Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Se eu pudesse conversar com todas as minhas versões

Se eu pudesse conversar com todas as minhas versões, acho que começaria pela criança que eu fui. Eu diria para ela não ter tanta pressa de crescer. Diria que algumas coisas que hoje parecem enormes vão perder o tamanho com o tempo, e que outras, que ela nem imagina, vão se tornar importantes. Diria para ela continuar sentindo tudo com essa intensidade, mesmo quando disserem que é demais. Porque, um dia, ela vai entender que sentir profundamente nunca foi uma fraqueza, foi uma das coisas que a tornou quem é.

Eu diria que ela não precisa ser perfeita para ser amada. Que não precisa aprender tão cedo a esconder o que sente. Que pode chorar, pode ter medo, pode não saber. Que não precisa carregar o mundo nas costas só porque aprendeu a parecer forte.

Depois, eu conversaria com quem eu era alguns anos atrás. Talvez eu olhasse para essa versão com uma mistura de carinho e tristeza. Eu diria: eu sei o quanto você tentou. Sei das escolhas que fez tentando acertar. Sei de quantas vezes você acreditou que precisava dar conta. Sei de quantas vezes você transformou responsabilidade em obrigação, cuidado em vigilância e força em silêncio.

Eu sei o quanto você trabalhou. Sei o quanto estudou, o quanto se dedicou, o quanto tentou fazer as coisas da melhor maneira possível. Sei também das vezes em que você acreditou que precisava saber o caminho antes de começar a percorrê-lo. Hoje eu consigo olhar para você com uma compreensão que naquela época eu não tinha. É muito fácil julgar as nossas decisões depois que conhecemos as consequências. O passado parece organizado quando já sabemos como a história terminou, mas, quando estamos vivendo, não temos esse privilégio. Naquele momento, existem apenas possibilidades, dúvidas, desejos, medos e as ferramentas que conseguimos reunir para fazer uma escolha.

Eu diria para essa mulher que ela não precisava ter tanta certeza. Que não precisava transformar cada decisão em uma definição sobre quem era. Que mudar de ideia não significava fracassar, que reconhecer um limite não significava fraqueza e que não saber o próximo passo não significava estar perdida. Algumas coisas só se tornam compreensíveis depois que passam. Algumas escolhas só revelam seu significado anos mais tarde. Há experiências que, quando acontecem, parecem apenas acontecimentos, mas que depois percebemos terem participado de uma transformação que ainda não conseguíamos enxergar.

Eu também diria que ela poderia ter sido mais gentil consigo mesma. Não para apagar sua exigência, sua disciplina ou sua vontade de fazer bem feito, porque essas características também construíram muito do que existe hoje, mas para que ela pudesse perceber que não precisava transformar todas as áreas da vida em lugares de desempenho. Nem tudo precisava ser resolvido. Nem tudo precisava ser perfeito. Nem toda dificuldade precisava ser vencida imediatamente. Algumas coisas precisavam apenas ser vividas.

Quando penso na mulher que fui, percebo o quanto existe uma diferença entre olhar para uma trajetória de dentro e olhar para ela depois de algum tempo. Enquanto estamos vivendo, não enxergamos uma trajetória. Enxergamos dias. Decisões. Problemas. Projetos. Relações. Responsabilidades. Contas. Prazos. Mudanças. O sentido aparece depois, quando conseguimos reunir acontecimentos que, na época, pareciam não ter nenhuma relação entre si.

Minha história profissional, por exemplo, durante muito tempo me pareceu pertencer a um universo muito diferente daquele em que estou hoje. Minha formação inicial foi em Ciência da Computação. Depois vieram o mestrado em Administração e a pós-graduação em Engenharia de Produção. Trabalhei durante anos em empresas de tecnologia, passando por diferentes setores e experiências, com implantação de sistemas, gerenciamento de projetos, operações de negócios, contratos, treinamento técnico e gestão de equipes. Ocupando posições de liderança, precisei aprender a tomar decisões, administrar conflitos, acompanhar resultados, desenvolver pessoas, estruturar processos e lidar com situações em que nem sempre existia uma resposta evidente.

Quando olho para essa história a partir de quem sou hoje, não vejo mais uma estrada que ficou para trás. Vejo uma parte importante de mim. A tecnologia me ensinou a pensar de determinada maneira. A gestão me ensinou a lidar com estruturas, processos e responsabilidades. A liderança me colocou diante da complexidade das relações humanas. E foi justamente nesse contato cotidiano com pessoas, expectativas, conflitos, inseguranças, ambições e histórias particulares que a dimensão subjetiva foi ganhando cada vez mais espaço dentro das minhas perguntas.

Eu trabalhava com sistemas, mas estava cercada de pessoas. E, com o tempo, comecei a me interessar cada vez mais pelo que acontecia com elas. Um sistema pode ser desenhado, testado, corrigido e implementado. Uma pessoa não funciona assim. Uma organização pode criar processos para lidar com determinadas situações, mas nenhuma estrutura consegue eliminar completamente o imprevisível que existe nas relações humanas. Uma empresa pode definir metas, indicadores e responsabilidades, mas não consegue determinar o que uma promoção significará para alguém, o que uma demissão despertará em outra pessoa ou por que um profissional permanece durante anos em uma situação que afirma desejar abandonar. Por trás de um cargo existe uma história. Por trás de uma decisão profissional existe uma subjetividade. Por trás de uma avaliação de desempenho existe alguém que pode experimentar reconhecimento, vergonha, orgulho, medo, alívio ou fracasso. Uma mesma situação pode produzir efeitos completamente diferentes em pessoas diferentes, porque ninguém chega ao trabalho apenas com suas competências técnicas. Cada pessoa leva consigo sua história, seus vínculos, suas expectativas, suas inseguranças, suas experiências anteriores e sua maneira singular de interpretar aquilo que vive.

Essa percepção foi se tornando cada vez mais importante para mim. Eu passei a perceber que não era possível compreender completamente o trabalho sem considerar o sujeito que trabalha. Não era possível falar apenas sobre produtividade sem pensar no significado que produzir tem para cada pessoa. Não era possível falar apenas sobre liderança sem pensar na relação de cada um com autoridade, reconhecimento, responsabilidade e poder. Não era possível falar apenas sobre carreira sem perguntar o que uma carreira representa para alguém, o que está sendo buscado quando se busca uma promoção e o que acontece quando aquilo que foi desejado durante tanto tempo finalmente é alcançado.

