Às vezes me pergunto o que significa, de fato, ocupar o
lugar de analista.
Não apenas o lugar que a teoria descreve, o lugar de
suposto saber, mas esse lugar concreto, encarnado, de quem chega à sessão com
um corpo. Um corpo que sente sono. Que às vezes se agita. Que se cansa. Que se
interessa. Que se surpreende. Que, de vez em quando, parece saber alguma coisa
antes mesmo que eu consiga formular o que é.
Porque entramos na sessão com o nosso corpo.
E, quando penso nisso, penso também em tudo o que chega
pela porta junto com cada paciente. Casos muito complicados, casos banais,
problemas disfarçados de objetos, de discursos, de sintomas. Alguns tímidos ao
extremo. Outros em que não se consegue interromper, dada a eloquência da fala e
a ininterrupção. Mulheres, homens, adolescentes, crianças. Concretos como as
crianças, abstratos como outros. Céticos e crédulos.
Cada um chega com uma maneira muito própria de estar no
mundo. E você está ali.
Ali, no lugar de suposto saber.
Essa talvez seja uma das posições mais curiosas que já
ocupei. Porque, ao mesmo tempo em que o outro supõe que você sabe alguma coisa,
você precisa sustentar a possibilidade de não saber. E isso é muito diferente
de simplesmente não saber.
Você chega atravessada pela sua própria história, pelo
seu percurso, pela sua análise, por aquilo que aprendeu, pelo que estudou, pelo
que ainda não compreendeu. Seu conhecimento precisa, de alguma maneira, entrar
em suspensão para que você possa estar ali. Não porque ele deixe de existir,
mas porque não pode ocupar todo o espaço.
Você está ali com o seu inconsciente.
Atenção flutuante e muita cobrança.
Você escuta, observa, espera. Tenta não escolher de
antemão o que é importante. Tenta não correr para uma conclusão. E, ao mesmo
tempo, existe uma parte sua que se pergunta se está fazendo certo, se percebeu
alguma coisa, se deixou passar algo, se deveria ter dito outra coisa, se falou
demais, se falou de menos.
Depois, vem a própria análise.
E a supervisão.
E aquela sensação de que, em determinados momentos, tudo
fica embaralhado. O certo é errado, o errado é certo e, de repente, não existe
exatamente certo e errado.
É o que é.
Lembro de ouvir minha supervisora dizer que quem sabe é
quem está ali. O paciente é quem sabe. E, ainda assim, eu me vejo diante da
curiosa condição de ser detentora de um saber que tenho e, ao mesmo tempo, não
sei que tenho.
Talvez seja essa uma das contradições mais interessantes
desse trabalho.
Você estuda para saber, mas precisa aprender a não saber.
Nos intervalos entre uma sessão e outra, há relatórios,
anotações, análises. E ainda mais leitura. Você vai se cercando de montanhas de
livros. Lê autores, lê abordagens, volta para aquilo que já leu, descobre que
não tinha entendido, lê de novo.
Lê para compreender o que aconteceu.
Lê para compreender o que não aconteceu.
Lê porque alguma coisa naquela sessão ficou atravessada e
você ainda não conseguiu nomear.
E a vida vai mudando bruscamente.
Eu venho de uma carreira anterior, em uma área bastante
diferente, e às vezes me pego devaneando em algumas comparações. Olho para o
que fazia antes e para o que faço agora e penso no quanto é estar do outro
lado.
Do outro lado do quê, exatamente, eu nem sempre sei.
Talvez do lado em que as respostas são menos importantes
do que as perguntas. Do lado em que aquilo que não se sabe pode ser justamente
o que precisa permanecer aberto.
E então acontece de um paciente voltar na sessão seguinte
e dizer que lembrou de alguma coisa que eu falei.
Uma frase.
Uma pergunta.
Alguma coisa aparentemente pequena.
E ele volta para beber mais na fonte do próprio
inconsciente.
