A gente parece ter aprendido que até o sofrimento precisa ser produtivo.
Se uma relação termina, precisamos descobrir o que ela nos ensinou.
Se alguém nos decepciona, precisamos sair “mais fortes”.
Se atravessamos uma fase difícil, precisamos encontrar um propósito.
Se algo deu errado, precisamos tirar uma lição.
Como se sofrer não fosse suficiente. Como se ainda precisássemos fazer alguma coisa com aquilo.
Existe uma espécie de pressa para transformar a dor em crescimento.
“Foi difícil, mas me fez evoluir.”
“Hoje eu agradeço por tudo que passei.”
“Tudo acontece por uma razão.”
Talvez. Às vezes, sim. Mas nem sempre. Às vezes, uma coisa ruim simplesmente foi ruim.
Uma perda pode ser uma perda.
Uma decepção pode continuar sendo uma decepção.
Uma injustiça não precisa necessariamente ter vindo para nos ensinar alguma coisa.
E talvez exista algo de muito humano em poder dizer: isso doeu e eu não sei o que fazer com isso ainda.
Na clínica, essa diferença importa. Porque quando alguém chega sofrendo, nem sempre precisa de uma explicação. Muito menos de uma lição de moral.
Às vezes, precisa de um lugar onde possa falar sobre aquilo sem precisar imediatamente transformar a experiência em alguma coisa bonita.
A psicanálise não parte necessariamente da ideia de que precisamos encontrar um sentido para tudo. Existe um espaço importante para aquilo que ainda não faz sentido.
Para a contradição. Para a raiva. Para a culpa. Para a saudade.
Para aquilo que parece pequeno para os outros, mas que para aquela pessoa não é.
E também para o tempo.
Porque elaborar não é o mesmo que superar rapidamente. Há coisas que só podem ser compreendidas depois de algum tempo. E há outras que talvez nunca encontrem uma explicação completamente satisfatória.
Isso não significa que o sofrimento seja inútil. Significa apenas que ele não precisa justificar a própria existência sendo transformado em aprendizado.
Talvez, em alguns momentos, cuidar de si seja menos sobre perguntar “o que isso veio me ensinar?” e mais sobre conseguir reconhecer: “Isso foi difícil para mim.”
E deixar essa frase existir. Sem pressa de completar.
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