Se eu pudesse conversar com todas as minhas versões, acho que começaria pela criança que eu fui. Eu diria para ela não ter tanta pressa de crescer. Diria que algumas coisas que hoje parecem enormes vão perder o tamanho com o tempo, e que outras, que ela nem imagina, vão se tornar importantes. Diria para ela continuar sentindo tudo com essa intensidade, mesmo quando disserem que é demais. Porque, um dia, ela vai entender que sentir profundamente nunca foi uma fraqueza, foi uma das coisas que a tornou quem é.
Eu diria que
ela não precisa ser perfeita para ser amada. Que não precisa aprender tão cedo
a esconder o que sente. Que pode chorar, pode ter medo, pode não saber. Que não
precisa carregar o mundo nas costas só porque aprendeu a parecer forte.
Depois, eu
conversaria com quem eu era alguns anos atrás. Talvez eu olhasse para essa
versão com uma mistura de carinho e tristeza. Eu diria: eu sei o quanto você
tentou. Sei das escolhas que fez tentando acertar. Sei de quantas vezes você
acreditou que precisava dar conta. Sei de quantas vezes você transformou
responsabilidade em obrigação, cuidado em vigilância e força em silêncio.
Eu sei o
quanto você trabalhou. Sei o quanto estudou, o quanto se dedicou, o quanto
tentou fazer as coisas da melhor maneira possível. Sei também das vezes em que
você acreditou que precisava saber o caminho antes de começar a percorrê-lo.
Hoje eu consigo olhar para você com uma compreensão que naquela época eu não
tinha. É muito fácil julgar as nossas decisões depois que conhecemos as
consequências. O passado parece organizado quando já sabemos como a história
terminou, mas, quando estamos vivendo, não temos esse privilégio. Naquele
momento, existem apenas possibilidades, dúvidas, desejos, medos e as
ferramentas que conseguimos reunir para fazer uma escolha.
Eu diria para
essa mulher que ela não precisava ter tanta certeza. Que não precisava
transformar cada decisão em uma definição sobre quem era. Que mudar de ideia
não significava fracassar, que reconhecer um limite não significava fraqueza e
que não saber o próximo passo não significava estar perdida. Algumas coisas só
se tornam compreensíveis depois que passam. Algumas escolhas só revelam seu
significado anos mais tarde. Há experiências que, quando acontecem, parecem
apenas acontecimentos, mas que depois percebemos terem participado de uma
transformação que ainda não conseguíamos enxergar.
Eu também
diria que ela poderia ter sido mais gentil consigo mesma. Não para apagar sua
exigência, sua disciplina ou sua vontade de fazer bem feito, porque essas
características também construíram muito do que existe hoje, mas para que ela
pudesse perceber que não precisava transformar todas as áreas da vida em
lugares de desempenho. Nem tudo precisava ser resolvido. Nem tudo precisava ser
perfeito. Nem toda dificuldade precisava ser vencida imediatamente. Algumas
coisas precisavam apenas ser vividas.
Quando penso
na mulher que fui, percebo o quanto existe uma diferença entre olhar para uma
trajetória de dentro e olhar para ela depois de algum tempo. Enquanto estamos
vivendo, não enxergamos uma trajetória. Enxergamos dias. Decisões. Problemas.
Projetos. Relações. Responsabilidades. Contas. Prazos. Mudanças. O sentido
aparece depois, quando conseguimos reunir acontecimentos que, na época,
pareciam não ter nenhuma relação entre si.
Minha
história profissional, por exemplo, durante muito tempo me pareceu pertencer a
um universo muito diferente daquele em que estou hoje. Minha formação inicial
foi em Ciência da Computação. Depois vieram o mestrado em Administração e a
pós-graduação em Engenharia de Produção. Trabalhei durante anos em empresas de
tecnologia, passando por diferentes setores e experiências, com implantação de
sistemas, gerenciamento de projetos, operações de negócios, contratos,
treinamento técnico e gestão de equipes. Ocupando posições de liderança,
precisei aprender a tomar decisões, administrar conflitos, acompanhar
resultados, desenvolver pessoas, estruturar processos e lidar com situações em
que nem sempre existia uma resposta evidente.
Quando olho
para essa história a partir de quem sou hoje, não vejo mais uma estrada que
ficou para trás. Vejo uma parte importante de mim. A tecnologia me ensinou a
pensar de determinada maneira. A gestão me ensinou a lidar com estruturas,
processos e responsabilidades. A liderança me colocou diante da complexidade
das relações humanas. E foi justamente nesse contato cotidiano com pessoas,
expectativas, conflitos, inseguranças, ambições e histórias particulares que a
dimensão subjetiva foi ganhando cada vez mais espaço dentro das minhas
perguntas.
Eu trabalhava
com sistemas, mas estava cercada de pessoas. E, com o tempo, comecei a me
interessar cada vez mais pelo que acontecia com elas. Um sistema pode ser
desenhado, testado, corrigido e implementado. Uma pessoa não funciona assim.
Uma organização pode criar processos para lidar com determinadas situações, mas
nenhuma estrutura consegue eliminar completamente o imprevisível que existe nas
relações humanas. Uma empresa pode definir metas, indicadores e
responsabilidades, mas não consegue determinar o que uma promoção significará
para alguém, o que uma demissão despertará em outra pessoa ou por que um
profissional permanece durante anos em uma situação que afirma desejar
abandonar. Por trás de um cargo existe uma história. Por trás de uma
decisão profissional existe uma subjetividade. Por trás de uma avaliação de
desempenho existe alguém que pode experimentar reconhecimento, vergonha,
orgulho, medo, alívio ou fracasso. Uma mesma situação pode produzir efeitos
completamente diferentes em pessoas diferentes, porque ninguém chega ao
trabalho apenas com suas competências técnicas. Cada pessoa leva consigo sua
história, seus vínculos, suas expectativas, suas inseguranças, suas experiências
anteriores e sua maneira singular de interpretar aquilo que vive.
Essa
percepção foi se tornando cada vez mais importante para mim. Eu passei a
perceber que não era possível compreender completamente o trabalho sem
considerar o sujeito que trabalha. Não era possível falar apenas sobre
produtividade sem pensar no significado que produzir tem para cada pessoa. Não
era possível falar apenas sobre liderança sem pensar na relação de cada um com
autoridade, reconhecimento, responsabilidade e poder. Não era possível falar
apenas sobre carreira sem perguntar o que uma carreira representa para alguém,
o que está sendo buscado quando se busca uma promoção e o que acontece quando
aquilo que foi desejado durante tanto tempo finalmente é alcançado.
