Quero escrever. Mas hoje não me encontro nas palavras.
Quando vejo que não estou conseguindo me expressar aqui,
entendo que o momento não está dos melhores. Porque escrever é minha paixão, as
palavras fluem, sem roteiro, sem planejamento. Nunca tive que pensar para
escrever. Parece que a alma vai guiando, vou colocando o que sinto e tudo vai
fazendo sentido e ganhando forma.
Hoje, não. Está tudo desconectado. Sem rumo, sem encontrar o
que dizer. Não vai dando liga, o sentido vai escorrendo entre as frases e
parece mais um desabafo do que uma reflexão. Parece mais uma tristeza do que
uma experiência existencial. A sensação é de desaparecimento. E, nesse momento,
tudo vai se confundindo. Vêm lembranças antigas, vêm decepções recentes também.
Vem uma sensação de injustiça, de que foi muito esforço, foi tudo muito
batalhado e para quê? A sensação dos resultados, ou, melhor, da ausência deles,
fica mais nítida. As escolhas se enfraquecem, parecem más escolhas, decisões
ruins ao longo do caminho. Eu acabo virando alvo das minhas próprias palavras,
como se eu tivesse que me explicar para mim mesma.
O entorno fica menor. As conquistas também diminuem na mesma
intensidade. O fundo do poço começa a ficar cada vez mais alcançável, e a
leitura é de ter dado milhares de passos para trás em tempo recorde. Fico
estranha a mim mesma, como se eu não fosse eu. Como se o Outro que me dizia
quem eu era tivesse errado, dito outra coisa. Como se eu tivesse entendido
outra coisa.
Uma metáfora absurda, mas é a que me ocorre: como se, ao
acordar do coma, eu não mais reconhecesse o mundo e o meu lugar nele. Tudo
mudou demais. Não tenho mais as conexões antes estabelecidas e agora parece um
caminhar novo, mas estranho, muito assustador, porque já não se é criança, já
não se vive no mundo da fantasia, já não se tem mais os recursos que se tinha.
Então vira uma odisseia mesmo. (Legal me vir essa palavra, justo agora, porque
é o filme em cartaz atualmente.)
Odisseia, humm, odisseia. E, agora, com essa palavra ...
reencontrando a força que escrever tem para mim, não tenho como não fazer uma
releitura e uma conexão com a obra Odisseia, de Homero.
Com Odisseu, para os gregos e Ulisses, para os
romanos. Na prática, Odisseu e Ulisses são a mesma personagem. Eu prefiro
Odisseu. Para mim, Odisseu me mantém mais próxima de Homero. Odisseu é o homem
da Odisseia. A Odisseia de Odisseu.
Odisseu precisou ir para a guerra. E a Guerra de Troia
começa, em grande parte, por causa de Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta.
Helena vai para Troia com Páris, príncipe troiano. Há diferentes versões sobre
o que aconteceu entre os dois, se Helena foi raptada, se foi seduzida ou se
partiu por vontade própria, mas o que permanece é que sua partida desencadeia
uma guerra que duraria dez anos.
Helena é desejada, disputada, considerada a mulher mais bela,
causa de projeções e narrativas. Sua identidade é constantemente construída
pelo olhar dos outros. Helena me lembra que existe uma diferença entre aquilo
que somos e aquilo que os outros projetam sobre nós. É assim mesmo, eu me
reconheço ai, eu nem sempre escolhi a história que comecei a viver. Mas, uma
vez dentro dela, eu precisei descobrir como atravessá-la.
Menelau reúne os gregos para recuperar Helena, e Odisseu,
rei de Ítaca, é convocado. É nessa guerra que acontece o famoso episódio do
cavalo de Troia, estratégia que permite aos gregos entrar na cidade e
finalmente derrotá-la. Aparece uma figura corajosa, Sinon, o grego que se
oferece aos troianos como prisioneiro e os convence de que o cavalo é uma
oferenda deixada pelos gregos. É uma
demonstração de que, em Troia, vencer não dependia apenas da força, mas também
da capacidade de construir uma narrativa na qual o outro estivesse disposto a
acreditar.
Odisseu foi convocado para guerra. A vida é assim, nos
convoca antes que estejamos prontos. Somos colocados em cenas que não
escolhemos conscientemente, mas nas quais já estamos implicados. O sujeito não
é senhor de suas escolhas: há um desejo que nos atravessa antes de sabermos
dizer o que é. Foi assim comigo. A cena estava posta, e eu, implicada nela. Houve
coisas que desejei, coisas que escolhi e coisas que simplesmente aconteceram.
Então a Odisseia se inicia...
Odisseu não estava voltando de uma viagem qualquer. Estava
voltando de dez anos de guerra. Dez anos depois de ter deixado sua casa, sua
esposa Penélope e seu filho Telêmaco. Dez anos depois de ter colocado sua vida
em suspensão para participar de uma guerra que começou pelo desejo do outro e
terminou deixando uma cidade destruída e muitos mortos. A guerra foi vencida,
mas Odisseu ainda precisaria enfrentar a sua própria travessia, a volta para
casa.
Eu me vejo ai, da mesma forma que Odisseu, tentando voltar
para casa. Odisseu, depois de dez anos de guerra, ainda levará outros dez anos
para conseguir chegar a Ítaca, para Penélope, para aquilo que deixou para trás.
Mas, pensando bem, ele não tentava chegar a um lugar. Estava tentando
reencontrar uma posição no mundo. Voltar a ser alguém que reconhece onde está
e, principalmente, quem é.
E é aí que a Odisseia faz muito sentido
para mim. Porque Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou. E é
justamente aí que a palavra “casa” ganha outro sentido para mim. A casa não é
exatamente um lugar.
Odisseu passa dez anos tentando voltar para casa. O mais
interessante é perceber que, embora a guerra tenha terminado, a história dele
não termina quando ele deixa Troia. É justamente aí que começa a outra guerra: o
retorno, a Odisseia. Ele não está apenas tentando chegar a Ítaca. Está tentando
reencontrar o caminho de volta para si mesmo.
