Atendi uma senhora na clínica. Bonita, elegante, muito inteligente, dessas pessoas que entram numa sala trazendo consigo uma vida inteira de realizações. Havia nela uma espécie de segurança que não era exatamente tranquilidade, eram muitos anos aprendendo a não depender de ninguém. Falava de si com lucidez, tinha uma capacidade rara de olhar para a própria história sem fazer dela uma coleção de desculpas, mas também sem pedir absolvição. Era a última sessão do dia, e isso me permitiu permanecer um pouco mais depois que ela foi embora, sentado diante daquela sala já silenciosa, pensando no que havia escutado. Fiquei com a sensação de que, naquela hora, não tinha ouvido apenas uma mulher falar da própria solidão. Tinha ouvido uma vida inteira falar através dela.
Há uma espécie de solidão que não começa
quando as pessoas vão embora. Ela começa muito antes,
quando aprendemos que é mais seguro não precisar delas.
Essa mulher me fez pensar nisso porque falava da
própria solidão sem exatamente se queixar dela. Havia quase
um reconhecimento. A vida que tinha naquele momento era,
em alguma medida, a vida que havia construído. Durante
muitos anos, o trabalho ocupara quase tudo, não apenas o tempo,
mas também o lugar das relações, dos encontros, da circulação
pelo mundo, da sensação de pertencimento. Enquanto havia
trabalho, havia gente. Havia compromissos, conversas, viagens, projetos,
convites, telefonemas. Havia uma vida social
permanentemente acesa. Só quando o trabalho deixou de ocupar
aquele lugar foi possível perceber que uma parte importante
daquela sociabilidade estava sustentada menos pelos vínculos do
que pela função que ela exercia no mundo. Quando a
função desapareceu, alguma coisa desapareceu junto. E existe uma
experiência particularmente desconcertante na maturidade:
descobrir que aquilo que imaginávamos ser nossa vida era,
em parte, a estrutura que a ocupava.
Pensei em Freud e naquilo que retorna quando
uma solução deixa de funcionar. O sujeito não repete
simplesmente porque não aprendeu. Repete porque há alguma coisa
que insiste, alguma coisa que não se deixa resolver
apenas pela consciência. Há formas de vida que se
organizam em torno de uma defesa tão eficiente que
deixam de parecer defesa. Tornam-se identidade. A pessoa já não diz
“eu faço isso para me proteger”. Ela diz “eu sou assim”.
Sou independente. Sou workaholic. Não gosto de depender. Gosto de
ficar sozinha. Não tenho tempo para relações superficiais. Gosto
de gente, mas não preciso de ninguém. E uma defesa que ganha
o nome de personalidade se torna muito mais difícil
de interrogar.
Havia, naquela mulher, uma independência que parecia
ter começado muito cedo. Falava de uma mãe complicada, de
uma infância em que amor e exigência pareciam ter
se misturado de maneira pouco pacífica. Não é preciso
transformar uma mãe difícil na origem de todos os destinos. A
psicanálise não serve para produzir culpados retroativos.
Mas sabemos que é nas primeiras relações que o
sujeito começa a aprender algo sobre seu próprio valor,
sobre o que precisa fazer para ser amado, sobre o que pode
esperar do outro e, sobretudo, sobre o lugar que imagina ocupar
no desejo de quem dele cuida. Melanie Klein nos ensinou
a levar a sério a intensidade dessas primeiras relações,
a ambivalência inevitável entre amor e ódio, gratidão e ressentimento,
dependência e desejo de independência. A criança não possui
ainda recursos para pensar “minha mãe está frustrada com
a própria vida” ou “minha mãe carrega uma história que nada
tem a ver comigo”. A criança pensa a partir de si. Se o
amor não chega como gostaria, pode concluir que há
algo nela que precisa ser corrigido.
É aí que uma criança pode começar uma
obra silenciosa. Preciso ser melhor. Preciso ser brilhante.
