Ele chegou
sabendo o que tinha. Ou, pelo menos, chegou sabendo dizer o que tinha. Havia
algo de curioso nisso, e demorei algum tempo para perceber que essa diferença
era justamente uma das coisas mais importantes daquela primeira sessão.
Ele não
chegou apenas com uma queixa, uma história ou um sofrimento que gostaria de
compreender. Chegou com uma explicação. Tinha um diagnóstico para si mesmo,
tinha uma teoria sobre o próprio funcionamento e tinha, sobretudo, uma
linguagem bastante sofisticada para descrevê-lo. “Eu sou narcisista”, disse,
com a segurança de quem não estava exatamente apresentando uma hipótese, mas
uma espécie de conclusão a respeito de si. Não era apenas “acho que posso ter
traços narcísicos”, nem “me disseram que talvez eu seja assim”. Era uma frase
identitária: eu sou isso, e é disso que sofro. Atrás dela vinha todo um
repertório que havia aprendido ao longo de aproximadamente um ano de terapia
cognitivo-comportamental. Sabia falar de gatilhos, alterações do humor, pensamentos
automáticos, crenças, pensamentos disfuncionais, pensamentos funcionais,
registros de pensamentos, enfrentamento, estratégias, esquivas. Sabia observar
a si mesmo. Sabia, inclusive, em muitos momentos, observar a própria
observação. Era um homem que havia aprendido a se acompanhar.
E preciso
necessariamente dizer isso antes de qualquer coisa: havia muito valor naquele
conhecimento. Não me interessava, e ainda não me interessa, desqualificar o
trabalho que havia sido feito antes de mim. Ele próprio não o desqualificava.
Ao contrário, falava daquele tratamento com reconhecimento. Contava que fazia
terapia quinzenalmente e que seu terapeuta, dizia que estavam próximos de uma
alta clínica. A ideia da alta parecia fazer sentido dentro da narrativa que ele
construía: havia aprendido ferramentas e agora seria capaz de utilizá-las
sozinho. Sabia identificar os gatilhos, perceber alterações do humor, registrar
pensamentos, reconhecer pensamentos automáticos, investigar crenças e procurar
novas leituras para aquilo que lhe acontecia. Havia, portanto, uma certa
promessa de autonomia nessa história. A terapia lhe ensinara a observar o
próprio funcionamento e, em alguma medida, a manejá-lo.
O que me
chamou a atenção não foi o fato de ele saber tanto, mas o modo como esse saber
parecia organizar a relação que ele mantinha consigo mesmo. Quando alguma coisa
acontecia, ele parecia imediatamente procurar o instrumento adequado para
compreendê-la. Se uma emoção surgia, havia uma pergunta disponível: qual foi o
pensamento que gerou esse sentimento? Se uma situação o mobilizava, ele
respondia me explicando qual tinha sido o gatilho. Se uma reação parecia
desproporcional, ele me falava de um pensamento automático por trás dela.
Percebi que, se o pensamento não fosse adequado, seria possível examiná-lo e
construir uma nova leitura, uma leitura mais funcional. Havia sempre um
caminho.
E eu fiquei
pensando no quanto isso é sedutor. Porque nós, diante do sofrimento, temos uma
necessidade quase irresistível de transformar aquilo que nos acontece em alguma
coisa que possamos dominar. O sofrimento, quando permanece sem nome, assusta. O
que não compreendemos nos deixa numa posição desconfortável. Então nomeamos.
Classificamos. Procuramos uma explicação. Damos um diagnóstico àquilo que
sentimos e, muitas vezes, junto com o diagnóstico, encontramos também uma
promessa silenciosa: agora que sei o que tenho, talvez finalmente consiga
deixar de sentir o que sinto.
É
compreensível. É natural procurar algum controle diante daquilo que nos
desorganiza. O problema começa quando a explicação passa a ocupar o lugar da
experiência. Quando saber o nome de alguma coisa produz a sensação de que já
sabemos o que ela é. Quando dizer “sou narcisista” parece encerrar uma
investigação que talvez estivesse apenas começando.
