Passei anos liderando equipes... acreditando que eu estava construindo não só um time, mas relações de confiança, amizades. A gente passa tanto tempo no trabalho que, no fim, começa a achar que aquelas pessoas fazem parte da nossa vida de verdade. Que existe ali um tipo de vínculo que vai seguir mesmo quando a gente não estiver mais naquele cargo, naquela rotina, naquele crachá.
Só que a vida tem um jeito muito particular de mostrar quem realmente está com você e quase sempre é nos momentos difíceis, nos momentos em que você perde. Eu pedi demissão, porque já não me adequava mais àquele lugar, depois de ser preterida de forma singular. Foi tempo tentando entender, como é que décadas de entrega, de responsabilidade, de resolver problemas, de noites mal dormidas tinham virado… nada. Uma decisão tomada numa sala ... sozinha.
A minha demissão foi a minha maneira de dizer “chega”. Só que eu não imaginava o que vinha depois. Achei que, ao sair, viria aquele movimento natural: mensagens, ligações, gente querendo saber como eu estava. Achei que aquelas pessoas que eu ajudei, que eu defendi, que eu acolhi, que eu promovi, que eu incentivei… estariam ali. Nem que fosse um “e aí, como você está?”. Mas não, o silêncio veio primeiro.
No fim, sobraram três. De um universo inteiro. Três que realmente se preocuparam, que acompanharam meu processo, que ficaram, que quiseram saber. Três que não desapareceram quando eu deixei de ser “útil”, “influente”, “a chefe”, “a que resolve”. E eu precisei encarar o fato de que muitos nunca foram gratos, talvez nunca tenham sido nem próximos. Talvez eu tenha confundido convivência com afeto, parceria com cumplicidade e liderança com companheirismo. Foi libertador admitir.
E aí entrou o sentimento difícil de nomear: um estranhamento. Sim, desconexão, um desconforto. Aquela sensação de olhar para trás e ver tudo com mais nitidez do que antes. A percepção de que muita gente parecia simpática, próxima, parceira … mas era conveniência. Era interesse. Era bom enquanto eu estava ali para servir, proteger, facilitar. E junto vem a raiva. A raiva de ter acreditado. De ter investido.
Hoje, eles (e não são poucos) me procuram (acho que mais por curiosidade e não tanto por preocupação) vejo alguns deles nas redes, postando frases motivacionais, defendendo valores, bajulando … meu corpo responde antes da minha cabeça: algo em mim se afasta. O olhar não sustenta. Um estranhamento difícil de ignorar. Algo me diz: “não”. E eu tenho aprendido a respeitar esse “não”. Porque não é raiva, não é mágoa. Esse "não" é lucidez. Ele é o meu corpo entendendo, antes de mim, que não é "de verdade". É atuação, não é vínculo. Não é real.
Hoje, olhando com mais calma, eu entendo que minha saída não mudou nada, apenas revelou o que estava escondido: o quanto as relações no trabalho são frágeis, circunstanciais e profundamente egoístas. O quanto algumas pessoas se aproximam do cargo, não da pessoa. Do poder, não da história. Do que você resolve, não do que você é. E dói, mas liberta. Porque me mostrou quem são os meus. Quem fica quando não tem nada para ganhar. Quem olha sem crachá, sem função, sem utilidade.
Sobraram três. Meu grupo dos três! E sabe de uma coisa? Esses três valem mais do que muitos, são importantes: são os que se importam. Eu os "importo" para dentro da minha vida, não por função ou conveniência, mas por presença real. Três pode parecer pouco para quem mede relações por quantidade ou posição, mas é muito quando o critério passa a ser vínculo. O que ficou não foi o número, foi a qualidade do laço, o que muda tudo.
Com o tempo, a relação cresceu. Tem grupo no zap, encontros, comemorações, risadas. A gente se encontra, tem café, tem almoço, tem balada, tem fofoca... tem vida. Chegaram os babies, os significant-others, o círculo aumentou. Estamos construindo histórias sem crachá, sem reunião, sem avaliação de desempenho. São vínculos que acontecem por fora, sem interesse algum, fazem bem, nos divertirmos e, por isso, são tão verdadeiros.
Hoje eu sigo a vida, leve, ainda com raiva, sim, porque isso também é parte do processo, mas com mais clareza. Eu não romantizo, não confundo mais interesse com consideração. Eu aprendi que a lealdade aparece quando você cai. E nesse momento, você descobre quem realmente atravessa a porta com você, segurando na sua mão.
E o resto? O resto, naturalmente se afasta. O que ficou, ficou com verdade. O que não ficou, cumpriu seu papel de passagem.
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