Preciso não dar trabalho. Preciso não precisar. Preciso ser tão
boa que ninguém consiga me abandonar. Não é necessário
que essas frases tenham sido formuladas conscientemente. O
inconsciente não trabalha assim. Elas aparecem como modos de
existir, escolhas que se repetem, ambições que parecem espontâneas,
uma necessidade quase física de competência, reconhecimento,
controle. E quando essa criança cresce, pode se tornar uma mulher
admiravelmente capaz. O que um dia foi defesa passa a ser
talento. O que nasceu de uma falta pode se transformar
em realização. E isso torna tudo mais complexo, porque
não se trata de dizer que o sucesso foi falso. Ele foi real. As
conquistas foram reais. O sofrimento também.
Winnicott talvez ajudasse a pensar nesse ponto a
partir daquilo que chamou de falso self. Não no sentido vulgar
de uma pessoa fingida, mas de uma organização psíquica
construída para responder adequadamente ao ambiente,
muitas vezes tão bem adaptada que o próprio sujeito já não
sabe onde termina a adaptação e começa o desejo. Há
pessoas que se tornam extremamente boas em ser aquilo que o
mundo espera delas. Funcionam. Produzem. Entregam. Correspondem. São
admiradas. E, justamente por isso, podem passar muito tempo sem
se perguntar o que acontece quando não precisam mais funcionar.
Existe uma diferença entre estar vivo e estar funcionando, embora por
muitos anos ela possa ser quase imperceptível.
O trabalho oferece uma solução
particularmente sofisticada para esse problema. Ele
oferece identidade, reconhecimento e, em muitos casos, uma
forma socialmente legítima de não olhar para determinadas
faltas. Não fui porque estava trabalhando. Não liguei porque
estava trabalhando. Não encontrei porque estava cansado. Não tenho
tempo porque tenho um projeto. Não preciso de ninguém porque
tenho minha vida. Enquanto estamos ocupados, a questão não
aparece com tanta força. O trabalho pode funcionar como
objeto de investimento, como fonte de narcisismo, como lugar
onde o sujeito encontra uma confirmação cotidiana de seu valor.
Somos procurados, necessários, admirados. Recebemos alguma coisa do
olhar dos outros que nos devolve uma imagem suportável
de nós mesmos.
Lacan provavelmente faria uma pergunta
mais incômoda: de quem é esse desejo? O que exatamente estamos
tentando obter quando buscamos incessantemente reconhecimento? O
sujeito deseja ser desejado pelo Outro, mas nunca consegue
fechar completamente essa conta. Há sempre um resto, alguma
coisa que não se completa. Podemos conquistar mais uma posição,
mais um prêmio, mais uma entrevista, mais um projeto, mais uma prova de
que somos bons, e ainda assim permanecer a pergunta infantil
escondida em algum lugar: agora você me ama? Agora
sou suficiente? Agora você não pode me deixar?
Talvez seja isso que algumas
trajetórias extraordinárias escondam de mais humano. A pessoa
se torna excepcional não apenas porque deseja realizar, mas
porque existe algo que precisa ser constantemente confirmado.
Ela passa a vida respondendo a uma pergunta que nunca
foi formulada inteiramente. E o problema do reconhecimento
é que ele é insaciável. Nenhuma quantidade de aplauso
responde definitivamente àquilo que o sujeito pergunta ao Outro.
O desejo desliza. Quando uma conquista é alcançada, outra precisa
ocupar seu lugar. Quando um público se vai, outro precisa aparecer.
Quando uma função termina, o vazio que ela recobria pode se
tornar subitamente audível.
Foi isso que pensei ao ouvi-la falar do fim do
trabalho. Não que o trabalho tivesse sido uma mentira ou uma
fuga deliberada. Ele tinha sido também amor, vocação, prazer, realização.
Mas podia ter sido uma solução. E quando uma
solução desaparece, aquilo que ela mantinha em silêncio pode
retornar.
A aposentadoria, uma mudança de carreira, os filhos
que saem de casa, o corpo que já não acompanha o ritmo,
qualquer ruptura que retire do sujeito o lugar que
ocupava no mundo pode produzir uma espécie de revelação.
