Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Reparação

Comecei esse blog respondendo cartas (e-mails) de amigos, e virou uma profissão: responder cartas. E por que escrever cartas e não telefonar e falar ao vivo? Porque escrever me faz parar, pensar, escrever, corrigir, ir, voltar, gerar algo de muito genuíno, muito cuidadoso, escolher as palavras certas, me fechar um tempo, sem distrações, e me imaginar no lugar da pessoa, sentir o que sente, tentar entender e tentar encontrar uma forma de dizer aquilo que, muitas vezes, é difícil dizer de outra maneira. E foi assim que meu blog foi surgindo, faz anos, antes do celular, antes da internet, antes da IA, antes do imediatismo.

Como me mudei de cidade, os amigos me escreviam e-mails e eu os respondia, não na correria do dia a dia, mas no momento único, reservado, escolhido, intenso. E assim fui respondendo, sanitizando e postando. Primeiramente em um site de “escritores”, com regras e etc., depois decidi sair do site, para ter algo mais autoral. Um blog. Só que entendi que, nesse site, o direito autoral era deles e perdi meus muitos textos. Engraçado como somos sempre “abusados”, invadidos e, quando nos damos conta, parece tarde demais. Perdi muitos textos, muitas cartas respondidas, mas eu tinha ainda alguns rascunhos, algumas outras tantas. E comecei meu blog. Arquivando para uso próprio, para mim mesma. Sem perceber (porque nem controlava exibições e quem entrou ou deixou de entrar), mas cada vez tinha mais gente lendo os textos ou navegando por eles. E fui escrevendo.

E hoje, recebo, como nos velhos tempos, um e-mail de uma amiga distante, com quem não falava há 10 anos. Ela mora fora do país e, acreditem, achei na caixa de spam. Estava lá já fazia 2 meses. Foi uma sensação diferente. Me lembrei de como era antes, tantas coisas juntas e misturadas. Mas enfim, está aqui a resposta. Respondi o e-mail, como nos velhos tempos, e segue aqui também.

E que venham outros emails. ...................

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Olá, minha amiga.

Fiquei pensando nessa palavra, reparação. Sei que existem coisas que não se reparam. Algumas injustiças chegam tarde demais para que alguém faça alguma coisa. Algumas perdas não têm conserto. Algumas pessoas não voltam, alguns lugares não nos querem de volta e algumas coisas que nos disseram ou fizeram ficam na memória de um jeito que não dá para simplesmente apagar. Mas pensei que, se eu não posso reparar o que aconteceu, posso pelo menos escrever para você. E talvez escrever seja uma forma pequena, mas possível, de fazer alguma coisa com tudo isso.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu voltaria para alguns desses momentos com você. Não para mudar o que aconteceu, porque isso eu não posso fazer, mas para que você não precisasse atravessá-los sozinha. Eu queria ter estado perto quando sua confiança foi quebrada por aquela injustiça. Queria ter podido olhar para você naquele momento e dizer que aquilo que fizeram não era uma medida do seu valor. Que uma decisão injusta continua sendo injusta mesmo quando vem de alguém que tem poder para tomá-la. E que você não precisava transformar aquilo em uma dúvida sobre quem você era.

Eu teria ficado ao seu lado quando você perdeu sua amiga. Não sei se teria encontrado alguma coisa bonita para dizer, porque existem momentos em que nenhuma frase serve para nada. Talvez eu só segurasse sua mão. Ter ido até lá, ter se despedido, ter estado ali, foi o que você conseguiu fazer com o amor que tinha. E depois vieram as cartas, as lembranças, a falta. Acho que algumas amizades continuam existindo justamente assim, no que ficou. Não porque a dor diminui, mas porque aquela pessoa passa a morar em outro lugar da nossa vida.

Quando sua mãe faleceu, eu gostaria de ter podido estar perto de você também. Não para tentar diminuir a sua dor, porque algumas dores precisam mesmo ser vividas. Mas para que você não precisasse ficar se perguntando tantas vezes se fez o suficiente. Você esteve lá. Você segurou a mão dela. Você foi filha até onde era possível ser filha. Sei que o luto tem essa capacidade cruel de fazer a gente voltar às cenas procurando alguma coisa que poderia ter sido diferente. Uma fala, uma decisão, mais um abraço, mais um dia. Mas o amor não se mede pela quantidade de coisas que conseguimos fazer antes de alguém partir.

