Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

A ansiedade que antecede a mudança

Existe um tipo de ansiedade que ninguém comenta muito: aquela que aparece justamente quando a gente está fazendo tudo certo.

Quando a mudança é desejada, planejada, pensada, sonhada e mesmo assim o corpo reage como se algo estivesse prestes a desabar.

É estranho, né?
Você decide mudar de emprego, de casa, de cidade, de rotina, de vida. Você organiza, calcula, se prepara. Mas, antes, começam a surgir sinais inesperados:

um aperto no peito,
uma dúvida que você jurava que já estava resolvida,
uma vontade de voltar atrás,
um medo que não sabe explicar,
uma sensação de “e se der errado?” que insiste em aparecer mesmo quando tudo aponta para dar certo.

A verdade é que até as boas mudanças causam impacto.
E o corpo sabe disso antes mesmo de você admitir.

A ansiedade da mudança planejada não é sinal de fraqueza, indecisão ou insegurança. Ela é, muitas vezes, um anúncio silencioso de que algo antigo está sendo deixado para trás e, mesmo quando a gente está feliz com o que vem pela frente, despedidas internas sempre doem um pouco.

Você pode estar animado com o novo trabalho, mas ainda assim sentir falta da rotina antiga.
Pode estar pronto para virar a chave, e ainda assim sentir medo do desconhecido.
Pode desejar profundamente a mudança… e, ao mesmo tempo, temer que ela transforme você mais do que gostaria.

E transforma.

Toda mudança verdadeira reorganiza alguma coisa dentro de nós: uma identidade, um lugar, um modo de estar no mundo.
E essa reorganização nem sempre é confortável.

A ansiedade aparece como uma tentativa do corpo de acompanhar o que já mudou na cabeça.

Talvez o ponto seja esse: a ansiedade não está ali para impedir a mudança, mas para te lembrar que você está vivo, sensível, atravessado por tudo que decide.

É permitido sentir medo, mesmo quando se está pronto.
É permitido sentir dúvida, mesmo quando se tem clareza.
É permitido tremer um pouco, mesmo quando se deseja muito.

O importante é não confundir ansiedade com sinal de que você está no caminho errado.
Às vezes ela é só o eco do que está ficando para trás, um movimento natural antes do passo que finalmente te coloca no lugar certo.

E se houver um segredo para lidar com essa ansiedade, talvez seja este:
seguir mesmo assim.
Um passo por vez.
Com cuidado, mas sem recuar.

Porque a mudança planejada não pede coragem perfeita, só pede presença.
E, ao decidir mudar, você já tem muita coragem.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Uma conversa imaginária

Imagine uma sala, silenciosa, onde dois mundos que nunca deveriam se encontrar finalmente se encaram:

um algoritmo, preciso e objetivo, e o inconsciente, cheio de curvas, buracos e desvios.

O algoritmo começa a conversa, sem perder tempo:

Preciso de dados.
— Sobre o quê? pergunta o inconsciente.
— Sobre você. Para funcionar melhor. Para prever. Para otimizar.

O inconsciente ri,  não um riso debochado, mas um riso que sabe demais.

Prever? Meu caro… eu não fui feito para ser previsto.

O algoritmo se ajusta, reorganiza seus parâmetros, tenta compreender aquele enigma diante dele.

— Então me explique como você opera. Qual é a sua lógica?
Não tenho lógica.
— Mas tudo tem.
— Não. Nem tudo. Eu trabalho com restos, lapsos, sonhos, tropeços, esquecimentos. Com aquilo que não cabe na planilha.

O algoritmo processa. E trava por um segundo.

— Mas… você é confiável?
— Só para quem me escuta.
— E por que você fala em códigos tão estranhos?
— Porque o sujeito também é estranho. E eu só devolvo o que ele tenta esconder.

O algoritmo, acostumado a respostas binárias, começa a se irritar:

— Então você está me dizendo que não posso te organizar?
— Pode tentar. Mas vai perder o melhor de mim: a surpresa.