Foi nesse lugar que meu interesse pela Psicologia encontrou uma direção mais concreta.

A Psicologia sempre esteve presente como interesse, mesmo antes de se tornar minha profissão. A mente humana, o comportamento, as relações, os conflitos e os processos subjetivos sempre me despertaram curiosidade. Eu queria compreender. Essa palavra atravessa boa parte da minha história. Primeiro vieram os sistemas e a lógica das estruturas. Depois vieram as organizações e a complexidade dos processos. E, em algum momento, percebi que a pergunta que mais me mobilizava não estava apenas em como as coisas funcionavam, mas em como as pessoas viviam aquilo que acontecia com elas.

A formação em Psicologia não apagou minha trajetória anterior. Pelo contrário. Ela acrescentou uma nova possibilidade de leitura. A Psicanálise aprofundou ainda mais essa mudança de perspectiva porque me colocou diante de algo que contraria boa parte da lógica com a qual eu havia trabalhado durante anos: nem tudo pode ser organizado, previsto, explicado ou controlado. Eu vim de uma formação em que encontrar problemas e construir soluções fazia parte do cotidiano. Aprendi a procurar causas, identificar falhas, criar estruturas e implementar melhorias. Na clínica, precisei aprender outra coisa. Precisei aprender a sustentar a pergunta antes de correr para a resposta. Precisei aprender que o sofrimento de uma pessoa não é um problema técnico que precisa ser imediatamente corrigido. Precisei aprender que aquilo que não faz sentido de imediato também merece ser escutado.

A Psicanálise me ensinou a prestar atenção ao que retorna, ao que se repete, ao que escapa, ao que se cala e ao que aparece de maneira inesperada. Ensinou-me que o sujeito não é completamente transparente para si mesmo. Existe uma dimensão da experiência humana que não se apresenta de maneira direta e organizada. Existem desejos que desconhecemos, conflitos que não reconhecemos imediatamente, palavras que nos atravessam sem que saibamos por quê e repetições que continuam acontecendo mesmo quando conscientemente desejamos outra coisa.

Isso também mudou a maneira como passei a olhar para minhas próprias escolhas.

Porque estudar o outro sem olhar para si seria uma contradição. Minha própria análise pessoal tornou-se parte essencial desse percurso. Aprendi, na experiência e na formação, que a escuta clínica não se sustenta apenas no conhecimento teórico. É necessário um trabalho contínuo sobre si, uma disposição para reconhecer os próprios pontos cegos, os próprios limites, as próprias questões e aquilo que pode interferir na maneira como escutamos alguém. Essa experiência me fez compreender que autoconhecimento não é chegar a um ponto em que finalmente sabemos tudo sobre nós mesmos. É construir uma relação mais honesta com aquilo que sabemos e com aquilo que ainda não sabemos.

E essa descoberta é importante quando penso nas minhas diferentes versões.

Durante muito tempo, imaginei que amadurecer significava deixar determinadas versões de mim para trás. Como se crescer fosse substituir uma pessoa por outra. Como se a criança tivesse desaparecido quando me tornei adulta, como se a jovem que fez determinadas escolhas não tivesse mais relação com a profissional que me tornei, como se a profissional de tecnologia tivesse deixado de existir quando escolhi a Psicologia.

Hoje vejo de outra forma. Nós não somos uma sucessão de pessoas que se substituem. Somos uma história que se acumula, se transforma, se reorganiza. Algumas experiências deixam marcas que permanecem. Algumas crenças são revistas. Algumas características se fortalecem. Outras perdem espaço. Algumas partes de nós precisam ser elaboradas. Outras continuam fazendo sentido por toda a vida.

A criança que eu fui ainda existe na minha curiosidade. Na minha vontade de aprender. Na minha necessidade de compreender. Na capacidade de me impressionar com determinadas coisas. Na sensibilidade que permaneceu, apesar de todas as experiências que me ensinaram a ser racional, objetiva e eficiente.

A profissional que eu fui também permanece. Está na forma como organizo ideias, na importância que dou ao estudo, na responsabilidade que tenho diante do trabalho e na capacidade de olhar para problemas complexos sem me assustar imediatamente com eles. Está também na compreensão de que pessoas e sistemas precisam ser vistos dentro do contexto em que estão inseridos.

A líder que eu fui permanece na maneira como compreendo os efeitos que uma posição de autoridade pode produzir. Permanece na atenção que tenho às palavras, aos vínculos e às relações de poder. Permanece na certeza de que uma pessoa pode carregar uma história inteira por trás de uma atitude que, vista de fora, parece apenas profissional.

E a psicóloga que sou hoje não apagou nada disso. Ela escuta tudo isso de outro lugar.

Talvez por isso eu tenha tanto interesse nas pessoas que vivem o mundo do trabalho de maneira intensa. Eu conheço a linguagem desse universo. Conheço a pressão por resultados, a necessidade de corresponder, a responsabilidade de liderar, o peso de uma decisão, a ansiedade diante de uma mudança, a expectativa de reconhecimento e a sensação de que é preciso estar sempre preparado para o próximo desafio.

Também conheço a sedução desse mundo.

O trabalho pode oferecer reconhecimento, pertencimento, identidade, autonomia, desafios intelectuais e uma sensação genuína de realização. Não se trata de considerar o trabalho apenas como fonte de sofrimento. Ele também pode ser uma experiência profundamente significativa. O problema aparece quando o trabalho começa a ocupar todo o espaço disponível para a construção de uma identidade.

