Existe um fenômeno silencioso acontecendo, especialmente entre quem vive, trabalha ou circula pelo universo da tecnologia. Um desgaste que não vem da sobrecarga de tarefas em si, mas da impossibilidade de se desconectar. Vivemos num fluxo constante de mensagens, e-mails, comentários, demandas que chegam a qualquer hora, de qualquer lugar, atravessando nossos limites como se eles nem existissem. No começo, parece prático. Depois, vira um hábito. E, quando percebemos, estamos vivendo num estado permanente de prontidão, como se nosso corpo estivesse aqui, mas nossa atenção estivesse sempre prestes a ser puxada para outro lugar. É a fadiga da hiperconexão. Um cansaço que não se cura com descanso, porque não é físico: é psíquico. A tecnologia nos deu voz, acesso e possibilidades incríveis, mas também nos colocou num mundo onde ser acessível virou obrigação. Onde responder rápido é visto como competência. Onde estar offline é quase uma falha moral. Onde o silêncio parece suspeito. E aí entra a dimensão psicológica: quando nunca nos desconectamos dos outros, acabamos desconectando de nós mesmos. A hiperconexão cria uma espécie de “eu fragmentado”, constantemente deslocado entre abas, notificações e conversas simultâneas. Perdemos a experiência de estar inteiros. A presença é substituída por atenção picotada. O tempo subjetivo se torna um caos. E a vida emocional fica empobrecida, não por falta de estímulos, mas pelo excesso. Curiosamente, é comum ouvir profissionais de tecnologia dizendo: “Trabalho com inovação, mas não consigo inovar na minha própria vida.” Porque para criar algo novo, é preciso espaço interno e a hiperconexão o ocupa completamente.
Acho que a maior demanda não é aprender a usar menos tecnologia, mas aprender a usá-la de um jeito que não nos consuma. Criar pequenas fronteiras psíquicas num mundo sem fronteiras externas. Às vezes, isso significa desligar notificações. Às vezes, colocar horários para responder mensagens. Às vezes, permitir que o celular fique longe do alcance por algumas horas. Mas, principalmente, significa recuperar algo que estamos perdendo: o direito ao silêncio, à pausa, ao ócio, ao não responder imediatamente.
Porque quando tudo é urgente, nada é verdadeiramente importante. Talvez a pergunta central, hoje, seja: como existir de forma inteira em um mundo que nos solicita em pedaços? A resposta não está em fugir da tecnologia, ela é parte do nosso tempo. Mas em recuperar a autoria do nosso próprio ritmo. Em lembrar que conexão só vale a pena quando não custa a nossa presença. Em reconstruir um espaço interno que a hiperconexão não consiga colonizar. No fim das contas, talvez seja isso que a psicologia pode oferecer ao mundo tech: não menos tecnologia, mas mais humanidade para lidar com ela.
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