Comecei esse blog respondendo cartas (e-mails) de amigos, e virou uma profissão: responder cartas. E por que escrever cartas e não telefonar e falar ao vivo? Porque escrever me faz parar, pensar, escrever, corrigir, ir, voltar, gerar algo de muito genuíno, muito cuidadoso, escolher as palavras certas, me fechar um tempo, sem distrações, e me imaginar no lugar da pessoa, sentir o que sente, tentar entender e tentar encontrar uma forma de dizer aquilo que, muitas vezes, é difícil dizer de outra maneira. E foi assim que meu blog foi surgindo, faz anos, antes do celular, antes da internet, antes da IA, antes do imediatismo.
Como me mudei de cidade, os amigos me escreviam e-mails e eu
os respondia, não na correria do dia a dia, mas no momento único, reservado,
escolhido, intenso. E assim fui respondendo, sanitizando e postando.
Primeiramente em um site de “escritores”, com regras e etc., depois decidi sair
do site, para ter algo mais autoral. Um blog. Só que entendi que, nesse site, o
direito autoral era deles e perdi meus muitos textos. Engraçado como somos
sempre “abusados”, invadidos e, quando nos damos conta, parece tarde demais.
Perdi muitos textos, muitas cartas respondidas, mas eu tinha ainda alguns
rascunhos, algumas outras tantas. E comecei meu blog. Arquivando para uso
próprio, para mim mesma. Sem perceber (porque nem controlava exibições e quem
entrou ou deixou de entrar), mas cada vez tinha mais gente lendo os textos ou
navegando por eles. E fui escrevendo.
Hoje já não recebo tantos e-mails como nos velhos tempos.
Hoje escrevo, sanitizando, sobre aquilo que escuto no meu consultório, dos meus
pacientes, sobre suas dores, suas histórias, suas dúvidas, seus medos, suas
repetições, suas descobertas. Não são mais exatamente cartas que chegam até
mim, mas continuam sendo histórias que alguém me confia e que ficam comigo por
um tempo. Muitas delas me fazem pensar, me fazem lembrar de outras histórias,
de coisas que já vivi, de coisas que já ouvi, de perguntas que também são
minhas. Escrevo sobre temas que aparecem com frequência no
consultório, tentando falar de saúde mental de um jeito menos engessado, menos
cheio de palavras difíceis e, principalmente, sem transformar sofrimento em
diagnóstico para tudo. Escrevo para pensar junto, para colocar algumas coisas
em palavras, para desmistificar outras e, quem sabe, fazer alguém se reconhecer
em alguma coisa que leu aqui.
No fundo, escrevo sobre saúde mental, relações, escolhas,
sofrimento, comportamento e tantas outras coisas que vão aparecendo por aqui.
Algumas para informar, outras para provocar, outras simplesmente porque eu
quero convocar uma reflexão e preciso escrever. Sempre achei estranho guardar
só para mim aquilo que aprendo todos os dias ouvindo pessoas. O consultório é
um lugar muito particular, protegido, onde histórias são contadas e muitas
coisas são pensadas pela primeira vez. Mas a Psicologia não pode ficar restrita
à sala de atendimento. Existe, para mim, uma responsabilidade de transmissão e
também uma responsabilidade social em falar sobre aquilo que ainda é cercado de
preconceito, confusão ou silêncio. Não para ensinar ninguém a viver, nem para
oferecer respostas prontas, mas para colocar algumas questões em circulação,
provocar pensamento, ampliar conversas e, quem sabe, fazer alguém olhar para si de um jeito diferente.
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