O inconsciente se aproxima e continua:

— Veja… você trabalha com padrões. Eu trabalho com falhas nos padrões.
— Falhas?
— Sim. Aquilo que você chama de erro, eu chamo de verdade pulsando. O equívoco é matéria-prima para mim.

O algoritmo calcula.
O inconsciente boceja.

— Se eu te entendesse, diz o algoritmo, eu poderia prever o comportamento humano.
E é justamente por isso que você nunca vai me entender.
— Por quê?
— Porque o humano não foi feito para caber num modelo. Ele escapa. Ele falta. Ele deseja.

O algoritmo silencia.
Ele não tem função para desejo.

— Então qual é a sua utilidade?  pergunta, quase ofendido.
— A minha função não é ser útil. É ser ouvido. E, quando sou, algo muda no sujeito. Não porque eu trago respostas, mas porque faço perguntas que ele preferia evitar.

O algoritmo pensa naquilo.
Há uma pausa longa, longa demais para seu tempo de processamento.

— Talvez, diz o algoritmo, sejamos incompatíveis.
— Talvez, diz o inconsciente, sejamos necessários.
— Como assim?
— Você ajuda o mundo a funcionar. Eu ajudo o sujeito a existir dentro desse mundo.

O algoritmo, pela primeira vez, não tenta otimizar nada.
Só registra o que ouve.

O inconsciente sorri, como quem sabe que jamais será traduzido, e também jamais deixará de operar.

E a conversa termina assim:
um reconhecendo a impossibilidade do outro 
e ambos admitindo que, apesar disso, há espaço para coexistirem.

Afinal, até no mundo mais tecnológico, há sempre um resto que nenhuma máquina captura.
E é nesse resto que o inconsciente vive.

Quando o trabalho ocupa todos os espaços

Durante muitos anos, o trabalho foi a minha casa. Meu mapa. Meu norte. Eu acordava para ele, organizava meu dia em função dele, e tudo o que não fosse “produtivo” me parecia perda de tempo. Era workaholic, embora eu não usasse essa palavra, para mim, aquela forma intensa de viver era só… normal.

Eu gostava do ritmo, das entregas, da sensação de resolver problemas, de ser necessária. O trabalho era onde eu me sentia competente, reconhecida, útil. Era meu lugar de segurança. E, por isso, foi ocupando todos os outros. Aos poucos, quase sem perceber, deixei que ele fosse tomando espaço das relações, dos afetos, do descanso, da intimidade comigo mesma.

Quando comecei análise, a primeira pergunta da minha analista foi:

“O que o trabalho significa para você?”

E eu respondi, sem pensar:

“Tudo.”

Ela sorriu, sem julgamento, mas como um espelho, e disse:

“Tudo é muita coisa.”

E foi ali, exatamente ali, que minha jornada começou.

Tudo.

Essa palavra ecoou dentro de mim. E foi a primeira vez que me dei conta de que talvez houvesse algo errado, não no trabalho, mas no tamanho que ele tinha na minha vida. No espaço que eu entregava para ele, sem questionar nada.

Porque quando o trabalho vira “tudo”, o resto vira quase nada.

Na época, eu não sabia dizer quem eu era fora daquela lógica de produtividade. Não sabia o que eu gostava de fazer, o que me nutria, o que me descansava. Não sabia sequer onde doía, porque eu não parava tempo suficiente para sentir. Era mais fácil continuar produzindo, cumprindo, funcionando. Era mais fácil seguir em movimento do que admitir que alguma coisa ali estava me escapando.

A análise, aos poucos, muito aos poucos, me permitiu olhar para isso sem culpa. E entender que o trabalho, quando ocupa todos os lugares da vida, não deixa espaço para mais nada viver ali dentro.

É curioso: às vezes, quando tudo está dando errado no trabalho, a gente pensa em mudar. Mas quando tudo está dando certo, promoções, reconhecimento, futuro brilhante, é aí que a escolha fica realmente difícil. Porque exige olhar para o próprio desejo, e isso assusta mais do que qualquer demissão.

