Eu fui atrás da expressão “Casa da Mãe Joana” e achei interessante pensar menos na origem da expressão e mais naquilo que ela acabou representando para nós: um lugar onde os limites ficam meio frouxos, onde as regras não são muito claras e cada um vai encontrando uma maneira de fazer as coisas do seu jeito. Foi a partir disso que pensei na minha Joana. Não me interessa tanto a Joana como uma pessoa específica, até porque ela pode ser muitas pessoas diferentes e aparecer em muitos lugares. Me interessa esse tipo de comportamento e, principalmente, o ambiente que permite que ele aconteça. Porque uma coisa é encontrar uma pessoa falsa e perceber que ela é falsa. Outra, bem diferente, é estar em um lugar em que a falsidade, a bajulação, a fofoca e os pequenos jogos de poder acabam funcionando e sendo até recompensados.
Você conhece uma pessoa assim? Aquela que parece muito agradável, que pergunta como você está, que elogia seu trabalho, que demonstra preocupação, que parece disponível e interessada, mas que, em algum momento, você descobre que fala uma coisa na sua frente e outra quando você não está? Acho que o que mais incomoda não é exatamente a falsidade. É ter confiado. Quando a pessoa é evidentemente falsa, a gente se protege. O que nos pega é aquela pessoa que constrói uma relação de confiança antes de mostrar que aquela relação estava, desde o início, apoiada em algum interesse. É o colega que se aproxima, conhece as pessoas, percebe rapidamente quem tem poder, quem pode ajudá-lo, quem pode atrapalhá-lo e vai mudando a maneira de se relacionar de acordo com quem está diante dele. Com algumas pessoas é extremamente simpático, com outras é distante. Com determinados gestores demonstra uma lealdade impressionante e, com os colegas, se apresenta como alguém muito preocupado com o grupo, embora seja capaz de questionar, em conversas reservadas, a competência das mesmas pessoas que acabou de elogiar.
Joana sabe observar. Percebe quem precisa de reconhecimento, quem gosta de ser elogiado, quem precisa se sentir importante, quem pode abrir uma porta, quem pode ser uma ameaça. E vai se aproximando de acordo com essas informações. Para uma pessoa oferece admiração, para outra oferece companhia, para outra oferece informação, para outra oferece concordância. Quando aquela pessoa deixa de ser interessante, a proximidade também muda. É uma relação em que o outro não é exatamente encontrado como outro, mas como alguém que ocupa determinada função. E acho que é aí que a coisa começa a ficar mais séria, porque não estamos falando apenas de alguém que mente ou que fala pelas costas. Estamos falando de uma maneira de se relacionar em que o valor do outro passa a depender muito do que ele pode oferecer.
Ao mesmo tempo, é fácil olhar para Joana e simplesmente dizer que ela é falsa, manipuladora, interesseira, desleal. Pode ser tudo isso. Mas existe uma pergunta que me interessa mais: em que tipo de ambiente esse comportamento funciona? Porque Joana não inventou sozinha a lógica em que está inserida. Se uma pessoa percebe que concordar com o chefe é mais seguro do que discordar, ela aprende a concordar. Se percebe que diminuir a reputação de um colega aumenta suas próprias chances de reconhecimento, existe um incentivo para fazer isso. Se entende que as promoções dependem mais da imagem que constrói do que da qualidade do trabalho, vai investir na imagem. Isso não justifica o comportamento, mas mostra que as pessoas também respondem aos ambientes em que vivem. E existem ambientes que produzem muito espaço para esse tipo de jogo.
É nesse sentido que gosto da ideia da “Casa da Mãe Joana”. Não como um lugar simplesmente desorganizado, mas como um lugar em que os limites vão ficando confusos. O que é uma crítica legítima e o que já é uma tentativa de destruir a reputação de alguém? O que é diplomacia e o que é bajulação? O que é networking e o que é interesse? O que é uma preocupação genuína e o que é uma fofoca disfarçada de preocupação? Nem sempre é tão simples distinguir uma coisa da outra, principalmente quando as pessoas aprendem a circular justamente nessas zonas cinzentas. Joana não precisa chegar dizendo que quer prejudicar alguém. Ela pode apenas “levantar uma preocupação”, comentar uma coisa que ouviu, dizer que não queria falar de ninguém, mas achou importante avisar. E então uma informação começa a circular, cada pessoa acrescenta uma interpretação e, quando chega ao outro lado, ninguém sabe mais muito bem onde aquilo começou. A pessoa que iniciou tudo ainda pode dizer que só estava tentando ajudar.
