Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

domingo, 13 de setembro de 2026

A solidão que a gente constrói

Atendi uma senhora na clínica. Bonita, elegante, muito inteligente, dessas pessoas que entram numa sala trazendo consigo uma vida inteira de realizações. Havia nela uma espécie de segurança que não era exatamente tranquilidade, eram muitos anos aprendendo a não depender de ninguém. Falava de si com lucidez, tinha uma capacidade rara de olhar para a própria história sem fazer dela uma coleção de desculpas, mas também sem pedir absolvição. Era a última sessão do dia, e isso me permitiu permanecer um pouco mais depois que ela foi embora, sentado diante daquela sala já silenciosa, pensando no que havia escutado. Fiquei com a sensação de que, naquela hora, não tinha ouvido apenas uma mulher falar da própria solidão. Tinha ouvido uma vida inteira falar através dela.

Há uma espécie de solidão que não começa quando as pessoas vão embora. Ela começa muito antes, quando aprendemos que é mais seguro não precisar delas. Essa mulher me fez pensar nisso porque falava da própria solidão sem exatamente se queixar dela. Havia quase um reconhecimento. A vida que tinha naquele momento era, em alguma medida, a vida que havia construído. Durante muitos anos, o trabalho ocupara quase tudo, não apenas o tempo, mas também o lugar das relações, dos encontros, da circulação pelo mundo, da sensação de pertencimento. Enquanto havia trabalho, havia gente. Havia compromissos, conversas, viagens, projetos, convites, telefonemas. Havia uma vida social permanentemente acesa. Só quando o trabalho deixou de ocupar aquele lugar foi possível perceber que uma parte importante daquela sociabilidade estava sustentada menos pelos vínculos do que pela função que ela exercia no mundo. Quando a função desapareceu, alguma coisa desapareceu junto. E existe uma experiência particularmente desconcertante na maturidade: descobrir que aquilo que imaginávamos ser nossa vida era, em parte, a estrutura que a ocupava.

Pensei em Freud e naquilo que retorna quando uma solução deixa de funcionar. O sujeito não repete simplesmente porque não aprendeu. Repete porque há alguma coisa que insiste, alguma coisa que não se deixa resolver apenas pela consciência. Há formas de vida que se organizam em torno de uma defesa tão eficiente que deixam de parecer defesa. Tornam-se identidade. A pessoa já não diz “eu faço isso para me proteger”. Ela diz “eu sou assim”. Sou independente. Sou workaholic. Não gosto de depender. Gosto de ficar sozinha. Não tenho tempo para relações superficiais. Gosto de gente, mas não preciso de ninguém. E uma defesa que ganha o nome de personalidade se torna muito mais difícil de interrogar.

Havia, naquela mulher, uma independência que parecia ter começado muito cedo. Falava de uma mãe complicada, de uma infância em que amor e exigência pareciam ter se misturado de maneira pouco pacífica. Não é preciso transformar uma mãe difícil na origem de todos os destinos. A psicanálise não serve para produzir culpados retroativos. Mas sabemos que é nas primeiras relações que o sujeito começa a aprender algo sobre seu próprio valor, sobre o que precisa fazer para ser amado, sobre o que pode esperar do outro e, sobretudo, sobre o lugar que imagina ocupar no desejo de quem dele cuida. Melanie Klein nos ensinou a levar a sério a intensidade dessas primeiras relações, a ambivalência inevitável entre amor e ódio, gratidão e ressentimento, dependência e desejo de independência. A criança não possui ainda recursos para pensar “minha mãe está frustrada com a própria vida” ou “minha mãe carrega uma história que nada tem a ver comigo”. A criança pensa a partir de si. Se o amor não chega como gostaria, pode concluir que há algo nela que precisa ser corrigido.