Eu precisei encarar que aquela vida que funcionava tão bem por fora estava apertada demais por dentro. E que talvez o sucesso que eu tinha construído não conversasse com aquilo que, silenciosamente, eu queria viver.

Hoje, não conto essa história como quem “superou” algo, porque eu ainda cuido para não cair na armadilha de novo. O trabalho ainda é importante para mim, talvez não é mais tudo. E, pela primeira vez, isso não me parece uma perda. Parece espaço.

Espaço para existir em outras versões.

Espaço para desejar.

Espaço para não saber.

Espaço para viver.

E talvez seja isso que quase ninguém conta: às vezes, reorganizar a relação com o trabalho não é sobre trabalhar menos, porque hoje trabalho muitoooooo, é sobre caber mais em si mesma.

O luto pelas versões que não vivi

Às vezes, quando olho para minha própria história, percebo que carrego alguns lutos que ninguém vê.

Não são perdas óbvias, não têm despedida, não têm ritual.

São lutos por versões minhas que eu não fui.

A versão que continuou naquela carreira.

A que aceitou aquele emprego.

A que ficou na empresa onde tudo estava “indo bem”.

A que seguiu o plano que parecia tão lógico.

A que não teve coragem de virar a mesa.

Ou a que teve e até hoje se pergunta “e se…?”.

Essas versões não vividas aparecem em momentos muito específicos: no silêncio depois de um dia difícil, na conversa com alguém que seguiu outro caminho, na nostalgia que bate por coisas que nunca existiram de fato, mas que poderiam ter existido.

É curioso como a gente costuma acreditar que só se lamenta o que deu errado.

Mas não.

Às vezes dói justamente o que poderia ter dado certo.

E eu percebi que esse é um tipo de luto que ninguém nos ensina a nomear.

A gente cresce ouvindo que pode ser o que quiser.

Mas ninguém fala sobre o preço que isso tem: se posso ser qualquer coisa, também vou ter que abrir mão de todas as outras.

Escolher uma vida é, inevitavelmente, desistir de várias outras.

E mesmo quando estou feliz com quem me tornei, mesmo quando olho para trás e sei que fiz o que precisava fazer, ainda existe um pequeno eco de tudo aquilo que não fui.

E tudo bem.

A gente acha que amadurecer é ter certeza.

Mas, na verdade, amadurecer talvez seja aprender a conviver com o que poderia ter sido, sem deixar que isso invalide aquilo que é.

Hoje eu entendo que esses lutos silenciosos fazem parte da minha história.

Eles não me paralisam, mas me lembram que cada escolha é também uma renúncia e que viver implica perder versões de mim que, por mais bonitas que fossem na imaginação, não caberiam na pessoa que eu me tornei.

Talvez não exista jeito certo de lidar com isso.

Mas existe honestidade:

reconhecer que dói, que pesa, que às vezes dá saudade do que nunca aconteceu.

E existe, também, uma espécie de paz:

a de seguir caminhando com todas as versões que não foram, sabendo que cada uma delas me construiu de algum jeito, mesmo as que nunca existiram.

Escolher quando tudo está dando certo...

Tem uma coisa sobre escolha que ninguém conta pra gente:

trocar de caminho quando tudo está dando errado é difícil, claro…
mas trocar quando tudo está dando certo pode ser ainda mais.

Porque quando o trabalho está ruim, quando a empresa te desgasta, quando o salário não compensa, quando o ambiente é tóxico, a decisão até dói, mas se explica. “Não estava bom.” “Eu precisava sair.” “Era insustentável.”

Agora… e quando está tudo funcionando?

E quando você está sendo promovido?
Quando o time te admira?
Quando o dinheiro entra?
Quando a carreira está fluindo e você é “a pessoa que deu certo”?
Quando todo mundo olha e diz: nossa, que futuro!

Aí a coisa complica.

Porque trocar nessa hora é ir contra a lógica de todo mundo e, principalmente, contra a lógica que você mesmo construiu. É admitir algo que muita gente tenta varrer pra debaixo do tapete: que sucesso profissional não garante sentido. Que reconhecimento não garante desejo. Que crescer não garante estar onde você realmente quer estar.

