Então, siga.
Mesmo sem saber.
Mesmo sem ter respostas.
Mesmo sem se sentir pronta.
Às vezes, é justamente aí que algo começa.
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