Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Uma segunda-feira qualquer...

Eu tenho pensado muito sobre essa necessidade que a gente criou de transformar tudo em aprendizado. Parece que não basta sofrer. A gente precisa sair do sofrimento com alguma coisa nas mãos: uma lição, uma evolução, um propósito, uma versão melhor de nós mesmos. Como se a dor só pudesse ser legitimada depois de produzir algum resultado. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para admitir que, às vezes, eu simplesmente me arrependo. Não de tudo, não o tempo inteiro e talvez nem seja exatamente arrependimento. É mais difícil de explicar do que isso.

Eu larguei um emprego, benefícios, um bom salário, uma área, para me aventurar na Psicologia. E usar a palavra “aventurar” talvez ainda seja uma das formas mais honestas que encontrei para falar sobre essa escolha. Não porque eu não soubesse o que estava fazendo, mas porque existe alguma coisa de muito incerta em abandonar uma carreira relativamente consolidada para começar outra. Eu sabia que queria a Psicologia, sabia que gostava da área, sabia que havia alguma coisa naquela profissão que fazia sentido para mim, mas saber disso não tornou a escolha menos assustadora. Eu deixei para trás uma remuneração, uma imagem, um reconhecimento, um lugar, que, em alguns momentos, faz falta e entrei em uma profissão que exige muito antes de oferecer qualquer sensação real de estabilidade.

Só que a história não termina aí, como talvez fosse mais bonito contar. Eu não estou no meio da graduação, esperando algum dia me tornar psicóloga. Eu já me formei. Tenho meu consultório montado, estou atendendo muitos pacientes, presencialmente e on-line, de muitos outros lugares e, sinceramente, gosto muito do que faço. Gosto da clínica, gosto de estudar, gosto de ler, gosto das perguntas que a Psicologia me provoca e gosto da possibilidade de passar horas tentando compreender alguma coisa que, para outra pessoa, pode parecer apenas uma conversa. Eu construí uma profissão que faz sentido para mim e tenho orgulho disso. Mas isso não significa que todas as manhãs eu acorde pensando que fiz a melhor escolha da minha vida.

Tem segundas-feiras em que eu me arrependo. É sobre escolher uma vida e sentir falta da outra!

E acho importante conseguir dizer isso sem imediatamente transformar a frase em uma grande reflexão sobre coragem, propósito ou realização pessoal. Porque talvez eu simplesmente esteja cansada. Talvez algumas segundas-feiras sejam só segundas-feiras. Talvez nem tudo precise significar alguma coisa.

Existe uma romantização muito grande da mudança profissional, principalmente quando ela pode ser contada depois que as coisas começam a dar certo. A história fica bonita: alguém estava insatisfeito, teve coragem, largou um emprego estável, seguiu um sonho, estudou, se reinventou e hoje trabalha com aquilo que ama. É uma narrativa ótima. O problema é que quase ninguém conta a parte intermediária. Ninguém fala tanto sobre a graduação difícil, sobre as leituras que parecem nunca acabar, sobre a sensação de que sempre existe alguma coisa que você ainda não sabe, sobre a necessidade de continuar estudando mesmo depois de formada, sobre supervisão, cursos, atualização, construção de carreira e, principalmente, sobre a dificuldade de transformar uma profissão que você ama em uma forma sustentável de viver.

A Psicologia tem ainda uma particularidade que talvez torne tudo isso um pouco mais contraditório. É uma profissão que eu escolhi porque gosto de compreender pessoas, de ouvir, de estudar, de pensar. E justamente por isso existe sempre a sensação de que nunca é suficiente. Você se forma e percebe o tamanho do que ainda não sabe. Lê um livro e encontra outros dez. Aprende uma teoria e percebe que existem outras maneiras de olhar para a mesma coisa. Atende um paciente e sai da sessão pensando em uma intervenção, uma palavra, uma pergunta que poderia ter sido diferente. E então estuda mais. Lê mais. Faz mais. Tenta entender mais. Existe uma espécie de movimento infinito de aprofundamento que, ao mesmo tempo em que é uma das coisas mais bonitas da profissão, também é exaustivo.

E existe ainda a realidade de trabalhar como psicóloga hoje. Existe a chamada uberização da Psicologia, a pressão por preços, as plataformas, a necessidade de divulgar o próprio trabalho, produzir conteúdo, responder mensagens, organizar agenda, lidar com faltas, pagamentos, burocracias e, além de tudo isso, estudar e atender. Existe uma ideia muito difundida de que, se você trabalha com aquilo que ama, o restante deixa de importar. Mas não deixa. Amor pela profissão não paga conta. Propósito não substitui estabilidade. E gostar do que eu faço não significa que eu não possa sentir falta da segurança financeira ou de outros tipos de reconhecimento.