É aí que uma criança pode começar uma obra silenciosa. Preciso ser melhor. Preciso ser brilhante. Preciso não dar trabalho. Preciso não precisar. Preciso ser tão boa que ninguém consiga me abandonar. Não é necessário que essas frases tenham sido formuladas conscientemente. O inconsciente não trabalha assim. Elas aparecem como modos de existir, escolhas que se repetem, ambições que parecem espontâneas, uma necessidade quase física de competência, reconhecimento, controle. E quando essa criança cresce, pode se tornar uma mulher admiravelmente capaz. O que um dia foi defesa passa a ser talento. O que nasceu de uma falta pode se transformar em realização. E isso torna tudo mais complexo, porque não se trata de dizer que o sucesso foi falso. Ele foi real. As conquistas foram reais. O sofrimento também.

Winnicott talvez ajudasse a pensar nesse ponto a partir daquilo que chamou de falso self. Não no sentido vulgar de uma pessoa fingida, mas de uma organização psíquica construída para responder adequadamente ao ambiente, muitas vezes tão bem adaptada que o próprio sujeito já não sabe onde termina a adaptação e começa o desejo. Há pessoas que se tornam extremamente boas em ser aquilo que o mundo espera delas. Funcionam. Produzem. Entregam. Correspondem. São admiradas. E, justamente por isso, podem passar muito tempo sem se perguntar o que acontece quando não precisam mais funcionar. Existe uma diferença entre estar vivo e estar funcionando, embora por muitos anos ela possa ser quase imperceptível.

O trabalho oferece uma solução particularmente sofisticada para esse problema. Ele oferece identidade, reconhecimento e, em muitos casos, uma forma socialmente legítima de não olhar para determinadas faltas. Não fui porque estava trabalhando. Não liguei porque estava trabalhando. Não encontrei porque estava cansado. Não tenho tempo porque tenho um projeto. Não preciso de ninguém porque tenho minha vida. Enquanto estamos ocupados, a questão não aparece com tanta força. O trabalho pode funcionar como objeto de investimento, como fonte de narcisismo, como lugar onde o sujeito encontra uma confirmação cotidiana de seu valor. Somos procurados, necessários, admirados. Recebemos alguma coisa do olhar dos outros que nos devolve uma imagem suportável de nós mesmos.

Lacan provavelmente faria uma pergunta mais incômoda: de quem é esse desejo? O que exatamente estamos tentando obter quando buscamos incessantemente reconhecimento? O sujeito deseja ser desejado pelo Outro, mas nunca consegue fechar completamente essa conta. Há sempre um resto, alguma coisa que não se completa. Podemos conquistar mais uma posição, mais um prêmio, mais uma entrevista, mais um projeto, mais uma prova de que somos bons, e ainda assim permanecer a pergunta infantil escondida em algum lugar: agora você me ama? Agora sou suficiente? Agora você não pode me deixar?

Talvez seja isso que algumas trajetórias extraordinárias escondam de mais humano. A pessoa se torna excepcional não apenas porque deseja realizar, mas porque existe algo que precisa ser constantemente confirmado. Ela passa a vida respondendo a uma pergunta que nunca foi formulada inteiramente. E o problema do reconhecimento é que ele é insaciável. Nenhuma quantidade de aplauso responde definitivamente àquilo que o sujeito pergunta ao Outro. O desejo desliza. Quando uma conquista é alcançada, outra precisa ocupar seu lugar. Quando um público se vai, outro precisa aparecer. Quando uma função termina, o vazio que ela recobria pode se tornar subitamente audível.

Foi isso que pensei ao ouvi-la falar do fim do trabalho. Não que o trabalho tivesse sido uma mentira ou uma fuga deliberada. Ele tinha sido também amor, vocação, prazer, realização. Mas podia ter sido uma solução. E quando uma solução desaparece, aquilo que ela mantinha em silêncio pode retornar.