Quando uma pessoa passa a acreditar que é aquilo que faz, qualquer ameaça ao trabalho pode ser vivida como uma ameaça ao próprio eu. Uma promoção deixa de ser apenas uma mudança de posição e passa a carregar um significado sobre valor, competência e reconhecimento. Uma avaliação negativa pode ser sentida não apenas como um feedback sobre o desempenho, mas como uma confirmação de uma antiga sensação de não ser suficientemente boa. Uma demissão pode ultrapassar a ruptura profissional e atingir diretamente a maneira como alguém se enxerga. Até mesmo uma pausa, que deveria representar descanso, pode ser acompanhada pela sensação de estar ficando para trás, de perder relevância ou de deixar de ser necessária. O erro, que deveria fazer parte de qualquer processo de trabalho e de aprendizagem, pode ser vivido como uma ameaça à própria identidade. Quando isso acontece, a fronteira entre quem somos e aquilo que fazemos se torna tão estreita que já não conseguimos perceber com clareza onde termina o profissional e começa o sujeito. É nesse lugar que a escuta clínica ganha importância. Não para oferecer fórmulas sobre como equilibrar a vida, nem para transformar o sofrimento em uma questão de produtividade ou apresentar estratégias prontas para lidar com o estresse, mas para compreender o que está realmente em jogo para aquela pessoa. O que significa fracassar para ela? O que significa ser reconhecida? O que está sendo buscado naquela promoção que parece tão importante? Por que dizer não se tornou tão difícil? O que faz alguém permanecer em uma condição que afirma não suportar mais? O que existe por trás da culpa quando finalmente consegue descansar? O que está sendo protegido quando alguém diz que não pode parar? Essas perguntas não encontram respostas universais porque cada sujeito estabelece uma relação própria com aquilo que vive. A mesma situação que para uma pessoa representa uma oportunidade pode, para outra, representar uma ameaça. A mesma promoção que produz satisfação em alguém pode despertar ansiedade em outra pessoa. O mesmo reconhecimento que fortalece um sujeito pode criar, em outro, a obrigação de provar continuamente que merece estar naquele lugar. É justamente essa singularidade que me interessa na clínica. Ao longo da minha trajetória, aprendi que escutar alguém não significa apenas ouvir aquilo que foi dito, mas prestar atenção à maneira como essa pessoa constrói sua narrativa, às palavras que escolhe, às expressões que retornam, às contradições que aparecem, aos silêncios que interrompem uma história e às situações que parecem se repetir. Existe uma diferença importante entre ouvir uma história e acompanhar o modo como alguém se coloca dentro dela. Quando uma pessoa conta o que viveu, ela também revela, muitas vezes sem perceber, a maneira como interpreta a própria experiência, aquilo que considera importante, aquilo que minimiza, aquilo que justifica e aquilo que permanece difícil de nomear. A escuta clínica abre espaço para que essa narrativa possa ser interrogada pelo próprio sujeito, sem que seja necessário oferecer imediatamente uma explicação ou uma conclusão.

Essa forma de escutar exige tempo, e o tempo se tornou um elemento cada vez mais raro atualmente. Estamos acostumados à velocidade das respostas, à disponibilidade permanente de informações e à promessa de que praticamente qualquer dificuldade pode ser solucionada por meio da ferramenta adequada. A tecnologia tornou muitas coisas mais rápidas e eficientes, mas a subjetividade não acompanha necessariamente essa velocidade. Uma experiência pode levar anos para adquirir um significado diferente. Uma perda pode precisar de tempo para ser elaborada. Uma escolha pode continuar sendo revisitada muito depois de ter sido feita. Uma palavra ouvida na infância pode permanecer silenciosamente presente até que uma experiência posterior lhe dê outro sentido. Existem questões que precisam retornar, ser contadas novamente, olhadas por outros ângulos, antes que o sujeito consiga reconhecer nelas alguma coisa de sua própria história. A clínica respeita esse tempo porque nem tudo aquilo que importa pode ser acelerado.

Essa é uma diferença que considero especialmente significativa quando penso na minha própria trajetória. Durante muitos anos, trabalhei em um universo no qual identificar um problema, compreender suas causas e encontrar uma solução fazia parte da rotina. Aprendi a estruturar processos, organizar projetos, estabelecer prioridades, administrar recursos e buscar respostas diante de situações complexas. Essa experiência foi extremamente importante para minha formação e continua presente na maneira como penso e trabalho. Ao mesmo tempo, a experiência clínica me ensinou que existe uma dimensão da vida que não pode ser tratada segundo a mesma lógica. Uma pessoa não é um sistema que apresenta uma falha e precisa ser corrigido. O sofrimento não é um problema técnico. Uma relação não pode ser redesenhada como um fluxo de processos. O desejo não responde a uma lógica de eficiência. E o sujeito não cabe inteiramente em nenhuma explicação.

Foi também nesse ponto que o estudo da Psicologia e da Psicanálise passou a dialogar de maneira tão profunda com a minha trajetória anterior. Sempre fui uma pessoa ligada ao estudo. Antes mesmo de ingressar na graduação em Psicologia, eu já buscava compreender diferentes perspectivas sobre a mente e o comportamento humano. A leitura da obra de Freud, o contato com autores de outras tradições e, posteriormente, a formação acadêmica e clínica consolidaram em mim a convicção de que o trabalho com o sujeito exige estudo permanente. Não considero o conhecimento algo que se adquire de uma vez e depois permanece estático. Quanto mais estudo, mais percebo a extensão daquilo que ainda não conheço. Quanto mais me aproximo de uma teoria, mais consigo enxergar seus alcances e seus limites. E quanto mais escuto pessoas, mais evidente se torna que nenhuma teoria pode substituir a singularidade de quem está diante de nós.

Essa percepção também está relacionada à minha própria análise pessoal. O trabalho sobre si não é, para mim, uma etapa burocrática da formação, mas uma experiência fundamental para quem pretende ocupar o lugar de escuta. É preciso reconhecer que também somos atravessados por nossa história, por nossos desejos, por nossas expectativas e por nossos pontos cegos. Não existe uma posição de absoluta neutralidade no sentido de uma ausência completa de subjetividade, mas existe uma responsabilidade ética de trabalhar continuamente aquilo que pode interferir na escuta do outro. A análise pessoal, o estudo teórico e a supervisão fazem parte desse percurso e sustentam uma formação que não se encerra quando termina uma etapa acadêmica. Ser psicóloga e psicanalista significa continuar estudando, continuar se interrogando e continuar reconhecendo que o sujeito que chega à clínica nunca é apenas aquilo que conseguimos compreender sobre ele.

