Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Sociedade do Cansaço

Sociedade do Cansaço: por que estamos exaustos?  Uma leitura de Byung-Chul Han  

A palavra que mais escuto hoje nas clínicas, nas empresas e nas conversas do dia a dia é “cansaço”. Não é aquele cansaço simples, que passa com uma noite bem dormida. É um cansaço que parece estrutural, uma exaustão que não some com férias e não melhora no fim de semana. É um cansaço acompanhado de culpa: “deveria estar rendendo mais”, “eu consigo, só preciso me organizar”, “eu poderia ser melhor”. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro Sociedade do Cansaço, descreve com precisão esse clima emocional do nosso tempo e mostra que não estamos exaustos porque trabalhamos demais, mas porque vivemos presos a um modelo de sociedade que transformou tudo, inclusive a vida interior, em uma corrida de desempenho.

Para Han, houve uma mudança profunda nas formas de organização social. No passado, vivíamos numa sociedade disciplinar, marcada por proibições: “não pode”, “não faça”, “obedeça”. O poder era externo, explícito, autoritário. Hoje, esse modelo praticamente desmoronou. Entramos na sociedade do desempenho, onde o comando é outro: “você consegue”, “você pode tudo”, “é só se esforçar”. Aparentemente, isso parece libertador. Mas é justamente nessa positividade que mora a armadilha. O sujeito contemporâneo não obedece a um chefe rígido: ele se cobra. Ele não precisa mais de vigilância externa porque internalizou a exigência. Se antes o poder proibia, agora ele incentiva e, ao incentivar sem limites, cria um sujeito que se explora sozinho.

É o que Han chama de “sujeito do desempenho”: uma pessoa hiperconectada, multitarefa, sempre disponível, cheia de metas, acelerada e, claro, exausta. Não diz mais “eu devo”, e sim “eu posso”. Mas quando falha, transforma isso em “eu não consigo, por que não sou suficiente?”. A cobrança deixa de ser social e passa a ser existencial. É uma autovigilância que opera disfarçada de liberdade.

Essa nova lógica produz a ilusão de que a produtividade pode ser infinita. Sempre dá para estudar mais, trabalhar mais, treinar mais, render mais, postar mais. A vida vira um projeto interminável de otimização. A pessoa não descansa porque não pode, ou pior, porque sente culpa quando descansa. Na clínica, vemos isso o tempo todo: gente com medo de ficar para trás, pessoas que vivem devendo para si mesmas, trabalhadores que perdem o domingo pensando na segunda, indivíduos que não sabem mais relaxar. Esse sofrimento não é individual; é a expressão de uma sociedade inteira pressionando cada sujeito a ser um microempreendedor de si mesmo.

A violência que Han identifica na atualidade não é a repressão, mas o excesso de positividade. É a violência do “você pode tudo”, que no fundo significa: “se falhar, a culpa é só sua”. Quando tudo se torna possível, qualquer limite vira derrota pessoal. Isso produz um mal-estar profundo, porque ninguém consegue sustentar, na prática, um ideal de autossuficiência permanente.

Não por acaso, o burnout é o grande colapso da nossa época. Não é preguiça, não é falta de resiliência e não se resolve com fim de semana prolongado. Burnout é a falência psíquica diante do infinito. É o corpo dizendo: “não dá mais”. É uma inflamação do existir. O sujeito não está cansado de tarefas, mas de si mesmo enquanto máquina de desempenho.

A tecnologia amplifica esse processo. Não foi ela que criou o cansaço, mas ela tornou tudo mais rápido, mais presente, mais urgente. Vivemos em hiperatenção: mensagens, notificações, múltiplas janelas, prazos simultâneos, uma enxurrada contínua de informação. Isso impede que a mente entre em estados profundos de descanso, tédio ou contemplação. Perdemos o silêncio. Perdemos o ócio. Perdemos até a capacidade de simplesmente estar.

Han diferencia o cansaço ruim (o da exaustão, da cobrança, do limite forçado) do cansaço bom, aquele que abre espaço para a criatividade, para o vazio fértil, para a imaginação. O problema é que o cansaço bom praticamente desapareceu; nem o tédio existe, porque pegamos o celular antes mesmo de percebermos que estamos entediados. Sem tédio, não existe imaginação. Sem pausa, não existe vida interior.

Embora Han não ofereça um manual de soluções, a reflexão dele aponta caminhos importantes. O primeiro é resgatar o direito ao não-fazer, entender que descansar não é perda, mas condição de existência. Outro caminho é reaprender a viver no tempo real, sem responder tudo imediatamente, sem estar sempre disponível. Também é importante cultivar a atenção plena, não o multitasking, e diminuir a tirania de transformar tudo em meta, projeto, desempenho. E, talvez o mais necessário: reumanizar os limites. Errar, pausar, fracassar, cair, tudo isso é profundamente humano. Não é sinal de fraqueza, mas de vida.

A tese central de Han é simples e brutal: estamos cansados porque estamos capturados. A sociedade do desempenho transformou cada indivíduo em gestor, fiscal e carrasco de si mesmo. Ao entender isso, deixamos de culpar o indivíduo e passamos a enxergar o sistema. E, nesse movimento, recuperamos algo que a contemporaneidade tenta roubar de nós: a possibilidade de simplesmente existir sem precisar render o tempo todo.

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Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

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Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
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