A aposentadoria, uma mudança de carreira, os filhos que saem de casa, o corpo que já não acompanha o ritmo, qualquer ruptura que retire do sujeito o lugar que ocupava no mundo pode produzir uma espécie de revelação. Não porque o passado se torne falso, mas porque o presente deixa de oferecer as mesmas distrações. O telefone toca menos. Os convites diminuem. As pessoas seguem suas próprias vidas. A agenda esvazia. E então aparece uma pergunta que não tem mais como ser adiada: quem sou eu quando ninguém precisa daquilo que sei fazer?

É uma pergunta profunda. Para algumas pessoas, o trabalho não ocupava apenas oito, dez ou doze horas do dia. Ocupava um lugar no campo do Outro. Era através dele que eram vistas, nomeadas, reconhecidas. Era ali que sabiam quem eram. Quando esse lugar desaparece, não se perde apenas uma atividade. Perde-se uma identificação. E o sujeito se vê obrigado a encontrar alguma coisa de si para além dos significantes que durante décadas o representaram.

Lacan dizia que um significante representa o sujeito para outro significante. Gosto de pensar nisso quando observo alguém que passou a vida sendo representado por aquilo que faz. Jornalista. Médica. Empresária. Artista. Professora. Mãe. A profissão, o cargo, o lugar social podem funcionar como nomes que organizam a existência. São importantes, evidentemente. Mas nenhum deles esgota o sujeito. Quando o nome que sustentava a identidade deixa de operar, pode surgir a sensação de que não sabemos mais quem somos. E o que aparece nesse intervalo não é necessariamente uma nova identidade pronta para ocupar o lugar da antiga. Aparece a falta.

A falta é difícil de suportar. Por isso inventamos tantas maneiras de preenchê-la. Uma delas é trabalhar. Outra é ser necessário. Outra é ser admirado. Outra é não precisar de ninguém.

A independência, quando se torna uma exigência interna, pode esconder uma dificuldade profunda de depender. E depender, em psicanálise, não é fraqueza. O bebê depende absolutamente do outro. O sujeito humano continua dependendo, embora a vida adulta construa inúmeras formas de negar essa condição. Precisamos de amor, de reconhecimento, de cuidado, de presença. Precisamos de alguém que nos escute quando não temos nada interessante para dizer. Precisamos de relações nas quais nossa utilidade não seja o fundamento do vínculo.

Para alguém que passou a vida inteira construindo valor através daquilo que faz, isso pode ser assustador. Ser útil é relativamente seguro. Ser amado é outra coisa. Ser útil estabelece uma troca. Ser amado introduz uma vulnerabilidade.

E a intimidade é precisamente o lugar onde essa diferença se torna insuportavelmente clara. Há uma diferença entre ter pessoas ao redor e ter alguém diante de quem podemos deixar de desempenhar. Intimidade é o espaço em que a performance pode descansar. Onde não precisamos ser inteligentes, interessantes, fortes, produtivos, generosos, sensatos. Onde podemos aparecer nas partes menos apresentáveis, inclusive naquelas que preferimos esconder. Para quem aprendeu cedo que o amor precisava ser conquistado, simplesmente existir diante de alguém pode ser mais difícil do que realizar qualquer coisa.

Foi aí que a solidão daquela mulher deixou de me parecer apenas uma circunstância e passou a me parecer uma questão psíquica. Existem pessoas que estão sozinhas porque a vida as colocou nessa condição. Existem pessoas que estão sozinhas porque não encontraram quem desejassem. E existem pessoas que, sem saber exatamente como, construíram uma vida em que ninguém consegue chegar muito perto. Não porque não desejem intimidade, mas porque a intimidade exige justamente aquilo que aprenderam a evitar: espera, frustração, dependência, perda de controle, possibilidade de rejeição.

É possível passar a vida desejando profundamente uma relação e, ao mesmo tempo, fazendo tudo para não ficar à mercê dela. A solidão pode ser uma forma de controle. Quando estou sozinho, ninguém me abandona. Quando não preciso, ninguém pode me decepcionar. Quando não espero, ninguém pode frustrar minha expectativa. Quando minha vida está inteiramente ocupada pelo trabalho, não preciso descobrir o que existe quando o trabalho termina.