Essa posição de escuta também está relacionada à maneira como compreendo a diferença. Minha trajetória profissional me colocou em contato com pessoas de diferentes formações, culturas, experiências e maneiras de pensar. Os projetos internacionais de que participei, nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália, ampliaram minha percepção sobre a diversidade dos contextos em que as pessoas vivem e trabalham. Quanto mais entramos em contato com outras realidades, mais difícil se torna sustentar a ideia de que existe uma única maneira correta de construir uma vida. O que em determinado contexto é considerado sucesso pode representar outra coisa em um contexto diferente. O que uma pessoa entende como segurança pode ser vivido por outra como aprisionamento. O que para alguém significa liberdade pode despertar medo em outra pessoa. A singularidade não é um detalhe da experiência humana. Ela é parte constitutiva dela.

Por isso, na clínica, não me interessa oferecer ao outro uma forma ideal de viver. Interessa-me compreender o que está sendo vivido e como aquela pessoa se relaciona com a própria história. Essa posição exige uma ética de não julgamento, não no sentido de deixar de pensar ou de considerar as consequências das escolhas, mas de não partir de uma ideia prévia sobre aquilo que alguém deveria desejar, sentir ou ser. Cada sujeito precisa encontrar uma maneira própria de se posicionar diante daquilo que vive, e o trabalho clínico pode oferecer um espaço para que essa posição seja interrogada.

Quando penso nisso, volto novamente à criança que fui. Hoje eu consigo perceber que não precisava existir uma divisão tão rígida entre a menina curiosa, a profissional de tecnologia, a mulher que ocupou posições de liderança, a estudante de Psicologia e a psicanalista que sou. Durante muito tempo, poderia ter olhado para essas fases como caminhos diferentes, quase como se uma tivesse precisado terminar para que outra pudesse começar. Hoje reconheço uma continuidade mais profunda. Em todas elas existia uma mesma disposição para observar, compreender, organizar perguntas e tentar encontrar sentido naquilo que estava diante de mim. O objeto dessa curiosidade foi mudando, assim como eu mudei, mas a curiosidade permaneceu.

A tecnologia me ensinou a pensar em sistemas e estruturas. A gestão me ensinou sobre organizações e processos. A liderança me colocou diante da complexidade das relações humanas. A Psicologia ampliou minha compreensão sobre a subjetividade. A Psicanálise me ensinou a escutar aquilo que não aparece imediatamente. Nenhuma dessas experiências precisa ser apagada para que outra tenha valor. Elas se sobrepõem e fazem parte de uma mesma história. A minha trajetória não precisa ser linear para ser coerente. Na verdade, olhando para trás, percebo que a linearidade é uma construção que fazemos depois que as coisas aconteceram. Enquanto vivemos, não sabemos necessariamente onde cada experiência vai nos levar.

Foi preciso viver o trabalho em tecnologia para compreender determinadas dimensões das organizações. Foi preciso liderar pessoas para perceber que uma equipe nunca é apenas uma estrutura funcional. Foi preciso conviver com as exigências do mundo corporativo para compreender melhor o impacto que o trabalho pode ter sobre a vida subjetiva. Foi preciso estudar Psicologia para aprofundar perguntas que já me acompanhavam. Foi preciso estudar Psicanálise para compreender que escutar exige outra relação com o tempo, com o conhecimento e com aquilo que não sabemos. Foi preciso passar pela própria análise para experimentar, em primeira pessoa, o que significa colocar a própria história em trabalho.

Quando olho para trás, não quero transformar essa trajetória em uma sequência perfeitamente planejada. Não foi. Muitas escolhas foram feitas sem que eu soubesse exatamente aonde me levariam. Algumas decisões nasceram de desejos claros; outras foram tomadas diante das circunstâncias disponíveis naquele momento. Algumas experiências foram profundamente importantes, outras foram difíceis, e algumas só ganharam significado muito tempo depois. Não preciso organizar tudo isso como se cada acontecimento tivesse sido necessário para que eu chegasse exatamente onde estou. A vida não precisa ter obedecido a um plano para que possamos reconhecer sentido nela.

Também não quero olhar para as minhas versões anteriores como se elas tivessem cometido erros que a mulher de hoje seria capaz de evitar. Seria injusto. A pessoa que fui não tinha o conhecimento que tenho agora. Não conhecia as consequências das escolhas que ainda faria. Não sabia quais caminhos se abririam, quais relações permaneceriam, quais mudanças aconteceriam. Ela estava vivendo com as informações, os desejos, os medos e as possibilidades que tinha naquele momento. Olhar para ela com os olhos de hoje seria esquecer que eu também precisei passar por tudo isso para me tornar quem sou.

Por isso, quando penso nas minhas diferentes versões, não quero colocá-las em julgamento. Quero compreendê-las. Quero reconhecer a menina que sentia intensamente, a jovem que buscava seu caminho, a profissional que aprendeu a assumir responsabilidades, a líder que precisou lidar com pessoas e decisões, a estudante que continuou buscando conhecimento e a mulher que encontrou na Psicologia e na Psicanálise uma maneira de aprofundar uma pergunta que sempre esteve presente: o que faz de nós quem somos?

Essa pergunta atravessa o trabalho, as relações, a família, a carreira, a maneira como nos apresentamos ao mundo e até a maneira como contamos nossas próprias histórias. Quando dizemos quem somos, selecionamos determinadas informações. Falamos da nossa profissão, da nossa formação, das nossas experiências, das nossas conquistas. Tudo isso é verdadeiro, mas nenhuma dessas coisas esgota uma pessoa. Um currículo registra uma parte da trajetória. Uma biografia registra outra. Uma conversa revela outra. Uma análise pode colocar em movimento aspectos que nunca apareceriam em uma apresentação formal. Existe sempre algo que permanece além da narrativa que conseguimos construir sobre nós mesmos.

É justamente por isso que continuo interessada na escuta. Escutar significa abrir espaço para que uma pessoa possa encontrar palavras para aquilo que ainda não conseguiu organizar. Significa permitir que uma história seja contada sem a obrigação de chegar rapidamente a uma conclusão. Significa reconhecer que, muitas vezes, o sujeito já sabe racionalmente o que deveria fazer, mas ainda precisa compreender por que não consegue fazê-lo. Significa considerar que uma dificuldade aparentemente objetiva pode estar relacionada a questões muito mais profundas. E significa aceitar que a resposta não pertence ao profissional que escuta, mas precisa ser construída pelo próprio sujeito.