Primeiro vieram os Cícones, um povo da Trácia, região ao
norte do mar Egeu. Depois de vencerem a batalha, os homens de Odisseu
permanecem ali para saquear e aproveitar a vitória, quando deveriam seguir
viagem. Essa demora lhes custa caro: os Cícones contra-atacam, e Odisseu perde
muitos homens. A viagem começa, assim, ensinando uma lição difícil: há momentos
em que permanecer, mesmo depois da vitória, pode nos afastar do lugar para onde
queremos voltar, nem toda vitória significa avanço.
Depois, vieram os Lotófagos, onde o perigo já não é a
violência, mas o esquecimento. Comer a flor de lótus significa perder a memória
da pátria e, com ela, o desejo de voltar para casa. É o risco de
esquecer aquilo que nos move, nossos sonhos, e se acomodar a uma existência sem
direção. Eles esquecem a missão, esquecem Ítaca e querem permanecer
ali. Odisseu precisa então ir buscá-los à força e levá-los de volta aos navios.
Ele os amarra para impedir que retornem aos Lotófagos e ordena aos outros
homens que partam imediatamente.
Em seguida vem o Ciclope, Polifemo. Aqui, Odisseu encontra
um perigo do qual não pode escapar apenas pela força. Para sobreviver, precisa
recorrer à inteligência, à astúcia e à capacidade de encontrar uma saída onde,
aparentemente, não existe nenhuma. Eles chegam a uma ilha rochosa, cheia de
cavernas. Odisseu e seus homens encontram uma delas repleta de alimentos:
queijos, leite, animais. Há abundância. Eles entram e esperam pelo dono, sem
imaginar que estão entrando no território de um gigante. Polifemo é um Ciclope,
um gigante de um único olho no meio da testa e filho de Poseidon.
Quando retorna à caverna, Polifemo fecha a entrada com uma
enorme pedra. Odisseu logo percebe que não há força humana capaz de movê-la.
Para sair dali, será preciso pensar. Enquanto o gigante começa a devorar seus
homens, Odisseu recorre à astúcia: oferece vinho a Polifemo. Depois, Odisseu e
seus homens cegam Polifemo com uma estaca. E, quando o Ciclope pergunta seu
nome, responde: “Outis, Ninguém”. Odisseu precisa abandonar o próprio
nome para sobreviver, mas é uma estratégia brilhante.
Quando Polifemo, depois de ser cegado, grita por socorro, os
outros Ciclopes perguntam quem o está atacando. “Ninguém”, responde ele. E,
acreditando que não há perigo, vão embora. Odisseu então consegue escapar com
seus homens escondidos sob os carneiros do rebanho. A inteligência vence
a força.
Mas, já a salvo, quando estão no mar, Odisseu não consegue
permanecer em silêncio. Precisa que Polifemo saiba quem o venceu. Grita para o
Ciclope que foi Odisseu, rei de Ítaca, quem o cegou. Polifemo então invoca
seu pai, Poseidon, e pede que Odisseu nunca consiga voltar para casa, ou que,
se voltar, seja depois de muitas perdas.
É um momento revelador da Odisseia: Odisseu
consegue escapar do perigo, mas não consegue escapar da necessidade de ser
reconhecido por aquilo que fez. Toda a inteligência que o havia mantido
vivo dá lugar, por alguns instantes, ao orgulho. Ele precisava apenas partir em
silêncio. Mas precisa dizer: fui eu. E é justamente aí que sua
vitória começa a se transformar em outra coisa. O ego destrói em
segundos aquilo que a inteligência levou tanto tempo para construir. Odisseu
havia criado uma identidade falsa para sobreviver. No momento em que está
seguro, porém, precisa recuperar seu nome, seu lugar, sua autoria. Como se não
bastasse ter vencido: era preciso que o outro soubesse quem havia
vencido.
Não basta ter feito; é preciso que o outro testemunhe. E,
quando esse olhar não retorna, o feito parece perder um pouco da sua realidade.
Eu me vejo assim: tentando existir no meu próprio feito sem precisar ser
reconhecida por ele.
E a Odisseia continua. Depois, Éolo lhe entrega os ventos.
Odisseu parte novamente e, dessa vez, parece finalmente estar perto de Ítaca. A
ilha já pode ser avistada. Mas, enquanto ele dorme, seus companheiros,
acreditando que o saco entregue por Éolo guarda riquezas, decidem abri-lo. Os
ventos escapam de uma só vez, a embarcação é arrastada para longe e todo o
caminho percorrido se desfaz. Uma das maiores angústias da Odisseia está
aí: estar tão perto de casa e, ainda assim, voltar a se perder. Eu
também conheço esse lugar: o que parecia caminho se desfaz, e é preciso
descobrir como seguir.
Então surgem os Lestrigões, são gigantes antropófagos, que
comem seres humanos. Eles vivem na região de Telepilo, governada pelo rei
Antífates. Odisseu chega com doze
navios. Os homens desembarcam e procuram informações. Uma mulher aparece e grita
pelo pai, Antífates, que percebe que os estrangeiros são humanos e começa o
ataque. Eles destroem quase toda a frota. Apenas a embarcação de Odisseu
consegue escapar. Mais homens ficam pelo caminho. A cada perda, a
viagem vai se tornando mais solitária, e Odisseu começa a perceber que
voltar para casa também significará chegar sem aqueles com quem partiu. E aqui
não consigo deixar de pensar nos que ficaram para trás. E também que na minha
nova profissão, há uma solidão, há um ponto do caminho que ninguém pode
percorrer por mim.
Depois veio Circe, que é uma feiticeira divina, filha do
deus-sol Hélio e da oceânide Perse. Ela vive sozinha na ilha de Eia, em um
palácio cercado por uma natureza quase encantada. Quando Odisseu e seus homens
chegam à ilha, ela os recebe aparentemente como hóspedes, mas coloca uma droga
mágica na comida deles e os transforma em porcos. Eles não deixam de ser
humanos por dentro. O corpo é transformado, mas a consciência permanece. É
perturbador. O castigo não é simplesmente morrer; é continuar consciente
enquanto sua aparência, sua dignidade e sua identidade humana são retiradas. Os
homens de Odisseu aparecem como criaturas dominadas pelo apetite e pelo
instinto, enquanto Circe parece revelar aquilo que existe por baixo da
aparência civilizada, a fronteira entre humano e animal. Dessa vez, o perigo
não está apenas em perder a vida, mas em perder a própria forma de existir, a
própria humanidade.
