O que acontece quando a lógica dos aplicativos começa a
organizar também a forma como pensamos o cuidado psicológico?
Tem uma coisa acontecendo na Psicologia que me chama bastante a atenção. É a transformação do atendimento psicológico em uma espécie de serviço de aplicativo. A comparação pode parecer exagerada à primeira vista, mas basta pensar um pouco na lógica que já faz parte do nosso cotidiano. Pedimos comida pelo celular, chamamos um carro, fazemos compras, marcamos uma consulta, contratamos alguém para fazer um serviço e, em poucos minutos, esperamos encontrar aquilo que procuramos. Tudo precisa ser rápido, simples, disponível e, de preferência, barato. A vida foi ficando cada vez mais organizada por essa lógica da conveniência. E agora ela também começa a chegar ao campo da saúde mental.
Hoje é possível encontrar atendimento psicológico com poucos
cliques. Você entra em uma plataforma, escolhe o preço que cabe no bolso, vê a
foto e algumas informações sobre o profissional, marca um horário e pronto. Em
muitos casos, existe ainda a possibilidade de escolher entre diferentes
profissionais como quem compara serviços. Um custa tanto, outro custa um pouco
menos, um tem mais horários disponíveis, outro atende de madrugada. A
experiência pode ser extremamente conveniente, e não há nada de errado em usar
a tecnologia para ampliar o acesso à Psicologia. O problema começa quando a
facilidade de acesso vem acompanhada da ideia de que o processo psicológico
também deveria funcionar dessa maneira.
Porque terapia não é transporte por aplicativo. Não é uma corrida que começa, tem um ponto de partida, um destino e um valor calculado antes de terminar. Não é um produto que pode ser comparado apenas pelo preço, pela disponibilidade de horário ou pela quantidade de avaliações positivas. E, principalmente, não é um serviço em que o profissional deveria estar permanentemente disponível para atender às demandas de uma lógica de consumo.
A chamada uberização do trabalho já transformou diversas
profissões. A ideia é aparentemente simples: uma plataforma conecta quem
precisa de um serviço a quem oferece esse serviço. Só que, por trás dessa
praticidade, existe uma mudança importante na relação de trabalho. O
profissional passa a depender da plataforma para encontrar clientes, fica
submetido às regras estabelecidas por ela, precisa competir por preço e
disponibilidade e, muitas vezes, assume individualmente os riscos que antes
estavam mais distribuídos entre trabalhador e empresa.
Quando essa lógica chega à Psicologia, aparece uma contradição interessante. De um lado, as plataformas podem democratizar o acesso, aproximar profissionais de pessoas que nunca conseguiriam encontrá-los de outra maneira e facilitar o atendimento a quem mora longe dos grandes centros. Isso é importante e não deveria ser ignorado. De outro, existe o risco de transformar o psicólogo em mais um prestador de serviço dentro de uma enorme vitrine digital, disputando espaço, preço, visibilidade e avaliações. E aí precisamos fazer uma pergunta: o que acontece com a Psicologia quando o profissional começa a ser tratado como um item de catálogo?
Porque, nesse modelo, existe uma tendência de comparar
profissionais por características que são fáceis de colocar numa tela: preço,
disponibilidade, formação, número de avaliações, quantidade de pacientes
atendidos, especialidades, tempo de experiência. Só que aquilo que realmente
acontece dentro de um processo terapêutico não cabe tão facilmente nesses
critérios.
Uma boa relação terapêutica não aparece em uma estrelinha. A confiança não pode ser medida por cinco avaliações positivas. A possibilidade de falar sobre aquilo que nunca conseguimos dizer para ninguém não aparece na descrição do perfil. E o efeito que uma determinada escuta produz em uma pessoa não pode ser calculado como se estivéssemos avaliando um restaurante.
É claro que formação, experiência e qualificação
profissional importam. Importam muito. O problema é imaginar que eles são
suficientes para explicar o que acontece entre duas pessoas em um processo
clínico.
Existe algo na clínica que não funciona pela lógica da eficiência. E isso é particularmente difícil de sustentar em uma época em que somos constantemente estimulados a fazer tudo mais rápido. Queremos marcar a consulta rapidamente, resolver rapidamente o problema, entender rapidamente por que estamos sofrendo e voltar rapidamente à vida normal. Muitas vezes, chegamos à terapia esperando encontrar uma explicação para aquilo que está acontecendo conosco. Queremos saber por que estamos ansiosos, por que não conseguimos terminar um relacionamento, por que estamos tão cansados, por que não conseguimos dizer não, por que repetimos determinados comportamentos.
Só que a Psicologia, e especialmente a Psicanálise, não funciona necessariamente oferecendo uma resposta pronta. O trabalho começa justamente quando percebemos que a pergunta é mais complexa do que parecia. E isso não combina muito bem com a cultura do "resolva agora".
Existe também uma outra questão que me preocupa quando
pensamos nessa transformação. Quando o atendimento psicológico entra
completamente na lógica de mercado, existe o risco de começarmos a falar da
saúde mental usando a mesma linguagem que usamos para qualquer outro produto.