Foi nesse
lugar que meu interesse pela Psicologia encontrou uma direção mais concreta.
A Psicologia
sempre esteve presente como interesse, mesmo antes de se tornar minha
profissão. A mente humana, o comportamento, as relações, os conflitos e os
processos subjetivos sempre me despertaram curiosidade. Eu queria compreender.
Essa palavra atravessa boa parte da minha história. Primeiro vieram os sistemas
e a lógica das estruturas. Depois vieram as organizações e a complexidade dos
processos. E, em algum momento, percebi que a pergunta que mais me mobilizava
não estava apenas em como as coisas funcionavam, mas em como as pessoas viviam
aquilo que acontecia com elas.
A formação em
Psicologia não apagou minha trajetória anterior. Pelo contrário. Ela
acrescentou uma nova possibilidade de leitura. A Psicanálise aprofundou ainda
mais essa mudança de perspectiva porque me colocou diante de algo que contraria
boa parte da lógica com a qual eu havia trabalhado durante anos: nem tudo pode
ser organizado, previsto, explicado ou controlado. Eu vim de uma formação
em que encontrar problemas e construir soluções fazia parte do cotidiano.
Aprendi a procurar causas, identificar falhas, criar estruturas e implementar
melhorias. Na clínica, precisei aprender outra coisa. Precisei aprender a
sustentar a pergunta antes de correr para a resposta. Precisei aprender que o
sofrimento de uma pessoa não é um problema técnico que precisa ser
imediatamente corrigido. Precisei aprender que aquilo que não faz sentido de
imediato também merece ser escutado.
A Psicanálise
me ensinou a prestar atenção ao que retorna, ao que se repete, ao que escapa,
ao que se cala e ao que aparece de maneira inesperada. Ensinou-me que o sujeito
não é completamente transparente para si mesmo. Existe uma dimensão da
experiência humana que não se apresenta de maneira direta e organizada. Existem
desejos que desconhecemos, conflitos que não reconhecemos imediatamente,
palavras que nos atravessam sem que saibamos por quê e repetições que continuam
acontecendo mesmo quando conscientemente desejamos outra coisa.
Isso também
mudou a maneira como passei a olhar para minhas próprias escolhas.
Porque
estudar o outro sem olhar para si seria uma contradição. Minha própria análise
pessoal tornou-se parte essencial desse percurso. Aprendi, na experiência e na
formação, que a escuta clínica não se sustenta apenas no conhecimento teórico.
É necessário um trabalho contínuo sobre si, uma disposição para reconhecer os
próprios pontos cegos, os próprios limites, as próprias questões e aquilo que
pode interferir na maneira como escutamos alguém. Essa experiência me fez
compreender que autoconhecimento não é chegar a um ponto em que finalmente
sabemos tudo sobre nós mesmos. É construir uma relação mais honesta com aquilo
que sabemos e com aquilo que ainda não sabemos.
E essa
descoberta é importante quando penso nas minhas diferentes versões.
Durante muito
tempo, imaginei que amadurecer significava deixar determinadas versões de mim
para trás. Como se crescer fosse substituir uma pessoa por outra. Como se a
criança tivesse desaparecido quando me tornei adulta, como se a jovem que fez
determinadas escolhas não tivesse mais relação com a profissional que me
tornei, como se a profissional de tecnologia tivesse deixado de existir quando
escolhi a Psicologia.
Hoje vejo de
outra forma. Nós não somos uma sucessão de pessoas que se substituem.
Somos uma história que se acumula, se transforma, se reorganiza. Algumas
experiências deixam marcas que permanecem. Algumas crenças são revistas.
Algumas características se fortalecem. Outras perdem espaço. Algumas partes de
nós precisam ser elaboradas. Outras continuam fazendo sentido por toda a vida.
A criança que
eu fui ainda existe na minha curiosidade. Na minha vontade de aprender. Na
minha necessidade de compreender. Na capacidade de me impressionar com
determinadas coisas. Na sensibilidade que permaneceu, apesar de todas as
experiências que me ensinaram a ser racional, objetiva e eficiente.
A
profissional que eu fui também permanece. Está na forma como organizo ideias,
na importância que dou ao estudo, na responsabilidade que tenho diante do
trabalho e na capacidade de olhar para problemas complexos sem me assustar
imediatamente com eles. Está também na compreensão de que pessoas e sistemas
precisam ser vistos dentro do contexto em que estão inseridos.
A líder que
eu fui permanece na maneira como compreendo os efeitos que uma posição de
autoridade pode produzir. Permanece na atenção que tenho às palavras, aos
vínculos e às relações de poder. Permanece na certeza de que uma pessoa pode
carregar uma história inteira por trás de uma atitude que, vista de fora,
parece apenas profissional.
E a psicóloga
que sou hoje não apagou nada disso. Ela escuta tudo isso de outro lugar.
Talvez por
isso eu tenha tanto interesse nas pessoas que vivem o mundo do trabalho de
maneira intensa. Eu conheço a linguagem desse universo. Conheço a pressão por
resultados, a necessidade de corresponder, a responsabilidade de liderar, o
peso de uma decisão, a ansiedade diante de uma mudança, a expectativa de
reconhecimento e a sensação de que é preciso estar sempre preparado para o
próximo desafio.
Também
conheço a sedução desse mundo.
O trabalho
pode oferecer reconhecimento, pertencimento, identidade, autonomia, desafios
intelectuais e uma sensação genuína de realização. Não se trata de considerar o
trabalho apenas como fonte de sofrimento. Ele também pode ser uma experiência
profundamente significativa. O problema aparece quando o trabalho começa a
ocupar todo o espaço disponível para a construção de uma identidade.