Odisseu parte para enfrentá-la, mas, no caminho, encontra
Hermes. Hermes é um deus, filho de Zeus e Maia. Ele é mensageiro dos deuses,
protetor dos viajantes, dos caminhos e das passagens, inclusive entre o mundo
dos vivos e o dos mortos. Ele entrega a Odisseu uma planta chamada moly. Quando
Circe tenta enfeitiçá-lo, a magia não funciona. Odisseu então a ameaça com sua
espada e consegue obrigá-la a desfazer o encantamento. Munido dessa proteção,
Odisseu consegue resistir a Circe e a obriga a devolver aos seus homens a forma
humana. Depois de tantas perdas, Odisseu encontra uma ameaça diferente:
não aquilo que pode matá-lo, mas aquilo que pode fazê-lo deixar de ser
quem é.
Mas Circe não continua sendo inimiga. Depois de enfrentá-la,
Odisseu permanece com ela durante um ano. Come, descansa, desfruta da vida.
Pela primeira vez em muito tempo, não está lutando para sobreviver nem tentando
escapar de algum perigo. Está simplesmente vivendo. Circe representa a
possibilidade de permanecer. Pela primeira vez, Odisseu pode ficar: há
alimento, descanso, prazer, uma vida possível. Mas, depois de um ano, ele
escolhe partir. E, aqui, já não se trata apenas de seguir viagem, mas de
sustentar uma escolha. Escolher significa deixar para trás uma vida
possível para seguir em direção àquela que deseja.
Eu também vejo minha Circe, minha escolha: deixar uma vida
profissional estabelecida e um lugar no mundo. Voltar a estudar, começar outra
profissão significou abrir mão de uma vida que funcionava para escolher outra,
ainda sem garantias.
Até ali, muitas vezes Odisseu é levado pelos acontecimentos;
com Circe, precisa escolher. Pode permanecer, mas decide partir. E é Circe quem
lhe indica o próximo passo para sua jornada. Odisseu precisará descer ao mundo
dos mortos e consultar Tirésias, o profeta cego, e ouvir aquilo que precisa
saber. A viagem agora exige dele algo diferente da astúcia ou da força: exige
conhecimento. Circe, que parecia uma ameaça, traz conhecimento. Nem todo
caminho é uma fuga: há ameaça que só pode ser atravessada quando é
reconhecida e nomeada.
No mundo dos mortos, Odisseu encontra também algo que não
estava procurando: sua mãe, Anticleia, e descobre que ela morreu durante sua
longa ausência. Anticleia me toca muito. Ao encontrar a mãe, Odisseu descobre
que, enquanto estava longe, a vida continuou. Sua escolha teve um custo: sua
mãe morreu durante sua ausência. Há perdas que não acontecem porque escolhemos
mal, mas porque toda escolha nos afasta de alguma coisa. Não podemos levar tudo
conosco. Escolher um caminho significa deixar outros para trás e algumas perdas
só conseguimos enxergar quando já estamos longe demais para voltar.
Ao descer ao mundo dos mortos, Odisseu é obrigado a
encontrar não apenas aqueles que perdeu, mas o que ficou para trás. Encontra
ainda Agamêmnon, Aquiles e outros mortos da guerra. Sei bem que há
verdades que não desaparecem. Elas apenas esperam o momento em que já não
podemos fugir delas. Insistem em permanecer, como aconteceu comigo.
É uma mensagem forte: a resposta pode estar justamente
onde evitamos olhar. Para descobrir o que precisa saber e continuar sua
jornada, Odisseu precisou descer ao lugar que representa a própria morte, para
seguir adiante, precisou olhar para aquilo que ficou para trás.
Lá, ele encontra também Agamêmnon, que é irmão de Menelau.
Os dois são filhos de Atreu e Aérope e pertencem à família dos Atridas. Agamêmnon
conta que, quando voltou da guerra, foi recebido em casa pela própria esposa,
Clitemnestra, e pelo amante dela, Egisto, e acabou assassinado pelos dois. Ele
conseguiu voltar da guerra, mas não encontrou em casa o que imaginava. Seu
encontro com Odisseu acrescenta uma dimensão sombria: a desconfiança, a traição
e a impossibilidade de acreditar que aqueles que ficaram permaneceram
exatamente como eram. Voltar para casa não significa reencontrar as
pessoas como as deixamos. O tempo transforma também aqueles que ficaram. Olhar
ao redor e perceber que eu já não reconheço muitos dos que compartilharam
comigo uma boa parte da minha vida. Algumas pessoas continuam ocupando os
mesmos lugares, mas parecem outras. Outras mudaram, algumas, muito, sem que eu
percebesse quando isso aconteceu. E então vem a pergunta: como eu não percebi
antes? Quando estamos dentro de uma história, não percebemos suas
transformações no momento em que acontecem. Só reconhecemos a distância quando
olhamos para trás, a posteriori. A pessoa que reencontro hoje carrega uma
história que aconteceu sem mim, assim como eu carrego tudo o que aconteceu
enquanto estive longe. Não fomos apenas separados pelo tempo; fomos
transformados por ele.
Depois vieram as Sereias, cujo canto representa uma tentação
tão poderosa que Odisseu precisa criar uma estratégia para poder escutá-las sem
se entregar a elas. Ele manda os homens colocarem cera nos seus ouvidos. Mas
ele não, ele quer ouvir o canto, então pede que o amarrem ao mastro do navio.
Não quer fingir que a tentação não existe, nem abrir mão do desejo de
conhecê-la. Mas sabe que, se estiver livre, não conseguirá resistir.