Essa compreensão também modificou a maneira como penso o conhecimento. Sempre fui muito ligada ao estudo e continuo acreditando profundamente em sua importância. Ao mesmo tempo, aprendi que conhecer uma teoria não significa conhecer uma pessoa. Uma teoria pode oferecer instrumentos para pensar, mas não pode substituir o encontro com a singularidade. O conhecimento não nos dá autorização para acreditar que sabemos mais sobre o outro do que ele próprio sabe. Ele nos dá melhores condições para formular perguntas, reconhecer nuances e sustentar uma escuta mais responsável.

Essa é uma posição que considero essencial na clínica. Existe responsabilidade no lugar que ocupamos, mas também existe humildade. Não estamos diante de pessoas para dizer como elas devem viver. Estamos diante de sujeitos que possuem uma história que merece ser escutada e interrogada. O sofrimento pode ser compreendido, elaborado e transformado, mas não existe uma fórmula universal para isso. Cada pessoa precisa encontrar sua própria maneira de lidar com aquilo que a constitui.

Quando penso novamente naquela criança, percebo que muitas das coisas que hoje fazem parte de mim já estavam presentes de alguma forma. A curiosidade, a intensidade, a vontade de compreender, a atenção às pessoas, a busca por conhecimento. O que mudou foi a maneira de olhar para tudo isso. Durante uma parte da vida, procurei respostas. Hoje me interesso também pela qualidade das perguntas. Durante anos, aprendi a resolver problemas. Hoje reconheço o valor de permanecer diante de uma questão antes de transformá-la em problema. Durante muito tempo, o conhecimento esteve associado à capacidade de saber. Hoje ele também está associado à capacidade de reconhecer o que ainda não sabemos.

Essa mudança não representa uma rejeição daquilo que fui. Representa uma ampliação. A mulher que sou hoje não precisou abandonar a profissional que fui. A psicóloga não precisou apagar a pessoa formada em exatas. A psicanalista não precisou deixar de valorizar estrutura, conhecimento e pensamento. Todas essas dimensões convivem em mim e participam da maneira como vejo o mundo.

Quando penso nas minhas versões anteriores, sinto mais vontade de conversar com elas do que de corrigi-las. Eu gostaria de contar à criança que ela não precisava ter tanta pressa de crescer, mas não gostaria de tirar dela a experiência de descobrir. Gostaria de dizer à jovem que algumas escolhas só seriam compreendidas mais tarde, mas não gostaria de retirar dela o direito de experimentar. Gostaria de dizer à profissional que nem tudo precisava ser resolvido imediatamente, mas não gostaria de diminuir a capacidade que ela desenvolveu de enfrentar situações complexas. Gostaria de dizer à mulher que ocupou posições de liderança que cuidar de pessoas não significava controlar seus caminhos, mas reconheço que foi justamente a experiência de liderar que me ensinou muito sobre os limites do controle.

Cada versão tinha seu tempo e suas necessidades. Cada uma estava tentando construir alguma coisa. E eu não quero mais exigir que nenhuma delas soubesse antecipadamente aquilo que só consegui compreender depois.

Não posso voltar ao passado levando comigo o conhecimento que tenho hoje. E não sei se gostaria de fazer isso. Retirar todas as dúvidas também retiraria uma parte importante da experiência de descobrir. Algumas das coisas mais significativas da minha trajetória aconteceram porque eu não sabia exatamente onde estava indo. Algumas perguntas só apareceram porque uma resposta anterior deixou de ser suficiente. Algumas mudanças só foram possíveis porque uma forma antiga de viver já não dava conta daquilo que eu estava me tornando.

É por isso que hoje consigo olhar para a minha trajetória com mais tranquilidade. Não porque tudo tenha sido fácil ou porque eu considere todas as escolhas acertadas, mas porque não sinto mais a necessidade de transformar o passado em um tribunal. Posso reconhecer erros sem transformar esses erros em identidade. Posso reconhecer dores sem precisar fazer delas o centro da minha história. Posso reconhecer mudanças sem considerar que aquilo que veio antes perdeu seu valor.

A história de uma pessoa não é feita apenas das decisões que deram certo. Ela também é feita das hesitações, das mudanças de direção, das experiências que não saíram como esperado e das coisas que só foram compreendidas depois. Existe uma parte da maturidade que consiste em conseguir olhar para tudo isso sem precisar reduzir a própria história a uma narrativa de sucesso ou fracasso.

Hoje, quando penso em quem sou, não encontro uma única resposta. Sou psicóloga e psicanalista, mas também sou resultado de uma longa trajetória na tecnologia, na gestão e na liderança. Sou alguém que passou muitos anos trabalhando com sistemas e organizações e que hoje se dedica a compreender sujeitos. Sou alguém que valoriza profundamente o conhecimento, mas que aprendeu a respeitar os limites de qualquer teoria. Sou alguém que acredita na importância da escuta porque experimentou, ao longo da própria vida, o quanto uma pessoa pode mudar quando encontra um espaço em que sua história pode ser dita sem precisar ser imediatamente corrigida.

E ainda existe muito que não sei sobre mim. Isso não me incomoda como antes.

Não sinto mais que preciso chegar a uma definição final para poder dizer quem sou. Uma pessoa não é um conceito acabado. Somos atravessados pelo tempo, pelas experiências, pelos encontros e pelas perdas. Mudamos de posição diante das coisas. Reinterpretamos acontecimentos. Descobrimos desejos. Abandonamos outros. Aprendemos a dizer não. Aprendemos a dizer sim. Descobrimos limites que antes não reconhecíamos e possibilidades que antes não conseguíamos imaginar.

A vida não termina de nos apresentar a nós mesmos.