Quando uma pessoa passa a acreditar que é aquilo que faz, qualquer ameaça ao trabalho pode ser vivida como uma ameaça ao próprio eu. Uma promoção deixa de ser apenas uma mudança de posição e passa a carregar um significado sobre valor, competência e reconhecimento. Uma avaliação negativa pode ser sentida não apenas como um feedback sobre o desempenho, mas como uma confirmação de uma antiga sensação de não ser suficientemente boa. Uma demissão pode ultrapassar a ruptura profissional e atingir diretamente a maneira como alguém se enxerga. Até mesmo uma pausa, que deveria representar descanso, pode ser acompanhada pela sensação de estar ficando para trás, de perder relevância ou de deixar de ser necessária. O erro, que deveria fazer parte de qualquer processo de trabalho e de aprendizagem, pode ser vivido como uma ameaça à própria identidade. Quando isso acontece, a fronteira entre quem somos e aquilo que fazemos se torna tão estreita que já não conseguimos perceber com clareza onde termina o profissional e começa o sujeito. É nesse lugar que a escuta clínica ganha importância. Não para oferecer fórmulas sobre como equilibrar a vida, nem para transformar o sofrimento em uma questão de produtividade ou apresentar estratégias prontas para lidar com o estresse, mas para compreender o que está realmente em jogo para aquela pessoa. O que significa fracassar para ela? O que significa ser reconhecida? O que está sendo buscado naquela promoção que parece tão importante? Por que dizer não se tornou tão difícil? O que faz alguém permanecer em uma condição que afirma não suportar mais? O que existe por trás da culpa quando finalmente consegue descansar? O que está sendo protegido quando alguém diz que não pode parar? Essas perguntas não encontram respostas universais porque cada sujeito estabelece uma relação própria com aquilo que vive. A mesma situação que para uma pessoa representa uma oportunidade pode, para outra, representar uma ameaça. A mesma promoção que produz satisfação em alguém pode despertar ansiedade em outra pessoa. O mesmo reconhecimento que fortalece um sujeito pode criar, em outro, a obrigação de provar continuamente que merece estar naquele lugar. É justamente essa singularidade que me interessa na clínica. Ao longo da minha trajetória, aprendi que escutar alguém não significa apenas ouvir aquilo que foi dito, mas prestar atenção à maneira como essa pessoa constrói sua narrativa, às palavras que escolhe, às expressões que retornam, às contradições que aparecem, aos silêncios que interrompem uma história e às situações que parecem se repetir. Existe uma diferença importante entre ouvir uma história e acompanhar o modo como alguém se coloca dentro dela. Quando uma pessoa conta o que viveu, ela também revela, muitas vezes sem perceber, a maneira como interpreta a própria experiência, aquilo que considera importante, aquilo que minimiza, aquilo que justifica e aquilo que permanece difícil de nomear. A escuta clínica abre espaço para que essa narrativa possa ser interrogada pelo próprio sujeito, sem que seja necessário oferecer imediatamente uma explicação ou uma conclusão.
Essa forma de escutar exige tempo, e o tempo se tornou um elemento cada vez mais raro atualmente. Estamos acostumados à velocidade das respostas, à disponibilidade permanente de informações e à promessa de que praticamente qualquer dificuldade pode ser solucionada por meio da ferramenta adequada. A tecnologia tornou muitas coisas mais rápidas e eficientes, mas a subjetividade não acompanha necessariamente essa velocidade. Uma experiência pode levar anos para adquirir um significado diferente. Uma perda pode precisar de tempo para ser elaborada. Uma escolha pode continuar sendo revisitada muito depois de ter sido feita. Uma palavra ouvida na infância pode permanecer silenciosamente presente até que uma experiência posterior lhe dê outro sentido. Existem questões que precisam retornar, ser contadas novamente, olhadas por outros ângulos, antes que o sujeito consiga reconhecer nelas alguma coisa de sua própria história. A clínica respeita esse tempo porque nem tudo aquilo que importa pode ser acelerado.
Essa é uma
diferença que considero especialmente significativa quando penso na minha
própria trajetória. Durante muitos anos, trabalhei em um universo no qual
identificar um problema, compreender suas causas e encontrar uma solução fazia
parte da rotina. Aprendi a estruturar processos, organizar projetos,
estabelecer prioridades, administrar recursos e buscar respostas diante de
situações complexas. Essa experiência foi extremamente importante para minha
formação e continua presente na maneira como penso e trabalho. Ao mesmo tempo,
a experiência clínica me ensinou que existe uma dimensão da vida que não pode
ser tratada segundo a mesma lógica. Uma pessoa não é um sistema que apresenta
uma falha e precisa ser corrigido. O sofrimento não é um problema técnico. Uma
relação não pode ser redesenhada como um fluxo de processos. O desejo não
responde a uma lógica de eficiência. E o sujeito não cabe inteiramente em
nenhuma explicação.
Foi também
nesse ponto que o estudo da Psicologia e da Psicanálise passou a dialogar de
maneira tão profunda com a minha trajetória anterior. Sempre fui uma pessoa
ligada ao estudo. Antes mesmo de ingressar na graduação em Psicologia, eu já
buscava compreender diferentes perspectivas sobre a mente e o comportamento
humano. A leitura da obra de Freud, o contato com autores de outras tradições
e, posteriormente, a formação acadêmica e clínica consolidaram em mim a
convicção de que o trabalho com o sujeito exige estudo permanente. Não
considero o conhecimento algo que se adquire de uma vez e depois permanece
estático. Quanto mais estudo, mais percebo a extensão daquilo que ainda não
conheço. Quanto mais me aproximo de uma teoria, mais consigo enxergar seus alcances
e seus limites. E quanto mais escuto pessoas, mais evidente se torna que
nenhuma teoria pode substituir a singularidade de quem está diante de nós.
Essa
percepção também está relacionada à minha própria análise pessoal. O trabalho
sobre si não é, para mim, uma etapa burocrática da formação, mas uma
experiência fundamental para quem pretende ocupar o lugar de escuta. É preciso
reconhecer que também somos atravessados por nossa história, por nossos
desejos, por nossas expectativas e por nossos pontos cegos. Não existe uma
posição de absoluta neutralidade no sentido de uma ausência completa de
subjetividade, mas existe uma responsabilidade ética de trabalhar continuamente
aquilo que pode interferir na escuta do outro. A análise pessoal, o estudo
teórico e a supervisão fazem parte desse percurso e sustentam uma formação que
não se encerra quando termina uma etapa acadêmica. Ser psicóloga e psicanalista
significa continuar estudando, continuar se interrogando e continuar
reconhecendo que o sujeito que chega à clínica nunca é apenas aquilo que
conseguimos compreender sobre ele.