Depois veio a perda do trabalho, e eu imagino que não tenha sido só um emprego que você perdeu. Existe alguma coisa muito particular em perder um lugar que a gente construiu durante anos. Mexe com a nossa identidade, com a nossa segurança, com a maneira como imaginávamos o futuro. E, ainda assim, olhando de fora, eu consigo ver que aquela perda não levou embora a profissional que você tinha se tornado. Levaram um cargo, uma função, um lugar. O resto continuou em você. A experiência, o conhecimento, a história, as coisas que você aprendeu e até aquilo que você descobriu sobre as pessoas nesse processo.

E então veio o diagnóstico. E acho que aqui eu não teria nenhuma frase bonita para te dizer. Eu não diria para você ser forte. Não diria que tudo acontece por uma razão. Não diria que você precisava enxergar o lado bom. Eu só sentaria ao seu lado. Porque tem momentos em que a única coisa possível é estar. Você poderia chorar, ter medo, ficar com raiva, não querer falar, não querer ser otimista. Você não precisaria me tranquilizar. Nem tranquilizar ninguém. Você poderia simplesmente ser uma pessoa assustada diante de alguma coisa que assustava de verdade.

E foi justamente depois de tudo isso que você decidiu empreender. Acho que gosto particularmente dessa parte da sua história porque ela não parece uma história de superação dessas que a gente gosta de contar depois que tudo passa. Parece mais uma história de alguém que, no meio da própria vida, foi encontrando outros caminhos. Você foi estudar, começou outra formação, conheceu outras pessoas, começou a olhar para as coisas de outro jeito. E alguma coisa foi se construindo ali. Não acho que você tenha transformado sofrimento em propósito, porque nem todo sofrimento precisa ter uma finalidade. Acho que você simplesmente foi fazendo alguma coisa com aquilo que a vida foi colocando no seu caminho.

Hoje, olhando para tudo isso, eu não penso em você como alguém que venceu todas essas coisas. Algumas delas você ainda carrega. Outras mudaram de lugar. Algumas deixaram marcas que provavelmente vão continuar aí. E tudo bem. Não gosto muito dessa ideia de que precisamos sair melhores de tudo o que nos acontece. Tem coisa que só machuca mesmo. Tem coisa que leva tempo. Tem coisa que a gente entende anos depois e tem coisa que talvez nunca entenda.

O que eu vejo em você é outra coisa. Vejo alguém que continuou. Mesmo quando não sabia muito bem como. Mesmo quando estava cansada. Mesmo quando a vida não estava correspondendo ao que você tinha imaginado. Você continuou fazendo alguma coisa com a própria história.

E, se eu pudesse te deixar alguma coisa nessa carta, seria isso: você não precisa ser forte o tempo inteiro. Não precisa dar conta de tudo, nem transformar cada dor em aprendizado, nem encontrar uma explicação para cada perda. Você pode simplesmente ser cuidada também. Pode precisar dos outros. Pode não saber. Pode ter medo. Pode voltar atrás. Pode descansar.

E talvez a reparação que eu posso te oferecer seja justamente essa: olhar para tudo o que aconteceu e não deixar que nenhuma dessas coisas seja a história inteira sobre quem você é. Você é minha amiga de infância, com quem compartilhei muita coisa, crescendo juntas, amadurecemos e, várias vezes, experimentamos coisas juntas pela primeira vez. Você é alguém importante demais para ser esquecida, você é alguém que cresceu comigo, que me sustentou, que acreditou junto comigo. Ler seu email, ver seu nome, ver as palavras que você escolheu e me enviou, me bateu uma saudade imensa. Parece que nos falamos pela última vez ontem. Você é ainda muito presente em mim. Você faz parte da minha sanidade.

Quero te dizer, que você é muito mais do que aquilo que fizeram com você, mas também é feita de tudo o que viveu. E eu gosto de pensar que, depois de tanta coisa, você ainda conseguiu se tornar alguém melhor, maior, olhar para dentro, crescer, alguém que também olha para a dor dos outros com cuidado (sim, você sempre foi "diferenciada"). 

Talvez isso diga mais sobre você do que qualquer uma dessas perdas em si.

Fiquei muito feliz de você ter me encontrado. Acho que algumas pessoas reaparecem em momentos muito específicos da nossa vida, e gosto de pensar que não é por acaso.

Com todo o amor que você merece. Bj. Se cuide. 

Eu.

= = = = = = = = = = = = = = 

Olá, saudades, quanto tempo! encontrei seu endereço de email na minha bagunça. (é o mesmo né?)

Não sei nem muito bem por onde começar, depois de tanto tempo sem nos falarmos. Escrevi esse e-mail algumas vezes na cabeça antes de finalmente sentar para escrever. Pensei em você muitas vezes nesses anos, mas sempre aparecia alguma coisa que me fazia adiar. Depois eu escrevo, qualquer hora dessas eu procuro, já faz tanto tempo, vai ficar estranho. E dez anos passaram.