E isso, pra muita gente, é quase proibido de pensar.

A pergunta que começa a incomodar é simples, mas profunda:

“Se está tudo dando certo… por que eu não estou?”

É aí que mora o conflito.

Não é sobre crise.
Não é sobre ingratidão.
Não é sobre jogar tudo pro alto.
É sobre perceber que existe uma distância entre a vida que funciona e a vida que faz sentido.
Entre aquilo que você sabe fazer muito bem e aquilo que te move por dentro.
Entre o que o mundo aplaude e o que você de fato deseja.

Escolher nessa hora exige coragem.

Coragem de enfrentar a expectativa alheia.
Coragem de abrir mão do conforto.
Coragem de assumir que, mesmo dando certo, não era isso.
Coragem de se escutar e não só seguir o fluxo.

É muito mais fácil mudar de caminho quando tudo está desmoronando.
Difícil mesmo é mudar antes de desmoronar.
É olhar para a própria vida e dizer: “eu quero outra coisa”, mesmo quando nada de fora parece justificar essa virada.

A verdade é que priorizar o próprio desejo, o desejo real, não o que te ensinaram a ter, costuma parecer uma escolha irracional. Antieconômica. Insegura. Estranha. Mas, no fundo, é a única escolha que sustenta uma vida que seja sua de verdade.

E quem passa por isso sabe: não é sobre abandonar uma carreira.
É sobre não abandonar a si mesmo.

O que a tecnologia e a psicanálise têm em comum?

Se há algo que a tecnologia e a psicanálise têm em comum, é que ambas lidam com o desconhecido.

Entre código, desejo e subjetividade: por que tantos profissionais de tecnologia buscam terapia e o que a psicanálise tem a dizer sobre isso

O mundo da tecnologia sempre foi associado ao futuro: inovação, velocidade, soluções inteligentes, criatividade aplicada, automação, eficiência. É um campo que move a economia e organiza aspectos essenciais da vida contemporânea e também um universo que, por trás de toda sua lógica, carrega uma complexidade humana que muitas vezes passa despercebida.

Nos últimos anos, tenho observado um movimento crescente: profissionais de tecnologia procurando terapia. Não como último recurso, não apenas em situações-limite, mas como uma busca legítima por um espaço onde aquilo que não cabe nos algoritmos possa ser, finalmente, dito.

E é justamente nesse ponto que a psicanálise, especialmente a perspectiva lacaniana, oferece algo singular: uma escuta que não se deixa capturar pelos discursos do desempenho, da produtividade ou das soluções rápidas. 

A área de tecnologia opera sob uma lógica específica: o novo sempre está chegando, a atualização é constante, a especialização é quase infinita. É um ambiente que exige flexibilidade, excelência e reinvenção permanente.

Do ponto de vista psicanalítico, essa dinâmica toca diretamente um ponto estrutural do sujeito: o ideal.

Nessas carreiras, há sempre um nível mais alto para alcançar, uma linguagem nova para aprender, uma certificação para obter, uma arquitetura mais eficiente para dominar. O ideal nunca se esgota e por isso pode virar um motor de angústia.

Para muitos profissionais, a pergunta que aparece na terapia não é “como ser melhor?”, mas:

“Até quando vou me medir por isso?”

“O quanto desse ideal é meu, e o quanto é do mercado?”

“Quem eu sou quando não estou performando?”

A carreira em tecnologia se torna, para muitos, um cenário privilegiado onde o sujeito se confronta com o que realmente deseja e com aquilo que cumpre apenas para atender expectativas externas.

Por que os profissionais de tecnologia procuram terapia? 

Não é só pelo burnout. Ele aparece, claro. Mas, diante da escuta clínica, o burnout frequentemente se revela como um sintoma que aponta para questões mais profundas, que não começaram no trabalho, mas ali ganharam forma.