Falamos em experiência do cliente, fidelização, conversão, aquisição de
pacientes, agenda cheia, produtividade, retenção. É compreensível que
profissionais precisem pensar em sua sustentabilidade financeira e em sua
organização profissional. Psicólogos também precisam pagar contas, organizar
agenda, divulgar seu trabalho e construir uma carreira. O problema não está em
reconhecer que a clínica também acontece dentro de uma realidade econômica. O
problema está em permitir que a lógica econômica determine completamente aquilo
que deveria orientar o encontro clínico.
Um psicólogo precisa trabalhar. Isso é óbvio. Mas o paciente não deveria ser reduzido a uma fonte de receita. E o psicólogo também não deveria ser reduzido a alguém que precisa estar permanentemente disponível para produzir receita.
Essa discussão fica ainda mais importante quando pensamos
nas condições de trabalho desses profissionais. A plataforma pode oferecer a
promessa de liberdade: você escolhe seus horários, trabalha de onde quiser e
atende quantas pessoas quiser. Só que essa liberdade pode ser bastante
relativa. Se o profissional precisa estar disponível em determinados horários
para conseguir pacientes, se precisa reduzir seus preços para competir, se
depende das regras da plataforma e se precisa aceitar uma determinada dinâmica
para permanecer visível, estamos realmente falando de autonomia?
É aí que a expressão "uberização da Psicologia" ganha força. Não se trata simplesmente de atender pela internet ou de utilizar plataformas digitais. O atendimento online, por si só, não é o problema. A questão é outra: é a entrada de uma determinada lógica de mercado na maneira como o trabalho psicológico é organizado e oferecido. E isso nos interessa porque a Psicologia trabalha justamente com aquilo que o mercado tem dificuldade de compreender: o tempo subjetivo.
Uma pessoa pode passar meses falando de uma mesma questão. Pode chegar dizendo que está sofrendo por causa do trabalho e descobrir, ao longo do processo, que o trabalho era apenas a parte mais visível de algo muito maior. Pode procurar ajuda por causa de uma crise profissional e começar a falar sobre a relação com os pais. Pode chegar por causa de uma separação e perceber que a questão não era apenas aquela relação. Pode procurar terapia porque está "ansiosa" e descobrir que a ansiedade estava cumprindo uma função na maneira como organizava a própria vida. Nada disso acontece necessariamente em linha reta.
É um dos grandes problemas quando tentamos
encaixar a clínica em modelos muito rígidos de produtividade. A clínica não é
uma linha de montagem. Não existe uma quantidade determinada de sessões depois
da qual uma pessoa estará "pronta". Não existe uma tabela universal
dizendo quanto tempo alguém precisa para elaborar uma perda, compreender uma
repetição ou mudar sua relação com determinada questão.
Cada pessoa tem seu tempo. A tecnologia pode aproximar pessoas. Pode facilitar o acesso. Pode permitir que alguém que mora em uma cidade pequena encontre um profissional com quem se identifique. Pode tornar possível continuar um tratamento quando uma pessoa muda de cidade ou de país. Pode facilitar a organização da agenda e diminuir barreiras que antes dificultavam o acesso ao atendimento.
Tudo isso é muito positivo. Mas tecnologia é ferramenta. Não deveria se transformar na lógica que define o encontro.
Quando começamos a tratar a clínica como tratamos uma corrida de aplicativo, corremos o risco de esquecer que existe uma pessoa dos dois lados da tela. Existe um paciente que chega com uma história que não cabe em um formulário. E existe um profissional que não deveria ser obrigado a transformar sua escuta em uma mercadoria cada vez mais barata, rápida e disponível.
No fundo, a discussão sobre a uberização da Psicologia não é uma discussão contra a tecnologia. É uma discussão sobre qual lugar queremos dar à tecnologia dentro da clínica. Queremos que ela facilite o encontro ou que determine como o encontro deve acontecer? Queremos usar as plataformas para ampliar o acesso ou aceitar que elas definam o valor do trabalho psicológico? Queremos aproveitar as possibilidades do mundo digital sem transformar o sujeito em consumidor e o psicólogo em prestador de serviço sob demanda?
Essas perguntas estão ficando cada vez mais importantes. Porque, quando tudo ao nosso redor começa a funcionar por meio de aplicativos, existe uma tentação de acreditar que tudo pode ser organizado da mesma maneira. Mas nem tudo deveria funcionar como um aplicativo.
Algumas coisas precisam de tempo. Algumas precisam de vínculo. Algumas precisam de silêncio. Algumas precisam de repetição. Algumas precisam de uma pessoa diante de outra pessoa. E a clínica é um desses lugares que ainda precisam resistir à ideia de que tudo na vida precisa ser rápido, mensurável, comparável e imediatamente resolvido.
A Psicologia pode usar a tecnologia sem se tornar refém da lógica tecnológica. Pode estar no mundo digital sem transformar o sujeito em usuário. Pode oferecer acesso sem transformar o cuidado em produto. Pode modernizar sua forma de chegar às pessoas sem esquecer aquilo que torna a clínica diferente de tantos outros serviços.
No fim das contas, quando alguém procura um psicólogo, não está procurando apenas um horário disponível na agenda. Está procurando um lugar onde possa falar de alguma coisa que, muitas vezes, ainda nem sabe exatamente como dizer. E isso não se compra com um clique. Isso se constrói.
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