Essa posição
de escuta também está relacionada à maneira como compreendo a diferença. Minha
trajetória profissional me colocou em contato com pessoas de diferentes
formações, culturas, experiências e maneiras de pensar. Os projetos
internacionais de que participei, nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália,
ampliaram minha percepção sobre a diversidade dos contextos em que as pessoas
vivem e trabalham. Quanto mais entramos em contato com outras realidades, mais
difícil se torna sustentar a ideia de que existe uma única maneira correta de
construir uma vida. O que em determinado contexto é considerado sucesso pode
representar outra coisa em um contexto diferente. O que uma pessoa entende como
segurança pode ser vivido por outra como aprisionamento. O que para alguém
significa liberdade pode despertar medo em outra pessoa. A singularidade não é
um detalhe da experiência humana. Ela é parte constitutiva dela.
Por isso, na
clínica, não me interessa oferecer ao outro uma forma ideal de viver.
Interessa-me compreender o que está sendo vivido e como aquela pessoa se
relaciona com a própria história. Essa posição exige uma ética de não
julgamento, não no sentido de deixar de pensar ou de considerar as
consequências das escolhas, mas de não partir de uma ideia prévia sobre aquilo
que alguém deveria desejar, sentir ou ser. Cada sujeito precisa encontrar uma
maneira própria de se posicionar diante daquilo que vive, e o trabalho clínico
pode oferecer um espaço para que essa posição seja interrogada.
Quando penso
nisso, volto novamente à criança que fui. Hoje eu consigo perceber que não
precisava existir uma divisão tão rígida entre a menina curiosa, a profissional
de tecnologia, a mulher que ocupou posições de liderança, a estudante de
Psicologia e a psicanalista que sou. Durante muito tempo, poderia ter olhado
para essas fases como caminhos diferentes, quase como se uma tivesse precisado
terminar para que outra pudesse começar. Hoje reconheço uma continuidade mais
profunda. Em todas elas existia uma mesma disposição para observar,
compreender, organizar perguntas e tentar encontrar sentido naquilo que estava
diante de mim. O objeto dessa curiosidade foi mudando, assim como eu mudei, mas
a curiosidade permaneceu.
A tecnologia
me ensinou a pensar em sistemas e estruturas. A gestão me ensinou sobre
organizações e processos. A liderança me colocou diante da complexidade das
relações humanas. A Psicologia ampliou minha compreensão sobre a subjetividade.
A Psicanálise me ensinou a escutar aquilo que não aparece imediatamente.
Nenhuma dessas experiências precisa ser apagada para que outra tenha valor.
Elas se sobrepõem e fazem parte de uma mesma história. A minha trajetória não
precisa ser linear para ser coerente. Na verdade, olhando para trás, percebo
que a linearidade é uma construção que fazemos depois que as coisas
aconteceram. Enquanto vivemos, não sabemos necessariamente onde cada
experiência vai nos levar.
Foi preciso
viver o trabalho em tecnologia para compreender determinadas dimensões das
organizações. Foi preciso liderar pessoas para perceber que uma equipe nunca é
apenas uma estrutura funcional. Foi preciso conviver com as exigências do mundo
corporativo para compreender melhor o impacto que o trabalho pode ter sobre a
vida subjetiva. Foi preciso estudar Psicologia para aprofundar perguntas que já
me acompanhavam. Foi preciso estudar Psicanálise para compreender que escutar
exige outra relação com o tempo, com o conhecimento e com aquilo que não
sabemos. Foi preciso passar pela própria análise para experimentar, em primeira
pessoa, o que significa colocar a própria história em trabalho.
Quando olho
para trás, não quero transformar essa trajetória em uma sequência perfeitamente
planejada. Não foi. Muitas escolhas foram feitas sem que eu soubesse exatamente
aonde me levariam. Algumas decisões nasceram de desejos claros; outras foram
tomadas diante das circunstâncias disponíveis naquele momento. Algumas
experiências foram profundamente importantes, outras foram difíceis, e algumas
só ganharam significado muito tempo depois. Não preciso organizar tudo isso
como se cada acontecimento tivesse sido necessário para que eu chegasse
exatamente onde estou. A vida não precisa ter obedecido a um plano para que
possamos reconhecer sentido nela.
Também não
quero olhar para as minhas versões anteriores como se elas tivessem cometido
erros que a mulher de hoje seria capaz de evitar. Seria injusto. A pessoa que
fui não tinha o conhecimento que tenho agora. Não conhecia as consequências das
escolhas que ainda faria. Não sabia quais caminhos se abririam, quais relações
permaneceriam, quais mudanças aconteceriam. Ela estava vivendo com as
informações, os desejos, os medos e as possibilidades que tinha naquele
momento. Olhar para ela com os olhos de hoje seria esquecer que eu também
precisei passar por tudo isso para me tornar quem sou.
Por isso,
quando penso nas minhas diferentes versões, não quero colocá-las em julgamento.
Quero compreendê-las. Quero reconhecer a menina que sentia intensamente, a
jovem que buscava seu caminho, a profissional que aprendeu a assumir
responsabilidades, a líder que precisou lidar com pessoas e decisões, a
estudante que continuou buscando conhecimento e a mulher que encontrou na
Psicologia e na Psicanálise uma maneira de aprofundar uma pergunta que sempre
esteve presente: o que faz de nós quem somos?
Essa pergunta
atravessa o trabalho, as relações, a família, a carreira, a maneira como nos
apresentamos ao mundo e até a maneira como contamos nossas próprias histórias.
Quando dizemos quem somos, selecionamos determinadas informações. Falamos da
nossa profissão, da nossa formação, das nossas experiências, das nossas
conquistas. Tudo isso é verdadeiro, mas nenhuma dessas coisas esgota uma
pessoa. Um currículo registra uma parte da trajetória. Uma biografia registra
outra. Uma conversa revela outra. Uma análise pode colocar em movimento
aspectos que nunca apareceriam em uma apresentação formal. Existe sempre algo
que permanece além da narrativa que conseguimos construir sobre nós mesmos.
É justamente
por isso que continuo interessada na escuta. Escutar significa abrir espaço
para que uma pessoa possa encontrar palavras para aquilo que ainda não
conseguiu organizar. Significa permitir que uma história seja contada sem a
obrigação de chegar rapidamente a uma conclusão. Significa reconhecer que,
muitas vezes, o sujeito já sabe racionalmente o que deveria fazer, mas ainda
precisa compreender por que não consegue fazê-lo. Significa considerar que uma
dificuldade aparentemente objetiva pode estar relacionada a questões muito mais
profundas. E significa aceitar que a resposta não pertence ao profissional que
escuta, mas precisa ser construída pelo próprio sujeito.