Aqui, a lição é bonita: reconhecer os próprios limites
também é uma forma de liberdade. Odisseu não confia apenas na própria força de
vontade. Antes de encontrar a tentação, cria as condições para não ser levado
por ela. Resistir à tentação não é fingir que ela não existe, mas reconhecer
a nossa vulnerabilidade e construir estratégias para atravessá-la.
Eu também ouvi muitos cantos pelo caminho. Propostas para
ficar. Convites para retornar. Promessas de uma vida que eu já conhecia bem.
Havia conforto, segurança, reconhecimento. Por alguns momentos, continuar em
direção ao desconhecido pareceu muito mais difícil do que eu imaginava.
Vieram também Cila e Caríbdis. Cila é um monstro de seis
cabeças, e cada uma delas pode arrancar e devorar um homem. Caríbdis é um
enorme redemoinho capaz de engolir o mar e destruir toda a embarcação. Circe já
havia avisado Odisseu: ele teria que passar entre os dois perigos e não havia
uma saída sem perda. Odisseu precisa escolher não entre o perigo e a
segurança, mas entre dois perigos diferentes. Não existe uma decisão capaz de
preservar tudo. E é justamente aí que a escolha ganha um forte significado. Não
existe uma decisão sem custo. Não se trata de escolher entre o bem e o mal,
mas entre duas dores possíveis. Qual dor carregar? Qual perda suportar para
continuar o caminho?
Odisseu escolhe passar mais próximo de Cila, porque
enfrentar Caríbdis poderia significar perder toda a embarcação e todos os
homens de uma só vez. Ainda assim, seis homens são levados por Cila. É essa a
mensagem: algumas escolhas não são sobre evitar a dor. São sobre escolher qual
dor é possível carregar.
Foi assim também comigo. Havia um caminho conhecido, que eu
já sabia percorrer, não sem dor, mas abrindo mão do meu desejo. E havia outro,
ainda sem nome, cheio de incertezas, em que eu precisaria abrir mão da
segurança. Escolher significava perder. Escolhi as perguntas, mesmo sem saber
onde elas me levariam.
Depois veio a ilha do rebanho sagrado, a ilha do Sol. Ali
estão os bois de Hélio, que não podem ser tocados. Odisseu sabe disso. Tirésias
havia avisado. Circe também havia avisado. Desta vez, portanto, não se trata de
escolher, não foi por falta de aviso, o limite está dado, e eles sabem qual é. Mas
seus homens estão famintos. Enquanto Odisseu dorme, seus companheiros matam e
comem alguns dos bois sagrados. Quando Hélio descobre, exige punição, senão
ameaça apagar o sol da terra. Zeus então envia um raio que destrói a
embarcação. Todos os homens morrem. Só Odisseu sobrevive.
E aqui me toca muito: nem tudo está sob nosso
controle. Odisseu havia planejado, orientado seus homens. Ainda assim, não
conseguiu controlar as escolhas dos outros. Há momentos em que fazemos tudo o
que está ao nosso alcance e, mesmo assim, o resultado escapa das nossas mãos.
Essa foi uma lição difícil da minha própria travessia. Eu
queria acreditar que, se tomasse cuidado, planejasse cada passo e fizesse tudo
certo, conseguiria prever onde aquela escolha iria me levar. Mas a vida não
funciona assim. Quando decidi mudar, não havia garantias, nem mapa, nem caminho
conhecido. A partir dali, a travessia seria só minha. Eu precisaria seguir sozinha,
assumindo o risco e a responsabilidade pela minha escolha. Não controlamos o
mar, nem o que ele levará de nós. Só podemos escolher continuar e sustentar a
escolha que fizemos.
E então resta Calipso.
É muito significativo que, depois de tantas batalhas,
monstros, tempestades, perdas e mortes, Odisseu fique preso não em um lugar de
horror, mas em um lugar aparentemente perfeito. Calipso oferece a ele a
possibilidade da juventude eterna, a possibilidade de tornar-se imortal, caso
escolhesse permanecer, casar-se com ela. Ele poderia viver longe das dores do
mundo, sem envelhecer, sem morrer. Odisseu permanece ali durante sete anos, tem
tudo, mas, ainda assim, quer partir. É justamente isso que torna Calipso um
momento tão marcante da Odisseia: Odisseu precisa escolher entre uma vida dada
e a vida que deseja. Ele poderia permanecer naquele lugar perfeito, mas não
seria Ítaca. Estar confortável é diferente de estar em casa.
Odisseu quer voltar para Ítaca, mas o desejo, sozinho, não é
suficiente.
Então Zeus decide que ele deve ser libertado. E novamente
envia Hermes para comunicar sua ordem. Hermes chega à ilha, transmite a
mensagem de Zeus e deixa claro que Odisseu precisa partir. Calipso não o
liberta por vontade própria; ela recebe uma determinação dos deuses.
E isso é bonito porque Hermes não tira Odisseu da ilha. Não
constrói o barco, não atravessa o mar com ele, não o conduz até Ítaca. Ele simplesmente
traz a mensagem, oferece proteção e abre uma possibilidade. O resto é com
Odisseu.
Algumas pessoas são assim na nossa vida: não caminham
conosco até o fim, mas aparecem exatamente quando uma passagem se faz possível.
Quando o que precisamos não é de alguém que nos carregue, mas de alguém que
abra uma porta.
Calipso me faz pensar na minha própria história. Não foi
apenas deixar para trás uma profissão, mas abrir mão de uma vida que
funcionava. Eu tinha muito do que poderia desejar: conforto, segurança,
reconhecimento. E, ainda assim, havia em mim a sensação de que aquele não era
mais o meu lugar. Calipso representa, para mim, esse lugar onde permaneci por
mais de vinte anos: confortável, conhecido e seguro, mas que, em algum momento,
deixou de ser casa.
Após a mensagem de Hermes, é Calipso, que lhe fornece
recursos para construir a jangada.
Odisseu quer Ítaca. E é aí que a palavra “casa” começa
realmente a ganhar outro significado. Casa deixa de ser apenas um lugar para
onde se volta e passa a ser aquilo que dá sentido ao desejo de voltar. Porque
Odisseu não quer simplesmente retornar a um território. Ele quer reencontrar
aquilo que o constitui: Penélope, Telêmaco, sua história, seus vínculos e a
possibilidade de se reconhecer a si mesmo.
