Durante muitos anos, o trabalho foi a minha casa. Meu mapa. Meu norte. Eu acordava para ele, organizava meu dia em função dele, e tudo o que não fosse “produtivo” me parecia perda de tempo. Era workaholic, embora eu não usasse essa palavra, para mim, aquela forma intensa de viver era só… normal.
Eu gostava do ritmo, das entregas, da sensação de resolver problemas, de ser necessária. O trabalho era onde eu me sentia competente, reconhecida, útil. Era meu lugar de segurança. E, por isso, foi ocupando todos os outros. Aos poucos, quase sem perceber, deixei que ele fosse tomando espaço das relações, dos afetos, do descanso, da intimidade comigo mesma.
Quando comecei análise, a primeira pergunta da minha analista foi:
“O que o trabalho significa para você?”
E eu respondi, sem pensar:
“Tudo.”
Ela sorriu, sem julgamento, mas como um espelho, e disse:
“Tudo é muita coisa.”
E foi ali, exatamente ali, que minha jornada começou.
Tudo.
Essa palavra ecoou dentro de mim. E foi a primeira vez que me dei conta de que talvez houvesse algo errado, não no trabalho, mas no tamanho que ele tinha na minha vida. No espaço que eu entregava para ele, sem questionar nada.
Porque quando o trabalho vira “tudo”, o resto vira quase nada.
Na época, eu não sabia dizer quem eu era fora daquela lógica de produtividade. Não sabia o que eu gostava de fazer, o que me nutria, o que me descansava. Não sabia sequer onde doía, porque eu não parava tempo suficiente para sentir. Era mais fácil continuar produzindo, cumprindo, funcionando. Era mais fácil seguir em movimento do que admitir que alguma coisa ali estava me escapando.
A análise, aos poucos, muito aos poucos, me permitiu olhar para isso sem culpa. E entender que o trabalho, quando ocupa todos os lugares da vida, não deixa espaço para mais nada viver ali dentro.
É curioso: às vezes, quando tudo está dando errado no trabalho, a gente pensa em mudar. Mas quando tudo está dando certo, promoções, reconhecimento, futuro brilhante, é aí que a escolha fica realmente difícil. Porque exige olhar para o próprio desejo, e isso assusta mais do que qualquer demissão.
Eu precisei encarar que aquela vida que funcionava tão bem por fora estava apertada demais por dentro. E que talvez o sucesso que eu tinha construído não conversasse com aquilo que, silenciosamente, eu queria viver.
Hoje, não conto essa história como quem “superou” algo, porque eu ainda cuido para não cair na armadilha de novo. O trabalho ainda é importante para mim, talvez não é mais tudo. E, pela primeira vez, isso não me parece uma perda. Parece espaço.
Espaço para existir em outras versões.
Espaço para desejar.
Espaço para não saber.
Espaço para viver.
E talvez seja isso que quase ninguém conta: às vezes, reorganizar a relação com o trabalho não é sobre trabalhar menos, porque hoje trabalho muitoooooo, é sobre caber mais em si mesma.
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