Essa
compreensão também modificou a maneira como penso o conhecimento. Sempre fui
muito ligada ao estudo e continuo acreditando profundamente em sua importância.
Ao mesmo tempo, aprendi que conhecer uma teoria não significa conhecer uma
pessoa. Uma teoria pode oferecer instrumentos para pensar, mas não pode
substituir o encontro com a singularidade. O conhecimento não nos dá
autorização para acreditar que sabemos mais sobre o outro do que ele próprio
sabe. Ele nos dá melhores condições para formular perguntas, reconhecer nuances
e sustentar uma escuta mais responsável.
Essa é uma
posição que considero essencial na clínica. Existe responsabilidade no lugar
que ocupamos, mas também existe humildade. Não estamos diante de pessoas para
dizer como elas devem viver. Estamos diante de sujeitos que possuem uma
história que merece ser escutada e interrogada. O sofrimento pode ser
compreendido, elaborado e transformado, mas não existe uma fórmula universal
para isso. Cada pessoa precisa encontrar sua própria maneira de lidar com
aquilo que a constitui.
Quando penso
novamente naquela criança, percebo que muitas das coisas que hoje fazem parte
de mim já estavam presentes de alguma forma. A curiosidade, a intensidade, a
vontade de compreender, a atenção às pessoas, a busca por conhecimento. O que
mudou foi a maneira de olhar para tudo isso. Durante uma parte da vida,
procurei respostas. Hoje me interesso também pela qualidade das perguntas.
Durante anos, aprendi a resolver problemas. Hoje reconheço o valor de
permanecer diante de uma questão antes de transformá-la em problema. Durante
muito tempo, o conhecimento esteve associado à capacidade de saber. Hoje ele
também está associado à capacidade de reconhecer o que ainda não sabemos.
Essa mudança
não representa uma rejeição daquilo que fui. Representa uma ampliação. A mulher
que sou hoje não precisou abandonar a profissional que fui. A psicóloga não
precisou apagar a pessoa formada em exatas. A psicanalista não precisou deixar
de valorizar estrutura, conhecimento e pensamento. Todas essas dimensões
convivem em mim e participam da maneira como vejo o mundo.
Quando penso
nas minhas versões anteriores, sinto mais vontade de conversar com elas do que
de corrigi-las. Eu gostaria de contar à criança que ela não precisava ter tanta
pressa de crescer, mas não gostaria de tirar dela a experiência de descobrir.
Gostaria de dizer à jovem que algumas escolhas só seriam compreendidas mais
tarde, mas não gostaria de retirar dela o direito de experimentar. Gostaria de
dizer à profissional que nem tudo precisava ser resolvido imediatamente, mas
não gostaria de diminuir a capacidade que ela desenvolveu de enfrentar
situações complexas. Gostaria de dizer à mulher que ocupou posições de
liderança que cuidar de pessoas não significava controlar seus caminhos, mas
reconheço que foi justamente a experiência de liderar que me ensinou muito
sobre os limites do controle.
Cada versão
tinha seu tempo e suas necessidades. Cada uma estava tentando construir alguma
coisa. E eu não quero mais exigir que nenhuma delas soubesse antecipadamente
aquilo que só consegui compreender depois.
Não posso
voltar ao passado levando comigo o conhecimento que tenho hoje. E não sei se
gostaria de fazer isso. Retirar todas as dúvidas também retiraria uma parte
importante da experiência de descobrir. Algumas das coisas mais significativas
da minha trajetória aconteceram porque eu não sabia exatamente onde estava
indo. Algumas perguntas só apareceram porque uma resposta anterior deixou de
ser suficiente. Algumas mudanças só foram possíveis porque uma forma antiga de
viver já não dava conta daquilo que eu estava me tornando.
É por isso
que hoje consigo olhar para a minha trajetória com mais tranquilidade. Não
porque tudo tenha sido fácil ou porque eu considere todas as escolhas
acertadas, mas porque não sinto mais a necessidade de transformar o passado em
um tribunal. Posso reconhecer erros sem transformar esses erros em identidade.
Posso reconhecer dores sem precisar fazer delas o centro da minha história.
Posso reconhecer mudanças sem considerar que aquilo que veio antes perdeu seu
valor.
A história de
uma pessoa não é feita apenas das decisões que deram certo. Ela também é feita
das hesitações, das mudanças de direção, das experiências que não saíram como
esperado e das coisas que só foram compreendidas depois. Existe uma parte da
maturidade que consiste em conseguir olhar para tudo isso sem precisar reduzir
a própria história a uma narrativa de sucesso ou fracasso.
Hoje, quando
penso em quem sou, não encontro uma única resposta. Sou psicóloga e
psicanalista, mas também sou resultado de uma longa trajetória na tecnologia,
na gestão e na liderança. Sou alguém que passou muitos anos trabalhando com
sistemas e organizações e que hoje se dedica a compreender sujeitos. Sou alguém
que valoriza profundamente o conhecimento, mas que aprendeu a respeitar os
limites de qualquer teoria. Sou alguém que acredita na importância da escuta
porque experimentou, ao longo da própria vida, o quanto uma pessoa pode mudar
quando encontra um espaço em que sua história pode ser dita sem precisar ser
imediatamente corrigida.
E ainda
existe muito que não sei sobre mim. Isso não me incomoda como antes.
Não sinto
mais que preciso chegar a uma definição final para poder dizer quem sou. Uma
pessoa não é um conceito acabado. Somos atravessados pelo tempo, pelas
experiências, pelos encontros e pelas perdas. Mudamos de posição diante das
coisas. Reinterpretamos acontecimentos. Descobrimos desejos. Abandonamos
outros. Aprendemos a dizer não. Aprendemos a dizer sim. Descobrimos limites que
antes não reconhecíamos e possibilidades que antes não conseguíamos imaginar.
A vida não
termina de nos apresentar a nós mesmos.
Por isso,
quando penso em todas as minhas versões, não quero escolher qual delas é a
verdadeira. Todas foram verdadeiras dentro do tempo em que existiram. A criança
que eu fui é parte de mim. A jovem que fez escolhas que hoje compreendo de
outra maneira também é. A profissional de tecnologia continua presente na forma
como penso. A líder continua presente na maneira como compreendo relações e
responsabilidades. A estudante continua presente na necessidade de continuar
aprendendo. A psicóloga está presente na escuta. A psicanalista está presente
na disposição de permanecer diante das perguntas.