O retorno não significa voltar a ser quem se era antes. Odisseu
já não é o mesmo homem que partiu. Ítaca pode até ser, ele ainda não sabe. O desafio
do retorno não está em chegar a um lugar, mas em descobrir se, depois de tudo,
ainda somos capazes de pertencer a ele.
Depois de escapar de Calipso, Odisseu enfrenta uma
tempestade provocada por Poseidon, que destrói sua embarcação. Ele chega, quase
morto, à terra dos Feácios, na ilha de Esquéria. Está nu, exausto, sem
pertences e sem saber exatamente onde está.
É nesse momento que surge Nausícaa, filha do rei Alcínoo e
da rainha Arete. Atena aparece em seu sonho e a incentiva a ir até o rio lavar
roupas com suas servas, lembrando-lhe que ela está em idade de se casar.
Nausícaa vai até lá com as jovens e, enquanto elas brincam, o barulho desperta
Odisseu, que estava escondido entre os arbustos.
Odisseu está irreconhecível. É um homem que perdeu tudo, é
um náufrago. Nausícaa poderia ter medo e fugir, mas não foge. Odisseu pede
ajuda, e Nausícaa lhe oferece roupas e orientação. Indica o caminho até o
palácio de seus pais e lhe dá instruções para chegar à cidade sem acompanhá-la,
evitando comentários sobre um possível casamento com um estrangeiro. Ela não
resolve o problema de Odisseu. Não o leva até Ítaca. No palácio, o rei Alcínoo
acolhe o estrangeiro, os Feácios o hospedam e, finalmente, providenciam um
navio para levá-lo a Ítaca. Nausícaa lhe dá exatamente aquilo de que ele
precisa naquele momento: condições para seguir.
Também encontrei minha Nausícaa pelo caminho. Ela apareceu
quando eu já não sabia como continuar. Não fez a travessia por mim, mas me devolveu
as condições para seguir. Em um momento
em que eu já não sabia o que fazer, sua presença foi o suficiente para que eu
pudesse dar o próximo passo.
Quando finalmente chega a Ítaca, Odisseu está disfarçado de
mendigo. Ninguém o reconhece imediatamente. E, curiosamente, nem ele próprio
consegue reconhecer a ilha para a qual passou tantos anos tentando voltar.
Quando Odisseu retorna disfarçado de mendigo, Eumeu, o
porqueiro fiel de Odisseu, não sabe que é ele e, ainda assim, oferece comida,
abrigo e hospitalidade. Mais tarde, participa da recuperação da casa. Há uma diferença entre ser reconhecido e ser
acolhido sem precisar ser reconhecido. Eumeu não reconhece o rei, o herói, ou
o homem que partiu vinte anos antes. Reconhece apenas o homem que precisa de
abrigo e isso é suficiente para acolhê-lo.
Há uma forma de amor que permanece quando já não temos
posição ou conquistas que provem quem fomos. Um amor que não precisa saber quem
fomos para acolher quem somos. Sei bem do que estou falando.
Inicialmente, Odisseu não é reconhecido e não reconhece
Ítaca. Atena havia lançado uma névoa sobre a ilha, protegendo-a até que ele
pudesse, enfim, retornar.
Atena me faz pensar que há ajuda no caminho. Há quem nos
proteja o suficiente, para que possamos encontrar nosso próprio caminho. Ao
longo da minha própria jornada, encontrei pessoas assim: não fizeram o caminho
por mim, mas me ajudaram a não perdê-lo de vista.
Enfim, há ainda quem consiga reconhecê-lo.
Primeiro, Argos, seu velho cachorro. Já debilitado, depois
de tantos anos esperando pelo dono, ele reconhece Odisseu pelo cheiro. Odisseu,
porém, não pode demonstrar que o reconheceu, porque precisa manter seu
disfarce. Argos então morre. Argos não reconhece o rei de Ítaca, o herói da
guerra ou o homem que partiu vinte anos antes. Reconhece apenas Odisseu. E é
justamente isso que torna essa cena tão poderosa: quem nos reconhece
quando já não temos status, posição, aparência ou poder? Quem nos
conhece quando não temos nada para oferecer? Quem consegue reconhecer aquilo
que permanece em nós quando tudo aquilo que costumava nos definir já não está
mais lá?
Depois, Euricleia, sua antiga ama, ao lavar os pés do
suposto mendigo, reconhece a cicatriz na perna de Odisseu. É uma marca
que atravessou os anos e sobreviveu a tudo o que aconteceu depois. Ela
reconhece o homem que está diante dela não pelo rosto ou pelas roupas, mas por
uma marca que o tempo não conseguiu apagar. Odisseu, porém, a impede de revelar
sua identidade. Ainda não é o momento de ser reconhecido por todos.
Essa parte me toca. Quando deixei para trás o lugar que
ocupei por tantos anos, muitas pessoas ficaram pelo caminho. Muitas escolheram
acreditar em versões que não eram minhas. No meio de tantos, sobraram poucos. Não
permaneceram porque precisavam de quem eu fui, mas porque foram capazes de
reconhecer quem eu me tornei.
Durante muito tempo, acreditei saber quem era. Afinal,
existem pessoas, lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que
funcionam como espelhos: é também através do olhar do outro que construímos uma
imagem de nós mesmos. Mas o que acontece quando esses espelhos desaparecem?
Quando as pessoas mudam, os lugares deixam de ser nossos, os trabalhos terminam
e as escolhas que nos definiam já não fazem sentido? O que sobra?
Sobraram Filoécio, Demódoco e alguns poucos outros. Talvez
não por acaso sejam justamente essas figuras secundárias que, no retorno de
Odisseu, ganham uma importância tão grande.
Filoécio é o vaqueiro fiel de Odisseu. Não ocupa uma posição
grandiosa. Não é da família, não é um herói, não é um deus. É alguém que
permaneceu ligado à casa e ao rei durante todos aqueles anos de ausência.