Ele dizia:
“Eu sou narcisista. É disso que eu sofro.” E havia algo de paradoxal nessa
frase. Porque, ao mesmo tempo em que ela parecia oferecer uma explicação,
também parecia aprisioná-lo dentro dela. Se eu sou isso, então aquilo que faço
pode ser compreendido a partir disso; aquilo que sinto pode ser explicado por
isso; minhas relações podem ser lidas através disso; meus conflitos podem ser
organizados por isso. O diagnóstico deixa de ser uma hipótese sobre o
funcionamento e começa a funcionar como uma identidade. E quando isso acontece,
há o risco de que a pessoa passe a se encontrar consigo mesma já sabendo de
antemão o que deveria encontrar.
É uma coisa
curiosa da nossa época: chegamos à psicoterapia cada vez mais informados sobre
nós mesmos. E isso, que em muitos aspectos é uma conquista, também produz uma
situação nova para o encontro clínico. O paciente já pesquisou. Já leu. Já
ouviu podcasts. Já assistiu a vídeos. Já fez testes. Já conversou com amigos.
Já encontrou um nome para aquilo que sente. Às vezes chega dizendo que tem
TDAH, trauma, apego evitativo, transtorno de personalidade, ansiedade, burnout,
narcisismo. Outras vezes chega sabendo também qual abordagem deseja: quer TCC,
quer DBT, quer psicanálise, quer uma terapia breve, quer determinada técnica.
Há uma espécie de pré-consulta em que o sujeito chega não apenas para falar do
que lhe acontece, mas para apresentar uma formulação previamente construída
sobre si e, em alguns casos, para solicitar ao profissional que a confirme e
execute o tratamento correspondente.
Não há nada
de necessariamente errado nisso. O sujeito pode estar correto. Pode ter
pesquisado cuidadosamente. Pode ter recebido um diagnóstico adequado. Pode
saber bastante sobre psicologia. Pode ter uma preferência legítima por
determinada abordagem. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas certezas:
o que acontece quando, antes mesmo de encontrar o psicólogo, já decidimos quem
somos, do que sofremos e o que deve ser feito conosco? Alguma coisa se
perde.
Porque uma
análise, uma psicoterapia, qualquer experiência verdadeiramente investigativa
de si, deveria conter algum espaço para a surpresa. Para aquilo que ainda não
sabemos. Para aquilo que aparece e contradiz a explicação que tínhamos
preparado. Para a possibilidade de descobrir que a história que contamos sobre
nós mesmos, embora verdadeira em alguns aspectos, não é a história
inteira.
Foi isso que
comecei a perceber naquele paciente. Ele havia aprendido a se observar muito
bem. Mas observar não é a mesma coisa que sentir. E compreender não é a mesma
coisa que elaborar. Em um determinado momento, ele falou sobre a mãe.
Contou uma história que, racionalmente, ele parecia ter muito bem compreendida.
Sabia que ela não o havia abandonado deliberadamente. Sabia das circunstâncias.
Sabia que ela fez o que conseguiu fazer. Sabia, inclusive, reconhecer aspectos
positivos que aquela separação havia produzido em sua vida. Sabia que ela
continuou presente, que ligava, que mandava presentes, que o visitava. Sabia
até que a decisão que havia sido tomada naquele momento acabou tendo consequências
importantes para o homem que ele se tornou.
Ele sabia de
tudo isso. E, ainda assim, chorava. Foi justamente aí que algo me
interessou. Porque ele próprio se perguntou, como estava acostumado a
fazer: qual foi o pensamento que produziu esse sentimento? Procurava o
pensamento automático. Procurava a crença. Mas não conseguiu, havia um enigma.
Ele não encontrava exatamente o pensamento disfuncional.
Sua
compreensão consciente da história da mãe me pareceu bastante razoável. Não
havia uma distorção evidente. Ele não acreditava, de modo consciente, que a mãe
o tivesse abandonado porque não o amava. Não sustentava uma narrativa infantil
de culpa ou rejeição; não narrava raiva ou ódio. Ele dizia entender os motivos
e a perdoava. Ele sabia que as coisas eram mais complexas. Sabia que a mãe o
amava. Sabia que havia feito o que podia por ele. Sabia de tudo isso e, ainda
assim, aquela lembrança continuava tocando alguma coisa nele. Ao chorar na
minha frente, se desculpou, ficou constrangido e imediatamente me explicou que
tinha aprendido a controlar suas emoções. Disse que, por exemplo, depois desse
ano na terapia nunca mais tinha chorado em frente à sua mãe. Disse que ali na
sessão não entendia por que não funcionou, porque não detectou a emoção que
viria a seguir. Ficou surpreso com sua falha.