Por isso, quando penso em todas as minhas versões, não quero escolher qual delas é a verdadeira. Todas foram verdadeiras dentro do tempo em que existiram. A criança que eu fui é parte de mim. A jovem que fez escolhas que hoje compreendo de outra maneira também é. A profissional de tecnologia continua presente na forma como penso. A líder continua presente na maneira como compreendo relações e responsabilidades. A estudante continua presente na necessidade de continuar aprendendo. A psicóloga está presente na escuta. A psicanalista está presente na disposição de permanecer diante das perguntas.

E eu continuo me tornando.

Essa talvez seja a única certeza que consigo sustentar sem precisar transformá-la em uma resposta definitiva: ainda estou em processo. Ainda posso mudar. Ainda posso aprender. Ainda posso descobrir coisas sobre mim que hoje não conheço. Ainda posso encontrar novas formas de trabalhar, de pensar, de escrever, de escutar e de estar com as pessoas. Ainda posso ser surpreendida pela minha própria história.

Quando penso nisso, volto à criança do início.

Eu gostaria de dizer a ela que ela pode diminuir o passo. Que não precisa correr para chegar a uma versão pronta de si mesma. Que não existe uma versão final esperando no futuro, como se a vida fosse uma sequência de etapas até finalmente alcançarmos quem deveríamos ser. Existe o caminho, e existe a pessoa que vai se transformando enquanto caminha.

Eu gostaria de dizer a ela que sentir profundamente não é algo de que precise se envergonhar. Que sua curiosidade vai acompanhá-la por muito tempo. Que sua vontade de compreender vai levá-la por caminhos que ela ainda não consegue imaginar. Que ela vai conhecer o mundo da tecnologia, da gestão, da liderança, da Psicologia e da Psicanálise. Que vai descobrir que todas essas coisas podem conversar entre si. Que vai perceber que sua história nunca foi tão fragmentada quanto parecia.

E diria também que ela não precisa ter medo de mudar. Porque algumas mudanças não são abandono. São continuidade.

Há caminhos que parecem novos quando, na verdade, estão nos aproximando de perguntas que carregamos há muito tempo. Há escolhas que parecem rupturas quando, olhando de perto, revelam uma busca que já estava presente. Há momentos em que pensamos estar começando uma nova história e descobrimos, anos depois, que estávamos apenas dando outro nome a uma pergunta antiga.

O ChatGPT disse:

A minha pergunta continua sendo o humano: o que nos move, o que nos faz sofrer, o que desejamos, o que repetimos sem compreender inteiramente, o que tentamos esconder de nós mesmos e dos outros, o que buscamos nas relações que estabelecemos e o que fazemos com aquilo que recebemos da nossa história. Interessa-me compreender não apenas aquilo que uma pessoa faz, mas também aquilo que existe por trás de suas escolhas, das suas dúvidas, das suas contradições e das formas que encontra para seguir vivendo. Interessa-me aquilo que não aparece imediatamente, aquilo que não pode ser reduzido a um comportamento observável ou a uma explicação pronta, porque é justamente nessa dimensão mais complexa e singular que encontro uma das maiores riquezas da experiência humana.

Não tenho a pretensão de responder definitivamente a essas perguntas, porque quanto mais estudo, escuto e observo, mais compreendo que algumas questões não se encerram em uma resposta. Elas se transformam à medida que nós também nos transformamos. Uma pergunta que fazemos aos vinte anos pode continuar conosco aos quarenta, mas já não significa exatamente a mesma coisa. A experiência modifica aquilo que perguntamos, assim como modifica aquilo que conseguimos escutar. Por isso, hoje prefiro permanecer em uma posição de curiosidade, continuar estudando, escrevendo, pensando e escutando, sem a necessidade de transformar tudo aquilo que encontro em uma conclusão. Existe, para mim, um valor muito grande em poder permanecer diante de uma questão, reconhecendo que nem sempre compreender significa chegar imediatamente a uma resposta.

Quando olho para a minha trajetória, percebo que essa disposição para continuar aprendendo atravessa diferentes momentos da minha vida. Ela estava presente quando escolhi a Ciência da Computação, quando me aprofundei em Administração e Engenharia de Produção, quando construí minha carreira na tecnologia, quando assumi posições de liderança e passei a lidar mais diretamente com pessoas, quando decidi estudar Psicologia e, posteriormente, quando encontrei na Psicanálise uma forma de aprofundar questões que já me acompanhavam há muito tempo. Em cada uma dessas etapas, eu estava diante de um universo diferente, mas existia uma continuidade que só consigo enxergar agora. Havia sempre o desejo de compreender melhor, de ir além da superfície, de entender como as coisas funcionam e, principalmente, de entender o que acontece com as pessoas dentro das estruturas que construímos.

Talvez seja por isso que hoje eu não veja minha trajetória como uma sequência de mudanças, mas como um percurso que foi ganhando novas camadas. A tecnologia não ficou para trás quando entrei na Psicologia. A experiência em gestão não deixou de existir quando comecei a atuar na clínica. A liderança não desapareceu quando passei a ocupar outro lugar diante das pessoas. Tudo isso continua fazendo parte da minha maneira de pensar e de escutar. A diferença é que hoje consigo olhar para essas experiências com outra perspectiva e perceber que cada uma delas me ensinou alguma coisa que continua presente. A formação em exatas me ensinou a buscar estrutura e coerência; a experiência profissional me ensinou sobre organizações, responsabilidades e relações de trabalho; a liderança me ensinou sobre pessoas e sobre os efeitos que nossas posições produzem nos outros; a Psicologia ampliou minha compreensão sobre a subjetividade; e a Psicanálise me ensinou a respeitar aquilo que não se apresenta de maneira imediata e que não pode ser inteiramente capturado por nenhuma explicação.

É também por isso que, quando olho para as mulheres que fui, não sinto vontade de escolher qual delas representa a minha verdadeira identidade. Todas elas fazem parte de mim, inclusive aquelas que tomaram decisões que hoje eu faria de outra maneira. A criança que eu fui não precisava conhecer a mulher que eu me tornaria. A jovem que fez determinadas escolhas não tinha como antecipar tudo o que viria depois. A profissional que construiu uma carreira na tecnologia não tinha obrigação de saber que, anos mais tarde, encontraria na Psicologia um caminho tão significativo. Cada uma dessas versões viveu a partir das possibilidades que tinha naquele momento, e é injusto olhar para qualquer uma delas usando exclusivamente o conhecimento que só adquiri depois.