Não porque o passado se torne falso, mas porque o presente deixa
de oferecer as mesmas distrações. O telefone toca menos.
Os convites diminuem. As pessoas seguem suas próprias vidas.
A agenda esvazia. E então aparece uma pergunta que não tem
mais como ser adiada: quem sou eu quando ninguém precisa
daquilo que sei fazer?
É uma pergunta profunda. Para algumas pessoas,
o trabalho não ocupava apenas oito, dez ou doze horas do
dia. Ocupava um lugar no campo do Outro. Era através dele que
eram vistas, nomeadas, reconhecidas. Era ali que sabiam quem eram. Quando
esse lugar desaparece, não se perde apenas uma atividade.
Perde-se uma identificação. E o sujeito se vê obrigado
a encontrar alguma coisa de si para além dos
significantes que durante décadas o representaram.
Lacan dizia que um significante representa o
sujeito para outro significante. Gosto de pensar nisso quando
observo alguém que passou a vida sendo representado por aquilo
que faz. Jornalista. Médica. Empresária. Artista. Professora. Mãe. A
profissão, o cargo, o lugar social podem funcionar como nomes que
organizam a existência. São importantes, evidentemente. Mas
nenhum deles esgota o sujeito. Quando o nome que
sustentava a identidade deixa de operar, pode surgir a
sensação de que não sabemos mais quem somos. E o que
aparece nesse intervalo não é necessariamente uma
nova identidade pronta para ocupar o lugar da antiga.
Aparece a falta.
A falta é difícil de suportar. Por isso
inventamos tantas maneiras de preenchê-la. Uma delas
é trabalhar. Outra é ser necessário. Outra é ser admirado. Outra
é não precisar de ninguém.
A independência, quando se torna uma exigência
interna, pode esconder uma dificuldade profunda de depender. E
depender, em psicanálise, não é fraqueza. O bebê depende
absolutamente do outro. O sujeito humano continua dependendo, embora
a vida adulta construa inúmeras formas de negar essa condição.
Precisamos de amor, de reconhecimento, de cuidado, de presença.
Precisamos de alguém que nos escute quando não temos nada interessante
para dizer. Precisamos de relações nas quais nossa utilidade não
seja o fundamento do vínculo.
Para alguém que passou a vida inteira construindo
valor através daquilo que faz, isso pode ser assustador.
Ser útil é relativamente seguro. Ser amado é outra coisa. Ser
útil estabelece uma troca. Ser amado introduz
uma vulnerabilidade.
E a intimidade é precisamente o lugar
onde essa diferença se torna insuportavelmente clara. Há
uma diferença entre ter pessoas ao redor e ter
alguém diante de quem podemos deixar de desempenhar.
Intimidade é o espaço em que a performance pode descansar. Onde
não precisamos ser inteligentes, interessantes, fortes, produtivos,
generosos, sensatos. Onde podemos aparecer nas partes menos
apresentáveis, inclusive naquelas que preferimos esconder. Para quem
aprendeu cedo que o amor precisava ser conquistado, simplesmente
existir diante de alguém pode ser mais difícil do que realizar qualquer
coisa.
Foi aí que a solidão daquela mulher deixou
de me parecer apenas uma circunstância e passou a
me parecer uma questão psíquica. Existem pessoas que estão
sozinhas porque a vida as colocou nessa condição. Existem
pessoas que estão sozinhas porque não encontraram quem
desejassem. E existem pessoas que, sem saber exatamente como,
construíram uma vida em que ninguém consegue chegar muito perto.
Não porque não desejem intimidade, mas porque a intimidade
exige justamente aquilo que aprenderam a evitar: espera, frustração,
dependência, perda de controle, possibilidade de rejeição.
É possível passar a vida desejando profundamente
uma relação e, ao mesmo tempo, fazendo tudo para não
ficar à mercê dela. A solidão pode ser uma forma de controle. Quando
estou sozinho, ninguém me abandona. Quando não preciso, ninguém pode
me decepcionar. Quando não espero, ninguém pode frustrar minha
expectativa. Quando minha vida está inteiramente ocupada pelo
trabalho, não preciso descobrir o que existe quando o trabalho
termina.
