Depois que a porta se fecha e o silêncio se instala, algo muda. Não imediatamente, não de forma bonita ou organizada. Muda por dentro. É como se o mundo continuasse igual, mas você já não estivesse mais no mesmo lugar de antes. Durante muito tempo, eu acreditei que o trabalho era também um espaço de pertencimento. Que a dedicação criava laços. Que a responsabilidade compartilhada produzia algo próximo de afeto. Hoje eu sei: aquilo não era vínculo, era função. E quando a função cai, o resto cai junto. O que não se fala muito é que sair desse lugar, do cargo, do poder, do reconhecimento, não produz apenas perda. Produz também um vazio estranho, difícil de nomear. Porque o que desaparece não é só o salário, o crachá ou os benefícios. O que cai é uma identidade inteira que estava apoiada nisso. Sem esse apoio, a pergunta aparece nua: quem sou eu quando não sou mais necessária? Essa pergunta assusta. Ela desorganiza. Ela faz oscilar. Em alguns dias, vem acompanhada de entusiasmo, sensação de liberdade, vontade de construir algo novo. Em outros, vem como arrependimento, medo, sensação de ter jogado tudo fora. Essa oscilação é efeito de atravessar uma mudança real de posição. Quando você deixa de ocupar um lugar sustentado por garantias externas, status, estrutura, validação, e passa a construir algo a partir de dentro, sem promessa, sem roteiro claro, o chão parece instável. E ele é mesmo. Não porque você esteja errada, mas porque agora não há mais onde se apoiar que não seja o próprio desejo. No meu caso, foi aí que a Psicologia deixou de ser um interesse distante e virou caminho. Não como ideal romântico, não como “vocação salvadora”, mas como resposta possível depois de uma ruptura. Uma escolha feita não a partir do sucesso garantido, mas daquilo que fazia sentido sustentar, mesmo sem aplauso.
Isso muda tudo. Muda a relação com o tempo, com o dinheiro, com o reconhecimento. Muda a forma de medir valor. Antes, esforço e retorno pareciam seguir uma lógica clara. Agora, não mais. O trabalho acontece, mas os efeitos não são imediatos, nem lineares, nem previsíveis. E isso confronta diretamente quem passou anos sendo medida por performance. É nesse ponto que muita gente recua. Busca rapidamente outro lugar que ofereça as mesmas garantias, o mesmo espelho narcísico, o mesmo conforto simbólico. Não por covardia, mas porque sustentar a falta cansa. Sustentar o não saber dá medo.
Ficar exige outra ética. Hoje, eu entendo que não se trata de romantizar a perda nem de demonizar o passado. Trata-se de reconhecer que certas saídas não são fuga ... são retirada. Um gesto que interrompe um circuito de violência, de apagamento, de desrespeito. Um gesto que diz: aqui eu não fico mais.
Depois disso, nada volta a ser como antes. E ainda bem. Porque, quando a ilusão cai, não dá para simplesmente recolocá-la no lugar. O que dá é construir outra coisa, com menos fantasia e mais verdade. Com menos plateia e mais sustentação. Com menos papel e mais presença. Talvez crescer agora não signifique subir rápido, nem expandir logo, nem provar nada para ninguém. Talvez crescer seja aprender a ficar. Ficar sem garantias. Ficar sem ideal inflado. Ficar sem confundir utilidade com valor. E, aos poucos, descobrir que a vida que se constrói fora do crachá , no trabalho e nos vínculos, pode até ser mais incerta, mas é infinitamente mais real.
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