É uma defesa brilhante. E como toda boa defesa, funciona. Até o momento em que deixa de funcionar.

Foi então que pensei naquilo que plantamos. Não como uma moral simplista, como se cada pessoa recebesse exatamente aquilo que merece, mas como uma constatação: nossas escolhas repetidas vão criando um ambiente psíquico e relacional no qual passamos a viver. Se durante quarenta anos escolhemos o trabalho em detrimento dos encontros, não é surpreendente que, aos setenta, o trabalho seja uma coisa que já não existe e os encontros também não. Se durante décadas recusamos convites porque havia sempre algo mais urgente, chega uma hora em que as pessoas param de convidar. Não por crueldade. Por adaptação. Os outros também aprendem.

E existe uma dor particular em perceber que ninguém nos abandonou de uma vez. Fomos, aos poucos, ficando menos presentes na vida dos outros até que nossa ausência deixou de ser percebida como ausência. Isso é diferente de culpa. Culpa é uma coisa mais pobre. Responsabilidade é mais difícil, porque pressupõe que, mesmo quando não escolhemos as circunstâncias que nos formaram, participamos das formas que nossa vida assume depois delas. Não escolhemos a família que tivemos, o amor que recebemos, as faltas da infância, as humilhações, os abandonos, as condições históricas, as perdas. Mas chega um momento em que podemos perguntar o que fizemos com aquilo que fizeram conosco.

Essa pergunta não absolve os pais nem condena os filhos. Ela apenas desloca o sujeito de uma posição passiva diante da própria história. Freud nos ensinou que somos feitos também daquilo que não sabemos sobre nós mesmos. A repetição é uma maneira de continuar vivendo o que não conseguimos elaborar. A análise começa, em alguma medida, quando aquilo que parecia destino começa a adquirir a possibilidade de ser lido.

Para mim, envelhecer é chegar a esse lugar, a um balanço sem contabilidade em que começamos a enxergar não apenas o que conquistamos, mas também aquilo que sacrificamos para conquistar. Para quem construiu a própria identidade em torno do trabalho, as perguntas são especialmente duras: quem sou eu quando não estou trabalhando? Quem sou eu quando ninguém precisa daquilo que sei fazer? Quem sou eu quando não tenho mais uma função que organize meu tempo, minha autoestima e meus encontros? E, quem consegue ficar comigo quando não tenho nada para oferecer?

Essa última pergunta toca num lugar muito primitivo. Ser amado não é a mesma coisa que ser útil. Ser procurado não é a mesma coisa que ser querido. Ser admirado não é a mesma coisa que ser conhecido. E a maior dificuldade está em suportar ser conhecido sem poder controlar completamente a imagem que o outro faz de nós.

Há uma fantasia narcísica de que, se formos suficientemente bons, poderemos finalmente garantir o amor do outro. Mas o desejo do outro não se deixa domesticar. O Outro nunca nos devolve exatamente a resposta que esperamos. Podemos passar a vida tentando preencher essa falta e, ainda assim, permanecer faltantes. Lacan torna isso claro: não há objeto capaz de completar definitivamente o sujeito. A busca por reconhecimento pode ser interminável justamente porque o que está sendo buscado não é um prêmio, nem um cargo, nem um elogio. É uma garantia impossível de que somos, finalmente, suficientes.

E então a vida pode ficar muito cheia de conquistas e muito pobre de descanso.

A mesma mulher que se tornou absolutamente independente pode ter passado a vida inteira desejando ser cuidada. A mesma pessoa que diz gostar de estar sozinha pode sentir falta de companhia. A mesma que fez do trabalho uma escolha pode descobrir, quando ele termina, que também havia ali uma fuga. Nada disso torna falsa a independência, nem invalida as conquistas. Apenas mostra que somos feitos de motivos que não conhecemos inteiramente.