É uma defesa brilhante. E como toda boa defesa,
funciona. Até o momento em que deixa de funcionar.
Foi então que pensei naquilo que plantamos. Não
como uma moral simplista, como se cada pessoa recebesse
exatamente aquilo que merece, mas como uma constatação: nossas
escolhas repetidas vão criando um ambiente psíquico e relacional
no qual passamos a viver. Se durante quarenta anos escolhemos
o trabalho em detrimento dos encontros, não é surpreendente que,
aos setenta, o trabalho seja uma coisa que já não existe
e os encontros também não. Se durante décadas recusamos
convites porque havia sempre algo mais urgente, chega uma
hora em que as pessoas param de convidar. Não
por crueldade. Por adaptação. Os outros também aprendem.
E existe uma dor particular em perceber que
ninguém nos abandonou de uma vez. Fomos, aos poucos,
ficando menos presentes na vida dos outros até que
nossa ausência deixou de ser percebida como ausência. Isso é
diferente de culpa. Culpa é uma coisa mais pobre.
Responsabilidade é mais difícil, porque pressupõe que, mesmo quando
não escolhemos as circunstâncias que nos formaram, participamos das
formas que nossa vida assume depois delas. Não escolhemos
a família que tivemos, o amor que recebemos, as faltas da
infância, as humilhações, os abandonos, as condições históricas, as perdas.
Mas chega um momento em que podemos perguntar o que fizemos
com aquilo que fizeram conosco.
Essa pergunta não absolve os pais nem condena
os filhos. Ela apenas desloca o sujeito de uma
posição passiva diante da própria história. Freud nos ensinou
que somos feitos também daquilo que não sabemos sobre
nós mesmos. A repetição é uma maneira de continuar
vivendo o que não conseguimos elaborar. A análise começa,
em alguma medida, quando aquilo que parecia destino começa a adquirir
a possibilidade de ser lido.
Para mim, envelhecer é chegar a esse lugar, a
um balanço sem contabilidade em que começamos a enxergar
não apenas o que conquistamos, mas também aquilo que
sacrificamos para conquistar. Para quem construiu a própria
identidade em torno do trabalho, as perguntas são especialmente
duras: quem sou eu quando não estou trabalhando? Quem sou
eu quando ninguém precisa daquilo que sei fazer? Quem
sou eu quando não tenho mais uma função que organize meu
tempo, minha autoestima e meus encontros? E, quem consegue ficar
comigo quando não tenho nada para oferecer?
Essa última pergunta toca num lugar muito
primitivo. Ser amado não é a mesma coisa que ser útil. Ser
procurado não é a mesma coisa que ser querido. Ser
admirado não é a mesma coisa que ser conhecido. E a
maior dificuldade está em suportar ser conhecido sem
poder controlar completamente a imagem que o outro faz de
nós.
Há uma fantasia narcísica de que, se formos
suficientemente bons, poderemos finalmente garantir o amor do
outro. Mas o desejo do outro não se deixa domesticar.
O Outro nunca nos devolve exatamente a resposta que esperamos.
Podemos passar a vida tentando preencher essa falta e, ainda assim,
permanecer faltantes. Lacan torna isso claro: não há
objeto capaz de completar definitivamente o sujeito. A busca
por reconhecimento pode ser interminável justamente porque o
que está sendo buscado não é um prêmio, nem um cargo, nem
um elogio. É uma garantia impossível de que somos, finalmente,
suficientes.
E então a vida pode ficar muito cheia
de conquistas e muito pobre de descanso.
A mesma mulher que se tornou absolutamente
independente pode ter passado a vida inteira desejando ser
cuidada. A mesma pessoa que diz gostar de estar sozinha pode
sentir falta de companhia. A mesma que fez do trabalho
uma escolha pode descobrir, quando ele termina, que também havia ali
uma fuga. Nada disso torna falsa a independência, nem invalida as conquistas.
Apenas mostra que somos feitos de motivos que não conhecemos
inteiramente.
Foi pensando nela que me dei conta de que a
solidão da maturidade pode ter alguma coisa de revelação. Ela
retira os ruídos. Tira o trabalho, os compromissos, a urgência,
as pessoas que circulavam porque havia uma função a cumprir. E
deixa uma pergunta, que não está ligada a quantidade de amigos
ou frequência de encontros, mas sobre nossa capacidade de vínculo:
conseguimos deixar alguém entrar? Conseguimos precisar? Conseguimos
sustentar uma relação quando ela deixa de ser conveniente?
Conseguimos oferecer presença quando não há nada a ganhar
com ela?
Não há necessidade de patologizar quem escolhe uma
vida mais solitária. Existem pessoas que encontram no
silêncio uma liberdade legítima, uma forma de recolhimento, uma
intimidade consigo mesmas que não precisa ser corrigida. O
problema começa quando a solidão deixa de ser escolha e
passa a ser apenas o resultado natural de uma vida que
nunca encontrou tempo para cultivar aquilo que não
era urgente.
Relações precisam de tempo improdutivo. É difícil de
aceitar nisso numa cultura que transformou até o descanso em
produtividade. Relações exigem repetição, disponibilidade, inconveniências,
presença sem finalidade. Não se constrói intimidade apenas nas
brechas da agenda. Não se ama alguém somente quando
sobra tempo. E passamos décadas acreditando que, quando tivéssemos
finalmente tempo, viveríamos. Só que o tempo chegou e algumas pessoas
já não estavam mais lá.
Existe nisso uma dimensão trágica, mas também uma possibilidade de elaboração.
Enquanto houver desejo de encontro, alguma coisa
permanece aberta. A psicanálise não promete uma vida sem
falta. Promete, quando muito, a possibilidade de não ser inteiramente
governado pela falta. Podemos reconhecer nossas repetições.
Podemos descobrir as defesas que um dia nos salvaram e que
hoje organizam nosso sofrimento. Podemos perceber que aquilo
que chamávamos de força continha medo; que aquilo que
chamávamos de independência escondia dificuldade de depender;
que aquilo que chamávamos de dedicação era uma maneira de
não ficar diante de nós mesmos.
E ainda é possível plantar.
Não para recuperar o tempo perdido, porque o
tempo perdido não se recupera. Nem para fabricar, na velhice,
uma vida social que pareça uma reparação daquilo que não
foi vivido. Mas para fazer uma coisa mais simples: aprender a
estar com alguém sem precisar ser alguma coisa para
essa pessoa. Aprender a ficar. A telefonar. A aceitar um
convite. A deixar que alguém cuide. A dizer que sentiu falta. A
assumir que precisa.
É um movimento mais radical de uma vida construída
sobre a independência: descobrir que precisar do outro não
nos torna menos inteiros.
Quando ela saiu da sala, fiquei alguns minutos
olhando para a poltrona vazia. Pensei que a análise tem algo
de curioso. Uma pessoa entra, fala durante cinquenta minutos
e vai embora, e o que permanece não é exatamente aquilo que
ela disse. Permanece o que se produziu entre o
que ela disse e aquilo que foi possível escutar. Um
intervalo. Uma falta. Uma pergunta que não se fecha.
Naquela noite, fiquei pensando que a maturidade
não é apenas o momento em que colhemos aquilo
que plantamos. É também a época da vida em que conseguimos
olhar para o terreno e reconhecer nossas escolhas sem
precisar transformá-las em culpa. O que foi plantado está ali. Algumas
coisas floresceram. Outras secaram. Algumas deram frutos que não
esperávamos. Outras ocuparam espaço demais. Ainda resta
algum terreno.
Concluo que a ideia não é perguntar: por que estamos sozinhos? Mas perceber como fomos construindo essa solidão ao longo da vida. E, quando conseguimos olhar para isso com honestidade, surge uma nova pergunta: o que ainda podemos construir de diferente? A porta continua ali.
Nenhum comentário:
Postar um comentário