Vivemos rodeados de pessoas: timelines cheias, grupos ativos, notificações o tempo todo e, ainda assim, uma sensação profunda de solidão tem atravessado cada vez mais as relações humanas. É uma solidão diferente: não a de estar só fisicamente, mas a de não se sentir acompanhado por ninguém, mesmo com uma lista enorme de contatos.
No mundo digital, as conexões acontecem rápido demais. Puxamos assunto com facilidade, mas raramente com profundidade. Conversamos com muitos, mas nos revelamos para poucos. Aprendemos a nos apresentar como versões editadas de nós mesmos, adequadas, interessantes, performadas e, no processo, fomos desaprendendo a intimidade real: aquela que exige tempo, silêncio, vulnerabilidade e presença.
Na psicologia, falamos sobre como o vínculo precisa de continuidade para existir. Relação não se sustenta no fragmento, no recorte, na resposta curta. Relação é algo que se constrói no espaço entre duas presenças. E esse espaço tem sido consumido pela pressa.
O resultado? Muita interação e pouca relação. Muita comunicação e pouca troca. Muita exposição e pouca entrega. É comum ouvir pessoas dizendo que “falam com muita gente, mas não conseguem falar de si com quase ninguém”. E isso não é uma dificuldade pessoal, é um sintoma do tempo em que vivemos. Um tempo em que fomos condicionados a existir para o outro numa lógica de vitrine: mostrar, atualizar, parecer. E não sentir, perguntar, sustentar. As conversas ficam rasas porque estamos cansados demais, dispersos demais, acelerados demais. As relações ficam frágeis porque são construídas em pedacinhos de atenção. A intimidade fica difícil porque exige ritmo lento, e o ritmo lento já não cabe no cotidiano. Mas o corpo percebe. O psiquismo percebe. E a clínica escuta isso diariamente: pessoas exaustas de estar sempre conectadas, mas profundamente famintas por um encontro que realmente lhes toque.
A solidão em alta velocidade nasce dessa contradição: quanto mais nos espalhamos pelas telas, menos nos concentramos em alguém. Quanto mais estamos disponíveis para todos, menos pertencemos a alguém. E não é uma crítica moral, é uma constatação. Somos seres gregários que precisam de profundidade, mas estamos vivendo em ambientes que só estimulam superfície.
Resgatar intimidade hoje é quase um ato contra o tempo. É escolher desacelerar numa era que confunde velocidade com valor. É permitir que a relação se estenda, se construa, se revele no ritmo que ela pede, não no ritmo que o digital impõe. É olhar para alguém de verdade, sem pressa de responder, sem medo de não performar, sem a necessidade constante de ser interessante.
E talvez essa seja uma das maiores potências da psicologia hoje: oferecer um espaço onde a intimidade ainda é possível. Onde o encontro não é rápido, nem reduzido a fragmentos, nem condicionado à performance. Onde existe tempo. Onde existe presença. Onde existe profundidade.
A solidão em alta velocidade só diminui quando recuperamos o direito de nos relacionar no ritmo do humano, não no ritmo da máquina. E, nesse movimento, descobrimos que estar acompanhado não tem a ver com quantidade de conexões, mas com a qualidade de um encontro.
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