Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Psicologia e Tecnologia

A PsiT.ech nasce da interseção entre dois mundos: a tecnologia e a escuta clínica. Criada por uma profissional com anos de experiência em grandes empresas do setor de tecnologia e formação sólida em Psicologia com abordagem psicanalítica, a clínica oferece um espaço de acolhimento para quem vive (ou sobrevive) no ambiente corporativo.

Aqui, entendemos as pressões, as regras não ditas, as dinâmicas de poder, os jogos emocionais e as violências sutis que, muitas vezes, marcam o cotidiano profissional. A PsiT.ech é um lugar de pausa, onde a escuta é respeitosa, o tempo tem outro ritmo e a subjetividade encontra espaço para se expressar.

Acolhemos especialmente adultos que enfrentam sofrimento emocional relacionado ao trabalho: esgotamento, angústia, sensação de inadequação, injustiças, assédio moral ou mesmo a dificuldade de encontrar sentido em meio a estruturas rígidas e competitivas.

Na PsiT.ech, oferecemos um cuidado que combina sensibilidade clínica, escuta ética e compreensão profunda das engrenagens do mundo corporativo. Porque cuidar da saúde mental é também aprender a se reposicionar diante daquilo que nos atravessa — e, às vezes, nos adoece.

Seja bem-vindo(a). Aqui, sua história tem espaço.

Seja bem-vindo(a) à PsiT.ech

 Boas-vindas da PsiT.ech

Olá!

Seja bem-vindo(a) à PsiT.ech — um espaço de escuta, pausa e cuidado.

Aqui, entendemos que o mundo corporativo nem sempre é leve. Pressões, cobranças, silêncios, injustiças e dinâmicas sutis muitas vezes atravessam a vida profissional e impactam diretamente o bem-estar emocional.

Na PsiT.ech, você será recebido com ética, empatia e discrição. Acreditamos que cada pessoa carrega uma história única — e que poder falar sobre o que sente, sem julgamento, é o primeiro passo para se reconectar consigo.

Se você chegou até aqui, saiba que já começou um movimento importante.

Conte comigo nessa caminhada.

Entre o que foi e o que ainda não se sabe ser!

Recomeçar é muitas vezes visto como um ato de coragem, uma escolha consciente de abandonar o que não faz mais sentido para buscar algo novo. No entanto, poucos falam sobre a parte em que tudo desmorona—o momento em que, depois de tanto esforço, o novo caminho parece estranho, desconectado, como se a identidade tivesse se perdido no meio da travessia.

Muitas pessoas passam anos batalhando por uma mudança significativa. Enfrentam desafios, dedicam-se ao aprendizado, reinventam-se para ocupar um novo espaço. Mas, ao chegarem perto da conclusão dessa jornada, percebem que algo não se encaixa. A dúvida se instala, e aquilo que deveria ser uma conquista começa a parecer um erro.

Essa sensação pode surgir de diversas formas: um trabalho que já não traz sentido, uma mudança de área que parecia promissora, um curso superior que, nos últimos semestres, já não reflete mais quem se é. O sentimento de deslocamento cresce e traz consigo a insegurança: e se todo esse esforço foi em vão? E se o recomeço foi apenas um desvio para um lugar que nunca deveria ter sido o destino?

A maior dificuldade não é apenas questionar a escolha feita, mas encarar a incerteza do que vem depois. Não há garantias, não há mapas que indiquem o próximo passo. O futuro, que antes parecia claro, agora é um campo nebuloso, onde qualquer decisão pode parecer errada.

Muitos acreditam que recomeçar significa encontrar uma nova versão de si mesmo, mas, talvez, seja apenas um espaço de transição—uma zona instável entre o que foi e o que ainda não se sabe ser. E, nesse processo, sentir-se perdido pode não ser um sinal de fracasso, mas um estágio inevitável do crescimento.

Aceitar essa incerteza pode ser o primeiro passo para, enfim, encontrar um caminho que faça sentido.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Feliz Aniversário !

Faz muitos anos que tirei a data do meu aniversário de todas as redes sociais. Lembro bem do dia em que decidi fazer isso. Na época, eu recebia muitas mensagens—dezenas, às vezes centenas—de "parabéns" surgindo no meu feed, nas notificações, nos stories. Mas havia algo estranho, uma sensação incômoda de que tudo era muito automático. Uma enxurrada de felicitações que se apagavam no dia seguinte. Sei lá, um dia intenso, impulsionado pela tecnologia, mas sem carregar verdadeiramente o significado de uma lembrança, do que um aniversário deveria ser.

