Na psicanálise, a queda das garantias nomeia um momento estruturalmente delicado da experiência subjetiva: aquele em que os apoios simbólicos que organizavam a vida deixam de funcionar como antes. Não se trata apenas de perder algo externo, um trabalho, um vínculo, um lugar social, mas de perder a certeza de que esses elementos garantiam um sentido estável para a existência.
As garantias são construções simbólicas. Elas se apoiam em identificações, ideais, promessas herdadas e expectativas de reconhecimento. Família, profissão, amor, pertencimento, mérito, saber: tudo isso pode funcionar como garantia na medida em que oferece ao sujeito uma resposta à pergunta “quem sou eu para o Outro?”. Enquanto essas respostas se sustentam, o sujeito se orienta, mesmo que com conflitos.
A queda das garantias ocorre quando essas respostas falham. O Outro, entendido em psicanálise como o lugar da lei, da linguagem e do reconhecimento, mostra-se inconsistente. O sujeito descobre que não era tão amado, tão necessário, tão escolhido quanto imaginava; ou que o lugar que ocupava não estava garantido por nenhum pacto simbólico sólido. Essa descoberta não é apenas cognitiva, é afetiva e corporal. Ela produz angústia, vergonha, ressentimento, tristeza e também um sentimento de desamparo.
Em Freud, esse momento aparece ligado às experiências de luto e às feridas narcísicas. Algo que sustentava o investimento libidinal é perdido, e o eu precisa retirar essa libido, processo que não ocorre sem dor. Já em Lacan, a queda das garantias se articula à noção de que o Outro não existe como instância plena e consistente. Toda garantia é, em última instância, uma suposição. Quando essa suposição cai, o sujeito se confronta com a falta no Outro e, por consequência, com a própria falta.
Por isso, a queda das garantias costuma ser vivida como humilhação narcísica. Não é apenas “perder”, é descobrir que aquilo em que se apostava como amor, reconhecimento ou pertencimento não tinha a solidez imaginada. O trabalho que parecia família, o amor que parecia incondicional, a posição que parecia merecida, tudo isso revela seu caráter contingente. O sofrimento advém menos da perda em si e mais do colapso da fantasia que a sustentava.
Clinicamente, esse momento é ambíguo. Ele pode levar ao fechamento, à melancolização ou à repetição defensiva de antigas apostas. Mas pode também abrir um trabalho analítico decisivo. Quando as garantias caem, o sujeito já não pode se apoiar nelas para responder pelo seu desejo. Isso o convoca a uma posição mais singular, menos protegida por ideais, mas também menos alienada a eles.
A análise não visa restaurar garantias perdidas nem oferecer novas promessas de completude. Seu trabalho é sustentar a travessia desse vazio sem tamponá-lo rapidamente. Trata-se de permitir que o sujeito reconheça onde apostava em garantias imaginárias, onde buscava amor no lugar de reconhecimento simbólico, onde confundia pertencimento com valor.
A queda das garantias não é, portanto, um erro do percurso, mas um ponto de verdade. Ela revela que nenhuma instância, família, trabalho, amor ou saber, pode assegurar definitivamente o lugar do sujeito. O que resta, após essa queda, não é uma solução pronta, mas a possibilidade de construir laços menos idealizados e um modo de existir que não dependa de promessas de completude. É nesse ponto que a psicanálise aposta: não em garantias, mas na responsabilidade singular do sujeito diante de seu desejo.
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