Há algo curioso no sofrimento: ele fala, mesmo quando tentamos silenciá-lo.
Às vezes, ele aparece como cansaço sem nome, como uma inquietação que não cessa, como a sensação de estar vivendo uma vida que não parece exatamente sua. Outras vezes, ele se repete: nas escolhas, nos encontros, nos desencontros, como se algo insistisse em retornar, mesmo quando tudo em você tenta seguir adiante.
É comum chegar à clínica com explicações prontas. “Eu sou ansioso.” “Eu sempre fui assim.” “Isso aconteceu por causa da minha história.” E, de algum modo, tudo isso pode até fazer sentido. Mas a experiência analítica começa justamente quando esse saber vacila, quando aquilo que parecia tão claro já não responde mais.
Porque falar, aqui, não é apenas contar o que aconteceu. É permitir que algo do que nunca pôde ser dito encontre um caminho. É se escutar para além do que você já sabe sobre si.
Na psicanálise, não se trata de corrigir comportamentos, nem de ajustar você a um ideal de funcionamento. Trata-se de sustentar um espaço onde a palavra possa ganhar outro valor, onde até mesmo os lapsos, os silêncios, as repetições e os desvios tenham lugar.
Há uma aposta nisso: a de que o sofrimento não é um erro a ser eliminado, mas um enigma a ser escutado.
E escutar, nesse caso, não significa entender tudo rapidamente. Significa suportar o tempo necessário para que algo se revele, não como uma verdade pronta, mas como um encontro. Um encontro, às vezes desconcertante, com aquilo que em você escapa, insiste, retorna.
Ao longo desse percurso, algo pode se transformar. Não porque alguém te disse o que fazer, mas porque você pôde construir outra relação com aquilo que te atravessa. O que antes aparecia como repetição sem saída pode, pouco a pouco, ganhar novas bordas, novos sentidos, novos destinos.
A clínica é esse lugar raro onde não é preciso ter respostas imediatas. Onde não há exigência de ser coerente o tempo todo. Onde você pode, inclusive, não saber, e, ainda assim, falar.
Porque há coisas que só se tornam possíveis quando encontram escuta.
E, às vezes, é apenas isso que faltava.
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