E eu continuo
me tornando.
Essa talvez
seja a única certeza que consigo sustentar sem precisar transformá-la em uma
resposta definitiva: ainda estou em processo. Ainda posso mudar. Ainda posso
aprender. Ainda posso descobrir coisas sobre mim que hoje não conheço. Ainda
posso encontrar novas formas de trabalhar, de pensar, de escrever, de escutar e
de estar com as pessoas. Ainda posso ser surpreendida pela minha própria
história.
Quando penso
nisso, volto à criança do início.
Eu gostaria
de dizer a ela que ela pode diminuir o passo. Que não precisa correr para
chegar a uma versão pronta de si mesma. Que não existe uma versão final
esperando no futuro, como se a vida fosse uma sequência de etapas até
finalmente alcançarmos quem deveríamos ser. Existe o caminho, e existe a pessoa
que vai se transformando enquanto caminha.
Eu gostaria
de dizer a ela que sentir profundamente não é algo de que precise se
envergonhar. Que sua curiosidade vai acompanhá-la por muito tempo. Que sua
vontade de compreender vai levá-la por caminhos que ela ainda não consegue
imaginar. Que ela vai conhecer o mundo da tecnologia, da gestão, da liderança,
da Psicologia e da Psicanálise. Que vai descobrir que todas essas coisas podem
conversar entre si. Que vai perceber que sua história nunca foi tão fragmentada
quanto parecia.
E diria
também que ela não precisa ter medo de mudar. Porque algumas mudanças não
são abandono. São continuidade.
Há caminhos
que parecem novos quando, na verdade, estão nos aproximando de perguntas que
carregamos há muito tempo. Há escolhas que parecem rupturas quando, olhando de
perto, revelam uma busca que já estava presente. Há momentos em que pensamos
estar começando uma nova história e descobrimos, anos depois, que estávamos
apenas dando outro nome a uma pergunta antiga.
O ChatGPT
disse:
A minha
pergunta continua sendo o humano: o que nos move, o que nos faz sofrer, o que
desejamos, o que repetimos sem compreender inteiramente, o que tentamos
esconder de nós mesmos e dos outros, o que buscamos nas relações que
estabelecemos e o que fazemos com aquilo que recebemos da nossa história.
Interessa-me compreender não apenas aquilo que uma pessoa faz, mas também
aquilo que existe por trás de suas escolhas, das suas dúvidas, das suas
contradições e das formas que encontra para seguir vivendo. Interessa-me aquilo
que não aparece imediatamente, aquilo que não pode ser reduzido a um comportamento
observável ou a uma explicação pronta, porque é justamente nessa dimensão mais
complexa e singular que encontro uma das maiores riquezas da experiência
humana.
Não tenho a
pretensão de responder definitivamente a essas perguntas, porque quanto mais
estudo, escuto e observo, mais compreendo que algumas questões não se encerram
em uma resposta. Elas se transformam à medida que nós também nos transformamos.
Uma pergunta que fazemos aos vinte anos pode continuar conosco aos quarenta,
mas já não significa exatamente a mesma coisa. A experiência modifica aquilo
que perguntamos, assim como modifica aquilo que conseguimos escutar. Por isso,
hoje prefiro permanecer em uma posição de curiosidade, continuar estudando,
escrevendo, pensando e escutando, sem a necessidade de transformar tudo aquilo
que encontro em uma conclusão. Existe, para mim, um valor muito grande em poder
permanecer diante de uma questão, reconhecendo que nem sempre compreender
significa chegar imediatamente a uma resposta.
Quando olho
para a minha trajetória, percebo que essa disposição para continuar aprendendo
atravessa diferentes momentos da minha vida. Ela estava presente quando escolhi
a Ciência da Computação, quando me aprofundei em Administração e Engenharia de
Produção, quando construí minha carreira na tecnologia, quando assumi posições
de liderança e passei a lidar mais diretamente com pessoas, quando decidi
estudar Psicologia e, posteriormente, quando encontrei na Psicanálise uma forma
de aprofundar questões que já me acompanhavam há muito tempo. Em cada uma
dessas etapas, eu estava diante de um universo diferente, mas existia uma
continuidade que só consigo enxergar agora. Havia sempre o desejo de
compreender melhor, de ir além da superfície, de entender como as coisas
funcionam e, principalmente, de entender o que acontece com as pessoas dentro
das estruturas que construímos.
Talvez seja
por isso que hoje eu não veja minha trajetória como uma sequência de mudanças,
mas como um percurso que foi ganhando novas camadas. A tecnologia não ficou
para trás quando entrei na Psicologia. A experiência em gestão não deixou de
existir quando comecei a atuar na clínica. A liderança não desapareceu quando
passei a ocupar outro lugar diante das pessoas. Tudo isso continua fazendo
parte da minha maneira de pensar e de escutar. A diferença é que hoje consigo
olhar para essas experiências com outra perspectiva e perceber que cada uma
delas me ensinou alguma coisa que continua presente. A formação em exatas me
ensinou a buscar estrutura e coerência; a experiência profissional me ensinou
sobre organizações, responsabilidades e relações de trabalho; a liderança me
ensinou sobre pessoas e sobre os efeitos que nossas posições produzem nos
outros; a Psicologia ampliou minha compreensão sobre a subjetividade; e a
Psicanálise me ensinou a respeitar aquilo que não se apresenta de maneira
imediata e que não pode ser inteiramente capturado por nenhuma explicação.
É também por
isso que, quando olho para as mulheres que fui, não sinto vontade de escolher
qual delas representa a minha verdadeira identidade. Todas elas fazem parte de
mim, inclusive aquelas que tomaram decisões que hoje eu faria de outra maneira.
A criança que eu fui não precisava conhecer a mulher que eu me tornaria. A
jovem que fez determinadas escolhas não tinha como antecipar tudo o que viria
depois. A profissional que construiu uma carreira na tecnologia não tinha
obrigação de saber que, anos mais tarde, encontraria na Psicologia um caminho
tão significativo. Cada uma dessas versões viveu a partir das possibilidades
que tinha naquele momento, e é injusto olhar para qualquer uma delas usando
exclusivamente o conhecimento que só adquiri depois.