Quando Odisseu retorna disfarçado, Filoécio demonstra sua lealdade e participa
da recuperação da casa.
Para mim, fidelidade é isso: permanecer ligado a alguém
mesmo quando já não se tem a presença, o reconhecimento ou qualquer garantia.
Há pessoas que não precisam de provas para permanecer. Elas simplesmente
permanecem.
Demódoco faz diferente. É o aedo cego dos feácios. Ele não
enxerga Odisseu, mas conta a sua história. E, ao ouvi-la, Odisseu se emociona e
se reconhece naquilo que outro consegue narrar sobre ele. Há momentos em que
não precisamos que alguém nos veja; precisamos que alguém consiga nos contar de
volta.
Eu me identifico aqui. É o que faz falta agora: não uma nova
identidade, mas uma narrativa capaz de reunir aquilo que, dentro de mim, parece
ter se dispersado. Não deixamos de saber quem somos; apenas perdemos a
capacidade de enxergar a história que conecta as partes.
É isso que algumas pessoas fazem por nós: guardam uma parte
da nossa história enquanto nós mesmos já não conseguimos enxergá-la inteira.
Elas não nos devolvem quem éramos. Ajudam-nos a reconhecer aquilo que, apesar
de tudo, continua sendo nosso.
É nesse momento que a questão do reconhecimento ganha outra
dimensão.
Em Ítaca, há 108 pretendentes ocupando a casa de Odisseu,
disputando Penélope e, com ela, o lugar de rei de Ítaca. O homem que retorna
precisa permanecer disfarçado, observando tudo sem ser reconhecido.
Penélope então propõe uma prova: aquele que conseguir
manejar o arco de Odisseu e lançar uma flecha através dos orifícios de doze
machados será seu marido. Nenhum dos pretendentes consegue. Odisseu, ainda
disfarçado de mendigo, pede para tentar. Toma o arco, encorda-o com facilidade
e realiza o desafio.
Não por acaso, antes de disparar a primeira flecha, Odisseu
pede a Apolo que lhe conceda glória. Depois de tantos anos tentando sobreviver:
finalmente, ele está pronto para mostrar aquilo que ainda sabe fazer. É o gesto
revela aquilo que as aparências escondiam: aquele mendigo é Odisseu.
Existe algo disso na minha própria travessia. Depois de
tanto tempo tentando me adaptar ao que a vida pedia, talvez eu esteja começando
a descobrir não apenas o que deixei para trás, mas aquilo que ainda sei fazer,
aquilo que continua sendo meu, mesmo quando todo o resto mudou.
Nesse momento, fico pensando em Telêmaco: ele é aquele que
cresce enquanto espera alguém que não está lá. Passa boa parte da Odisseia
vivendo numa casa em que o pai está ausente e homens mais velhos disputam um
lugar que não lhes pertence. Atena o ajuda, mas não pode viver por ele.
Telêmaco precisa sair, perguntar, procurar informações e, aos poucos, construir
uma posição própria.
Quando Telêmaco sai de Ítaca procurando notícias do pai, ele
visita Nestor, em Pilos. Nestor conta o que sabe sobre o retorno dos gregos,
mas não consegue dizer exatamente onde Odisseu está. Nestor não pode devolver
Odisseu a Telêmaco, mas pode contar o que sabe. Às vezes, é disso que
precisamos: alguém, não para nos dizer quem somos, mas para nos devolver
referências a partir das quais possamos voltar a nos reconhecer
Então Telêmaco vai a Esparta, procurar Menelau e Helena.
Menelau conta que, em seu próprio retorno da guerra, ficou
preso no Egito e precisou consultar Proteu, o “Velho do Mar”. Proteu era capaz
de assumir diferentes formas para escapar de quem tentasse capturá-lo: podia
transformar-se em animais, água, árvore.
Proteu me faz pensar em quantas formas podemos assumir sem,
necessariamente, deixar de ser quem somos. Odisseu mudou de lugar, de
aparência, de posição e até de nome. E, ainda assim, continuou sendo Odisseu.
Mudar não é necessariamente perder quem somos. É justamente a mudança que nos
obriga a descobrir o que, em nós, não muda.
Menelau e seus homens conseguem prendê-lo e, depois que
Proteu volta à sua forma original, ele revela o que sabe. E é Proteu quem
informa a Menelau que Odisseu ainda está vivo, preso na ilha de Calipso. Proteu
não encontra Odisseu, mas fornece a informação fundamental para a busca de
Telêmaco: seu pai está vivo.
Eu preciso olhar para Telêmaco, assim como também preciso
olhar para Penêlope. Durante vinte anos, Odisseu atravessou mares tentando
voltar. Penélope atravessou vinte anos permanecendo. E permanecer é uma forma
de travessia. Ela não ficou exatamente no mesmo lugar enquanto ele partia;
precisou inventar maneiras de sustentar a casa, adiar escolhas, proteger o que
ainda acreditava existir e esperar sem ter garantias.
Nem toda a Odisseia é sobre quem retorna. É também
sobre quem fica. Sobre aqueles que esperam, acompanham e, de alguma maneira, aprendem
a conviver com a transformação de quem partiu.
Não estive sozinha nessa travessia. Enquanto eu mudava de
direção, minha família acompanhou meu movimento. Esperou, sustentou minhas
dúvidas, conviveu com minhas incertezas e acreditou em mim mesmo quando eu
ainda não sabia exatamente para onde estava indo. Eles não fizeram a travessia
por mim, porque não poderiam. Mas permaneceram.
Essa é uma forma de amor: não impedir a transformação de
quem amamos. Telêmaco e Penêlope me fazem
pensar nisso: há quem precise partir para se transformar e há quem permaneça
para sustentar essa partida.
Com a ajuda de Telêmaco, Eumeu, Filoécio e alguns poucos
aliados fiéis, Odisseu enfrenta os pretendentes e os mata. O primeiro a cair é
Antínoo, justamente aquele que havia se colocado como líder entre os que
ocupavam sua casa, aquele que simboliza a arrogância de quem se sente dono de
um lugar que não lhe pertence.