Entendo que as pessoas são sociáveis e não teriam como guardar todas as datas de aniversário à sua volta. A tecnologia ajuda nisso—ela lembra por nós, evita esquecimentos. Mas acho que, na vida, esquecer faz parte também. E tudo bem. Quando a relação é verdadeira, não é a ausência de um “feliz aniversário” que define o quanto você significa para alguém ou o quanto alguém tem consideração por você.

Não me entendam mal, não acho que as pessoas que enviavam mensagens estavam sendo falsas ou mal-intencionadas. Mas o contexto me fazia sentir que tudo era mecânico, rápido, eficiente—como se alguém visse a notificação, escrevesse “feliz aniversário!” e seguisse o dia adiante. E aí vinha o meu dilema: se a pessoa se lembrou de mim e enviou uma mensagem, eu deveria retribuir no aniversário dela. Então eu precisava salvar a data, me lembrar no ano seguinte, corresponder à expectativa. Mas e se, no dia do aniversário dessa pessoa, eu estivesse atravessando um momento difícil? Ou simplesmente esquecesse?

Ok. Acho legal lembranças espontâneas, sem dia, sem hora, sem obrigação. Lembrar por lembrar, querer falar, sentir falta, querer compartilhar,  porque deu vontade de falar, porque uma memória surgiu, porque um sentimento veio à tona. Sei lá. Sempre senti que essa parte mais burocrática das redes sociais transformava aniversários em um ritual social padronizado, quase um reflexo condicionado do que é lembrar de alguém, do politicamente correto.

Claro que, depois que desapareci das redes, as notificações também foram sumindo. A cada ano, menos pessoas lembravam, menos notificações, menos mensagens. E tudo bem. Foi interessante até para mim mesma. Racionalmente, eu sabia que aquela enxurrada de mensagens me envaidecia—teve anos em que recebi mais de 200 notificações, e eu pensava: "Nossa, como sou lembrada, como sou querida!" Mas será que aquilo realmente significava alguma coisa? Sim e Não. Sei que ninguém era obrigado a me mandar mensagem, que cada um escolhia fazer isso, existe uma intenção ai. Mas sempre me perguntei: se não houvesse a notificação, quantos realmente se lembrariam? Quantas mensagens seriam enviadas?

E de certa forma, só porque está nas redes sociais, não significa obrigação, sei que as pessoas decidem mandar a mensagem, são lembradas pelas redes, mas poderiam escolher não enviar msg. Então elas "gostam de você". Então sei que tem uma escolha, mas sempre questionei, porque apesar de estar escolhendo mandar e me reconhecer, talvez a lembrança genuína não seria exatamente naquele dia e naquele horário e naquela plataforma e daquela forma. Nao sei se me faço clara o bastante ou parece arrogância e me achar "centro do mundo". Não é! Penso em só liberar as pessoas para lembrarem do que quiserem lembrar e está tudo bem.

Ao longo dos anos, fui me surpreendendo com as poucas pessoas que, mesmo sem lembretes ou notificações, faziam questão de lembrar. Ligavam. Mandavam mensagens longas. Vinham até mim. Pessoas que, no meio da correria da vida, guardavam essa pequena informação sobre mim (a data do meu aniversário) —e escolhiam demonstrar carinho sem depender de alertas, sem ser o politicamente correto a se fazer. Trocando o "eu preciso te mandar uma msg" para o "eu quero aproveitar e te mandar uma msg". Esse gesto sempre me tocou mais do que qualquer avalanche de notificações nas redes.

É uma construção, uma escolha. Prefiro assim. No mundo de hoje, ser diferente quase sempre significa ser visto como estranho. 'Ah, essa pessoa tem baixa autoestima', 'essa pessoa se exclui', 'essa pessoa é exigente demais'... Mas não é nada disso. É apenas um jeito diferente de enxergar as coisas, de liberar as pessoas da obrigação de ter que lembrar.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que fui me afastando das felicitações superficiais, percebi algo interessante: as empresas nunca esquecem. O mercado se lembra do meu aniversário melhor do que muitas pessoas. Meu e-mail fica lotado de promoções especiais, cupons de desconto, mensagens genéricas de “feliz dia!” de marcas que sequer interagem comigo o resto do ano. Há uma certa ironia nisso. Num mundo onde as relações humanas são mediadas por algoritmos e lembretes automáticos, é o capitalismo que nunca falha em marcar presença. Transformando qualquer ocasião em "um momento especial" ... ops ... em "uma oportunidade comercial". Fico pensando se o mercado não é o melhor amigo de todos—porque está sempre lá, presente, rápido, preciso. E aquele amigo de carne e osso, cuja ligação você tanto espera? Esse, às vezes, esquece.

Essa percepção me fez querer resgatar o real significado do meu aniversário. Antes, tudo se misturava—os parabéns de quem realmente lembrava e os de quem apenas foi lembrado pela rede social. Eu quis separar as coisas. Quis voltar às raízes. Para mim, um aniversário não deveria ser sobre quantidade, mas sobre significado.

E mesmo que uma pessoa não se lembre—porque esqueceu, porque lembrou e não estava afim, porque lembrou e não teve tempo, porque estava perto demais e esqueceu, ou longe demais e esqueceu também—está tudo certo. Seguem sendo importantes para mim. Tem gente que divide o mundo entre os que lembram da sua data e os que não lembram. Mas, para mim, essa linha é outra. Me arrisco a dizer que algumas das pessoas mais preciosas da minha vida estão no grupo das que nunca lembram o dia certo—e que me fazem rir quando me mandam parabéns muito antes ou muito depois da data, boas risadas coleciono ai.

E, verdade seja dita, nunca fui alguém que fizesse do meu aniversário uma grande comemoração. Não porque eu ache que a vida não mereça ser celebrada, mas porque acredito que qualquer dia pode ser especial para lembrar de alguém e desejar coisas boas. Sempre me pareceu estranho que, para muitas pessoas, o único dia do ano em que demonstram carinho seja no aniversário. Para mim, felicitações não precisam ter data certa—elas deveriam acontecer no momento em que são sentidas.

Por isso, também não sou alguém que sai distribuindo "feliz aniversário" para todo mundo. Parabenizo um círculo pequeno—pessoas que realmente fazem parte da minha vida no dia a dia, que me tocam profundamente e que são aquelas pessoas as quais eu memorizei o aniversário ... com esforço. Muito esforço, diga-se de passagem, rs. Outras tantas que são igualmente importantes, mas, sinto muito, não consigo memorizar as datas dos seus aniversários. Eu me esforço também, mas sempre falho. 

E se um ano eu me lembrar e no outro não? Tudo bem. Lembro porque lembro, esqueço porque esqueço. Sem pressão, sem cobrança.

Porque, no fim das contas, mais do que lembrar uma data, o que importa é lembrar o afeto, a conexão e o que realmente significa compartilhar a vida com alguém. Tem gente com quem falo muito e não sinto conexão nenhuma. E tem gente com quem quase não falo, mas, quando interajo, sinto uma conexão imensa. Tem pessoas que vejo todo dia e fazem do meu aniversário uma data especial. E tem outras que vejo todo dia e nem sequer sabem quantos anos eu tenho. Tem pessoas e tem pessoas.

Então, se um dia você receber uma mensagem minha, saiba que ela não foi enviada por hábito, por uma notificação ou por uma obrigação social. Foi porque, naquele momento, eu pensei em você com carinho genuíno.

Estou envelhecendo e minha memória já não é a mesma. Se não receber minha mensagem no seu aniversário, entenda: não uso a tecnologia para isso. Pode ser que eu tenha me esquecido mesmo ou pode ser que eu não queira. E tudo bem. 

Tenho certeza de que as pessoas que eu amo e quero por perto não duvidam, sequer por um instante, do que representam para mim.

E, no fim das contas, não é isso que realmente importa?

E essa tal de Psicologia?

Estudar Psicologia é uma jornada que transcende o simples ato de adquirir conhecimento. Desde o primeiro contato com a área, percebemos que não estamos apenas aprendendo sobre teorias, conceitos e abordagens, mas que estamos, inevitavelmente, nos transformando no processo. Psicologia não é um campo que se estuda de fora para dentro. Pelo contrário, ela nos atravessa, nos implica e nos desafia a olhar para dentro de nós mesmos.

Cada ano da graduação traz novas descobertas e, com elas, novas inquietações. O objeto de estudo da Psicologia não é algo externo, distante, que podemos observar sem nos envolver. Estudamos o humano, e, sendo humanos, não há como evitar o impacto dessa imersão. As teorias que aprendemos nos ajudam a compreender os outros, mas também nos colocam frente a frente com nossos próprios medos, desejos e contradições. Assim, a Psicologia nos transforma, moldando nosso olhar sobre nós mesmos e sobre o mundo.

Além do impacto pessoal, estudar Psicologia desenvolve em nós um profundo senso de responsabilidade. Ao nos debruçarmos sobre o sofrimento humano, aprendemos que ele não pode ser reduzido a uma mera patologia ou a um diagnóstico. A saúde mental não é a simples ausência de transtornos, mas um estado dinâmico que envolve história de vida, relações interpessoais, contexto social e tantas outras variáveis. Dessa forma, passamos a enxergar o sofrimento sob outra perspectiva, sem reducionismos, mas com um olhar sensível, atento e, sobretudo, humanizado.

Ao longo da formação, aflora em nós um sentimento de gratidão – seja pelos professores que nos guiam, pelos autores que nos provocam reflexões, pelos pacientes que compartilham suas histórias, ou pela própria possibilidade de ter acesso a um conhecimento valioso. A Psicologia nos ensina a ter humildade diante da complexidade do humano e nos lembra constantemente de que, por mais que estudemos, não se tem todas as respostas.

Independentemente da abordagem teórica com a qual mais nos identificamos, todas compartilham um ponto em comum: lidam com a singularidade do sujeito. Algumas abordagens, como as comportamentais, propõem um olhar mais concreto e focado em recortes específicos do comportamento humano. Outras, como a psicanálise, mergulham nas profundezas do inconsciente e nos desafios da subjetividade. Há, ainda, as abordagens humanistas e existenciais, que nos confrontam com as grandes questões da existência. Embora distintas, todas essas vertentes são científicas e buscam compreender o ser humano em sua totalidade. E, ao estudarmos o outro, inevitavelmente nos deparamos conosco mesmos.

Estudar Psicologia não se trata de acumular conhecimento técnico. É uma experiência de constante transformação. É aprender a reconhecer que o outro é sempre único, que ninguém se reduz a um diagnóstico e que a complexidade do humano exige sensibilidade e escuta. É desenvolver um olhar empático para o sofrimento, compreendendo-o sem julgamentos. É perceber que, enquanto entendemos o outro, também nos descobrimos e nos reinventamos.

E essa jornada não termina com a graduação. Ao contrário, ela continua, a Psicologia não é um saber estático, mas um campo vivo, em constante construção – assim como nós. 

Porque, no fim das contas, estudar Psicologia é, antes de tudo, se permitir ser transformado por ela.

Desfazer é da ordem do impossível!

Ela chegou à análise falando de uma injustiça antiga.

Não era exatamente a injustiça que a trazia. Essa já tinha sido narrada muitas vezes, reconstruída em detalhes, examinada por todos os ângulos possíveis. Ela sabia o que havia acontecido. Sabia quem tinha feito o quê. Sabia, inclusive, o que teria sido justo que tivesse acontecido no lugar daquilo.

O que permanecia sem resposta era outra coisa: o que fazer agora com aquilo que aconteceu?

Ao longo do tratamento, outras perdas começaram a aparecer.

Uma amizade interrompida pela morte. Uma despedida que ela ainda revisitava mentalmente, como se pudesse encontrar naquele último encontro alguma coisa que tivesse ficado por fazer.

Depois, a morte da mãe. Uma perda diante da qual nenhuma explicação parecia suficiente. Havia amor, havia saudade, havia gratidão e havia também aquela pergunta quase inevitável que acompanha tantos lutos: eu poderia ter feito mais?

Vieram ainda outras rupturas. Um trabalho perdido. Uma posição profissional que deixava de existir. Planos que precisaram ser refeitos. Lugares que, por diferentes razões, já não podiam ser ocupados da mesma maneira.

Por muito tempo, ela pareceu responder às perdas da mesma forma: tentando compensá-las.

Trabalhava mais. Cuidava mais. Antecipava necessidades. Tentava ser necessária. Quando alguma coisa escapava ao seu controle, procurava uma maneira de fazer melhor da próxima vez. Havia, em tudo isso, uma espécie de promessa silenciosa: se eu fizer tudo direito, talvez desta vez nada se perca.

Na análise, porém, começou a surgir uma pergunta mais incômoda. E se não fosse possível?

E se algumas perdas não fossem resultado de uma falha que pudesse ser corrigida?

E se amar alguém não significasse conseguir salvá-lo?

E se uma despedida pudesse ser suficientemente amorosa sem ser perfeita?

E se perder um lugar não significasse perder aquilo que havia sido construído nele?

A questão da reparação apareceu justamente aí. Não como a fantasia de voltar no tempo e impedir o dano. Tampouco como uma obrigação de transformar sofrimento em alguma espécie de triunfo.

Reparar, naquele caso, parecia significar suportar a realidade de que alguma coisa havia sido perdida e que, ainda assim, havia algo que permanecia.

Havia uma diferença importante entre reparar e desfazer.

Desfazer exigiria que nada tivesse acontecido. Reparar exigia reconhecer que aconteceu.

Essa distinção modificava tudo. Porque, enquanto tentava desfazer o passado, ela permanecia presa a ele. Precisava imaginar a resposta perfeita, a conversa que deveria ter acontecido, o cuidado que poderia ter oferecido, a decisão que teria evitado a perda. Como se a culpa pudesse funcionar retrospectivamente como uma máquina do tempo.

Mas a culpa, quando não encontra possibilidade de reparação, pode se transformar em punição. E uma das formas mais silenciosas de punição é continuar exigindo de si mesma aquilo que já não pode ser oferecido.

Na medida em que pôde reconhecer seus limites, algo diferente começou a aparecer. Ela não precisava transformar a morte em sentido. Não precisava transformar a injustiça em vitória. Não precisava provar que a perda havia valido a pena. Não precisava fazer de sua própria vida uma resposta para tudo aquilo que havia sofrido. Podia simplesmente reconhecer: **isso aconteceu comigo. Isso me feriu. Isso mudou algumas coisas. E eu ainda estou aqui.

Foi nesse ponto que a reparação ganhou outro significado. Ela começou a aparecer em pequenos gestos, quase banais. Cuidar de alguma coisa sem transformar o cuidado em dívida. Aceitar ajuda sem imediatamente procurar uma maneira de retribuir. Reconhecer uma conquista sem diminuí-la. Permitir-se descansar sem precisar estar exausta para merecê-lo.

Também começou a existir uma relação diferente com a própria história. Não era mais necessário escolher entre duas posições: a vítima absoluta ou a mulher que deveria dar conta de tudo. Havia uma terceira possibilidade. Ser alguém que sofreu, que perdeu, que também errou, que fez o que pôde, que nem sempre pôde fazer o suficiente e que ainda assim não precisava passar o resto da vida se cobrando uma espécie de indenização impossível.

Talvez seja isso que a reparação ofereça. Não a restituição do que foi perdido, mas a possibilidade de não continuar perdendo a si mesma por causa daquilo que foi perdido.

Na perspectiva kleiniana, a culpa pode ser dolorosa justamente porque implica reconhecer a existência do outro e a própria participação na relação. Mas é também essa capacidade de reconhecer o dano que abre espaço para o desejo de reparar. A culpa, então, não precisa terminar em punição. Pode terminar em cuidado. E esse cuidado não é necessariamente dirigido àquilo que foi danificado. Aquilo que foi perdido não pode mais receber nada de nós.

A pessoa morreu. O trabalho acabou. A relação terminou. O lugar deixou de existir. A oportunidade passou.

Nesse sentido, há algo paradoxal na reparação: ela pode acontecer mesmo quando o objeto da reparação já não está disponível. É possível reparar internamente uma relação que não pode mais ser retomada. É possível cuidar da memória sem transformar a memória em prisão. É possível reconhecer um erro sem precisar permanecer eternamente identificado a ele. É possível lamentar um lugar perdido e, ainda assim, construir outro.

Reparar não é devolver ao outro aquilo que lhe tiramos. Se fosse apenas isso, estaríamos condenados à impotência diante das perdas irreversíveis. Reparar é também recuperar dentro de nós a capacidade de investir. Investir em pessoas. Em projetos. Em vínculos. No próprio corpo. No trabalho. No futuro. Na vida.