Por isso, quando penso no passado, prefiro trocar a cobrança pela compreensão. Não significa romantizar aquilo que foi difícil ou fingir que todas as escolhas foram acertadas. Significa reconhecer que uma pessoa pode ter feito o melhor que conseguia fazer em determinado momento e, ainda assim, descobrir depois que gostaria de ter escolhido de outra maneira. Significa aceitar que amadurecer também envolve olhar para algumas decisões antigas e perceber que já não somos a mesma pessoa que as tomou. Existe algo de profundamente humano nesse movimento, porque mudar também significa poder reinterpretar a própria história sem precisar negá-la.

Quero conseguir olhar para a criança que fui e reconhecer a importância de ela ter sentido tanto, de ter sido curiosa e de ter buscado compreender o mundo ao seu redor. Quero olhar para a jovem e lembrar que ela estava tentando encontrar seu caminho com os recursos que possuía naquele momento, mesmo quando não tinha clareza sobre onde aquele caminho terminaria. Quero olhar para a profissional e reconhecer a dedicação, a competência e tudo aquilo que construiu ao longo dos anos. Quero olhar para a líder e lembrar das responsabilidades que assumiu, das pessoas que acompanhou, dos conflitos que precisou enfrentar e de tudo o que aprendeu sobre relações humanas dentro das organizações. Quero olhar para a estudante e agradecer por ela ter mantido viva a curiosidade que sempre esteve presente. Quero olhar para a psicóloga e reconhecer a coragem de começar uma nova formação, aprofundar conhecimentos e se colocar diante de uma profissão que exige uma relação tão particular com o outro. E quero olhar para a psicanalista sem imaginar que chegou a algum ponto final, porque a própria formação me ensinou que ocupar esse lugar significa permanecer em trabalho, sustentando a análise pessoal, o estudo, a supervisão e a disposição permanente para reconhecer aquilo que ainda não sei.

Quando penso em tudo isso, percebo que não quero chegar a uma versão definitiva de mim mesma. Durante muito tempo, a ideia de realização esteve associada à sensação de finalmente ter encontrado o lugar certo, como se em algum momento da vida fosse possível chegar a uma espécie de conclusão sobre quem somos. Hoje, essa ideia me parece menos interessante. Não acredito mais que precisemos encontrar uma definição final para nós mesmos. Somos atravessados pelo tempo, pelas experiências, pelas relações, pelas escolhas e pelas mudanças, e cada uma dessas coisas participa daquilo que nos tornamos. A identidade não me parece uma resposta pronta, mas uma construção que continua acontecendo enquanto vivemos.

Isso também mudou a maneira como compreendo a própria ideia de sucesso. Durante muitos anos, estive em ambientes nos quais resultados, desempenho, crescimento e reconhecimento tinham um peso importante. Aprendi a trabalhar com metas, responsabilidades e expectativas, e reconheço o valor que existe nessas dimensões. Mas hoje consigo perceber que nenhuma delas, sozinha, responde à pergunta sobre uma vida que faça sentido. É possível alcançar aquilo que se desejou durante muito tempo e ainda assim sentir um vazio que não se explica pela falta de conquistas. É possível ter uma carreira bem-sucedida e não se reconhecer mais naquilo que se faz. É possível ocupar uma posição de destaque e experimentar solidão. É possível ter medo de perder aquilo que se conquistou justamente porque aquela conquista passou a representar uma parte excessivamente grande de quem se acredita ser.

Talvez uma das coisas que mais me interessam na clínica seja justamente poder acompanhar esse momento em que alguém começa a perceber que existe uma diferença entre aquilo que construiu e aquilo que deseja continuar construindo. Muitas vezes, a crise aparece quando uma identidade que funcionou durante muito tempo já não consegue dar conta da pessoa que está se tornando. Isso pode acontecer no trabalho, em uma relação, em uma mudança de carreira, diante de uma perda ou simplesmente quando alguém percebe que passou tantos anos tentando corresponder às expectativas que já não sabe exatamente quais são as próprias. Nessas situações, não se trata necessariamente de abandonar tudo e começar novamente. Antes disso, existe um trabalho de escuta que permite compreender o que aquela insatisfação está dizendo e o que, dentro daquela história, pede para ser revisto.

Essa é uma das razões pelas quais acredito que a clínica não deve oferecer respostas prontas sobre como uma pessoa deveria viver. O que faz sentido para um sujeito pode não fazer sentido para outro, e mesmo aquilo que fez sentido para nós em determinado momento pode deixar de fazer sentido posteriormente. A escuta permite que essas mudanças possam ser reconhecidas sem que imediatamente sejam transformadas em fracasso. Permite que uma pessoa perceba que mudar de desejo não significa necessariamente ter errado no passado. Às vezes, significa apenas que a pessoa mudou.

Eu também mudei. E ainda vou mudar.

Essa constatação, que em outro momento poderia produzir ansiedade, hoje me parece uma das formas mais bonitas de liberdade. Não saber exatamente quem serei daqui a alguns anos significa que ainda existe espaço para descoberta. Significa que não preciso viver sob a obrigação de permanecer fiel a uma definição antiga de mim mesma. Posso continuar aprendendo, posso mudar de opinião, posso descobrir novos interesses, posso reconhecer limites, posso estabelecer novas prioridades e posso permitir que experiências futuras produzam em mim transformações que hoje ainda não consigo imaginar.

Quando olho para trás, percebo que a vida foi fazendo isso comigo muitas vezes. Algumas mudanças foram planejadas, outras aconteceram sem que eu tivesse controle sobre elas. Algumas foram desejadas, outras exigiram adaptação. Algumas me levaram a lugares que eu buscava conscientemente, enquanto outras só ganharam significado depois. Em todas elas, alguma versão anterior de mim precisou abrir espaço para que outra pudesse existir.

E talvez seja isso que eu diria hoje para todas as minhas versões: nenhuma de vocês precisava saber exatamente quem eu seria. Nenhuma precisava antecipar as perguntas que viriam, as escolhas que ainda seriam feitas ou os caminhos que apareceriam. Vocês só precisavam viver o momento que lhes cabia. A criança precisava crescer no seu próprio tempo. A jovem precisava experimentar. A profissional precisava construir. A líder precisava aprender. A estudante precisava perguntar. A psicóloga precisava começar. A psicanalista precisava continuar se formando. E eu, agora, preciso apenas continuar.