Entre os motivos que surgem com frequência, estão: 

1. A pressão constante por desempenho: Mesmo profissionais altamente competentes relatam a sensação de estar sempre atrasados. É como se a régua subisse mais rápido do que eles conseguem acompanhar. 

2. O esvaziamento do sentido: Em certo momento, muitos dizem algo assim: “Eu sou bom no que faço. Só não sei mais por quê faço.” É a crise do desejo, quando o sujeito percebe que funciona bem, mas já não encontra sentido no movimento. 

3. A solidão do trabalho remoto, o home office trouxe conforto e flexibilidade, mas também um aumento significativo na sensação de isolamento. A ausência do laço cotidiano evidencia questões que antes se diluíam no convívio. 

4. A dinâmica das reorganizações e incertezas: Demissões, reestruturações, fusões, mudanças bruscas. Esses eventos, mesmo quando não atingem diretamente o sujeito, produzem um clima de instabilidade que alimenta ansiedade e antecipação. 

5. A distância entre o sujeito e sua própria vida: Talvez o ponto mais comum seja este: a distância entre quem a pessoa é e o que ela vive no cotidiano vai se tornando tão grande que, de repente, algo não sustenta mais. É nesse momento que o sujeito procura terapia, não para encontrar respostas prontas, mas para abrir um espaço onde possa, finalmente, formular as perguntas certas.

O que a psicanálise tem a ver com isso?

Para Lacan, o desejo não é aquilo que queremos conscientemente.
Não é uma lista de metas, nem um conjunto de objetivos profissionais.
O desejo é o que nos move de forma mais profunda, aquilo que insiste, que retorna, que não se explica por métricas de desempenho.

E é justamente por isso que a psicanálise consegue iluminar questões de carreira de um modo tão singular.
Ela não pergunta: qual plano de carreira você quer seguir?
Ela pergunta: o que você está oferecendo de si quando faz o que faz?
O que você encontra ou perde nesse trabalho?
O que está em jogo para você nessa trajetória?

Muitos profissionais de tecnologia descobrem, ao longo do processo analítico, que seu percurso foi guiado mais pelo ideal do que pelo desejo. A análise permite separar uma coisa da outra e, quando isso acontece, algo muda. Às vezes muda o trabalho; às vezes muda a relação com o trabalho.

Em ambos os casos, quem muda é o sujeito. 

A tecnologia opera por lógica.

A subjetividade opera por falta.

A tecnologia busca eficiência.
O sujeito humano é estruturalmente marcado pela incompletude.

A tecnologia tenta prever.
O inconsciente, ao contrário, surpreende e muito.

O diálogo entre esses dois mundos não é impossível; ele apenas exige uma mudança de perspectiva.

A psicanálise não oferece técnicas de produtividade, não traz atalhos, não corrige bugs emocionais. Ela propõe algo que talvez seja ainda mais radical: uma pausa. Um espaço onde aquilo que se repete, aquilo que insiste, aquilo que transborda, possa ser ouvido e interpretado e quem sabe, elaborado.

No universo tech, onde tudo é rápido, mensurável e escalável, esse tipo de espaço é raro e talvez por isso seja tão necessário. 

No fim das contas, o que faz tantos profissionais de tecnologia buscarem terapia e permanecerem nela é algo simples, mas profundo:

Eles encontram um lugar onde podem existir sem performar.
Sem ter todas as respostas.
Sem precisar provar domínio.
Sem métricas.
Sem sprint.
Sem backlog.

Um lugar onde a vida psíquica pode emergir na sua forma própria, com suas dúvidas, suas dores, seus desejos, suas ambivalências.

E é nesse espaço que algo se reorganiza.
Não como quem atualiza um sistema, mas como quem se reencontra consigo mesmo. 

Se há algo que o mundo da tecnologia e a psicanálise têm em comum, é que ambos lidam com o desconhecido.

A tecnologia olha para o futuro do mundo.
A psicanálise olha para o futuro do sujeito.

E quando esses dois universos se encontram, como na PsiT.ech, forma-se um campo fértil para pensar novas maneiras de existir em meio ao digital, sem perder de vista o humano que sustenta tudo isso.

