Existe uma distância grande e, às vezes desconfortável, entre aquilo que eu estudo e aquilo que acontece dentro de uma sessão clínica.
Eu estudo com frequência e de forma contínua. Retorno a autores, revisito conceitos, me debruço sobre casos clínicos, psicopatologia, psicanálise, além de áreas como arte e ciência. Também mantenho um contato constante com Freud e Lacan, não como referências fixas ou monumentais, mas como ferramentas de pensamento que seguem em movimento, úteis na medida em que ajudam a pensar o que aparece na clínica. Esse estudo faz parte do meu trabalho. Não é um adorno intelectual nem um acúmulo de erudição. É uma forma de preparação, um modo de sustentar a escuta e de me manter disponível para o encontro clínico.
Mas existe um ponto de virada que nenhum livro prepara completamente: o momento em que o paciente entra na sala. Nesse instante, algo precisa mudar de lugar.
Não é que o que eu sei desaparece. Ele continua ali, como uma espécie de base interna, uma rede de referências que sustenta minha escuta. Mas ele deixa de ocupar o primeiro plano. Se isso não acontece, o risco é grande: o risco de eu começar a ver o paciente antes de ouvi-lo, de encaixar sua fala em categorias antes de deixá-la se desenvolver, de interpretar antes de sustentar o silêncio necessário para que algo realmente apareça.
Na clínica, o saber não pode ser um filtro rígido. Porque cada paciente que chega não é a repetição de um caso anterior. Não é um exemplo de teoria. Não é um recorte de um livro. É uma configuração única de história, linguagem, sofrimento, defesa e desejo. E isso não se revela de imediato.
Às vezes, o que chega é confuso, contraditório, aparentemente banal. Outras vezes, chega muito organizado, muito coerente, quase convincente demais. E nenhuma dessas formas pode ser tomada como definitiva no início.
É preciso tempo. E presença.
Há uma diferença fundamental entre reconhecer padrões e reduzir uma pessoa a eles. A formação clínica nos ensina a identificar estruturas, defesas, repetição de certos modos de funcionamento. Isso é essencial. Mas o trabalho clínico exige outra operação, mais difícil: suspender a pressa de concluir.
Suspender não é negar o que se sabe. É não deixar que isso feche o campo antes da hora.
Na prática, isso significa suportar não saber imediatamente o que algo “é”. Significa tolerar a ambiguidade. Significa deixar que o paciente construa, aos poucos, o próprio modo de dizer o que vive e não encaixar isso rapidamente em uma explicação já pronta.
É aqui que a teoria encontra seu limite e, ao mesmo tempo, sua função mais importante.
Freud e Lacan, por exemplo, não entram na sessão como respostas. Eles entram como modos de escutar melhor o que ainda não está formulado. Não como tradução automática, mas como abertura de pensamento. O mesmo vale para qualquer leitura recente ou antiga: ela não substitui o encontro, mas pode evitar que eu o reduza.
O ponto central é este: na clínica, o conhecimento não pode ser mais importante do que o paciente. Isso parece óbvio quando escrito assim. Mas, na prática, é uma tensão constante.
Porque o saber dá segurança. Ele organiza. Ele reduz a angústia de não entender. E o encontro clínico, muitas vezes, produz exatamente o contrário: desorganização, dúvida, deslocamento. O paciente não chega para confirmar o que eu sei. Ele chega para desestabilizar o que eu suponho saber.
E isso exige um tipo específico de posição clínica: uma posição em que eu sustento o que não se sabe ainda, sem apressar a resposta.
É também por isso que cada sessão é diferente. Mesmo com pacientes que acompanho há meses, não existe repetição no sentido estrito. Existe continuidade, sim, mas atravessada por variações constantes de posição subjetiva. Um mesmo tema reaparece, mas nunca exatamente igual. Uma mesma defesa retorna, mas em outro arranjo. Um mesmo conflito se reorganiza em novas formas de dizer.
A clínica é menos sobre reconhecer o já conhecido e mais sobre suportar o que ainda não se organizou.
E isso muda também a relação com a leitura. Ler muito não me torna alguém que “sabe mais” no sentido de ter respostas prontas. Pelo contrário, deveria me tornar alguém mais capaz de não se precipitar em respostas. A leitura ampla deveria aumentar a tolerância ao não-saber em ato, não diminuí-la. Se a teoria começa a fechar demais a escuta, ela perde sua função clínica.
Por isso, há algo quase paradoxal no trabalho clínico: quanto mais preparado alguém está, mais precisa ser capaz de suspender essa preparação no momento do encontro.
Não no sentido de esquecê-la, mas no sentido de não deixá-la ocupar o lugar da escuta. Porque o que acontece na sessão não é uma aplicação de teoria. É um encontro. E encontros não obedecem completamente a sistemas. Eles exigem presença, atenção, e uma certa disposição para ser surpreendido.
Talvez seja isso o mais difícil de sustentar: a disciplina de não antecipar demais. De não fechar cedo demais. De deixar que o paciente diga, no seu tempo e no seu modo, aquilo que ainda não tem forma clara.
No fim, a clínica não é o lugar onde o que eu sei se confirma. É o lugar onde o que eu sei não pode atrapalhar.
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