Tive esperança nesse momento. Não porque o sofrimento seja desejável. Não porque devamos romantizar a dor, como se sofrer fosse uma virtude ou como se uma pessoa só pudesse crescer se permanecesse mergulhada em sua angústia. Não acredito nisso. Há sofrimentos que precisam de cuidado, há dores que precisam ser aliviadas, há situações em que interromper uma experiência dolorosa é necessário e profundamente humano. O problema não está em querer aliviar o sofrimento. O problema está em imaginar que todo sofrimento é um erro que precisa ser imediatamente corrigido.
Há uma
diferença entre cuidar da dor e silenciá-la. E essa diferença pode ser
pequena por fora. Às vezes fazemos exatamente as mesmas coisas: conversamos,
interpretamos, nomeamos, encontramos estratégias. Mas internamente a posição é
outra. Em uma delas, existe curiosidade. Na outra, existe urgência. Em uma
delas, queremos compreender o que está acontecendo. Na outra, queremos que
pare.
Meu paciente parecia
ter aprendido muito bem a segunda parte: o que fazer quando alguma coisa
acontece. Identificar, registrar, reconhecer, compreender, reestruturar,
enfrentar. Mas há uma pergunta anterior:
será que ele conseguia simplesmente sentir alguma coisa sem imediatamente
precisar transformá-la em objeto de investigação?
É uma
pergunta difícil para todos nós. Porque sentir sem explicar pode ser
angustiante. Sentir sem saber de onde vem pode parecer descontrole. Se eu consigo nomear, tenho a impressão de que domino.
Se consigo explicar, tenho a impressão de que compreendo. Se consigo
compreender, consigo controlar. E, se consigo controlar, talvez finalmente
consiga não sofrer.
É sedutor
pensar assim. Mas a experiência humana nem sempre se organiza dessa
maneira. Às vezes sentimos antes de saber. Às vezes sabemos e continuamos
sentindo. Às vezes uma emoção permanece viva mesmo depois que a nossa
consciência já encontrou todas as explicações possíveis para ela. Às vezes o
corpo sabe alguma coisa que a narrativa consciente ainda não sabe dizer. Às
vezes choramos por algo que não conseguimos justificar. Às vezes uma
determinada pessoa nos irrita de uma maneira que parece maior do que a situação
presente. Às vezes uma despedida nos destrói sem que consigamos explicar por
que aquela despedida específica carrega tanto peso.
E não
acredito que precisamos correr imediatamente para descobrir a resposta.
Acredito sim que podemos permanecer um pouco diante da pergunta. Isso
me parece importante quando pensamos na relação contemporânea com
os diagnósticos. Há algo reconfortante em poder dizer “eu sou
isso”. A frase organiza. Ela oferece pertencimento, uma explicação, às vezes
até uma espécie de absolvição: agora sei por que faço isso. Mas existe também
um risco quando o diagnóstico deixa de ser uma maneira de compreender
determinados aspectos do funcionamento e passa a ser a maneira pela qual o
sujeito se define por inteiro.
Quando
alguém diz “eu sou narcisista”, por exemplo, talvez valha a pena perguntar não
apenas se essa formulação é correta, mas o que significa, para aquela pessoa,
precisar dizer isso sobre si. O que ela ganha quando se reconhece nesse nome? O
que ela perde? Que comportamentos passam a parecer inevitáveis depois que
recebem essa explicação? Que possibilidades deixam de ser imaginadas?
Não se trata
de retirar do paciente o direito de nomear sua experiência. Trata-se de não
deixar que o nome encerre a experiência. E a tarefa delicada do psicólogo
é justamente essa: escutar aquilo que o paciente já sabe sem se deixar
limitar por aquilo que ele já sabe. Não para contradizê-lo gratuitamente, não
para demonstrar que sua compreensão anterior estava errada, mas para perceber
onde a explicação começa a falhar. Porque é aí que
aparece alguma coisa.
Foi ai que o
sofrimento se tornou interessante. Eu disse a ele: "sim, sua mãe não fez por querer,
mas ela fez". No caso desse paciente, a falha aparecia diante das
lágrimas. Ele dizia saber o que havia acontecido. Sabia que não tinha sido
abandonado. Sabia que a mãe o amava. Sabia que aquela experiência havia
produzido também coisas boas. Não encontrava um pensamento disfuncional
evidente que justificasse a intensidade da sua reação. E, mesmo assim,
sentia.
