Há períodos da vida que não chegam como crise evidente, mas como um desgaste contínuo. Nada explode, nada se anuncia dramaticamente, apenas vai se desfazendo. Um campo de sentido que antes organizava a existência começa a falhar. O trabalho deixa de sustentar identidade, a rotina perde contorno, o futuro não responde mais às perguntas que antes bastavam.
Essas fases costumam ser mal compreendidas porque não se encaixam na narrativa clássica da queda abrupta. Elas operam por erosão. Primeiro, uma perda simbólica: a profissão que já não se reconhece, o lugar que deixa de convocar desejo. Depois, perdas concretas: vínculos que se rompem, pessoas que morrem, distâncias que se impõem. O mundo não acaba, mas aquilo que fazia o mundo “ser mundo” se esvazia.
O luto, nesses casos, não é único nem linear. Ele se acumula. É luto do que morreu, mas também do que deixou de existir sem morrer: um projeto, uma imagem de si, uma promessa feita no passado. Há um luto silencioso por versões de si que não puderam continuar. E esse silêncio pesa porque não encontra facilmente reconhecimento social. Não há ritual para a perda de um lugar subjetivo.
Durante essas fases, muitas pessoas seguem funcionando. Sustentam o cotidiano, cuidam de quem depende delas, mantêm vínculos essenciais. Por fora, a vida segue; por dentro, algo está suspenso. A sensação não é exatamente de fracasso, mas de deslocamento. Como se o eixo tivesse se movido alguns graus, o suficiente para que nada mais encaixe como antes.
É comum que surja, então, uma tentativa de reorganização. Um novo estudo, um novo campo, uma aposta em formação, em reconstrução simbólica. Não como solução mágica, mas como apoio. Como quem se agarra a algo que ainda responde, ainda oferece linguagem, ainda permite pensar. Nessas escolhas, há menos ambição e mais necessidade: a necessidade de não se perder por completo enquanto tudo ao redor se rearranja.
Essas fases também tensionam os vínculos mais próximos. A presença do outro sustenta, mas não resolve. O amor não elimina o luto, nem substitui o que se perdeu. E isso gera frustração: por não conseguir estar inteira, por não corresponder a ideais antigos, por sentir que algo falhou justamente quando era preciso “dar conta”. Há uma culpa difusa que acompanha esses momentos, como se o sofrimento fosse uma espécie de dívida.
Mas há algo importante que só se revela depois: nem toda queda é regressão. Algumas são transições sem nome. O sujeito não está voltando para trás, mas ainda não chegou a lugar nenhum. Está "entre". Entre identificações. Entre versões de si. E esse “entre” é um território instável, mas estrutural.
O que caracteriza essas fases não é a ausência total de sentido, mas a suspensão dele. O sentido antigo já não serve; o novo ainda não se formulou. É um tempo em que o sujeito vive mais sustentando do que avançando. Mais resistindo do que conquistando. E isso, embora pouco celebrado, é trabalho psíquico intenso.
Com o tempo, e não há como apressar isso, algo se reorganiza. Não como retorno ao que era, mas como outra configuração possível. Algumas perdas permanecem irreparáveis. Outras se transformam em marcas. A frustração não desaparece, mas encontra um lugar. E o que antes parecia apenas ruína passa a ser reconhecido como travessia.
Fases assim não pedem superação rápida, nem discursos de força. Pedem leitura. Pedem tempo. Pedem que se reconheça que há momentos em que viver é, sobretudo, não se abandonar, mesmo quando tudo aquilo que sustentava a vida anterior já não está mais lá.
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