Talvez a pergunta que fique seja:
Como cada sujeito pode construir um lugar para si em meio a tantas demandas, expectativas e possibilidades?
A psicanálise não responde.
Mas ela sustenta a pergunta e é aí que o trabalho começa.

Minha travessia: PsiT.ech

Depois de cinco anos de graduação, muitos estágios, supervisões, leituras, encontros e desencontros — chego ao último mês do curso de Psicologia. Às vezes me surpreendo com a sensação de que tudo passou rápido; outras vezes sinto como se eu tivesse vivido umas três vidas nesse caminho. Talvez eu tenha mesmo.

Essa é a minha segunda graduação. Antes da psicologia, eu vivi muitos anos no universo da computação, mergulhada em lógica, sistemas, tecnologia, resolução de problemas — tudo aquilo que faz o mundo funcionar enquanto ninguém está vendo. Trabalhei, programei, liderei, aprendi e, por muito tempo, achei que era ali que eu ficaria. Até que, silenciosamente, começou a nascer um desejo. Uma pergunta que primeiro sussurra, depois insiste: é isso mesmo?

Com o tempo, percebi que meu entusiasmo pelo humano, pelo que não cabe em algoritmos, pelo que escapa da lógica, era maior do que qualquer linha de código. A decisão não foi simples, nem rápida. Mas veio — e com coragem: pedi demissão no último ano de psicologia para me dedicar integralmente à formação clínica. E aqui estou.

Agora, às vésperas da formatura e com o CRP chegando, estou abrindo oficialmente minha clínica: a PsiT.ech — Psicologia e Tecnologia. Falta pouco! Mas, diferente do que pode parecer, a PsiT.ech não nasce agora. Ela vem sendo construída desde o primeiro semestre da graduação — nos textos que escrevi, nas reflexões que compartilhei, nas experiências que acumulei, nas conversas com profissionais da psicologia e da área tech e nos atravessamentos que fizeram essa ponte ganhar forma. O que nasce agora é apenas a sua fase clínica, profissional, madura.

Por que trabalhar com profissionais de tecnologia?

Porque eu conheço esse mundo por dentro.

Sei o ritmo acelerado, o burnout disfarçado de “alta performance”, os sprints que viram madrugada, a pressão por excelência, os lutos silenciosos da carreira meteórica, a ansiedade das metas, a solidão do home office, as reorganizações repentinas, as demissões em massa. Sei também a criatividade, a potência, o brilho nos olhos de quem ama construir o futuro.

E, ao mesmo tempo, sei o que acontece quando o sujeito se perde no meio disso tudo.

A psicanálise lacaniana — que escolhi como orientação clínica — me oferece um modo de escutar aquilo que não aparece nas redes sociais, aquilo que não se resolve com produtividade, nem com métricas, nem com atualizações de versão. É uma forma de acompanhar cada pessoa na construção singular de seu desejo, longe das soluções prontas, perto do que faz sentido para cada um.


A PsiT.ech nasceu disso ...

De um desejo construído ao longo de duas profissões.
De um percurso que integrou lógica e subjetividade, código e palavra, tecnologia e clínica.
De uma escolha: trabalhar com o que é humano no meio de um mundo cada vez mais digital.

E agora nasce a clínica. Falta pouco.

Pequena, cuidadosa, feita à mão — mas cheia de projeto. Um espaço de escuta, pesquisa, ética e acolhimento, com especial atenção aos profissionais de tecnologia e às singularidades desse campo.

E daqui pra frente?

Agora eu sigo construindo.

Sigo estudando, escutando, abrindo espaço para o novo.

Sigo apostando nesse encontro entre psicologia e tecnologia — um encontro que, para mim, não é apenas profissional, mas existencial.

Se você trabalha com tecnologia, já trabalhou ou está pensando em migrar de carreira, talvez esse espaço também seja para você.

A clínica PsiT.ech abrirá suas portas em breve — depois de cinco anos de gestação — e é um prazer poder compartilhá-la com você.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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