Sociedade do Cansaço: por que estamos exaustos? Uma leitura de Byung-Chul Han
A palavra que mais escuto hoje nas clínicas, nas empresas e nas conversas do dia a dia é “cansaço”. Não é aquele cansaço simples, que passa com uma noite bem dormida. É um cansaço que parece estrutural, uma exaustão que não some com férias e não melhora no fim de semana. É um cansaço acompanhado de culpa: “deveria estar rendendo mais”, “eu consigo, só preciso me organizar”, “eu poderia ser melhor”. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro Sociedade do Cansaço, descreve com precisão esse clima emocional do nosso tempo e mostra que não estamos exaustos porque trabalhamos demais, mas porque vivemos presos a um modelo de sociedade que transformou tudo, inclusive a vida interior, em uma corrida de desempenho.
Para Han, houve uma mudança profunda nas formas de organização social. No passado, vivíamos numa sociedade disciplinar, marcada por proibições: “não pode”, “não faça”, “obedeça”. O poder era externo, explícito, autoritário. Hoje, esse modelo praticamente desmoronou. Entramos na sociedade do desempenho, onde o comando é outro: “você consegue”, “você pode tudo”, “é só se esforçar”. Aparentemente, isso parece libertador. Mas é justamente nessa positividade que mora a armadilha. O sujeito contemporâneo não obedece a um chefe rígido: ele se cobra. Ele não precisa mais de vigilância externa porque internalizou a exigência. Se antes o poder proibia, agora ele incentiva e, ao incentivar sem limites, cria um sujeito que se explora sozinho.
É o que Han chama de “sujeito do desempenho”: uma pessoa hiperconectada, multitarefa, sempre disponível, cheia de metas, acelerada e, claro, exausta. Não diz mais “eu devo”, e sim “eu posso”. Mas quando falha, transforma isso em “eu não consigo, por que não sou suficiente?”. A cobrança deixa de ser social e passa a ser existencial. É uma autovigilância que opera disfarçada de liberdade.
Essa nova lógica produz a ilusão de que a produtividade pode ser infinita. Sempre dá para estudar mais, trabalhar mais, treinar mais, render mais, postar mais. A vida vira um projeto interminável de otimização. A pessoa não descansa porque não pode, ou pior, porque sente culpa quando descansa. Na clínica, vemos isso o tempo todo: gente com medo de ficar para trás, pessoas que vivem devendo para si mesmas, trabalhadores que perdem o domingo pensando na segunda, indivíduos que não sabem mais relaxar. Esse sofrimento não é individual; é a expressão de uma sociedade inteira pressionando cada sujeito a ser um microempreendedor de si mesmo.
A violência que Han identifica na atualidade não é a repressão, mas o excesso de positividade. É a violência do “você pode tudo”, que no fundo significa: “se falhar, a culpa é só sua”. Quando tudo se torna possível, qualquer limite vira derrota pessoal. Isso produz um mal-estar profundo, porque ninguém consegue sustentar, na prática, um ideal de autossuficiência permanente.
Não por acaso, o burnout é o grande colapso da nossa época. Não é preguiça, não é falta de resiliência e não se resolve com fim de semana prolongado. Burnout é a falência psíquica diante do infinito. É o corpo dizendo: “não dá mais”. É uma inflamação do existir. O sujeito não está cansado de tarefas, mas de si mesmo enquanto máquina de desempenho.
A tecnologia amplifica esse processo. Não foi ela que criou o cansaço, mas ela tornou tudo mais rápido, mais presente, mais urgente. Vivemos em hiperatenção: mensagens, notificações, múltiplas janelas, prazos simultâneos, uma enxurrada contínua de informação. Isso impede que a mente entre em estados profundos de descanso, tédio ou contemplação. Perdemos o silêncio. Perdemos o ócio. Perdemos até a capacidade de simplesmente estar.
Han diferencia o cansaço ruim (o da exaustão, da cobrança, do limite forçado) do cansaço bom, aquele que abre espaço para a criatividade, para o vazio fértil, para a imaginação. O problema é que o cansaço bom praticamente desapareceu; nem o tédio existe, porque pegamos o celular antes mesmo de percebermos que estamos entediados. Sem tédio, não existe imaginação. Sem pausa, não existe vida interior.
Embora Han não ofereça um manual de soluções, a reflexão dele aponta caminhos importantes. O primeiro é resgatar o direito ao não-fazer, entender que descansar não é perda, mas condição de existência. Outro caminho é reaprender a viver no tempo real, sem responder tudo imediatamente, sem estar sempre disponível. Também é importante cultivar a atenção plena, não o multitasking, e diminuir a tirania de transformar tudo em meta, projeto, desempenho. E, talvez o mais necessário: reumanizar os limites. Errar, pausar, fracassar, cair, tudo isso é profundamente humano. Não é sinal de fraqueza, mas de vida.
A tese central de Han é simples e brutal: estamos cansados porque estamos capturados. A sociedade do desempenho transformou cada indivíduo em gestor, fiscal e carrasco de si mesmo. Ao entender isso, deixamos de culpar o indivíduo e passamos a enxergar o sistema. E, nesse movimento, recuperamos algo que a contemporaneidade tenta roubar de nós: a possibilidade de simplesmente existir sem precisar render o tempo todo.
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