Existe Antínoo na minha jornada: essa pessoa que ocupa o
lugar que um dia foi meu, mas nunca poderá ocupar aquilo que eu fui naquele
lugar. É difícil aceitar a passagem do tempo, perceber que aquilo que um dia
nos pertenceu pode continuar existindo sem nós. Mas há uma diferença: o espaço
pode ser preenchido. A história, não. Ela pode viver outras
experiências, construir outras relações, deixar suas próprias marcas. Lugares
mudam de dono, funções são substituídas, pessoas chegam e partem. Mas aquilo
que eu vivi não pode ser reencenado por outra pessoa. Ninguém pode voltar e ser
quem fui, amar quem amei, atravessar as mesmas escolhas, cometer os mesmos
erros ou deixar as mesmas marcas. Pode ocupar o espaço que um dia foi meu, mas
nunca poderá ocupar aquilo que eu fui ali.
Há ainda Pêmio, o aedo, aquele que continua cantando no
palácio durante a ausência de Odisseu. Ele está dentro da casa, mas não está
exatamente ao lado daqueles que a ocupam. Canta porque é sua função, porque é o
lugar que lhe coube e, naquele momento, porque também precisa sobreviver.
Quando chega a hora do confronto, pede para ser poupado, e Telêmaco intervém em
seu favor. Há ainda Medon, o arauto. Ele também é poupado. Não era um dos
pretendentes, mas havia permanecido dentro daquela casa durante a ausência de
Odisseu. Sua posição o obrigava a servir àqueles que agora ocupavam o palácio.
Pêmio e Medon me fazem pensar em algumas pessoas que
ficaram. Fizeram escolhas que me feriram, mas nem todas tiveram liberdade para
escolher. Há quem nos decepcione não porque tenha deixado de nos reconhecer,
mas porque está tentando preservar o próprio lugar. Nem toda permanência é uma
escolha. Nem todo silêncio é cumplicidade. O outro também está tentando
sobreviver dentro da casa que mudou de dono. Nem toda traição é uma escolha. Às
vezes, é o modo imperfeito que alguém encontra para permanecer de pé.
Odisseu reencontra o pai, Laertes, que ainda reconhece o
filho. Laertes está velho, afastado, sofrendo pela ausência de Odisseu. Quando
finalmente se revela, há um reconhecimento entre pai e filho. E, na luta final
contra os pretendentes, Laertes recupera sua força e mata Eupeites, pai de
Antínoo.
Há algo muito forte nesse encontro: antes de ser rei, herói,
marido ou aquele que retorna, Odisseu é filho. Existe uma parte de nós que
antecede tudo aquilo que conquistamos e todos os lugares que ocupamos no mundo.
Uma parte que não depende do cargo, da profissão, do reconhecimento ou da
posição que os outros nos dão.
É isso que Laertes representa para mim. Uma raiz é aquilo
que permanece quando todas as outras referências desaparecem. Posso perder um
lugar, uma profissão, uma posição, pessoas que me reconheciam, e até a imagem
que construí de mim mesma. Mas existe alguma coisa anterior a tudo isso, alguma
coisa que não começou com essas conquistas e que não termina quando elas deixam
de existir. Antes de ser tudo aquilo que o mundo reconheceu em mim, eu já era
alguém.
Aquilo que é verdadeiramente nosso tem raízes. Algumas
raízes são tão profundas que continuam nos reconhecendo mesmo quando nós
próprios já não sabemos exatamente quem somos.
Enfim, Odisseu recupera sua casa, sua autoridade e seu lugar
em Ítaca.
Mas ainda falta o reconhecimento mais importante: Penélope.
Penélope não o reconhece imediatamente. Ou talvez não queira
simplesmente acreditar. Afinal, vinte anos se passaram. O homem diante dela
envelheceu, mudou e carrega uma história que ela não viveu. Ela não pode tomar
como verdade apenas aquilo que lhe dizem. Penélope afirma que, se ele realmente
é Odisseu, os dois têm sinais que somente eles conhecem. Então ela pede que
levem a cama do quarto para outro lugar. Odisseu se enfurece. Como poderiam
mover nossa cama? Ela tinha sido construída por ele próprio a partir de uma oliveira
viva, e uma de suas raízes permanecia fincada no chão.
É nesse momento que Penélope o reconhece. Não pelo rosto,
pela aparência ou pela posição. Não porque alguém lhe disse que aquele homem
era Odisseu. Ela o reconhece por algo que pertence apenas à história dos
dois. Aquilo que é verdadeiramente nosso tem raízes. Há coisas
que podem mudar de forma, de aparência, de lugar, mas não perdem
necessariamente sua origem.
A cama, construída a partir de uma oliveira viva e ainda
presa às suas raízes, diz isso: podemos mudar, nos afastar, nos perder e até
deixar de nos reconhecer por algum tempo. Ainda assim, há algo que permanece
ligado à nossa história e que, um dia, nos ajuda a encontrar o caminho de volta.
Depois, Odisseu sai para percorrer Ítaca. A princípio, não
reconhece a ilha. A névoa ainda está sobre ela. Atena então dissipa a névoa e
revela a Odisseu aquilo que ele não conseguia enxergar: sua própria terra.
Atena é justamente a presença que não faz a travessia por
Odisseu, mas o orienta, protege, cria condições e aparece quando ele precisa
enxergar o próximo passo. Ela o ajuda desde o início, auxilia Telêmaco,
intervém para que Odisseu deixe Calipso, conduz encontros importantes e, em
Ítaca, cria e desfaz a névoa, o disfarça e o ajuda a recuperar sua casa.
E é justamente aqui que essa história ganha, para mim, um
outro sentido.
Ítaca nunca foi apenas um lugar. Ítaca é quem você é. É
algo interno onde ainda conseguimos nos reconhecer. Odisseu perdeu certezas. Odisseu
mudou. Ítaca também mudou, mas alguma coisa sobreviveu ao tempo e às
transformações. É rei, guerreiro, náufrago, amante, estrangeiro,
mendigo. E, ainda assim, existe algo que permanece reconhecível.
Quem você é tem raízes. A verdadeira essência se reconhece.
