Há uma diferença importante entre querer reparar e querer desfazer.
Desfazer é desejar que aquilo não tivesse acontecido. Reparar é outra coisa: é reconhecer que aconteceu, reconhecer o que foi perdido ou danificado e, ainda assim, encontrar uma maneira de fazer algo com isso.
Na perspectiva de Melanie Klein, a reparação está profundamente ligada à posição depressiva. É quando o sujeito começa a perceber que o outro não é apenas uma extensão de seus desejos, mas alguém inteiro, amado e também capaz de ser ferido. A culpa aparece, então, não simplesmente como condenação, mas como possibilidade de responsabilização.
Sem culpa, não há propriamente reparação. Há, no máximo, tentativa de apagar vestígios.
Isso aparece de maneiras muito discretas na clínica.
Um paciente pode passar anos dizendo que não teve escolha. Que fez o que precisava fazer. Que o outro também errou. Que as circunstâncias eram aquelas. E talvez tudo isso seja verdade. Mas, em algum momento, surge uma frase diferente: “Eu sei que também fiz alguma coisa ali.” Essa frase pode parecer pequena. Não é.
Ela marca uma mudança importante: o sujeito deixa de estar apenas diante daquilo que fizeram com ele e começa a se perguntar sobre aquilo que fez, deixou de fazer ou não conseguiu fazer. Não para assumir uma culpa total pelo acontecido, mas para recuperar alguma participação na própria história. É nesse ponto que a reparação pode começar a operar.
E reparar não significa necessariamente pedir desculpas, voltar para alguém, reconstruir uma relação ou recuperar aquilo que foi perdido. Há perdas que não podem ser desfeitas. Pessoas não voltam. Lugares deixam de existir. Relações terminam. Certos períodos da vida não podem ser recuperados. Há também perdas no trabalho: um cargo, uma posição, uma promoção esperada, um projeto, uma identidade profissional. A reparação, nesses casos, consiste em outra coisa: conseguir reconhecer o valor do que existiu sem precisar permanecer preso àquilo.
Na clínica, às vezes, o movimento mais difícil não é perdoar o outro. É deixar de precisar destruir o outro para sobreviver ao que ele fez. E, em outros momentos, é deixar de destruir a si mesmo pelo que fez ou pelo que acredita ter feito.
Importante dizer que culpa e reparação caminham juntas, mas culpa e punição não são a mesma coisa. A culpa que não encontra possibilidade de reparação pode transformar-se em autopunição. O sujeito passa a acreditar que sofrer é a única maneira de demonstrar que reconhece o dano. Como se continuar pagando fosse uma forma de manter vivo aquilo que aconteceu. Mas reparar não é pagar uma dívida infinitamente.
É poder olhar para o que foi feito, pelo outro e por si mesmo, sem precisar negar, idealizar ou destruir. É sustentar a ambivalência: amar e ter raiva; sentir falta e reconhecer que não pode voltar; reconhecer o próprio erro sem transformar-se inteiramente em erro. Por isso que a reparação tenha tão pouco de heroico. Ela não costuma acontecer em grandes gestos. Aparece quando alguém finalmente consegue cuidar de alguma coisa que antes abandonava. Quando reconhece um limite. Quando pede desculpas sem exigir absolvição. Quando deixa de repetir uma violência. Quando consegue ocupar um lugar novo sem precisar destruir o lugar antigo.
Reparar é aceitar que algumas coisas não voltarão a ser como eram. E, por isso mesmo, começar a perguntar o que ainda pode ser feito.
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