O que realmente sustenta um trabalho clínico e por que escolhi a Psicanálise
Ao longo da graduação, e especialmente no percurso que fiz dentro da Psicanálise, entendi que o trabalho clínico não é sobre aplicar técnicas prontas, interpretar comportamentos ou encaixar alguém em categorias. É sobre construir, com cada sujeito, um espaço onde algo possa finalmente ser dito, às vezes pela primeira vez.
A Psicanálise me ensinou que o sofrimento não é aleatório. Ele tem uma lógica, mesmo quando parece caótico. Por trás de cada sintoma há uma organização, uma forma de o sujeito se defender, se sustentar e, muitas vezes, sobreviver. Entender isso exige estudo rigoroso, escuta fina e um respeito absoluto pela singularidade.
Aprendi que ninguém chega ao consultório com “um problema”. As pessoas chegam com uma história. Com repetições que elas próprias não entendem. Com escolhas que parecem sempre iguais. Com dores que não se encaixam em manuais. E que o verdadeiro trabalho é acompanhar essa pessoa na tarefa de tornar isso legível. Não para ela ser “corrigida”, mas para que possa existir.
A formação psicanalítica me ensinou a importância da transferência. Não como um conceito abstrato, mas como o modo pelo qual alguém revive, na relação com o analista, modos antigos de amar, de temer, de desejar, de se calar. É ali, exatamente ali, que o trabalho acontece. E é por isso que a presença do analista não é neutra: ela é responsável, ética e implicada.
Também aprendi que o inconsciente não é um depósito de lembranças escondidas. É a lógica que organiza nossos atos, lapsos, sintomas, escolhas e até nossos fracassos. Algo se repete não porque alguém “não aprende”, mas porque há uma verdade ali, uma insistência psíquica que só pode ser trabalhada quando é escutada.
Estudei profundamente autores que ampliaram meu modo de pensar. Freud, Klein, Winnicott e Lacan, e tantos outros que mostram que a clínica é mais do que teoria, é ética. É posicionamento. É responsabilidade diante do sofrimento do outro.
E se há algo que aprendi nesses anos todos é que a clínica não funciona pelo “conselho certo”. Funciona pela abertura de um espaço onde o sujeito possa se encontrar com aquilo que, por muito tempo, ficou recalcado, evitado ou silenciado.
Hoje, quando penso no trabalho que escolhi, vejo que estar preparada não significa saber tudo. Significa saber sustentar a escuta. Saber não preencher o silêncio. Saber não se apressar. Saber não impor. Saber suportar o que emerge. Saber reconhecer o que se repete.
Significa saber que cada pessoa que chega até mim traz um mundo complexo, ambivalente, ferido, desejante e que meu papel é acolher isso com rigor técnico, responsabilidade e humanidade.
É isso que aprendi. É isso que escolhi. E é isso que me prepara para a clínica que estou construindo agora.
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