Ela chegou à
análise falando de uma injustiça antiga.
Não era
exatamente a injustiça que a trazia. Essa já tinha sido narrada muitas vezes,
reconstruída em detalhes, examinada por todos os ângulos possíveis. Ela sabia o
que havia acontecido. Sabia quem tinha feito o quê. Sabia, inclusive, o que
teria sido justo que tivesse acontecido no lugar daquilo.
O que
permanecia sem resposta era outra coisa: o que fazer agora com aquilo
que aconteceu?
Ao longo do
tratamento, outras perdas começaram a aparecer.
Uma amizade
interrompida pela morte. Uma despedida que ela ainda revisitava mentalmente,
como se pudesse encontrar naquele último encontro alguma coisa que tivesse
ficado por fazer.
Depois, a
morte da mãe. Uma perda diante da qual nenhuma explicação parecia suficiente.
Havia amor, havia saudade, havia gratidão e havia também aquela pergunta quase
inevitável que acompanha tantos lutos: eu poderia ter feito mais?
Vieram ainda
outras rupturas. Um trabalho perdido. Uma posição profissional que deixava de
existir. Planos que precisaram ser refeitos. Lugares que, por diferentes
razões, já não podiam ser ocupados da mesma maneira.
Por muito
tempo, ela pareceu responder às perdas da mesma forma: tentando compensá-las.
Trabalhava
mais. Cuidava mais. Antecipava necessidades. Tentava ser necessária. Quando
alguma coisa escapava ao seu controle, procurava uma maneira de fazer melhor da
próxima vez. Havia, em tudo isso, uma espécie de promessa
silenciosa: se eu fizer tudo direito, talvez desta vez nada se perca.
Na análise,
porém, começou a surgir uma pergunta mais incômoda. E se não fosse
possível?
E se algumas
perdas não fossem resultado de uma falha que pudesse ser corrigida?
E se amar
alguém não significasse conseguir salvá-lo?
E se uma
despedida pudesse ser suficientemente amorosa sem ser perfeita?
E se perder
um lugar não significasse perder aquilo que havia sido construído nele?
A questão da
reparação apareceu justamente aí. Não como a fantasia de voltar no tempo e
impedir o dano. Tampouco como uma obrigação de transformar sofrimento em alguma
espécie de triunfo.
Reparar,
naquele caso, parecia significar suportar a realidade de que alguma coisa havia
sido perdida e que, ainda assim, havia algo que permanecia.
Havia uma
diferença importante entre reparar e desfazer.
Desfazer
exigiria que nada tivesse acontecido. Reparar exigia reconhecer que
aconteceu.
Essa
distinção modificava tudo. Porque, enquanto tentava desfazer o passado, ela
permanecia presa a ele. Precisava imaginar a resposta perfeita, a conversa que
deveria ter acontecido, o cuidado que poderia ter oferecido, a decisão que
teria evitado a perda. Como se a culpa pudesse funcionar retrospectivamente
como uma máquina do tempo.
Mas a culpa,
quando não encontra possibilidade de reparação, pode se transformar em
punição. E uma das formas mais silenciosas de punição é continuar exigindo
de si mesma aquilo que já não pode ser oferecido.
Na medida em
que pôde reconhecer seus limites, algo diferente começou a aparecer. Ela
não precisava transformar a morte em sentido. Não precisava transformar a
injustiça em vitória. Não precisava provar que a perda havia valido a
pena. Não precisava fazer de sua própria vida uma resposta para tudo
aquilo que havia sofrido. Podia simplesmente reconhecer: **isso aconteceu
comigo. Isso me feriu. Isso mudou algumas coisas. E eu ainda estou
aqui.
Foi nesse
ponto que a reparação ganhou outro significado. Ela começou a aparecer em
pequenos gestos, quase banais. Cuidar de alguma coisa sem transformar o cuidado
em dívida. Aceitar ajuda sem imediatamente procurar uma maneira de retribuir.
Reconhecer uma conquista sem diminuí-la. Permitir-se descansar sem precisar
estar exausta para merecê-lo.
Também
começou a existir uma relação diferente com a própria história. Não era
mais necessário escolher entre duas posições: a vítima absoluta ou a mulher que
deveria dar conta de tudo. Havia uma terceira possibilidade. Ser
alguém que sofreu, que perdeu, que também errou, que fez o que pôde, que nem
sempre pôde fazer o suficiente e que ainda assim não precisava passar o resto
da vida se cobrando uma espécie de indenização impossível.
Talvez seja
isso que a reparação ofereça. Não a restituição do que foi perdido, mas a
possibilidade de não continuar perdendo a si mesma por causa daquilo
que foi perdido.
Na
perspectiva kleiniana, a culpa pode ser dolorosa justamente porque implica
reconhecer a existência do outro e a própria participação na relação. Mas é
também essa capacidade de reconhecer o dano que abre espaço para o desejo de
reparar. A culpa, então, não precisa terminar em punição. Pode
terminar em cuidado. E esse cuidado não é necessariamente dirigido àquilo
que foi danificado. Aquilo que foi perdido não pode mais receber nada de nós.
A pessoa
morreu. O trabalho acabou. A relação terminou. O lugar deixou de
existir. A oportunidade passou.
Nesse
sentido, há algo paradoxal na reparação: ela pode acontecer mesmo
quando o objeto da reparação já não está disponível. É possível
reparar internamente uma relação que não pode mais ser retomada. É possível
cuidar da memória sem transformar a memória em prisão. É possível reconhecer um
erro sem precisar permanecer eternamente identificado a ele. É possível
lamentar um lugar perdido e, ainda assim, construir outro.
Reparar não é
devolver ao outro aquilo que lhe tiramos. Se fosse apenas isso, estaríamos
condenados à impotência diante das perdas irreversíveis. Reparar é também
recuperar dentro de nós a capacidade de investir. Investir em
pessoas. Em projetos. Em vínculos. No próprio corpo. No
trabalho. No futuro. Na vida.
É justamente
aí que a reparação se distancia da expiação. A expiação olha para trás e
pergunta: quanto ainda preciso sofrer para pagar pelo que
aconteceu? A reparação olha para frente e pergunta: o que
posso fazer com aquilo que agora sei? A primeira mantém o sujeito
preso à dívida. A segunda permite que ele volte a viver.
É por isso a
reparação é uma tarefa tão delicada. Ela exige culpa suficiente para reconhecer
o dano, mas não tanta a ponto de destruir aquele que precisa
reparar. Exige memória, mas não uma memória que impeça o
presente. Exige responsabilidade, mas não onipotência. Exige
reconhecer que fizemos mal, sem concluir que somos inteiramente maus. E
exige reconhecer que alguém nos feriu sem precisar transformar toda a nossa
existência na continuação daquela ferida.
No fim, a
reparação é menos sobre consertar alguma coisa e mais sobre voltar a
habitar aquilo que ainda existe. Depois da perda, ainda há
vida. Depois do erro, ainda há possibilidade. Depois da culpa, ainda
pode haver cuidado. E depois de tudo aquilo que não pôde ser desfeito,
permanece uma pergunta que a análise pode ajudar o sujeito a sustentar:
o que,
agora, pode ser reparado e o que precisa simplesmente ser lamentado para que
possamos seguir vivendo?
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