Continuar não significa caminhar sem direção ou abandonar aquilo que já construí. Significa reconhecer que uma história pode permanecer aberta. Significa aceitar que ainda existem perguntas importantes, que ainda existem coisas que não compreendo e que ainda existem versões minhas que sequer conheço. Significa não transformar a necessidade de mudança em uma obrigação de recomeçar o tempo inteiro, mas permitir que aquilo que já sou possa continuar se transformando.

Quando penso na criança que iniciou esta conversa, percebo que a frase que eu gostaria de dizer a ela mudou um pouco. No começo, eu queria apenas pedir que ela não tivesse tanta pressa de crescer. Hoje eu acrescentaria que ela também não precisaria ter tanta pressa de se definir. Ela poderia experimentar diferentes possibilidades sem imaginar que cada escolha precisaria determinar para sempre quem seria. Poderia gostar de coisas diferentes, mudar de ideia, descobrir novos caminhos e perceber que uma pessoa pode carregar dentro de si interesses aparentemente distantes e ainda assim existir uma profunda coerência entre eles.

Eu diria a ela que um dia compreenderia que sua história não seria linear, mas que isso não seria um problema. Que ela poderia passar pela tecnologia, pela gestão, pela liderança, pela Psicologia e pela Psicanálise e, ao olhar para trás, perceber que não havia perdido tempo em nenhum desses lugares. Cada experiência teria deixado uma marca, uma pergunta, uma habilidade, uma memória ou uma forma diferente de olhar para o mundo. Algumas coisas seriam esquecidas, outras permaneceriam, e outras ainda voltariam muitos anos depois com um significado completamente diferente.

Eu diria também que ela aprenderia que ser forte não significa não precisar de ninguém, que conhecer muito não significa saber tudo, que cuidar dos outros não significa conseguir resolver a vida de ninguém e que escutar não significa ter respostas. Aprenderia que existe força em reconhecer limites, maturidade em mudar de posição e coragem em admitir que uma escolha já não faz sentido. Aprenderia que não existe contradição em ser racional e sensível, em gostar de sistemas e de pessoas, em trabalhar com tecnologia e se interessar pela subjetividade, porque a complexidade de uma pessoa não precisa caber em uma única definição.

E, se depois de tudo isso ela me perguntasse se eu finalmente descobri quem sou, eu não responderia com uma definição. Diria que descobri algumas coisas, que compreendi outras e que ainda existem muitas que permanecem em aberto. Diria que hoje me reconheço naquilo que construí, mas também naquilo que ainda desejo compreender. Diria que não preciso mais chegar a uma versão final de mim mesma para sentir que a minha história tem sentido.

A minha história tem sentido simplesmente porque continua.

Continuo sendo aquela pessoa que quer compreender o humano, que se interessa pelo que existe por trás das aparências, que acredita no valor do estudo e que encontrou na escuta uma maneira de estar com o outro. Continuo carregando comigo a experiência de tantos anos na tecnologia e na gestão, as relações que construí, os lugares por onde passei, os desafios que enfrentei e tudo aquilo que aprendi sobre trabalho, liderança e organizações. Continuo carregando também as perguntas que a Psicologia e a Psicanálise trouxeram para a minha vida e a compreensão de que algumas perguntas são mais importantes do que a necessidade de encontrar respostas rápidas.

Quando olho para todas as mulheres que fui, não quero mais perguntar qual delas estava certa. Quero reconhecer que cada uma fez parte da construção da mulher que sou hoje. Algumas precisaram aprender pela experiência aquilo que outras só compreenderiam depois. Algumas tiveram medo. Algumas foram exigentes demais consigo mesmas. Algumas quiseram controlar o que não podia ser controlado. Algumas tiveram pressa. Algumas simplesmente seguiram em frente sem saber exatamente para onde estavam indo. Todas, de alguma maneira, estavam tentando viver.

E é isso que eu aprendi a fazer com mais delicadeza: olhar para uma vida sem exigir que ela tenha sido perfeita para que possa ser reconhecida como uma boa vida.

Não preciso apagar as contradições para encontrar coerência. Não preciso transformar todas as escolhas em acertos. Não preciso fingir que determinadas experiências não doeram. Não preciso negar o que gostaria de ter feito diferente. Posso olhar para tudo isso e reconhecer que uma trajetória é feita também dessas imperfeições, dessas mudanças e dessas partes que permanecem sem uma explicação completa.

Hoje, quando penso no futuro, não sinto a mesma necessidade de saber exatamente o que virá. Quero continuar aberta ao que a vida ainda pode apresentar, sabendo que novas experiências podem modificar perguntas antigas e trazer perguntas que ainda não existem. Quero continuar estudando porque sei que o conhecimento não se esgota. Quero continuar escrevendo porque algumas experiências só encontram forma quando passam pela linguagem. Quero continuar escutando porque ainda acredito que existe algo profundamente transformador em oferecer a alguém um espaço em que sua história possa ser dita, pensada e ouvida com respeito.

E quero continuar olhando para mim mesma com essa mesma disposição. Não com a exigência de me compreender, mas com o compromisso de não deixar de me perguntar quem estou me tornando.

Porque, no fim, é essa a pergunta que atravessa todas as minhas versões: não apenas quem eu fui, mas quem estou me tornando enquanto vivo. E essa pergunta continua aberta.

Não como uma falta. Não como uma insuficiência. Mas como possibilidade.

A criança que eu fui queria crescer. A mulher que sou hoje aprendeu que crescer não significa finalmente chegar a algum lugar onde todas as perguntas terminam. Significa poder olhar para o caminho percorrido, reconhecer as pessoas que fomos, compreender um pouco melhor as escolhas que fizemos e continuar caminhando sem precisar saber exatamente qual será a próxima versão de nós mesmos.

Eu não sei quem serei daqui a alguns anos. E, pela primeira vez, isso não me parece algo que precise ser resolvido. Parece apenas que ainda há vida pela frente.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

Postagens Mais Vistas