Tenho pensado bastante sobre o que muda na vida de alguém quando começa a atender como analista.
Não é só uma mudança de trabalho. É uma mudança na forma de estar no mundo.
Ao aprender a escutar melhor o outro, a gente também muda a forma como escuta fora do consultório. Na terapia, aprendemos a não interromper, a não responder rápido demais, a dar espaço para o que a pessoa está dizendo, inclusive o que não está sendo dito claramente.
Com o tempo, isso pode começar a aparecer na vida comum.
Percebo em mim uma tendência a ficar mais quieta, mais observadora, e até menos espontânea em algumas conversas. Não porque eu queira me afastar das pessoas, mas porque minha atenção foi sendo reorganizada.
A forma de escutar dentro da clínica tem uma função muito específica. Mas quando isso começa a se espalhar para fora, pode surgir uma dúvida: isso me aproxima das pessoas ou me afasta?
Às vezes, esse movimento pode ser bom, mais calma, mais reflexão, menos impulsividade. Mas também pode trazer o risco de a gente ficar mais distante, mais “de fora” das relações, como se estivesse sempre apenas ouvindo, e menos participando.
O ponto importante não é julgar isso como certo ou errado. É perceber o efeito que isso está tendo na vida.
Porque uma coisa é aprender a escutar melhor. Outra coisa é acabar vivendo quase só nesse lugar de escuta, e perder um pouco da troca, da espontaneidade e da vida compartilhada.
No começo da prática clínica, isso pode ficar mais forte, porque tudo ainda está muito novo. A gente está se ajustando a esse novo modo de trabalhar e de pensar.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “isso está certo?”, mas sim: “o que isso está fazendo com a minha forma de viver e de me relacionar?”
Porque, no fim, o trabalho na clínica não é só sobre entender o outro. É também sobre como isso nos transforma e como a gente vai encontrando um jeito de continuar vivendo bem com essas mudanças.
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