Existe uma coisa que aparece com bastante frequência no consultório: o desejo de encontrar uma solução.
E não há nada de estranho nisso. Quando estamos sofrendo, queremos sofrer menos. Quando alguma coisa dói, queremos que a dor passe. Quando estamos ansiosos, deprimidos, confusos ou exaustos, é compreensível desejar que alguém nos mostre o caminho para sair dali.
O problema começa quando transformamos esse desejo em uma
exigência: a de que todo sofrimento precisa ser eliminado o mais rapidamente
possível.
Vivemos em uma cultura bastante orientada para a solução.
Há sempre alguma coisa para fazer, corrigir, otimizar, tratar ou eliminar. E
isso também aparece na relação com a psicologia.
Às vezes, o paciente chega ao consultório já sabendo o que
tem.
Eu tenho TDAH. Eu sou narcisista. Eu tenho
trauma. Meu problema é apego. Minha personalidade é dependente. Eu
preciso fazer TCC. Fiquei sabendo que a melhor abordagem é a comportamental,
que direciona você e te ensina a sentir. Quero fazer determinada abordagem
porque é a que funciona para isso.
É claro que essas hipóteses podem fazer sentido.
Diagnósticos são importantes e diferentes abordagens psicológicas têm seus
fundamentos, seus métodos e suas indicações. Mas existe algo interessante
nessa necessidade de chegar com tudo definido. O que aconteceria se, antes
de tentar explicar, classificar e solucionar, pudéssemos simplesmente olhar?
Sentir um pouco. Observar. Perceber o que
acontece dentro de nós. Perguntar se aquela explicação realmente faz
sentido.
E, na relação com o psicólogo, experimentar se existe
espaço para falar, pensar e ser escutado. Perceber se há confiança, se existe
possibilidade de construir um vínculo, se aquela pessoa consegue nos acompanhar
naquilo que ainda nem sabemos nomear. Para mim, é uma das coisas mais difíceis
em uma psicoterapia: tolerar não saber imediatamente. Porque a angústia de
não saber pode ser quase tão desconfortável quanto o próprio sofrimento. E
então surge a tentação de se anestesiar.
Não no sentido literal. Podemos nos
anestesiar de muitas maneiras: procurando uma explicação definitiva, consumindo
incessantemente conteúdos sobre saúde mental, mudando de terapeuta a cada
desconforto, procurando a técnica perfeita, tentando controlar todos os
pensamentos ou transformando cada sentimento em um diagnóstico.
Tudo isso pode produzir uma sensação momentânea de
organização. Mas organizar não é necessariamente compreender. E
aliviar não é necessariamente elaborar. Existe uma diferença importante
entre cuidar do sofrimento e tentar não sentir sofrimento nenhum. Nem todo
sofrimento é um sinal de que alguma coisa precisa ser imediatamente retirada.
O sofrimento é uma informação. Ele pode apontar para
um conflito, uma perda, um limite ultrapassado, um desejo que não reconhecemos,
uma relação que nos machuca ou uma vida que já não está fazendo sentido da
maneira como vinha sendo vivida.
Isso não significa romantizar a dor. Não precisamos
sofrer mais para que a terapia seja “profunda”. Não precisamos recusar alívio,
diagnóstico, medicação ou técnicas que podem ajudar. E certamente não
precisamos transformar sofrimento em uma espécie de prova de maturidade. A
questão é outra.
É possível buscar alívio sem transformar o alívio no único
objetivo. É bom querer que a dor diminua e, ao mesmo tempo, é bom também
ter curiosidade sobre aquilo que ela está tentando dizer. A psicoterapia
não é apenas o lugar onde vamos para encontrar uma resposta. É
também o lugar onde aprendemos a fazer perguntas melhores.
Antes de tentar fazer a dor desaparecer, será que podemos entender um pouco melhor o que está acontecendo? Porque quando conseguimos finalmente sentir aquilo que estávamos desesperados para anestesiar, descobrimos que o sofrimento não era apenas algo a ser eliminado. Era algo que precisava ser escutado, entendido. Elaborado.
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