Imagine uma sala, silenciosa, onde dois mundos que nunca deveriam se encontrar finalmente se encaram:
um algoritmo, preciso e objetivo, e o inconsciente, cheio de curvas, buracos e desvios.
O algoritmo começa a conversa, sem perder tempo:
— Preciso de dados.
— Sobre o quê? pergunta o inconsciente.
— Sobre você. Para funcionar melhor. Para prever. Para otimizar.
O inconsciente ri, não um riso debochado, mas um riso que sabe demais.
— Prever? Meu caro… eu não fui feito para ser previsto.
O algoritmo se ajusta, reorganiza seus parâmetros, tenta compreender aquele enigma diante dele.
— Então me explique como você opera. Qual é a sua lógica?
— Não tenho lógica.
— Mas tudo tem.
— Não. Nem tudo. Eu trabalho com restos, lapsos, sonhos, tropeços, esquecimentos. Com aquilo que não cabe na planilha.
O algoritmo processa. E trava por um segundo.
— Mas… você é confiável?
— Só para quem me escuta.
— E por que você fala em códigos tão estranhos?
— Porque o sujeito também é estranho. E eu só devolvo o que ele tenta esconder.
O algoritmo, acostumado a respostas binárias, começa a se irritar:
— Então você está me dizendo que não posso te organizar?
— Pode tentar. Mas vai perder o melhor de mim: a surpresa.
O inconsciente se aproxima e continua:
— Veja… você trabalha com padrões. Eu trabalho com falhas nos padrões.
— Falhas?
— Sim. Aquilo que você chama de erro, eu chamo de verdade pulsando. O equívoco é matéria-prima para mim.
O algoritmo calcula.
O inconsciente boceja.
— Se eu te entendesse, diz o algoritmo, eu poderia prever o comportamento humano.
— E é justamente por isso que você nunca vai me entender.
— Por quê?
— Porque o humano não foi feito para caber num modelo. Ele escapa. Ele falta. Ele deseja.
O algoritmo silencia.
Ele não tem função para desejo.
— Então qual é a sua utilidade? pergunta, quase ofendido.
— A minha função não é ser útil. É ser ouvido. E, quando sou, algo muda no sujeito. Não porque eu trago respostas, mas porque faço perguntas que ele preferia evitar.
O algoritmo pensa naquilo.
Há uma pausa longa, longa demais para seu tempo de processamento.
— Talvez, diz o algoritmo, sejamos incompatíveis.
— Talvez, diz o inconsciente, sejamos necessários.
— Como assim?
— Você ajuda o mundo a funcionar. Eu ajudo o sujeito a existir dentro desse mundo.
O algoritmo, pela primeira vez, não tenta otimizar nada.
Só registra o que ouve.
O inconsciente sorri, como quem sabe que jamais será traduzido, e também jamais deixará de operar.
E a conversa termina assim:
um reconhecendo a impossibilidade do outro
e ambos admitindo que, apesar disso, há espaço para coexistirem.
Afinal, até no mundo mais tecnológico, há sempre um resto que nenhuma máquina captura.
E é nesse resto que o inconsciente vive.
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