Hoje eu decidi fazer um lugar pra mim.
Não, não é sair das redes, vender tudo e ir morar no mato (até porque o Wi-Fi ia fazer falta). Também não é baixar mais um app de produtividade achando que agora eu viro minha melhor versão em 7 dias.
É outra coisa.
Porque, se eu for bem honesta, eu já tô funcionando “bem demais”. Respondo rápido, entrego no prazo, dou conta de mil abas abertas. Sou praticamente um sistema em tempo real.
O problema é: em que momento eu entrei como usuária disso tudo?
Porque tem uma diferença grande entre operar a própria vida… e habitar ela.
E ultimamente, parece que eu tô mais no modo “execução automática” do que em qualquer outra coisa. Tipo quando você aceita todos os cookies sem ler e depois não entende por que tá sendo rastreada por anúncios estranhamente específicos.
Em algum ponto, eu fui me adaptando. Otimizando. Ajustando comportamento. Melhorando performance. Só não sei se isso incluía eu mesma no processo.
E aí vem aquele bug.
Nada trava de verdade, mas também nada roda direito. Um cansaço meio sem explicação. Uma vontade de fechar todas as abas, mas sem saber por onde começar. Um “tem algo errado” que não aparece em nenhum dashboard.
E talvez esteja mesmo. Talvez esteja faltando espaço.
Não espaço no calendário (esse já foi sequestrado faz tempo), mas espaço interno. Um lugar que não seja colonizado por demanda, urgência ou expectativa.
Um lugar onde eu não precise performar o tempo todo.
Só que isso não vem por default. Não tem configuração de fábrica pra isso. Não tem atualização automática que resolve. E, definitivamente, não tem algoritmo que entregue esse lugar pra você, porque, convenhamos, não é exatamente lucrativo.
Então hoje eu fiz uma coisa meio fora do script: parei de rodar no automático.
Não deletei minhas redes, não fiz detox digital, não virei uma pessoa zen. Só suspendi, por um momento, essa lógica de responder a tudo imediatamente.
E aí… silêncio.
Um silêncio meio desconfortável, tipo quando o sistema para de emitir alerta e você percebe que não sabe mais muito bem o que está procurando.
Mas talvez seja justamente aí que começa.
Fazer um lugar pra si, nesse contexto, não é sair do mundo digital, é deixar de ser completamente capturada por ele. É criar um intervalo onde nem tudo precisa ser otimizado, explicado ou resolvido.
A psicanálise trabalha mais ou menos nessa lógica. Não é sobre “corrigir bugs” ou melhorar performance. É sobre escutar o que insiste, o que repete, o que não encaixa, justamente o que nenhum sistema consegue prever totalmente.
É quase como recuperar acesso a uma parte sua que não está em nenhuma nuvem.
Hoje, fazer um lugar pra mim foi isso:
não ter todas as respostas,
não saber exatamente o que fazer com o que eu sinto,
mas, ainda assim, não me substituir por mais uma versão funcional de mim mesma.
Não parece muito.
Mas, num mundo que pede atualização constante, talvez sustentar esse espaço já seja um gesto revolucionário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário