Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Desfazer é da ordem do impossível!

Ela chegou à análise falando de uma injustiça antiga.

Não era exatamente a injustiça que a trazia. Essa já tinha sido narrada muitas vezes, reconstruída em detalhes, examinada por todos os ângulos possíveis. Ela sabia o que havia acontecido. Sabia quem tinha feito o quê. Sabia, inclusive, o que teria sido justo que tivesse acontecido no lugar daquilo.

O que permanecia sem resposta era outra coisa: o que fazer agora com aquilo que aconteceu?

Ao longo do tratamento, outras perdas começaram a aparecer.

Uma amizade interrompida pela morte. Uma despedida que ela ainda revisitava mentalmente, como se pudesse encontrar naquele último encontro alguma coisa que tivesse ficado por fazer.

Depois, a morte da mãe. Uma perda diante da qual nenhuma explicação parecia suficiente. Havia amor, havia saudade, havia gratidão e havia também aquela pergunta quase inevitável que acompanha tantos lutos: eu poderia ter feito mais?

Vieram ainda outras rupturas. Um trabalho perdido. Uma posição profissional que deixava de existir. Planos que precisaram ser refeitos. Lugares que, por diferentes razões, já não podiam ser ocupados da mesma maneira.

Por muito tempo, ela pareceu responder às perdas da mesma forma: tentando compensá-las.

Trabalhava mais. Cuidava mais. Antecipava necessidades. Tentava ser necessária. Quando alguma coisa escapava ao seu controle, procurava uma maneira de fazer melhor da próxima vez. Havia, em tudo isso, uma espécie de promessa silenciosa: se eu fizer tudo direito, talvez desta vez nada se perca.

Na análise, porém, começou a surgir uma pergunta mais incômoda. E se não fosse possível?

E se algumas perdas não fossem resultado de uma falha que pudesse ser corrigida?

E se amar alguém não significasse conseguir salvá-lo?

E se uma despedida pudesse ser suficientemente amorosa sem ser perfeita?

E se perder um lugar não significasse perder aquilo que havia sido construído nele?

A questão da reparação apareceu justamente aí. Não como a fantasia de voltar no tempo e impedir o dano. Tampouco como uma obrigação de transformar sofrimento em alguma espécie de triunfo.

Reparar, naquele caso, parecia significar suportar a realidade de que alguma coisa havia sido perdida e que, ainda assim, havia algo que permanecia.

Havia uma diferença importante entre reparar e desfazer.

Desfazer exigiria que nada tivesse acontecido. Reparar exigia reconhecer que aconteceu.

Essa distinção modificava tudo. Porque, enquanto tentava desfazer o passado, ela permanecia presa a ele. Precisava imaginar a resposta perfeita, a conversa que deveria ter acontecido, o cuidado que poderia ter oferecido, a decisão que teria evitado a perda. Como se a culpa pudesse funcionar retrospectivamente como uma máquina do tempo.

Mas a culpa, quando não encontra possibilidade de reparação, pode se transformar em punição. E uma das formas mais silenciosas de punição é continuar exigindo de si mesma aquilo que já não pode ser oferecido.

Na medida em que pôde reconhecer seus limites, algo diferente começou a aparecer. Ela não precisava transformar a morte em sentido. Não precisava transformar a injustiça em vitória. Não precisava provar que a perda havia valido a pena. Não precisava fazer de sua própria vida uma resposta para tudo aquilo que havia sofrido. Podia simplesmente reconhecer: **isso aconteceu comigo. Isso me feriu. Isso mudou algumas coisas. E eu ainda estou aqui.

Foi nesse ponto que a reparação ganhou outro significado. Ela começou a aparecer em pequenos gestos, quase banais. Cuidar de alguma coisa sem transformar o cuidado em dívida. Aceitar ajuda sem imediatamente procurar uma maneira de retribuir. Reconhecer uma conquista sem diminuí-la. Permitir-se descansar sem precisar estar exausta para merecê-lo.

Também começou a existir uma relação diferente com a própria história. Não era mais necessário escolher entre duas posições: a vítima absoluta ou a mulher que deveria dar conta de tudo. Havia uma terceira possibilidade. Ser alguém que sofreu, que perdeu, que também errou, que fez o que pôde, que nem sempre pôde fazer o suficiente e que ainda assim não precisava passar o resto da vida se cobrando uma espécie de indenização impossível.

Talvez seja isso que a reparação ofereça. Não a restituição do que foi perdido, mas a possibilidade de não continuar perdendo a si mesma por causa daquilo que foi perdido.

Na perspectiva kleiniana, a culpa pode ser dolorosa justamente porque implica reconhecer a existência do outro e a própria participação na relação. Mas é também essa capacidade de reconhecer o dano que abre espaço para o desejo de reparar. A culpa, então, não precisa terminar em punição. Pode terminar em cuidado. E esse cuidado não é necessariamente dirigido àquilo que foi danificado. Aquilo que foi perdido não pode mais receber nada de nós.

A pessoa morreu. O trabalho acabou. A relação terminou. O lugar deixou de existir. A oportunidade passou.

Nesse sentido, há algo paradoxal na reparação: ela pode acontecer mesmo quando o objeto da reparação já não está disponível. É possível reparar internamente uma relação que não pode mais ser retomada. É possível cuidar da memória sem transformar a memória em prisão. É possível reconhecer um erro sem precisar permanecer eternamente identificado a ele. É possível lamentar um lugar perdido e, ainda assim, construir outro.

Reparar não é devolver ao outro aquilo que lhe tiramos. Se fosse apenas isso, estaríamos condenados à impotência diante das perdas irreversíveis. Reparar é também recuperar dentro de nós a capacidade de investir. Investir em pessoas. Em projetos. Em vínculos. No próprio corpo. No trabalho. No futuro. Na vida.

É justamente aí que a reparação se distancia da expiação. A expiação olha para trás e pergunta: quanto ainda preciso sofrer para pagar pelo que aconteceu? A reparação olha para frente e pergunta: o que posso fazer com aquilo que agora sei? A primeira mantém o sujeito preso à dívida. A segunda permite que ele volte a viver.

É por isso a reparação é uma tarefa tão delicada. Ela exige culpa suficiente para reconhecer o dano, mas não tanta a ponto de destruir aquele que precisa reparar. Exige memória, mas não uma memória que impeça o presente. Exige responsabilidade, mas não onipotência. Exige reconhecer que fizemos mal, sem concluir que somos inteiramente maus. E exige reconhecer que alguém nos feriu sem precisar transformar toda a nossa existência na continuação daquela ferida.

No fim, a reparação é menos sobre consertar alguma coisa e mais sobre voltar a habitar aquilo que ainda existe. Depois da perda, ainda há vida. Depois do erro, ainda há possibilidade. Depois da culpa, ainda pode haver cuidado. E depois de tudo aquilo que não pôde ser desfeito, permanece uma pergunta que a análise pode ajudar o sujeito a sustentar:

o que, agora, pode ser reparado e o que precisa simplesmente ser lamentado para que possamos seguir vivendo?


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Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

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