Eu posso amar a Psicologia e sentir falta do que trabalhava. Posso gostar profundamente da clínica e achar difícil construir uma carreira nela. Posso olhar para o meu consultório e sentir orgulho do que consegui fazer e, em outro momento, pensar que talvez tivesse sido mais fácil continuar onde eu estava. Essas coisas não se anulam. Elas podem existir ao mesmo tempo.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar quando fazemos uma escolha grande: depois que escolhemos um caminho, continuamos capazes de imaginar todos os outros. Eu poderia ter permanecido naquele emprego. Poderia ter continuado naquela outra área. Poderia ter seguido aquela carreira e talvez hoje estivesse igualmente feliz. Às vezes eu penso nisso. E pensar nisso não significa necessariamente que eu quero voltar. Significa apenas que aquela vida existiu. Ela foi minha durante muito tempo. Tinha coisas boas.Não preciso transformar a minha vida anterior em um erro para justificar a vida que tenho hoje.

Talvez eu também não precise transformar a Psicologia em uma escolha perfeita para justificar ter feito essa mudança. Eu não preciso dizer que foi a melhor decisão da minha vida. Com certeza foi uma decisão importante. Uma decisão que fez sentido para mim naquele momento e que continua fazendo sentido em muitos aspectos, embora também tenha ônus que eu não imaginava completamente quando comecei.

Porque escolher alguma coisa também é abrir mão de outras. E acho que existe uma certa ingenuidade em falar sobre escolhas sem falar sobre renúncias. Quando eu escolhi a Psicologia, eu não ganhei apenas uma profissão. Eu também abri mão de determinadas certezas. Ganhei um consultório, pacientes, estudo, leituras, uma profissão que me interessa profundamente e a possibilidade de fazer um trabalho que considero significativo. Mas também ganhei instabilidade, responsabilidade, dúvidas e uma necessidade permanente de continuar construindo alguma coisa que ainda não está pronta.

E talvez seja justamente isso que me incomoda em tantas narrativas sobre encontrar o próprio propósito. Elas parecem sugerir que, quando finalmente encontramos aquilo que amamos, a dúvida desaparece. A minha experiência mostra que não. Eu encontrei uma profissão de que gosto muito e continuo tendo dúvidas. Eu construí um consultório e ainda sinto receio. Eu me formei e continuo estudando muito e com afinco, como se ainda faltasse alguma coisa. Eu atendo pessoas e continuo sendo uma pessoa com as minhas próprias questões. Eu fiz uma escolha que considero importante e, em determinadas segundas-feiras, ainda penso que talvez tenha sido uma péssima ideia.

E eu não preciso resolver essa contradição.

Talvez a gente tenha uma necessidade excessiva de resolver tudo. Se estou feliz, preciso explicar por quê. Se estou triste, preciso descobrir o que aprendi. Se estou sofrendo, preciso encontrar um propósito. Se mudei de carreira, preciso dizer que foi a melhor decisão da minha vida. Se estou cansada, preciso descobrir qual foi o ensinamento daquele cansaço. Como se toda experiência precisasse produzir imediatamente algum sentido.

Eu não quero mais transformar todo desconforto em crescimento. Às vezes eu quero apenas reconhecer que está difícil. Sem uma grande conclusão, sem uma lição e sem a obrigação de agradecer pelo sofrimento. Porque nem todo sofrimento precisa virar aprendizado.

Talvez algumas coisas simplesmente doam. Algumas escolhas simplesmente custem. Algumas fases simplesmente sejam cansativas. E talvez amadurecer também seja conseguir permanecer diante dessas coisas sem precisar imediatamente transformá-las em uma história bonita.

Eu não sei se fiz a escolha certa todos os dias. Na verdade, em alguns dias eu tenho bastante certeza de que não fiz. Mas também sei que existe uma parte muito grande de mim que gosta de estar aqui. Eu gosto da Psicologia, gosto da clínica, gosto de estudar, gosto dos pacientes que chegam até mim, gosto de efetivamente fazer diferença na vida dos meus pacientes, gosto das histórias que escuto e das perguntas que esse trabalho me obriga a fazer. Tenho orgulho do consultório que construí e da profissão que estou construindo. Isso também é verdade.

Talvez a questão seja justamente aceitar que uma verdade não precisa apagar a outra. Posso estar feliz e cansada. Posso amar o que faço e sentir falta do que deixei para trás. Posso estar orgulhosa e insegura. Posso ter escolhido conscientemente e ainda assim sentir saudade da vida que não escolhi.

E talvez seja isso que eu queira preservar nessa escolha: o direito de não precisar transformá-la em uma história perfeita. Eu não quero olhar para trás daqui a alguns anos e precisar dizer que largar aquele emprego foi a melhor coisa que me aconteceu. Talvez tenha sido. Talvez não. Talvez tenha sido apenas uma das decisões importantes da minha vida, com coisas muito boas e coisas muito difíceis.

Por enquanto, sigo estudando demais, lendo sem parar, atendendo muitoooooo, construindo meu consultório e tentando aprender a viver de uma profissão que escolhi porque gosto. E, de vez em quando, numa segunda-feira particularmente difícil, provavelmente vou continuar pensando que talvez eu tenha cometido um erro enorme.

Sei que não preciso brigar com esse pensamento. Posso apenas deixá-lo existir. Porque nem todo sofrimento precisa virar aprendizado. Às vezes, um sofrimento é apenas sofrimento.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

Postagens Mais Vistas