Então, eu repeti a pergunta que ele mesmo se fez “qual foi o pensamento que gerou esse
sentimento?”. E perguntei se não podíamos inverter a direção um pouquinho e se perguntar: o que acontece se você não precisar encontrar imediatamente o
pensamento? O que acontece se você não precisar corrigir a emoção? O
que acontece se, diante dessa emoção, você puder simplesmente descobrir que
sente?
Ele ficou
mudo, me olhando, um silêncio se fez. Para mim, não parecia ter sido uma pergunta tão grandiosa. Mas logo entendi, fomos treinados a fazer tanto com aquilo que sentimos que simplesmente sentir
pode se tornar uma tarefa estranha. Ele mesmo havia me descrito uma
estratégia de escrita que utilizava quando estava muito estressado. Colocava no
papel aquilo que o preocupava, organizava as questões, listava os pontos que
ocupavam sua cabeça. Era uma ferramenta de cuidado, e, segundo ele, era uma ferramenta
muito útil.
Concordei, podia ser mesmo. Mas
novamente me interessava menos a ferramenta em si do que a posição subjetiva
que começava a aparecer por trás dela. Quando alguma coisa surgia dentro dele,
havia uma tendência a colocá-la diante de si, observá-la, nomeá-la,
organizá-la. Como se pudesse, dessa maneira, criar uma distância segura entre
ele e aquilo que sentia.
Era uma
forma de inteligência emocional, dizia ele. E me arrisquei, complementado a
fala dele, dizendo que talvez também era uma forma de defesa. O que o
surpreendeu bastante, vi o desconforto e como ele se ajeitou novamente na
cadeira e olhou para o relógio que tinha no pulso.
E as duas
coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Há pessoas que se protegem não
deixando de pensar, mas pensando demais. Não porque sejam incapazes de sentir,
mas porque pensar lhes permite não permanecer por muito tempo diante do que
sentem. A inteligência pode se transformar em uma espécie de abrigo. A
pessoa compreende, explica, relaciona, contextualiza, encontra conceitos. E,
enquanto está fazendo tudo isso, não precisa permanecer inteiramente
diante da experiência.
Isso me fez
pensar que existe uma diferença entre observar a si mesmo e estar
consigo mesmo. Podemos observar uma emoção como quem observa alguma
coisa do lado de fora. Podemos dizer: estou sentindo raiva, isso é ansiedade,
isso é uma resposta ao abandono, isso ativou minha crença de desvalor. Tudo
pode estar correto. Mas ainda assim existe uma distância entre saber que
estamos sentindo alguma coisa e, de fato, nos deixarmos encontrar por aquilo
que estamos sentindo.
Eu acredito,
independentemente da abordagem, que a psicoterapia precisa desse segundo
movimento. Não apenas compreender o funcionamento, mas experimentar a
própria existência dentro dele. Não apenas identificar o gatilho, mas
descobrir o que aquele gatilho significa para aquela pessoa. Não apenas
reconhecer um padrão, mas perceber como é estar dentro dele. Não apenas
perguntar “por que faço isso?”, mas, conseguir perguntar “como é para mim fazer
isso?”.
E foi ai que
percebi que o nosso encontro começou, de fato, a movimentar.
Não é
possível escolher completamente uma relação terapêutica antes de vivê-la.
Podemos pesquisar a formação do profissional, sua abordagem, suas
especializações. Podemos chegar com uma indicação, uma recomendação, uma
hipótese diagnóstica e até uma ideia bastante clara do que queremos
trabalhar.
Eu acredito
que há alguma coisa que só aparece quando estamos diante de alguém. Como
me sinto falando com essa pessoa? Consigo me escutar enquanto
falo? Sinto que preciso dar respostas certas? Tenho medo de
decepcioná-la? Consigo dizer que não concordo? Consigo ficar em
silêncio? Consigo falar de algo que não compreendo? Consigo aparecer
ali sem precisar chegar com uma versão organizada de mim?
Essas
experiências dizem tanto sobre o processo terapêutico quanto a abordagem que
está escrita no currículo do profissional. E isso não significa que a
técnica seja irrelevante. Muito pelo contrário. Conhecimento, formação e método
importam. Mas eles não devem ocupar todo o espaço da sessão. Porque
existe uma tentação, inclusive entre nós, psicólogos, de também querer saber
rapidamente o que está acontecendo. Afinal, fomos formados para escutar,
formular hipóteses, reconhecer padrões, compreender mecanismos.
