Tenho pensado com frequência no desejo de ensinar Psicanálise.
Não como um plano de carreira, nem como uma ambição acadêmica. Como desejo mesmo. E, justamente por isso, algo que merece ser interrogado.
A Psicanálise nos ensina que o desejo não se confunde com a vontade. A vontade pode ser explicada, organizada e justificada. O desejo, não. O desejo insiste. Retorna. Faz-se presente mesmo quando não é convocado.
Talvez seja por isso que a ideia de dar aulas continue reaparecendo para mim.
Não porque eu tenha respostas. Talvez justamente pelo contrário.
O que sempre me fascinou na Psicanálise foi sua capacidade de sustentar perguntas. Freud inaugura um campo em que a verdade deixa de ser algo totalmente acessível à consciência. Lacan radicaliza esse movimento ao mostrar que somos habitados por uma falta estrutural, por algo que escapa ao saber sobre nós mesmos.
Ensinar Psicanálise, para mim, não parece estar relacionado à transmissão de certezas. Parece estar relacionado à transmissão de uma experiência de pensamento.
Uma experiência que transforma a maneira como escutamos, como lemos, como falamos e até como nos relacionamos com aquilo que desconhecemos em nós mesmos.
Quando penso em uma sala de aula, não imagino um lugar de respostas prontas. Imagino um espaço onde conceitos possam produzir deslocamentos. Onde um texto de Freud ou um seminário de Lacan deixem de ser apenas conteúdo e passem a operar como questões.
Talvez seja isso que me atraia tanto.
A transmissão em Psicanálise ocupa um lugar singular. Não se transmite apenas conhecimento. Transmite-se uma posição diante do saber.
E essa diferença me parece fundamental.
A Psicanálise nos ensina que o saber nunca é completo, que existe sempre um resto, uma falta, um ponto impossível de ser totalmente capturado. Ainda assim, seguimos falando, estudando, escrevendo e ensinando.
Existe algo de profundamente humano nisso.
Talvez meu desejo de ensinar esteja ligado a essa aposta.
A aposta de que uma ideia, uma leitura ou uma interpretação possam produzir efeitos em alguém.
Não efeitos de convencimento, mas de elaboração.
Não a produção de discípulos, mas a abertura de perguntas.
Penso que ensinar Psicanálise seria, de alguma forma, ocupar um lugar de passagem. Fazer circular autores, conceitos e questões que foram fundamentais na minha própria formação e que continuam produzindo trabalho psíquico em mim.
Talvez seja também uma forma de retribuição.
Afinal, fui atravessada por professores, textos, supervisores e experiências que transformaram minha maneira de compreender o sujeito e a clínica.
Existe algo que desejo transmitir, embora eu ainda não consiga nomear exatamente o quê.
E talvez isso seja um bom sinal.
Porque os reais desejos costumam surgir antes das explicações.
Eles aparecem primeiro como insistência.
Depois como direção.
E somente mais tarde encontram palavras.
Talvez eu esteja justamente nesse momento: tentando colocar em palavras um desejo que já existe há algum tempo e que continua retornando.
Se a Psicanálise me ensinou alguma coisa, foi a não ignorar aquilo que insiste.
E esse desejo insiste.
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