É justamente aí que a reparação se distancia da expiação. A expiação olha para trás e pergunta: quanto ainda preciso sofrer para pagar pelo que aconteceu? A reparação olha para frente e pergunta: o que posso fazer com aquilo que agora sei? A primeira mantém o sujeito preso à dívida. A segunda permite que ele volte a viver.

É por isso a reparação é uma tarefa tão delicada. Ela exige culpa suficiente para reconhecer o dano, mas não tanta a ponto de destruir aquele que precisa reparar. Exige memória, mas não uma memória que impeça o presente. Exige responsabilidade, mas não onipotência. Exige reconhecer que fizemos mal, sem concluir que somos inteiramente maus. E exige reconhecer que alguém nos feriu sem precisar transformar toda a nossa existência na continuação daquela ferida.

No fim, a reparação é menos sobre consertar alguma coisa e mais sobre voltar a habitar aquilo que ainda existe. Depois da perda, ainda há vida. Depois do erro, ainda há possibilidade. Depois da culpa, ainda pode haver cuidado. E depois de tudo aquilo que não pôde ser desfeito, permanece uma pergunta que a análise pode ajudar o sujeito a sustentar:

o que, agora, pode ser reparado e o que precisa simplesmente ser lamentado para que possamos seguir vivendo?


domingo, 2 de fevereiro de 2025

Perdi meu Instagram e, no final, acabei ganhando!

Há alguns meses, aconteceu algo que, a princípio, parecia ruim: perdi meu Instagram. Era uma conta com a qual eu tinha construído um vínculo de anos, algo que misturava histórias, interações e memórias que eu acreditava serem importantes. Aconteceu sem aviso. Eu havia colocado a conta em stand-by por um tempo, numa tentativa de me desconectar um pouco. Depois de algumas semanas, quando decidi reativá-la, ela simplesmente não estava mais lá. Desapareceu da plataforma.

No começo, fiquei chateada. É aquele sentimento de perda, não só do que parecia ser uma parte de mim, mas também de um registro da minha história, das pessoas que seguiam minha jornada e das interações que eu tinha guardado. Tentei recuperar a conta, segui tutoriais, preenchi formulários, mas nada funcionou. Era como se a plataforma tivesse simplesmente apagado minha existência ali.

Curiosamente, essa conta já não era a mesma há algum tempo. Antes, eu tinha cerca de 650 seguidores  e seguia um número equivalente. Mas, com o passar do tempo, principalmente depois que saí do meu trabalho, comecei a olhar para aquele perfil com outros olhos. Percebi que seguia muitas pessoas que não tinham absolutamente nada a ver comigo, pessoas com quem nunca tive uma conexão genuína. E me questionei: por que manter essa relação superficial?

Então, decidi mudar. Comecei a deixar de seguir essas pessoas, uma a uma. Busquei algo mais autêntico, mais alinhado com quem eu sou e com o que eu quero levar para a minha vida. O número de pessoas que eu seguia caiu para cerca de 200. E, como um reflexo natural, muitos também pararam de me seguir. Meu perfil, antes cheio de informações, fotos, comentários, ficou mais vazio. Mas, curiosamente, senti que ele estava mais leve.

E então veio o “sumiço” do Instagram. Um erro da plataforma, provavelmente, mas que me arrancou de vez daquela bolha. A princípio, fiquei incomodada. Era como se uma porta tivesse se fechado sem que eu estivesse pedido. Tentei recuperar, insisti um pouco mais, mas nada aconteceu. E, com o passar dos dias, eu comecei a sentir um certo alívio.

Sem aquele espaço para ocupar minha mente, sem a necessidade de checar notificações, likes ou comentários, senti como se uma parte do peso tivesse sido retirada dos meus ombros. Aos poucos, percebi que perder o Instagram não era o fim  — era o começo de algo novo.

Criei outro perfil. Um espaço novo, sem seguidores. Menos que 50 passaram a me seguir. Não quero mais interações superficiais. Essa volta para o Insta é algo que sirva apenas para que eu possa ser encontrada, caso necessário. Porque, sim, as redes sociais têm seu lado bom. Elas conectam, facilitam a comunicação, ajudam as pessoas a se acharem.

O que ficou disso tudo é que prefiro a autenticidade. Às vezes, a gente precisa perder algo para se encontrar.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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