Mas é
necessário suportar, o fato de ainda não saber. Há uma espécie de
humildade clínica nisso. Dizer, ainda que silenciosamente: eu não
preciso entender você imediatamente. Podemos permanecer um pouco
mais. Podemos observar. Podemos deixar que uma contradição
exista. Podemos permitir que uma história não se feche na primeira
explicação disponível.
Foi o que
escolhi fazer naquela sessão. O sujeito é sempre maior do que a explicação que
conseguimos produzir sobre ele.
Nesse
momento, voltei naquela frase do início: “Eu sou narcisista”. Não
perguntei se ele era ou não era. Mas perguntei o que acontecia com
ele quando ele dizia que era. Porque uma coisa é utilizar um conceito
para compreender determinado aspecto do próprio funcionamento. Outra, muito
diferente, é transformar o conceito em destino.
Quando uma
pessoa diz “eu sou isso”, existe o risco de que outras possibilidades
desapareçam. Se sou narcisista, talvez eu seja inevitavelmente
assim. Se sou ansioso, talvez eu seja alguém que sempre será dominado pela
ansiedade. Se tenho trauma, talvez tudo o que faço é explicado
pelo trauma. Se tenho TDAH, talvez toda dificuldade de organização tem essa mesma explicação.
O
diagnóstico pode iluminar, não tenho dúvida disso. Mas, quando utilizado como
identidade total, também pode lançar sombras sobre aquilo que não cabe
nele. E, pra mim, uma boa psicoterapia não é aquela que oferece ao
paciente uma explicação cada vez mais sofisticada sobre quem ele é. Acho que o
meu papel era permitir que ele se tornasse menos prisioneiro das
explicações que já possuía.
Mas, por
favor, me entendam. Isso não significa abandonar o
conhecimento. Significa recolocá-lo no seu devido lugar. O
diagnóstico pode ser uma ferramenta, não uma sentença. A técnica pode ser
um recurso, não um roteiro que precisa ser seguido independentemente de quem
está diante de nós. A teoria pode ajudar a enxergar, mas não deveria
impedir que enxergássemos aquilo que não está previsto por ela. E o
sofrimento pode ser cuidado sem que precisemos tratá-lo imediatamente como um
problema a ser eliminado.
Sempre me
questiono sobre isso, a cada paciente, a cada sessão. Em uma época tão
interessada em soluções: algumas experiências precisam primeiro ser vividas
antes de serem resolvidas. Nem tudo o que dói precisa ser consertado. Nem tudo o que incomoda precisa ser
eliminado. Nem toda lágrima precisa de uma explicação.
Acredito que
o paciente precisa apenas de um lugar suficientemente seguro para
descobrir que pode chorar por aquilo que já compreendeu racionalmente há muito
tempo. É isso também é uma forma de conhecimento. Um conhecimento que
não vem da explicação, mas da experiência. Um conhecimento que não pergunta
“como faço isso parar?”, mas consegue permanecer tempo suficiente para
perguntar: “O que existe aqui?”
A sessão terminou. Ele saiu reflexivo e, provavelmente, confuso. Se vai voltar, não sei. Se aquilo o tocou de algum modo, também não tenho como saber. Nem sempre sabemos o que acontece com aquilo que oferecemos depois que a pessoa atravessa a porta. O que eu sei é que, naquele momento, pude apenas oferecer o que estava ao meu alcance.
Porque, no
fim, não sei se o objetivo da psicoterapia é ensinar alguém a nunca
mais sofrer. Isso me parece uma promessa impossível. Meu trabalho é um
pouco mais modesto. Eu o resumiria dizendo que é ajudar alguém a não
precisar fugir tão rapidamente daquilo que sente. Ajudá-lo a reconhecer
que pode haver sofrimento sem que ele precise imediatamente se transformar em um diagnóstico, uma estratégia ou uma explicação.
O que estava ao meu alcance era ajudá-lo a
descobrir que nem toda dor precisa ser retirada. Algumas precisam ser
atravessadas, elaboradas, choradas. Precisam ser escutadas até
que, pouco a pouco, possamos compreender, o que aquele
sofrimento está tentando nos mostrar.
Tenho para mim que a dor nos conduz, com o tempo, a lugares de nós mesmos que ainda não havíamos conseguido alcançar.
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