O interessante é que Joana pode ser extremamente agradável. Isso também precisa ser dito porque existe uma imagem muito simples da pessoa falsa como alguém frio, desagradável ou agressivo. Nem sempre é assim. Algumas pessoas sabem ouvir, fazem perguntas, lembram de detalhes, elogiam, fazem você se sentir importante. Não há nada de errado em ser simpático. O que muda é o que existe por trás daquela simpatia e o que acontece quando ela deixa de ser necessária. Em uma relação genuína, o outro continua tendo algum valor mesmo quando não pode nos oferecer nada. Nessa relação interesseira, a pessoa vai perdendo a importância na mesma medida em que deixa de ser útil. É uma diferença que nem sempre aparece no começo, mas que o tempo costuma revelar.
Também não acho que seja possível colocar autenticidade de um lado e falsidade do outro como se fossem coisas tão simples. Todos nós administramos um pouco a nossa imagem. Todos nós já deixamos de dizer alguma coisa porque não era o momento, já fomos mais gentis do que estávamos com vontade de ser, já evitamos uma conversa difícil, já escolhemos o silêncio. Isso faz parte da vida em sociedade. Ser autêntico não significa dizer tudo o que se pensa, nem tratar todas as pessoas exatamente da mesma maneira. Existe contexto, existe privacidade, existe diplomacia. O problema começa quando a adaptação deixa de ser uma forma de convivência e passa a ser uma maneira de manipular o outro. Existe uma diferença entre não dizer tudo e dizer uma coisa apenas porque sabemos que ela vai produzir determinado efeito. Existe uma diferença entre querer crescer e precisar diminuir alguém para conseguir crescer. Existe uma diferença entre preservar-se e construir uma narrativa sobre outra pessoa para se proteger ou obter vantagem.
E é nesse ponto que eu acho interessante fazer a pergunta sobre quanto de Joana existe em cada um de nós. Não porque sejamos todos iguais a ela, mas porque é muito fácil colocar a falsidade sempre no outro. O outro é político, o outro é interesseiro, o outro fala pelas costas, o outro quer aparecer. Nós, quando fazemos alguma dessas coisas, temos sempre uma explicação melhor. Estávamos nos protegendo, estávamos sendo estratégicos, estávamos tentando evitar um problema. De vez em quando, vale olhar para essas pequenas justificativas e perceber o que estamos fazendo com as pessoas ao nosso redor. Como tratamos alguém que não pode nos oferecer nada? O que fazemos quando alguém compete conosco? Conseguimos reconhecer o mérito de alguém que gostaríamos de superar? O que fazemos quando recebemos uma informação que poderia nos colocar em vantagem? Conseguimos falar diretamente com quem nos incomoda ou precisamos de uma terceira pessoa para fazer circular aquilo que não tivemos coragem de dizer?
Acho que é nessas situações que a ética aparece de verdade. Não quando não temos nada a perder, mas quando fazer a coisa certa nos custa alguma coisa. É fácil falar em transparência, integridade e colaboração quando essas palavras não interferem em nenhum interesse nosso. Difícil é sustentar alguma coerência quando uma mentira pode nos beneficiar, quando uma fofoca pode abrir uma vantagem, quando assumir um erro pode prejudicar nossa imagem ou quando defender alguém pode nos colocar em uma posição desconfortável. É aí que os valores deixam de ser discurso e passam a aparecer nas pequenas escolhas.
E as organizações têm uma responsabilidade enorme nisso. Não adianta falar de ética e colaboração se, na prática, quem cresce é quem bajula, quem recebe informação privilegiada é quem está mais próximo da liderança e quem discorda passa a ser visto como uma pessoa difícil. As pessoas observam muito mais o que acontece do que aquilo que está escrito nos valores da empresa. Se o chefe recompensa quem concorda com ele, todo mundo aprende rapidamente que discordar tem um preço. Se a fofoca é uma maneira eficiente de conseguir espaço junto à liderança, a fofoca passa a fazer parte do funcionamento daquele lugar. Se assumir um erro traz mais consequências do que escondê-lo, as pessoas aprendem a esconder. Cultura não é aquilo que a organização diz que valoriza. É aquilo que ela repete e recompensa.
