Às vezes, quando olho para minha própria história, percebo que carrego alguns lutos que ninguém vê.
Não são perdas óbvias, não têm despedida, não têm ritual.
São lutos por versões minhas que eu não fui.
A versão que continuou naquela carreira.
A que aceitou aquele emprego.
A que ficou na empresa onde tudo estava “indo bem”.
A que seguiu o plano que parecia tão lógico.
A que não teve coragem de virar a mesa.
Ou a que teve e até hoje se pergunta “e se…?”.
Essas versões não vividas aparecem em momentos muito específicos: no silêncio depois de um dia difícil, na conversa com alguém que seguiu outro caminho, na nostalgia que bate por coisas que nunca existiram de fato, mas que poderiam ter existido.
É curioso como a gente costuma acreditar que só se lamenta o que deu errado.
Mas não.
Às vezes dói justamente o que poderia ter dado certo.
E eu percebi que esse é um tipo de luto que ninguém nos ensina a nomear.
A gente cresce ouvindo que pode ser o que quiser.
Mas ninguém fala sobre o preço que isso tem: se posso ser qualquer coisa, também vou ter que abrir mão de todas as outras.
Escolher uma vida é, inevitavelmente, desistir de várias outras.
E mesmo quando estou feliz com quem me tornei, mesmo quando olho para trás e sei que fiz o que precisava fazer, ainda existe um pequeno eco de tudo aquilo que não fui.
E tudo bem.
A gente acha que amadurecer é ter certeza.
Mas, na verdade, amadurecer talvez seja aprender a conviver com o que poderia ter sido, sem deixar que isso invalide aquilo que é.
Hoje eu entendo que esses lutos silenciosos fazem parte da minha história.
Eles não me paralisam, mas me lembram que cada escolha é também uma renúncia e que viver implica perder versões de mim que, por mais bonitas que fossem na imaginação, não caberiam na pessoa que eu me tornei.
Talvez não exista jeito certo de lidar com isso.
Mas existe honestidade:
reconhecer que dói, que pesa, que às vezes dá saudade do que nunca aconteceu.
E existe, também, uma espécie de paz:
a de seguir caminhando com todas as versões que não foram, sabendo que cada uma delas me construiu de algum jeito, mesmo as que nunca existiram.
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