Quando eu falo com vocês sobre a importância de se analisar, penso muito na infância. Não exatamente em voltar para ela, mas em perceber o quanto ela ainda está presente, às vezes em lugares que a gente nem imagina. A gente passou os primeiros anos da vida acreditando no que nos diziam. Não tinha muito como fazer diferente. Se alguém dizia que éramos difíceis, acreditávamos. Se diziam que éramos sensíveis demais, que não podíamos sentir raiva, que precisávamos agradar, que era melhor ficar quieto, aquilo ia entrando. E não entrava como uma opinião. Entrava como uma verdade sobre quem a gente era. Uma criança não consegue pensar que o adulto também tem uma história, seus próprios limites, suas frustrações, suas dificuldades. Ela não pensa: “isso tem mais a ver com essa pessoa do que comigo”. Ela simplesmente tenta entender o que está acontecendo e, muitas vezes, conclui que o problema está nela.
E depois a gente cresce.
Só que algumas dessas coisas continuam funcionando por dentro. A gente sabe, racionalmente, que não precisa agradar todo mundo, mas sente uma culpa enorme quando desagrada alguém. Sabe que pode dizer não, mas trava. Percebe que está repetindo uma relação que não faz bem, mas continua ali. Às vezes, se torna exatamente aquilo que sofreu. Fica rígido porque cresceu num ambiente rígido. Controla porque aprendeu que perder o controle era perigoso. Se cala porque aprendeu cedo demais que falar tinha consequências. E tem uma coisa curiosa nisso: a gente costuma perceber com mais facilidade o que fizeram com a gente do que aquilo que passou a fazer parte de nós.
A análise, para mim, passa muito por aí. Não apenas descobrir quem fez o quê, nem construir uma explicação para tudo que somos. É poder olhar um pouco mais demoradamente para a própria história e perceber o que foi ficando.
O que eu acreditei sobre mim? O que eu aprendi que precisava fazer para ser amado? Do que eu ainda tenho medo? O que eu repito sem perceber que estou repetindo? E por que algumas coisas são tão difíceis de dizer não?
Porque dizer não, muitas vezes, não é só dizer não para alguém. É dizer não para um lugar que ocupamos durante muito tempo. É contrariar uma expectativa que parecia fazer parte do amor. É deixar de ser aquela pessoa que sempre entende, sempre cede, sempre está disponível, sempre tenta não incomodar. E isso pode ser muito difícil. Até porque mudar uma repetição não traz imediatamente uma sensação de liberdade. Às vezes traz culpa. Estranheza. Uma sensação de que estamos fazendo alguma coisa errada, mesmo quando sabemos que não estamos.
Acho que crescer tem alguma relação com poder olhar para isso sem tanta pressa de resolver. Entender que muita coisa que fazemos hoje começou muito antes de termos condições de escolher. E que, depois de um tempo, aquilo que foi uma forma de adaptação vira simplesmente o nosso jeito de viver, de amar, de trabalhar, de se relacionar.
Só que não precisa ser assim para sempre. Não se trata de apagar a infância, nem de transformar os pais em vilões, nem de encontrar uma causa para cada coisa. É mais simples e mais difícil do que isso. É poder se aproximar da própria história e começar a enxergar algumas coisas que, durante muito tempo, pareciam naturais.
É o trabalho da análise: perceber que algumas certezas que temos sobre nós foram aprendidas. E, quando uma coisa foi aprendida, ela também pode ser interrogada. Não para virar outra pessoa. Mas para descobrir, aos poucos, o que de fato é nosso e o que a gente só continuou carregando porque um dia acreditou que precisava carregar.
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