A mudança da tecnologia para a Psicologia não aconteceu como um projeto vocacional bem desenhado, nem como uma decisão tomada em condições ideais. Ela se produziu no interior de uma ruptura, depois de uma experiência prolongada de desmentido, negligência e esvaziamento simbólico. O que se rompeu ali não foi apenas um vínculo profissional, mas um conjunto de garantias narcísicas que sustentavam uma posição: reconhecimento, centralidade, pertencimento, valor social, previsibilidade material.
Antes da demissão, a Psicologia já estava presente, mas ocupava um lugar lateral, quase íntimo: um interesse, um prazer intelectual, algo que poderia existir como hobby, não como eixo estruturante da vida profissional. Nesse momento, a tecnologia ainda sustentava o lugar principal, com salário, benefícios, prestígio e um horizonte relativamente estável. A escolha pela Psicologia, então, não vinha da falta, mas do excesso: era possível desejar porque havia garantias.
O que se produz depois, e isso é decisivo, é uma mudança de estatuto. A saída da empresa não se dá como simples troca de emprego, mas como resposta a uma violência simbólica acumulada: promessas não cumpridas, apagamento do lugar ocupado, retirada de reconhecimento, quase uma tentativa de tornar o sujeito invisível. Permanecer ali teria implicado aceitar uma posição de humilhação contínua, de suporte silencioso para um discurso que já não a incluía. Nesse ponto, sair não foi uma escolha confortável, mas um limite: “não fico mais nesse lugar”.
É aí que algo da ordem do ato se inscreve. Não um ato heroico, nem libertador no sentido imaginário, mas um ato no sentido psicanalítico: um corte que rompe um circuito e produz consequências irreversíveis. Mesmo sob coerção, mesmo com perdas reais, houve um ponto em que a decisão não foi delegada ao Outro. O sujeito não foi expulso; retirou-se. Isso não apaga a violência sofrida, mas muda a posição subjetiva frente a ela.
Depois disso, a Psicologia deixa de ser hobby e passa a ser resposta. Não resposta reparatória no sentido simples, mas resposta ética: uma tentativa de reinscrever o desejo depois da queda das garantias. É nesse momento que o campo muda radicalmente. O que antes podia ser pensado com leveza passa a carregar peso. A formação acontece junto com o luto: luto da carreira anterior, do salário alto, do plano de saúde, da previsibilidade, do lugar social reconhecido. Nada disso desaparece sem deixar resto.
É justamente por isso que a oscilação aparece. Em alguns momentos, surge a convicção quase eufórica de que “vai dar certo”, de que será uma excelente psicanalista, de que haverá crescimento, expansão, talvez até uma empresa, outros consultórios, uma estrutura maior. Em outros, emerge o arrependimento cru: a sensação de loucura, de ter abandonado demais, de estar se expondo a um risco excessivo, de trocar segurança por incerteza, de ver o carro envelhecer, o dinheiro apertar, e as garantias parecerem cada vez mais frágeis.
Essa oscilação não é sinal de imaturidade nem de falta de clareza. Ela marca exatamente o ponto em que dois regimes de desejo ainda coexistem sem se resolver. De um lado, permanece o desejo ligado ao ideal: sucesso, reconhecimento, crescimento visível, reparação das perdas anteriores. De outro, começa a se instalar algo muito mais silencioso e exigente: o desejo do analista, que não se sustenta em garantias externas e não promete retorno imaginário.
A posição de analista impõe uma torção radical à lógica anterior. Se antes o valor vinha da centralidade, da liderança, do fazer funcionar, agora o trabalho exige sustentar um lugar esvaziado de ideal. O analista não é suporte, não é prova, não é solução. Ele opera a partir da falta, não da completude. Isso tem consequências subjetivas profundas, sobretudo para alguém que ocupou durante anos posições de referência e sustentação.
Por isso, o dinheiro passa a ser um ponto sensível. Não apenas como necessidade material real, que é inegável, mas como substituto simbólico das garantias perdidas. Em alguns momentos, fantasiar crescimento, expansão e empresa aparece como tentativa de tamponar a angústia: se der muito certo, então valeu; se crescer muito, então não foi loucura; se prosperar, então houve justiça. Em outros momentos, a mesma lógica se volta contra o sujeito: se não houver sucesso rápido, então foi erro; se faltar dinheiro, então a escolha foi insensata.
O trabalho analítico consiste justamente em não resolver essa tensão por via imaginária. Nem transformar a clínica num novo ideal que venha reparar a ferida narcísica deixada pela tecnologia, nem recuar dela em nome da segurança perdida. Sustentar a posição de analista implica tolerar um tempo de não saber, de instabilidade, de aposta sem garantia. Implica aceitar que a clínica não responde ao ultraje sofrido com restituição imaginária, mas com reposicionamento subjetivo.
Nesse sentido, a saída da empresa e a entrada na Psicologia não são eventos separados, mas partes de um mesmo movimento. O ato que disse “não fico mais” reaparece hoje, de forma menos espetacular, em escolhas cotidianas: continuar investindo no consultório apesar do medo; sustentar a formação mesmo sem aplauso; trabalhar sem transformar cada resultado em prova de valor pessoal. O mesmo ato que rompeu com um lugar violento agora precisa se desdobrar numa ética de trabalho que não se deixe capturar por novos ideais.
A oscilação, então, não é algo a ser eliminado rapidamente. Ela diminui não quando tudo dá certo, mas quando o sujeito consegue desejar sem exigir garantias absolutas. Quando o sucesso deixa de ser condição de existência e passa a ser consequência possível. Quando a clínica pode crescer sem virar fetiche, e o dinheiro pode circular sem ocupar o lugar de salvação simbólica.
O que está em jogo, no fundo, não é decidir se a Psicologia foi a escolha “certa” ou “errada”, mas sustentar uma posição subjetiva que não se submeta novamente à lógica do ultraje, seja pela submissão a um Outro violento, seja pela tentativa de reparação grandiosa. Trata-se de construir uma trajetória a partir de um ato, e não de uma promessa.
Essa travessia é lenta, desconfortável e solitária em muitos momentos. Mas ela marca algo essencial: a passagem de uma vida organizada por garantias externas para uma vida sustentada por um desejo que aceita a falta. É isso que torna a oscilação compreensível e, ao mesmo tempo, sinal de que algo importante está em curso.

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