Ela me disse que não era sobre sua profissão. Também não era sobre estar trilhando outro caminho, recomeçando ou tentando descobrir o que fazer da vida.
Era sobre estar perdida.
Por fora, tudo parecia seguir seu rumo. A vida continuava acontecendo, as responsabilidades estavam sendo cumpridas, as pessoas ao redor seguiam seus planos e, aparentemente, nada estava fora do lugar. Mas, por dentro, ela não sabia mais para onde estava indo.
Os dias pareciam muito iguais.
Ela acordava, fazia o que precisava ser feito, trabalhava, respondia às mensagens, conversava com as pessoas, sorria quando era necessário e seguia. Só que havia uma sensação persistente de estar apenas atravessando os dias, sem realmente viver nenhum deles.
O mais difícil era explicar. Ela me dizia várias vezes na sessão "não como te explicar".
Como dizer que estava mal quando, aparentemente, estava tudo bem? Como falar sobre o vazio quando não existia uma grande tragédia acontecendo? Como admitir que estava cansada de uma vida que, para quem olhava de fora, parecia perfeitamente normal?
Ela se sentia sozinha. Muito sozinha. Apesar de externamente tudo dizer o contrário.
E essa solidão não significava necessariamente estar sem pessoas por perto. Era uma solidão interna, aquela sensação de estar vivendo alguma coisa que ninguém conseguia enxergar. Ela continuava presente, conversando, trabalhando, cumprindo suas obrigações, mas carregava por dentro uma espécie de desconexão com a própria vida.
Foi nesse ponto que comecei a pensar que precisamos falar sobre depressão de uma maneira menos estereotipada.
Nem sempre a depressão aparece como alguém que não consegue sair da cama ou que deixa de fazer absolutamente tudo. Algumas pessoas continuam trabalhando, cuidando da casa, encontrando amigos e mantendo uma rotina aparentemente normal enquanto enfrentam, silenciosamente, um sofrimento profundo.
Sentir-se constantemente vazia, perder o interesse pelas coisas que antes faziam sentido, viver uma rotina marcada pela falta de prazer, pelo cansaço, pela desesperança, pelo isolamento ou pela sensação de que os dias perderam o significado são sinais que merecem atenção. Isso não significa que toda tristeza ou sensação de estar perdida seja depressão.
Mas sofrimento não precisa chegar ao limite para ser levado a sério.
Se você se reconhece nesse relato, procurar ajuda pode ser um primeiro passo. Conversar com um psicólogo ou psicóloga pode oferecer um espaço seguro para entender o que está acontecendo, nomear sentimentos e perceber se existe algo além de uma fase difícil. Em algumas situações, uma avaliação com um médico psiquiatra também pode ser importante.
A terapia não precisa começar quando você já sabe explicar o que sente. Você pode chegar dizendo justamente isso: “Eu não sei o que está acontecendo comigo. Só sei que não estou bem.”
E isso já é suficiente para começar uma conversa.
Estar perdida não significa que você fracassou. Não significa que todo mundo descobriu o caminho e você ficou para trás. Significa que existe alguma coisa dentro de você pedindo atenção.
E cuidar disso também é uma forma de seguir em frente.
Se esses sentimentos têm sido frequentes, intensos ou estão interferindo na sua vida, procure um profissional de saúde mental. Você não precisa esperar piorar para pedir ajuda.
Às vezes, o primeiro caminho para se encontrar é simplesmente admitir que você não está conseguindo fazer isso sozinha.
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