“Não reprimimos o sexo, nós o produzimos”
Foucault questiona a narrativa dominante de que, desde o século XIX, vivemos em uma sociedade moralista que reprime a sexualidade (a suposta “hipocrisia vitoriana”).
O que ele mostra é: a sexualidade se tornou um dos temas mais falados, investigados e regulamentados.
Não fomos proibidos de falar de sexo; fomos incentivados a falar mais e mais, porém dentro de certos enquadramentos de “verdade”.
Exemplos históricos:
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moral religiosa discutia o sexo nas confissões;
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medicina desenvolveu a sexologia e patologizou condutas;
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pedagogia começou a vigiar a masturbação infantil;
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psiquiatria e psicanálise trataram da sexualidade como chave da subjetividade.
Ou seja: A sociedade não calou o sexo, ela o colocou sob supervisão constante.
O poder moderno é produtivo, não só repressivo. Para Foucault, o poder não funciona só proibindo ou censurando. Ele também produz saberes, normas e categorias.
Exemplo:
Ao dizer “homossexual” pela primeira vez (séc. XIX), a medicina não só nomeou, mas criou uma identidade, uma categoria que não existia enquanto tal.
Assim, o poder:
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cria discursos (“desvio”, “normalidade”, “perversão”);
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cria expectativas de comportamento;
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define o que é saudável, moral, permitido ou proibido.
A sexualidade vira objeto de controle político e científico. A confissão como tecnologia de verdade. Esse é um dos pontos mais centrais do livro.
A confissão começou na Igreja (pecado),
foi apropriada pela psiquiatria (diga o que sente),
pela medicina (diga onde dói),
pelas terapias (conte sua história),
pela justiça (diga a verdade),
e hoje pelas mídias e redes sociais (exponha-se, diga quem você é).
Para Foucault, somos treinados a acreditar que existe uma verdade interior sobre nós, e que devemos revelá-la a alguém autorizado (confessor, terapeuta, perito, médico).
Esse dispositivo de confissão cria sujeitos transparentes, examináveis, classificáveis.
É o contrário do recalque: somos compelidos a falar.
Sexualidade como dispositivo político. “Dispositivo” (ou apparatus) é um conjunto de práticas, discursos, instituições, normas e técnicas que organizam a vida social.
A sexualidade virou um dispositivo porque:
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controla famílias (modelo heteronormativo);
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regula populações (políticas de natalidade);
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define riscos (DST, comportamento sexual “adequado”);
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classifica indivíduos (hetero, homo, bi, normal, pervertido);
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organiza identidades (“quem você é sexualmente?”).
Ou seja, o sexo não é algo íntimo e individual: ele é uma tecnologia de governo dos corpos e das pessoas.
Não existe “verdade interior do sexo”, existe um regime de verdade. Essa é a virada foucaultiana.
Para ele, o sexo não tem uma essência natural, biológica ou psicológica esperando para ser descoberta.
O que existe é um regime de verdade:
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um conjunto de saberes científicos, discursos morais, normas sociais e instituições
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que determinam como devemos entender o sexo e o desejo.
Assim, “sexualidade” é um produto histórico, não uma entidade natural.
Contribuição prática para a clínica: a clínica pode ser um lugar que reproduz o dispositivo da sexualidade (normatizando)
ou um lugar que desmonta essas normativas.
Foucault ajuda a:
✔ Desnaturalizar classificações: “Homossexual”, “perverso”, “ninfomaníaca”, “frígida”, “normal”, “anormal”… tudo isso são categorias historicamente inventadas.
✔ Evitar práticas de normalização: a clínica não deve reforçar um ideal normativo do que é saudável ou moral, mas escutar singularidades.
✔ Entender como o poder atravessa o consultório: o paciente chega já moldado por discursos e normas; cabe ao analista perceber isso.
✔ Valorizar a liberdade de construção subjetiva: se a sexualidade é histórica, ela é também transformável. Isso abre espaço para modos singulares de existir.
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