Por isso,
quando penso no passado, prefiro trocar a cobrança pela compreensão. Não
significa romantizar aquilo que foi difícil ou fingir que todas as escolhas
foram acertadas. Significa reconhecer que uma pessoa pode ter feito o melhor
que conseguia fazer em determinado momento e, ainda assim, descobrir depois que
gostaria de ter escolhido de outra maneira. Significa aceitar que amadurecer
também envolve olhar para algumas decisões antigas e perceber que já não somos
a mesma pessoa que as tomou. Existe algo de profundamente humano nesse
movimento, porque mudar também significa poder reinterpretar a própria história
sem precisar negá-la.
Quero
conseguir olhar para a criança que fui e reconhecer a importância de ela ter
sentido tanto, de ter sido curiosa e de ter buscado compreender o mundo ao seu
redor. Quero olhar para a jovem e lembrar que ela estava tentando encontrar seu
caminho com os recursos que possuía naquele momento, mesmo quando não tinha
clareza sobre onde aquele caminho terminaria. Quero olhar para a profissional e
reconhecer a dedicação, a competência e tudo aquilo que construiu ao longo dos
anos. Quero olhar para a líder e lembrar das responsabilidades que assumiu, das
pessoas que acompanhou, dos conflitos que precisou enfrentar e de tudo o que
aprendeu sobre relações humanas dentro das organizações. Quero olhar para a
estudante e agradecer por ela ter mantido viva a curiosidade que sempre esteve
presente. Quero olhar para a psicóloga e reconhecer a coragem de começar uma
nova formação, aprofundar conhecimentos e se colocar diante de uma profissão
que exige uma relação tão particular com o outro. E quero olhar para a psicanalista
sem imaginar que chegou a algum ponto final, porque a própria formação me
ensinou que ocupar esse lugar significa permanecer em trabalho, sustentando a
análise pessoal, o estudo, a supervisão e a disposição permanente para
reconhecer aquilo que ainda não sei.
Quando penso
em tudo isso, percebo que não quero chegar a uma versão definitiva de mim
mesma. Durante muito tempo, a ideia de realização esteve associada à sensação
de finalmente ter encontrado o lugar certo, como se em algum momento da vida
fosse possível chegar a uma espécie de conclusão sobre quem somos. Hoje, essa
ideia me parece menos interessante. Não acredito mais que precisemos encontrar
uma definição final para nós mesmos. Somos atravessados pelo tempo, pelas
experiências, pelas relações, pelas escolhas e pelas mudanças, e cada uma
dessas coisas participa daquilo que nos tornamos. A identidade não me parece
uma resposta pronta, mas uma construção que continua acontecendo enquanto
vivemos.
Isso também
mudou a maneira como compreendo a própria ideia de sucesso. Durante muitos
anos, estive em ambientes nos quais resultados, desempenho, crescimento e
reconhecimento tinham um peso importante. Aprendi a trabalhar com metas,
responsabilidades e expectativas, e reconheço o valor que existe nessas
dimensões. Mas hoje consigo perceber que nenhuma delas, sozinha, responde à
pergunta sobre uma vida que faça sentido. É possível alcançar aquilo que se
desejou durante muito tempo e ainda assim sentir um vazio que não se explica
pela falta de conquistas. É possível ter uma carreira bem-sucedida e não se
reconhecer mais naquilo que se faz. É possível ocupar uma posição de destaque e
experimentar solidão. É possível ter medo de perder aquilo que se conquistou
justamente porque aquela conquista passou a representar uma parte
excessivamente grande de quem se acredita ser.
Talvez uma
das coisas que mais me interessam na clínica seja justamente poder acompanhar
esse momento em que alguém começa a perceber que existe uma diferença entre
aquilo que construiu e aquilo que deseja continuar construindo. Muitas vezes, a
crise aparece quando uma identidade que funcionou durante muito tempo já não
consegue dar conta da pessoa que está se tornando. Isso pode acontecer no
trabalho, em uma relação, em uma mudança de carreira, diante de uma perda ou
simplesmente quando alguém percebe que passou tantos anos tentando corresponder
às expectativas que já não sabe exatamente quais são as próprias. Nessas
situações, não se trata necessariamente de abandonar tudo e começar novamente.
Antes disso, existe um trabalho de escuta que permite compreender o que aquela
insatisfação está dizendo e o que, dentro daquela história, pede para ser
revisto.
Essa é uma
das razões pelas quais acredito que a clínica não deve oferecer respostas
prontas sobre como uma pessoa deveria viver. O que faz sentido para um sujeito
pode não fazer sentido para outro, e mesmo aquilo que fez sentido para nós em
determinado momento pode deixar de fazer sentido posteriormente. A escuta
permite que essas mudanças possam ser reconhecidas sem que imediatamente sejam
transformadas em fracasso. Permite que uma pessoa perceba que mudar de desejo
não significa necessariamente ter errado no passado. Às vezes, significa apenas
que a pessoa mudou.
Eu também
mudei. E ainda vou mudar.
Essa
constatação, que em outro momento poderia produzir ansiedade, hoje me parece
uma das formas mais bonitas de liberdade. Não saber exatamente quem serei daqui
a alguns anos significa que ainda existe espaço para descoberta. Significa que
não preciso viver sob a obrigação de permanecer fiel a uma definição antiga de
mim mesma. Posso continuar aprendendo, posso mudar de opinião, posso descobrir
novos interesses, posso reconhecer limites, posso estabelecer novas prioridades
e posso permitir que experiências futuras produzam em mim transformações que
hoje ainda não consigo imaginar.
Quando olho
para trás, percebo que a vida foi fazendo isso comigo muitas vezes. Algumas
mudanças foram planejadas, outras aconteceram sem que eu tivesse controle sobre
elas. Algumas foram desejadas, outras exigiram adaptação. Algumas me levaram a
lugares que eu buscava conscientemente, enquanto outras só ganharam significado
depois. Em todas elas, alguma versão anterior de mim precisou abrir espaço para
que outra pudesse existir.
E talvez seja
isso que eu diria hoje para todas as minhas versões: nenhuma de vocês precisava
saber exatamente quem eu seria. Nenhuma precisava antecipar as perguntas que
viriam, as escolhas que ainda seriam feitas ou os caminhos que apareceriam.