E, nesse momento, aumenta a pressão.
Aumenta a autocobrança.
Porque agora aquilo que você disse teve um efeito. Ou
talvez tenha tido. E você começa a se questionar.
O que eu disse?
Por que disse?
O que ele escutou?
O que ele fez com aquilo?
O que eu não escutei?
Na verdade, estamos juntos atravessando os fantasmas.
Entre o real, o simbólico e o imaginário.
A realidade do paciente vai surgindo e, ao mesmo tempo,
alguma coisa da minha própria realidade também está ali. Porque eu não
desapareço completamente para que o outro exista. Eu estou presente. Com meu
corpo, minha história, minhas referências, minhas marcas, minhas perguntas.
E existe ainda uma outra coisa que me atravessa: a
tentativa de não psicoeducar e, ao mesmo tempo, perceber que, às vezes, já
estou psicoeducando.
Entre uma coisa e outra.
Entre aquilo que eu gostaria de sustentar e aquilo que
escapa.
Depois, quando a sessão termina, eu me atenho ao meu
olhar, ao meu sentido, ao que aconteceu ali. Às vezes sem palavras mesmo para
nomear. Outras vezes, nítido como a luz.
E isso também é curioso.
Porque há momentos em que alguma coisa simplesmente
acontece na sessão e você não sabe explicar exatamente o que foi. Você sabe que
houve alguma coisa. Mas não sabe ainda dizer o quê.
E talvez seja preciso suportar isso também.
É uma profissão perigosa. Como diz sempre minha
supervisora: "é profissão perigo".
É, ao mesmo tempo, uma profissão solitária e uma
profissão lotada de gente. Lotada de pensadores, autores, teorias, abordagens.
Você está sozinha diante de alguém e, de algum modo, está acompanhada por uma
biblioteca inteira.
Lendo, lendo e lendo.
Se construindo e desconstruindo.
E quando termina o dia, depois de várias sessões, você
chega em casa e já está em outros papéis. Você é outra coisa. Você é você mesma
fora daquele lugar.
Mas ainda carrega um pouco do que aconteceu.
E quer se recolher.
Não cabe mais nada.
O silêncio é necessário.
Só que o silêncio nem sempre é possível. E talvez nem
seja justo com os seus, que chegam falando muito, contando coisas, pedindo
atenção, solicitando você.
E então você se olha e se pergunta:
Será que sou uma farsa?
Será que realmente é minha escolha?
É o meu desejo?
Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis.
Porque desejar alguma coisa não significa necessariamente
encontrar prazer em todos os seus aspectos. E escolher alguma coisa não
significa nunca se arrepender dela.
Comecei assim e estou aqui, nesse ponto, me havendo com
ele, com o meu desejo.
Dia após dia.
Entre arrependimentos e comemorações.
Às vezes me sinto abençoada por ter “vencido na vida” e
estar podendo estar aqui. Ter chegado até aqui. Poder escolher, em alguma
medida, o que faço da minha vida.
Em outras, me lamento pela falta de raciocínio crítico
que talvez tenha existido em algumas escolhas. Por uma idealização. Por ter
sido tão idealista a ponto de acreditar que desejo é para ser vivido em
intensidade.
Como se desejar fosse suficiente.
Como se dinheiro não comprasse quase nada importante.
E, ao mesmo tempo, me havendo com a falta dele.
Porque dinheiro não compra tudo. Mas a falta dele
também atravessa tudo.
E talvez seja aí que eu esteja agora: tentando sustentar
as duas coisas sem precisar resolver imediatamente nenhuma delas.
O desejo e a realidade.
A escolha e o arrependimento.
O saber e o não saber.
A teoria e o corpo.
O analista e a pessoa que existe antes, durante e depois
da sessão.
Talvez ocupar esse lugar seja, em alguma medida, estar
sempre entre essas coisas.
E continuar me havendo com meu desejo.
Dia após dia.
Complicado demais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário