Há uma parte
do trabalho de um analista que quase nunca aparece quando se fala sobre a
profissão. Fala-se muito sobre o paciente: seu sofrimento, suas histórias,
seus sintomas, suas relações, aquilo que o trouxe até a análise. Fala-se sobre
escuta, transferência, interpretação. Mas existe também tudo aquilo que
acontece do lado de cá da escuta.
O consultório
é um lugar curioso. Há um setting, um horário, uma frequência, uma poltrona,
uma porta que se fecha. Há regras que parecem simples, mas que sustentam algo
bastante complexo: a possibilidade de alguém falar sem precisar cuidar, naquele
momento, de quem está ouvindo.
E isso exige
muito do analista. Exige estar presente sem invadir. Acolher sem oferecer
respostas prontas. Sustentar o silêncio sem preenchê-lo por ansiedade. Escutar
aquilo que é dito, mas também aquilo que aparece na forma de dizer, de faltar,
de repetir, de evitar, de voltar. E exige reconhecer que o analista também
sente.
Há pacientes
que despertam ternura. Outros despertam preocupação, irritação, impotência,
identificação. Às vezes sentimos vontade de proteger, de acelerar um processo,
de tranquilizar, de dizer que vai ficar tudo bem. Às vezes uma fala permanece
conosco depois que a sessão termina.
A
contratransferência, nesse sentido, não é simplesmente um problema a ser
eliminado. Mas também não é uma autorização para agir a partir daquilo que
sentimos. O que o analista sente pode ser material de trabalho, desde que possa
ser pensado, elaborado e recolocado a serviço da escuta.
Uma das
partes mais difíceis da profissão é justamente essa: aprender a diferenciar o
que pertence a mim, o que pertence ao paciente e o que se produz entre nós.
Por isso,
cuidar de um paciente não significa estar disponível para tudo. O cuidado
também está no limite. Está no horário que começa e termina. Naquilo que não se
responde imediatamente. Naquilo que não se pergunta por curiosidade. Na
preservação do que é contado. Na supervisão. Na análise do próprio analista. Na
capacidade de reconhecer quando aquilo que acontece na sessão precisa ser
pensado antes de ser interpretado.
Há uma responsabilidade enorme em receber a intimidade de alguém. O paciente nos entrega histórias que talvez nunca tenha contado daquela maneira a ninguém. Às vezes entrega uma vergonha. Uma raiva. Uma fantasia. Uma perda. Uma contradição. Algo que sequer consegue nomear. E o trabalho não é transformar tudo isso imediatamente em sentido. É simplesmente sustentar aquele lugar até que alguma coisa possa aparecer.
Com o tempo, fui entendendo que ser analista tem menos a ver com saber o que dizer e muito mais com aprender a suportar o que ainda não sabemos. Porque o consultório também nos ensina que: nem tudo precisa ser resolvido, nem toda dor precisa ser rapidamente apaziguada e nem toda pergunta precisa receber uma resposta.
Há algo profundamente cuidadoso em poder dizer, mesmo sem palavras: podemos ficar um pouco aqui. Vamos olhar para isso juntos. E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas e mais difíceis dessa profissão: oferecer presença sem tomar para si a vida do outro. Estar perto o suficiente para escutar. E distante o suficiente para que o paciente continue podendo ser sujeito da própria história.
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