Vocês só precisavam viver o momento que lhes cabia. A criança precisava crescer
no seu próprio tempo. A jovem precisava experimentar. A profissional precisava
construir. A líder precisava aprender. A estudante precisava perguntar. A
psicóloga precisava começar. A psicanalista precisava continuar se formando. E
eu, agora, preciso apenas continuar.
Continuar não
significa caminhar sem direção ou abandonar aquilo que já construí. Significa
reconhecer que uma história pode permanecer aberta. Significa aceitar que ainda
existem perguntas importantes, que ainda existem coisas que não compreendo e
que ainda existem versões minhas que sequer conheço. Significa não transformar
a necessidade de mudança em uma obrigação de recomeçar o tempo inteiro, mas
permitir que aquilo que já sou possa continuar se transformando.
Quando penso
na criança que iniciou esta conversa, percebo que a frase que eu gostaria de
dizer a ela mudou um pouco. No começo, eu queria apenas pedir que ela não
tivesse tanta pressa de crescer. Hoje eu acrescentaria que ela também não
precisaria ter tanta pressa de se definir. Ela poderia experimentar diferentes
possibilidades sem imaginar que cada escolha precisaria determinar para sempre
quem seria. Poderia gostar de coisas diferentes, mudar de ideia, descobrir
novos caminhos e perceber que uma pessoa pode carregar dentro de si interesses
aparentemente distantes e ainda assim existir uma profunda coerência entre
eles.
Eu diria a
ela que um dia compreenderia que sua história não seria linear, mas que isso
não seria um problema. Que ela poderia passar pela tecnologia, pela gestão,
pela liderança, pela Psicologia e pela Psicanálise e, ao olhar para trás,
perceber que não havia perdido tempo em nenhum desses lugares. Cada experiência
teria deixado uma marca, uma pergunta, uma habilidade, uma memória ou uma forma
diferente de olhar para o mundo. Algumas coisas seriam esquecidas, outras
permaneceriam, e outras ainda voltariam muitos anos depois com um significado
completamente diferente.
Eu diria
também que ela aprenderia que ser forte não significa não precisar de ninguém,
que conhecer muito não significa saber tudo, que cuidar dos outros não
significa conseguir resolver a vida de ninguém e que escutar não significa ter
respostas. Aprenderia que existe força em reconhecer limites, maturidade em
mudar de posição e coragem em admitir que uma escolha já não faz sentido.
Aprenderia que não existe contradição em ser racional e sensível, em gostar de
sistemas e de pessoas, em trabalhar com tecnologia e se interessar pela
subjetividade, porque a complexidade de uma pessoa não precisa caber em uma
única definição.
E, se depois
de tudo isso ela me perguntasse se eu finalmente descobri quem sou, eu não
responderia com uma definição. Diria que descobri algumas coisas, que
compreendi outras e que ainda existem muitas que permanecem em aberto. Diria
que hoje me reconheço naquilo que construí, mas também naquilo que ainda desejo
compreender. Diria que não preciso mais chegar a uma versão final de mim mesma
para sentir que a minha história tem sentido.
A minha
história tem sentido simplesmente porque continua.
Continuo
sendo aquela pessoa que quer compreender o humano, que se interessa pelo que
existe por trás das aparências, que acredita no valor do estudo e que encontrou
na escuta uma maneira de estar com o outro. Continuo carregando comigo a
experiência de tantos anos na tecnologia e na gestão, as relações que construí,
os lugares por onde passei, os desafios que enfrentei e tudo aquilo que aprendi
sobre trabalho, liderança e organizações. Continuo carregando também as
perguntas que a Psicologia e a Psicanálise trouxeram para a minha vida e a
compreensão de que algumas perguntas são mais importantes do que a necessidade
de encontrar respostas rápidas.
Quando olho
para todas as mulheres que fui, não quero mais perguntar qual delas estava
certa. Quero reconhecer que cada uma fez parte da construção da mulher que sou
hoje. Algumas precisaram aprender pela experiência aquilo que outras só
compreenderiam depois. Algumas tiveram medo. Algumas foram exigentes demais
consigo mesmas. Algumas quiseram controlar o que não podia ser controlado.
Algumas tiveram pressa. Algumas simplesmente seguiram em frente sem saber
exatamente para onde estavam indo. Todas, de alguma maneira, estavam tentando
viver.
E é isso que
eu aprendi a fazer com mais delicadeza: olhar para uma vida sem exigir que ela
tenha sido perfeita para que possa ser reconhecida como uma boa vida.
Não preciso
apagar as contradições para encontrar coerência. Não preciso transformar todas
as escolhas em acertos. Não preciso fingir que determinadas experiências não
doeram. Não preciso negar o que gostaria de ter feito diferente. Posso olhar
para tudo isso e reconhecer que uma trajetória é feita também dessas
imperfeições, dessas mudanças e dessas partes que permanecem sem uma explicação
completa.
Hoje, quando
penso no futuro, não sinto a mesma necessidade de saber exatamente o que virá.
Quero continuar aberta ao que a vida ainda pode apresentar, sabendo que novas
experiências podem modificar perguntas antigas e trazer perguntas que ainda não
existem. Quero continuar estudando porque sei que o conhecimento não se esgota.
Quero continuar escrevendo porque algumas experiências só encontram forma
quando passam pela linguagem. Quero continuar escutando porque ainda acredito
que existe algo profundamente transformador em oferecer a alguém um espaço em
que sua história possa ser dita, pensada e ouvida com respeito.
E quero
continuar olhando para mim mesma com essa mesma disposição. Não com a exigência
de me compreender, mas com o compromisso de não deixar de me perguntar quem
estou me tornando.
Porque, no
fim, é essa a pergunta que atravessa todas as minhas versões: não apenas quem
eu fui, mas quem estou me tornando enquanto vivo. E essa pergunta continua
aberta.
Não como uma
falta. Não como uma insuficiência. Mas como possibilidade.
A criança que
eu fui queria crescer. A mulher que sou hoje aprendeu que crescer não significa
finalmente chegar a algum lugar onde todas as perguntas terminam. Significa
poder olhar para o caminho percorrido, reconhecer as pessoas que fomos,
compreender um pouco melhor as escolhas que fizemos e continuar caminhando sem
precisar saber exatamente qual será a próxima versão de nós mesmos.
Eu não sei quem serei daqui a alguns anos. E, pela primeira vez, isso não me parece algo que precise ser resolvido. Parece apenas que ainda há vida pela frente.
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