Estou te escrevendo porque, nos últimos tempos, tenho pensado muito na minha história e em algumas coisas que aconteceram comigo. Acho que quando a gente vai ficando mais velha começa a olhar para determinadas situações de outro lugar. Não necessariamente porque entende tudo, mas porque algumas coisas deixam de doer exatamente do mesmo jeito e passam a ocupar outro espaço dentro da gente.

Lembrei de você principalmente quando pensei naquela época do trabalho. Você foi uma das poucas pessoas que soube o quanto aquilo me atingiu. Eu nunca te contei tudo, ou talvez tenha contado de um jeito meio confuso, mas aquela situação mexeu muito comigo. Não foi só perder o lugar ou lidar com aquela injustiça. Foi a sensação de ter acreditado em pessoas e depois descobrir que as coisas eram muito diferentes do que eu imaginava. Durante muito tempo fiquei tentando entender o que eu tinha feito de errado, o que poderia ter percebido antes, por que não me defendi melhor. Hoje consigo olhar para aquilo com um pouco mais de distância, mas ainda é uma história que me atravessa.

Depois disso, perdi uma amiga muito querida. Você se lembra dela. Eu cheguei a te contar sobre a doença e sobre como tudo aconteceu. No fim, fui até a UTI para me despedir. Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Depois vieram as cartas que ela deixou, as lembranças, aquelas pequenas coisas que ficam quando uma pessoa vai embora e que passam a ter um valor enorme. Eu ainda penso nela com frequência. E, como se a vida tivesse resolvido não dar muito intervalo, minha mãe também ficou doente e depois faleceu. Acho que essa é uma daquelas coisas que a gente nunca sabe muito bem como contar. Eu estava com ela, fiz o que consegui fazer, mas durante muito tempo fiquei com aquela sensação de que deveria ter feito mais. É estranho como a morte deixa uma quantidade enorme de perguntas que ninguém consegue responder.

Depois veio a perda do trabalho de novo, de uma outra forma, e eu precisei começar tudo outra vez. E então veio o diagnóstico de câncer (te contei, e acho que foi depois disso que desapareci, não só me distanciei de você mas de todos e tudo ao meu redor). Quando penso nisso tudo junto, às vezes parece que aconteceu com outra pessoa. Em outros dias, parece que foi tudo ontem. Sigo na luta.

Passei muitos anos tentando dar conta de tudo, tentando ser forte, tentando entender, tentando encontrar um sentido. E hoje estou cansada disso. Não quero mais transformar tudo em aprendizado. Algumas coisas foram simplesmente difíceis demais. Foi injustiça demais comigo. Muitas perdas, foram perdas mesmo. Não quero precisar encontrar uma lição bonita para cada coisa que aconteceu.

Depois, decidi empreender e comecei uma nova fase profissional. Estou fazendo coisas que nunca imaginei que faria e, de alguma maneira, fui encontrando outros caminhos. Não é uma história de superação, pelo menos não do jeito que essas histórias costumam ser contadas. Ainda tenho medo, muitas dúvidas, ainda tem coisa que dói. Mas estou aqui.

Está bem difícil, acho que é por isso que pensei em você. Você é muito "diferenciada" (lembra dessa palavra?). Você me faz falta.

Quando lembro daquela época, lembro de pessoas que fizeram parte da minha vida e de como algumas relações importantes ficaram pelo caminho. Você foi uma delas. Não sei se você sabe disso, mas eu guardei muita coisa que você me disse ao longo da nossa amizade. E também uma certa culpa por ter me afastado daquele jeito. A vida foi acontecendo, eu me mudei, fui embora do país, cada uma seguiu seu caminho e, quando percebemos, já tinham passado anos demais.

Não estou escrevendo para cobrar nada. Acho que estou escrevendo porque senti vontade de dizer que lembrei de você e que, olhando para trás, percebo que você esteve presente em momentos importantes da minha vida. E mesmo nesses 10 anos, você esteve comigo, sempre que a fase era mais difícil, eu pensava "o que ela me diria agora?".

Tem uma palavra, que não sai da minha cabeça: reparação. Não sei se ela é possível. Acho que não. Existem coisas que não voltam ao lugar, pessoas que não voltam, situações que não podem ser refeitas. Mas reparação é eu poder falar sobre o que aconteceu, poder olhar para a história, poder te escrever agora. Não sei o que você vai achar desse e-mail depois de dez anos. Espero que não lhe soe tão estranho. Se puder, me conta de você.  

Um beijo. E muito obrigada, você é uma pessoa muito do bem. Lhe Tenho mto carinho, bj


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Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

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Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

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Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
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