Foi pensando nela que me dei conta de que a solidão da maturidade pode ter alguma coisa de revelação. Ela retira os ruídos. Tira o trabalho, os compromissos, a urgência, as pessoas que circulavam porque havia uma função a cumprir. E deixa uma pergunta, que não está ligada a quantidade de amigos ou frequência de encontros, mas sobre nossa capacidade de vínculo: conseguimos deixar alguém entrar? Conseguimos precisar? Conseguimos sustentar uma relação quando ela deixa de ser conveniente? Conseguimos oferecer presença quando não há nada a ganhar com ela?

Não há necessidade de patologizar quem escolhe uma vida mais solitária. Existem pessoas que encontram no silêncio uma liberdade legítima, uma forma de recolhimento, uma intimidade consigo mesmas que não precisa ser corrigida. O problema começa quando a solidão deixa de ser escolha e passa a ser apenas o resultado natural de uma vida que nunca encontrou tempo para cultivar aquilo que não era urgente.

Relações precisam de tempo improdutivo. É difícil de aceitar nisso numa cultura que transformou até o descanso em produtividade. Relações exigem repetição, disponibilidade, inconveniências, presença sem finalidade. Não se constrói intimidade apenas nas brechas da agenda. Não se ama alguém somente quando sobra tempo. E passamos décadas acreditando que, quando tivéssemos finalmente tempo, viveríamos. Só que o tempo chegou e algumas pessoas já não estavam mais lá.

Existe nisso uma dimensão trágica, mas também uma possibilidade de elaboração. Enquanto houver desejo de encontro, alguma coisa permanece aberta. A psicanálise não promete uma vida sem falta. Promete, quando muito, a possibilidade de não ser inteiramente governado pela falta. Podemos reconhecer nossas repetições. Podemos descobrir as defesas que um dia nos salvaram e que hoje organizam nosso sofrimento. Podemos perceber que aquilo que chamávamos de força continha medo; que aquilo que chamávamos de independência escondia dificuldade de depender; que aquilo que chamávamos de dedicação era uma maneira de não ficar diante de nós mesmos.

E ainda é possível plantar.

Não para recuperar o tempo perdido, porque o tempo perdido não se recupera. Nem para fabricar, na velhice, uma vida social que pareça uma reparação daquilo que não foi vivido. Mas para fazer uma coisa mais simples: aprender a estar com alguém sem precisar ser alguma coisa para essa pessoa. Aprender a ficar. A telefonar. A aceitar um convite. A deixar que alguém cuide. A dizer que sentiu falta. A assumir que precisa.

É um movimento mais radical de uma vida construída sobre a independência: descobrir que precisar do outro não nos torna menos inteiros.

Quando ela saiu da sala, fiquei alguns minutos olhando para a poltrona vazia. Pensei que a análise tem algo de curioso. Uma pessoa entra, fala durante cinquenta minutos e vai embora, e o que permanece não é exatamente aquilo que ela disse. Permanece o que se produziu entre o que ela disse e aquilo que foi possível escutar. Um intervalo. Uma falta. Uma pergunta que não se fecha.

Naquela noite, fiquei pensando que a maturidade não é apenas o momento em que colhemos aquilo que plantamos. É também a época da vida em que conseguimos olhar para o terreno e reconhecer nossas escolhas sem precisar transformá-las em culpa. O que foi plantado está ali. Algumas coisas floresceram. Outras secaram. Algumas deram frutos que não esperávamos. Outras ocuparam espaço demais. Ainda resta algum terreno.

Concluo que a ideia não é perguntar: por que estamos sozinhos? Mas perceber como fomos construindo essa solidão ao longo da vida. E, quando conseguimos olhar para isso com honestidade, surge uma nova pergunta: o que ainda podemos construir de diferente? A porta continua ali. 

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Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

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