Por isso, quando pensamos em Joana, acho importante não pensar apenas na pessoa. Existe uma cultura que pode favorecer ou dificultar determinados comportamentos. Um ambiente muito competitivo, pouco transparente, em que as regras de reconhecimento não são claras e as relações de poder são mal administradas, cria um terreno muito fértil para esse tipo de comportamento. As pessoas começam a guardar informação, a desconfiar umas das outras, a criar pequenos grupos, a pensar duas vezes antes de compartilhar uma ideia. Parte da energia que deveria estar voltada para o trabalho passa a ser gasta tentando entender o que está acontecendo nos bastidores e se proteger dos outros. Aos poucos, a própria organização passa a funcionar como uma espécie de Casa da Mãe Joana, em que ninguém sabe muito bem quais são as regras, mas todos aprendem a jogar.
E existe uma dimensão da Joana que também me interessa. Não para justificá-la, mas para lembrar que comportamentos assim têm uma história. Joana pode ter aprendido, muito cedo, que precisava agradar para ser aceita, que era importante perceber o que o outro queria antes de mostrar o que ela própria queria, que dizer exatamente o que pensava poderia lhe trazer problemas. Pode ter se tornado muito boa em perceber as pessoas e adaptar-se a elas. Essa habilidade pode ter sido útil em algum momento e, com o tempo, ter se transformado na forma como ela se relaciona. A pessoa passa a ser aquilo que o outro precisa que ela seja e, depois de muito tempo fazendo isso, pode nem saber mais muito bem quem é quando não precisa agradar ninguém. Compreender de onde um comportamento vem não significa dizer que ele está certo. Só significa olhar para ele com um pouco mais de complexidade.
No trabalho, isso não significa que precisamos compreender Joana para suportá-la ou aceitar tudo o que ela faz. É possível compreender e colocar limite. Não precisamos responder à fofoca com fofoca, nem entrar numa disputa para provar quem é mais esperto. Podemos ser cuidadosos com aquilo que compartilhamos, registrar decisões importantes, falar diretamente quando for necessário e não permitir que uma relação seja conduzida pelo jogo que o outro propõe. Existe uma espécie de proteção em continuar sendo coerente. Tratar com respeito quem pode nos promover e quem não pode nos oferecer nada. Reconhecer o trabalho de quem compete conosco. Assumir um erro sem precisar encontrar um culpado. Não usar uma informação recebida em confiança como instrumento de poder. Não precisar diminuir alguém para parecer maior.
Joana vai continuar existindo. Em algum trabalho, em algum grupo, em alguma família, em algum lugar onde pessoas estejam disputando espaço, reconhecimento, pertencimento ou poder. O ponto não é eliminar todas as Joanas, porque isso não vai acontecer. O que me parece mais interessante é pensar em que tipo de ambiente nós estamos ajudando a construir e o que estamos dispostos a fazer para que determinados comportamentos não sejam a maneira mais eficiente de sobreviver e crescer. Porque, quando a falsidade deixa de ser apenas uma característica de uma pessoa e passa a ser uma forma de funcionamento de todo o lugar, já não estamos mais falando de Joana. Estamos falando da casa inteira.
No mundo corporativo, conheci uma menina exatamente assim, chamada Joana, e foi ela quem me inspirou a escrever esse texto. Depois dela, comecei a perceber que existem muitas Joanas por aí, quase sempre disfarçadas de outros nomes. E não estou falando de mulheres. Isso não tem nada a ver com gênero. Aliás, pensando no mundo corporativo e na misoginia que ainda atravessa tantos ambientes de trabalho, arrisco dizer que existem muito mais Joãos do que Joanas ocupando esses lugares de poder, circulando por essas relações e jogando esse jogo. Joana é só o nome que eu dei a um comportamento que, no fundo, não tem gênero.
E, de certa forma, escrever sobre ela também é uma maneira de sublimar e homenagear a minha Joana, a menina mais falsa que já conheci. Dar algum destino melhor. Hoje, como psicóloga, posso dizer que essas e tantas outras experiências vão formando a nossa escuta. A gente passa a reconhecer movimentos, desconfiar de atitudes e entender pessoas e lugares, que só quem já passou por determinadas situações consegue entender. Acho curioso pensar que uma pessoa que me fez tão mal acabou, de algum jeito, fazendo tão bem para minha formação e hoje também está, sem saber, na minha maneira de olhar para as pessoas. Sofrer é ruim, principalmente enquanto está acontecendo. Ter sofrido é outra coisa. Com o tempo, algumas experiências vão ganhando outro lugar dentro da gente. Elas ensinam, dão repertório, deixam a gente mais atento e, de algum modo, nos tornam mais preparados psiquicamente.
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