Essa é a parte que mais me convoca. Porque eu também tenho a
sensação de estar tentando voltar para casa e, às vezes, sem saber exatamente
onde está minha Ítaca. Como Odisseu, atravesso uma espécie de névoa: o lugar
está ali, mas já não consigo reconhecê-lo. E talvez o mais difícil seja admitir
que não sei se foi a casa que mudou ou se fui eu. A casa para a qual tento
voltar já não me parece a mesma, e eu também não sou mais a mesma que partiu. O
que procuro, então, não é simplesmente reencontrar esse lugar, mas descobrir o
que, em mim, apesar de tudo o que mudou, continua fincado nas próprias raízes.
Ítaca, para mim, não é um endereço. Não é sequer uma vida
que existiu antes. É uma posição interna, a partir da qual eu possa novamente
olhar para o mundo e reconhecer alguma coisa de mim. Ela pode existir, mas
estar encoberta pela névoa. E é por isso que tudo parece tão estranho agora:
não porque eu tenha perdido o caminho, mas porque já não reconheço inteiramente
o lugar para onde estou tentando voltar.
Durante muito tempo, a gente acredita que sabe quem é. Não
porque eu tenha encontrado sozinha essa resposta, mas porque existem pessoas,
lugares, relações, trabalhos, escolhas e acontecimentos que funcionam como
espelhos. O Outro nos devolve uma imagem de nós mesmos. E, de algum modo, vamos
aprendendo a nos reconhecer nesta imagem. Até que um dia o espelho muda. Ou nós
mudamos. E aquilo que antes parecia tão evidente deixa de ser.
A imagem que nos sustentava já não coincide com o que vemos.
E então começa uma tarefa bem difícil: descobrir quem somos. Acho que eu estou nesse
intervalo: entre a pessoa que eu era e aquela que ainda não consigo ser. É
estranho, assusta, já não tenho a segurança de quem está começando, mas ainda
não encontrei a tranquilidade de quem sabe onde está.
É como acordar de um coma, sim. Não porque tudo tenha
acabado, mas porque tudo parece ter continuado sem mim. As conexões mudaram, as
referências mudaram, algumas pessoas já não estão, e algumas certezas perderam
o sentido. Há escolhas que, durante muito tempo, pareceram certas e que
agora revisito com o desconforto de quem olha para o passado sabendo o que só
foi possível saber depois.
É uma das partes mais difíceis de acordar: perceber que a
vida continuou enquanto você esteve fora. E que, quando finalmente volta a
olhar para si, já não é exatamente a mesma pessoa que partiu.
E então surge uma pergunta difícil: e se eu estiver errada?
E se todo aquele esforço não tiver me levado aonde eu imaginava?
E se aquilo que eu acreditava ser caminho, olhando agora, parecer milhares de
passos para trás?
É aí que a minha própria história começa a se voltar contra
mim. As palavras que normalmente me ajudam a organizar o mundo passam a me
interrogar. Cada conquista parece menor, cada escolha parece
suspeita, e cada caminho percorrido parece carregar a possibilidade de ter sido
outro.
Mas é justamente aí que Odisseu me ajuda. A Odisseia não
é a história de um homem que sabe exatamente para onde está indo. É a história
de um homem que, muitas vezes, não consegue chegar. Ele se perde, é enganado,
erra, perde companheiros e é afastado de casa inúmeras vezes justamente quando
acredita estar perto. Há momentos em que o retorno parece impossível.
E, ainda assim, Odisseu continua, existe uma direção:
Ítaca.
Não porque tenha certeza de que está no caminho certo, mas
porque existe alguma coisa que o faz continuar desejando chegar. Ítaca não
tem garantia. É um norte.
É isso: não necessariamente uma resposta, mas um norte.
Tenho exigido muito de mim uma definição quando, na verdade, estou vivendo uma
travessia. E travessias são assim: sem mapas, confusas. A gente avança sem
saber exatamente onde e se vai chegar, tentando apenas não perder tanto pelo
caminho.
Às vezes parece que estamos avançando e, de repente, uma
tempestade nos devolve quilômetros. Às vezes precisamos escolher entre dois
perigos. Às vezes precisamos deixar alguma coisa para trás. Às vezes somos
tentados pelo esquecimento, pelo conforto de simplesmente não querer mais
voltar. E há momentos em ouvimos vozes que podem nos destruir se acreditarmos
demais nelas. Mais do que isso, há também momentos em que precisamos descer ao
nosso próprio mundo dos mortos para reencontrar aquilo que está enterrado vivo
dentro nós. É isso que está acontecendo comigo agora. Não que eu esteja
desaparecendo. Acho que eu estou apenas perdendo as referências antigas que me
diziam quem eu era. E existe uma diferença enorme entre desaparecer e deixar de
caber na imagem que eu tinha de mim mesma.
Sei que estou, de alguma maneira, na minha própria
Odisseia. Não no começo, porque já existe uma história inteira atrás de
mim. Não no fim, porque ainda não cheguei a Ítaca. E esse é um ponto difícil:
continuar caminhando.
Odisseu não volta para casa como saiu. Eu também não vou.
Eu ainda não sei exatamente quem vou encontrar quando
chegar. Nem sei ainda, ao certo, o que é, para mim, essa Ítaca. Mas eu não
preciso saber agora. Por enquanto, basta reconhecer que ainda existe alguma
coisa em mim que deseja chegar. E isso já é uma direção.
Não quero recuperar a vida que existia antes. Quero me
reconhecer. Não voltar ao que fui, mas construir um lugar a partir de quem me
tornei. E, por enquanto, é só isso que eu preciso saber: ainda existe alguma
coisa em mim que me faz desejar, mesmo quando tudo parece desconectado. Mesmo
quando as palavras, que sempre foram meu abrigo, hoje parecem não querer me
obedecer.
Minha Odisseia particular: descobrir aquilo que ainda me
pertence, o que, em meio a tantas mudanças, continua sendo meu. O mais difícil
é me dar conta do que eu ainda não sei fazer: me haver com meu desejo.
Mas sei que, no final, nos tornamos quem somos.
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